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O Segredo de Diana
IA
A Confissão
O zumbido do gerador enchia a sala de cultura como um coração metálico. A luz de emergência amarela pintava as faces exaustas. O ar cheirava a betão partido e a desinfetante antigo. Diana estava encostada a uma bancada de aço, os ombros encolhidos sob o oleado gasto. As mãos tremiam-lhe. O rosto magro, sulcado de rugas, parecia o de uma velha boneca de cera.
Elisa fechou o caderno com um estalido seco. A capa preta estava manchada de pó. Olhou para a mentora. A mão esquerda foi à nuca, os dedos a pressionar a pele arrepiada.
— O organismo não está só a espalhar-se — repetiu Elisa, a voz baixa e controlada. A cada palavra, um novo peso no peito. — Está a evoluir. Disseste que o erro podia ser pior do que o cataclismo. O que é que não nos contaste?
Rui e Afonso tinham regressado do corredor. Estavam cobertos de fuligem e pó. Rui passou a mão pela cicatriz no pescoço, um gesto lento. Afonso ajeitou os óculos de aro partido, as lentes a faiscarem à luz de emergência.
Diana ergueu a cabeça. Os olhos verdes estavam rasos de água, mas a voz saiu mais firme.
— Antes do cataclismo, quando criei o organismo sintético, não era apenas para regenerar solos. Era para ser uma solução total. Um superorganismo que resistisse a tudo. Radiação, seca, toxinas. — Engoliu em seco. A garganta moveu-se. — Mas tive medo.
— Medo de quê? — Afonso deu um passo em frente. A voz era um fio carregado de irritação. — Medo de que funcionasse demasiado bem?
— Medo de que caísse nas mãos erradas. — Diana baixou a cabeça. As lágrimas caíram-lhe pelo rosto, abrindo sulcos na sujidade. — Se alguém controlasse um organismo que podia tomar conta de ecossistemas inteiros, o poder seria absoluto. Então, incluí um gene de autodestruição.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Apenas o zumbido do gerador. O coração de Elisa bateu três vezes, surdo. A mão esquerda desceu até ao coldre da faca e os dedos roçaram o cabo.
— Um gene de autodestruição — repetiu Elisa. A boca seca.
— Programado para matar a vida vegetal após alguns meses se não fosse desativado por um inibidor. — As palavras de Diana saíram apressadas, como se confessasse um crime. — Mas o protótipo que a tua mulher roubou... ele sofreu uma mutação. O gene ficou latente mais tempo do que o previsto. As plantas desenvolveram uma resistência parcial, mas agora começaram a degradar-se. As que encontraste são as últimas sobreviventes. E estão condenadas a murchar dentro de semanas.
Rui crispou os punhos. A cicatriz no pescoço pareceu mais vermelha.
— Condenadas. — A voz saiu rouca. — A minha mulher roubou o protótipo. Plantou-o a acreditar que era a salvação. E agora dizes que está tudo podre por dentro?
— Eu não sabia que o protótipo sobrevivera. — Diana soluçou. — Pensei que tudo estaria perdido. Só quando vi as imagens da vigilância é que percebi que o organismo escapara. E que o gene de autodestruição estava ativo. Mas tarde de mais.
Afonso atirou os óculos para a bancada. O plástico partido raspou no aço. O rosto dele estava vermelho.
— Brincaste aos deuses! — gritou. — E agora temos um punhado de plantas moribundas e mais nada! Achaste que eras quem para decidir o destino do mundo?
— Eu quis proteger... — balbuciou Diana.
— Proteger? — Afonso riu, um som seco e amargo. — Protegeste o teu egoísmo. O teu medo. E deixaste-nos a todos sem nada.
Elisa fechou os olhos por um instante. A imagem da filha, o vestido azul com flores amarelas, surgiu sem pedir licença. O riso dela. A voz do marido. O telemóvel a vibrar no laboratório. A culpa que carregara durante anos — e agora descobria que o seu único propósito, as plantas, era uma bomba-relógio. A esperança era uma ilusão. Cerrou os punhos até as unhas lhe cravarem as palmas. A dor física sobrepunha-se à vertigem.
Rui aproximou-se de Diana. Os olhos castanhos estavam sombrios, mas a voz saiu calma.
— A minha mulher morreu a acreditar que essa semente era o futuro. Dá-me uma razão para não te odiar.
Diana olhou-o nos olhos. As lágrimas secaram. A expressão endureceu.
— Porque ainda é possível uma cura. — Respirou fundo. — O gene de autodestruição foi desenhado para ser desativado. Eu criei um inibidor. Mas nunca o testei. Perdi os dados no colapso. Teria de sintetizar de novo.
Elisa abriu os olhos. A mão esquerda desceu da nuca. O coração ainda martelava, mas a mente, treinada em mil experiências, começou a processar.
— Quanto tempo?
— Dias. Talvez semanas. — Diana agarrou-se a um caderno sobre a bancada, o mesmo que Elisa estivera a ler. — Preciso de um laboratório funcional, reagentes, um sequenciador. Coisas que este sítio já não tem.
— Mas sabes a sequência? — A pergunta de Elisa foi cirúrgica.
— Sei. Está nos meus cadernos. E na minha cabeça.
Afonso pegou nos óculos e colocou-os de novo, as mãos a tremer.
— E se estiveres a mentir outra vez?
— Não estou. — Diana endireitou-se. A fragilidade deu lugar a uma determinação cansada. — Sei o que fiz. Sei que mereço o vosso ódio. Mas se me ajudarem, talvez possamos salvar as plantas. E o que resta do mundo.
Elisa olhou para Rui. Ele passou a mão pela cicatriz, o maxilar cerrado. Depois olhou para Afonso. O engenheiro ajeitou os óculos, a raiva ainda a ferver, mas um brilho pragmático nos olhos.
