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Por O Contador de Histórias

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 1

O Eco do Poço

** Chegada a Alpedreza **

O sol morria devagar sobre a planície. A luz desfazia-se em poeira dourada, engolida pelo horizonte de terra seca e restolho. O Opel cinzento de João Martins sacudia-se na estrada de paralelo, levantando uma nuvem de pó que ficava suspensa no ar parado. Lá fora, o Alentejo era um silêncio de chumbo, pontuado pelo zumbido distante de insectos e pelo coaxar das rãs nas valas invisíveis.

João mantinha as mãos no volante com força a mais. Os nós dos dedos estavam brancos. Sentia o cansaço a latejar atrás dos olhos, uma pressão surda que conhecia bem. A claridade do dia, mesmo em agonia, agredia-lhe a retina. Piscou os olhos, tentando afastar a névoa mental. Há mais de duzentos quilómetros que conduzia sem parar, fugindo de Évora, do gabinete com vista para as muralhas, da secretária atulhada de processos que cheiravam a mofo. Ali, o cheiro era diferente. Terra e silêncio.

A placa apareceu de repente, enferrujada e torta: «Alpedreza – 437 almas». O número, riscado e corrigido à mão, pareceu-lhe um mau presságio. Travou com mais força do que devia, sentindo os pneus a agarrar a gravilha solta. Entrou na vila devagar.

Alpedreza era um sono de paredes caiadas e telhados baixos. As ruas estreitas, feitas de calçada irregular, davam a sensação de um labirinto adormecido. As portas estavam fechadas, as janelas com postigos corridos. Nem uma alma na rua. Só o badalar abafado de um sino, algures, marcava as seis da tarde.

João estacionou junto a uma praça modesta, onde um fontanário seco vomitava ferrugem. Com um suspiro, saiu do carro. O calor ainda era sufocante, mesmo àquela hora. Sentiu o cheiro do ar, uma mistura de alfazema brava e estrume seco. A luz, agora, tinha um tom alaranjado que lhe pareceu doentio.

A esquadra da GNR era um edifício baixo, pintado de branco com um friso verde. A porta de madeira rangeu quando a empurrou. Lá dentro, o ambiente era fresco e cheirava a lixívia. Um homem fardado, de ombros largos e cabelo curto e grisalho, estava sentado a uma secretária metálica. Tinha uma chávena de café à frente e uma pilha de papéis. Era o Agente Lopes.

— Inspector Martins? — perguntou, sem se levantar. A voz era arrastada, com o sotaque carregado da terra. — Chegou mais cedo do que esperávamos.

— O trânsito ajudou — respondeu João, fechando a porta atrás de si. — Agente Lopes, suponho.

Lopes acenou com a cabeça e indicou uma cadeira de madeira, desconfortável. João sentou-se. Os olhos cinzentos do inspector varreram a sala. Um calendário de parede antigo, um crucifixo de madeira, um armário de arquivo com a pintura a descascar. O silêncio era absoluto, como se o edifício estivesse vazio.

— Isto é uma vila sossegada — disse Lopes, como se lesse o pensamento de João. — Normalmente.

— Mas agora não está sossegada, pois não? — João tirou do bolso um maço de cigarros. Ofereceu um a Lopes, que recusou.

— Não, inspector. Agora não.

Lopes pousou a mão sobre uma pasta de cartão que estava na secretária. Estava maltratada, com as pontas amarrotadas. Empurrou-a para João.

— É tudo o que temos. Quatro desaparecidos em três meses. Três mulheres e um homem. Todos da vila ou dos arredores. Ninguém viu nada, ninguém ouviu nada.

João abriu a pasta. Lá dentro, fotografias a preto e branco de rostos sorridentes. Uma rapariga de cabelo escuro e olhos grandes. Uma mulher mais velha, de xaile. Outra jovem, loira, de expressão aberta. Um homem de meia-idade, de bigode espesso. Fichas com nomes, datas, moradas. Nenhuma pista.

— O que é que acha que se passa, Lopes? — perguntou João, sem levantar os olhos das fotos. Passou a mão esquerda pelo cabelo desgrenhado, num gesto repetitivo que lhe acalmava os nervos.

Lopes encolheu os ombros.

— Sei lá, inspector. Isto aqui é terra de gente calada. Cá para mim, são fugas. Gente que se cansou do isolamento e se foi embora.

— Sem deixar rasto? Sem levar roupa, dinheiro, documentos? — João exibiu uma das fichas. — Esta rapariga, a Helena... deixou o ordenado por levantar no banco. Não me parece fuga.

Lopes suspirou. Passou a mão pelo queixo.

— O inspector é de Évora, não é? Deve saber como isto é. O Alentejo é assim. As pessoas são fechadas. Não gostam de forasteiros. E quando acontece alguma coisa... ficam caladas.

João fechou a pasta com um estalido seco.

— Onde é que posso ficar? Há alguma pensão?

— A dona Adelaide aluga quartos. É ali na rua da Igreja. Diga que vai da minha parte.

João levantou-se. Lopes também.

— Se precisar de mim, estou sempre aqui. Mas... se me dá licença, inspector... tenha cuidado. Isto não é uma terra que receba bem perguntas.

João não respondeu. Saiu para a rua.

A noite caía agora, rápida e escura. As luzes da vila eram poucas, amareladas, vacilantes. João ficou parado na praça, sentindo o peso da pasta debaixo do braço. O silêncio era quase físico, uma pressão nos ouvidos. Até os grilos pareciam ter morrido.

Passou a mão esquerda pelos cabelos outra vez. Rangeu os dentes. A cabeça latejava-lhe. A viagem, o calor, a conversa com Lopes. Tudo contribuía para uma sensação de desconforto que não sabia nomear.

Pôs-se a caminho da pensão.

O quarto que a dona Adelaide lhe dera era simples: uma cama de ferro, uma mesinha-de-cabeceira com uma lamparina de petróleo, um lavatório com um jarro de água morna. As paredes estavam caiadas de fresco, mas o cheiro a humidade persistia. Uma janela dava para a rua deserta.

João pousou a pasta em cima da cama. Abriu-a. Os olhos percorreram novamente as fotografias. Helena, a rapariga de cabelo escuro. Maria de Fátima, a do xaile. Raquel, a loira. Tomás, o homem do bigode. Rostos que pareciam já mortos, mesmo antes de desaparecerem.

Acendeu um cigarro. O fumo subiu, dançando à luz da lamparina. Sentou-se na cama, sentindo as molas a ceder. O cansaço era uma manta de chumbo sobre os ombros. Mas sabia que não ia dormir. Nunca dormia bem.

Por fim, deitou-se sem se despir. Deixou-se ficar a olhar para o tecto, onde a luz da lamparina desenhava sombras trémulas. O silêncio do quarto era absoluto. Lá fora, um cão ladrou ao longe e calou-se.

João fechou os olhos.

E o escuro começou a mexer-se.


** A Visão do Poço **

Não soube dizer se dormiu ou se apenas deixou que o corpo afundasse naquele estado entre a vigília e o sono. A realidade diluiu-se, escorreu-lhe por entre os dedos, e o quarto desapareceu.

Primeiro, foi o cheiro. Um cheiro a terra molhada e a podre, a folhas velhas e a água estagnada. Depois, o som. Um arrastar pesado, como de um corpo a ser puxado contra a vontade. E um arfar ofegante, um choro sufocado.

João não via nada. Sentia.

Sentiu o frio da pedra debaixo dos pés descalços. Sentiu a brisa gelada que lhe roçava a cara. Sentiu o medo, um medo que não era seu, mas que lhe enchia o peito como uma inundação negra.

E então, a imagem brotou.

Era uma rapariga de cabelo escuro, muito longo, que lhe caía em ondas pelas costas. Helena. A fotografia da pasta ganhara vida. Ela estava de olhos muito abertos, a boca aberta num grito que não saía. Alguém a arrastava pelos braços, uma figura sem rosto, apenas uma mancha escura com dedos ossudos cravados na sua pele.

O cenário era um descampado seco, com uma azinheira velha e retorcida ao fundo. O céu estava cinzento, sem estrelas. E no meio daquele descampado, um poço. Um poço circular, de pedra escura, com uma boca negra que parecia sorrir.

A rapariga debatia-se. Os pés raspavam no chão, levantando pequenas nuvens de pó. Mas a mancha escura arrastava-a com uma força desumana. João tentou correr, tentou gritar, mas o seu corpo não lhe obedecia. Estava preso, como se assistisse a um filme projectado dentro da sua própria cabeça.

A mancha escura chegou ao poço. Sem um som, sem um esforço, içou o corpo da rapariga e atirou-o para dentro. Ela caiu. Caiu no escuro. E o seu grito, finalmente, rasgou o ar. Um grito que não acabava, que se multiplicava, que ecoava nas paredes do poço até se tornar um lamento sem fim.

E depois, o silêncio.

Um silêncio ainda mais terrível.

Foi então que a voz chegou.

Não era uma voz humana. Era um sussurro que vinha do fundo da terra, um murmúrio de pedra e de morte. Uma voz que parecia feita do próprio eco do poço.

«É o eco do mal.»

As palavras repetiam-se, em loop, cada vez mais fortes, cada vez mais próximas. «É o eco do mal. É o eco do mal. É o eco do mal.»

João sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. O poço expandia-se, engolia o descampado, engolia a azinheira, engolia a mancha escura. Tudo era escuridão. E no centro da escuridão, aquela voz.

«É o eco do mal.»

Acordou com um grito preso na garganta.

Sentou-se na cama, de rompante, o coração a martelar-lhe o peito. A camisa estava encharcada de suor. O quarto estava escuro, a lamparina apagara-se. O ar era pesado, irrespirável.

Ficou imóvel, a tremer, os olhos muito abertos na escuridão. Ainda sentia o cheiro a terra podre. Ainda ouvia o eco da voz.

«É o eco do mal.»

Levou as mãos à cabeça. Passou os dedos pelos cabelos húmidos. Rangeu os dentes. A visão tinha sido tão real, tão vívida, que lhe parecia impossível não ter acontecido. Mas era apenas um sonho. Um sonho horrível, provocado pelo cansaço e pela obsessão.

Ou não.

João levantou-se, às apalpadelas. Encontrou o jarro de água e bebeu directamente dele, a água morna a escorrer-lhe pelo queixo. Depois, abriu a janela.

A noite alentejana entrou, fresca e silenciosa. A lua, quase cheia, banhava as casas caiadas com uma luz leitosa. Lá ao fundo, para além da vila, a planície estendia-se, escura e misteriosa.

Fechou os olhos. A imagem da rapariga não o largava. O poço. A azinheira velha. A voz.

E então, um nome surgiu-lhe na mente, claro e nítido, como se alguém lho tivesse sussurrado ao ouvido.

Poço da Azinheira.

João abriu os olhos. O nome martelava-lhe o cérebro. Poço da Azinheira. Conhecia aquele lugar? Não, nunca estivera em Alpedreza antes. Mas o nome estava ali, gravado a ferro.

Voltou para dentro do quarto. Acendeu um fósforo e reacendeu a lamparina. A luz pequena dançou, projectando sombras nas paredes. Pegou na pasta dos desaparecidos. Folheou as fichas até encontrar a de Helena. Ali estava a fotografia, a rapariga de cabelo escuro. Ela. Fora ela que vira na visão.

Sentiu um frio na espinha. As suas visões nunca se tinham enganado. Eram fragmentos de crimes, de tragédias, que lhe chegavam sem pedir licença. Há anos que o atormentavam. A princípio, julgara que eram loucura. Depois, aprendera a conviver com elas, a usá-las. Mas nunca uma visão fora tão... real. Tão sensorial.

Sentou-se na cama. Acendeu um cigarro. A fumaça subiu, tranquila, indiferente ao turbilhão que lhe ia na cabeça. O que fazer? Esperar pelo amanhecer e ir à esquadra? Contar a Lopes o que sonhara? O agente iria julgá-lo louco. Ou pior, iria ignorá-lo.

Não. Não podia contar a ninguém. As visões eram um segredo que guardava a sete chaves. A sua carreira, a sua sanidade, tudo dependia de as manter escondidas.

Mas a imagem do poço não o largava.

E se...?

E se a visão fosse real?

Levantou-se e foi à janela. A lua começava a descer no horizonte. O amanhecer não tardaria. A brisa que entrava trazia um cheiro doce, a esteva e a madressilva selvagem.

Tomou uma decisão.

Ia ao Poço da Azinheira. Ao nascer do sol. Sozinho.

Não sabia se era coragem ou loucura. Mas sabia que não podia ignorar o que vira. Se havia uma hipótese, por mais remota que fosse, de encontrar Helena, ou qualquer pista sobre os desaparecimentos, tinha de a seguir.

Vestiu o casaco de tweed, puído nos cotovelos. Calçou os sapatos de sola gasta. Apagou a lamparina. O quarto mergulhou na escuridão, apenas cortada pelo luar que entrava pela janela.

Pegou na pasta e guardou-a debaixo do braço. Saiu do quarto em silêncio, descendo as escadas de madeira que rangiam a cada passo. A porta da rua estava trancada com uma aldraba de ferro. Levantou-a com um estalido seco.

A rua estava deserta. O silêncio era absoluto. Nem um grilo, nem um cão. Só o sopro do vento nas pedras da calçada.

João respirou fundo. O ar fresco encheu-lhe os pulmões. Olhou para o horizonte, onde a primeira claridade do dia começava a nascer, um traço pálido de luz por detrás da planície.

Depois, sem hesitar, João saiu da pensão antes do nascer do sol, decidido a enfrentar a visão.
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