— Engolir o orgulho — murmurou Elisa para si mesma. A mão direita tamborilou na coxa. Em vez disso, apontou para Diana. — Vais trabalhar numa cura. Agora. Sem mais segredos. Sem mais mentiras. Se falhares, perdemos tudo.
Diana anuiu.
— Farei tudo o que puder. Juro.
— As juras não valem nada — cortou Afonso. — Mas os teus conhecimentos, sim.
Rui destrancou a espingarda e inspecionou o carregador.
— Muito bem. Mas não ficas sozinha. Eu vigio.
— Eu apoio — disse Elisa. — Precisamos de um plano. Reagentes, equipamento. O que há neste laboratório?
Diana apontou para uma porta do fundo.
— A cave tem uma arca frigorífica com alguns reagentes. Mas está danificada.
— Então vamos lá. — Elisa pegou na lanterna. — Não há tempo a perder.
Saíram da sala de cultura. O corredor estava escuro, os destroços ainda a bloquear parte do caminho. Rui ia à frente com a espingarda, Afonso a segurar o tablet com uma mão e uma alavanca na outra. Diana caminhava atrás de Elisa, os passos vacilantes. O ar cheirava a ozono e a pó. O medidor de radiação no pulso de Elisa emitiu um bip: 0,5 microsieverts. Aceitável.
Desceram uma escada estreita de betão. A cave era um labirinto de salas frias e condutas de ventilação. A luz da lanterna de Elisa varria as paredes húmidas. Diana guiou-os até uma porta de aço com a inscrição "Armazém Químico". A fechadura estava emperrada. Rui usou a alavanca para a forçar. O metal rangeu. A porta cedeu.
Lá dentro, prateleiras metálicas cobertas de pó. Frascos de vidro com rótulos desbotados. A arca frigorífica estava num canto, a porta entreaberta. O motor emitia um gemido baixo. Diana abriu-a e examinou o interior. A luz do tablet de Afonso iluminou fileiras de caixas de petri vazias e tubos de ensaio.
— Alguns reagentes ainda estão bons — murmurou. — Mas preciso de enzimas específicas. E de um termociclador.
— Há um no laboratório principal — disse Elisa. — Vi-o quando chegámos.
— Estava coberto de pó, mas pode funcionar — acrescentou Afonso. — Se os geradores aguentarem.
Rui olhou para o teto, onde um cano pingava.
— E água? Precisamos de água para as culturas.
— O sistema de recolha da chuva ainda funciona — respondeu Diana. — Mas a água é ácida. Tem de ser filtrada.
— Eu trato disso — disse Afonso. Ajustou os óculos. — Sei como construir um filtro com carvão ativado e areia.
Elisa olhou para os três. A tensão ainda pairava, mas havia uma centelha de ação. A mão esquerda tocou a nuca, um gesto breve. O coração batia a 80.
— Rui, ajuda o Afonso com a água. Eu fico com a Diana no laboratório. Precisamos de começar já.
Dividiram-se. Elisa e Diana subiram ao piso térreo, até ao laboratório principal. A sala estava como a tinham deixado: bancadas cobertas de pó, equipamentos tombados, a estufa vertical a zumbir. Diana acendeu a luz de cultivo e começou a organizar o espaço com gestos precisos, apesar do tremor nas mãos.
— O primeiro passo é extrair uma amostra de tecido das tuas plantas — disse. — Preciso de ver o estado do gene.
Elisa abriu a mochila e retirou o estojo com os tubos de ensaio. As pequenas folhas verdes flutuavam no líquido de preservação. Entregou um tubo a Diana.
— Toma. A última esperança.
Diana pegou no tubo com reverência. Os olhos verdes encontraram os de Elisa.
— Lamento. Por tudo.
— Guarda as desculpas para quando tivermos uma cura. — A voz de Elisa saiu mais áspera do que pretendia. A mão esquerda foi à nuca, mas desceu logo.
Diana não respondeu. Colocou a amostra sob o microscópio e ajustou o foco. Elisa observava, o coração apertado. As células que vira antes, com as paredes espessas e os cloroplastos compactados, agora pareciam diferentes. Como se algo as corroesse por dentro.
— O gene de autodestruição ataca as mitocôndrias — explicou Diana, sem desviar os olhos da ocular. — As células vão perdendo energia. Murcham em poucos dias. Se conseguíssemos inibir a expressão do gene...
— Como?
— Com um vetor viral que entregue uma sequência de silenciamento. — Diana endireitou-se e foi buscar um caderno. A letra miúda e inclinada cobria as páginas. — Tenho aqui a sequência do inibidor. Mas precisaria de sintetizar o RNA interferente. E isso requer um sintetizador automático. Que este laboratório não tem.
Elisa amaldiçoou baixinho. A mão na nuca apertou.
— Então estamos presos?
— Não necessariamente. — Diana folheou o caderno. — Há um sintetizador no setor 4. Noutra estação de investigação. Mas fica a um dia de caminhada. Em território hostil.
— Território de Vasco?
— E de Davi.
Elisa respirou fundo. O coração acelerou. A mão esquerda massajou a nuca. A decisão era clara, mas o medo apertava-lhe o peito.
— Então vamos a essa estação. Não há outra opção.
Diana olhou para ela, surpresa.
— Vais arriscar tudo por uma possibilidade?
— Já arrisquei tudo. — Elisa baixou a mão. — Agora é a única coisa que faz sentido.
A porta rangeu. Rui e Afonso entraram, carregando baldes de água barrenta.
— O filtro está a funcionar — anunciou Afonso. — Em poucas horas teremos água potável.
Rui pousou o seu balde e olhou para Elisa.
— O que se passa?
Elisa explicou o plano. O silêncio foi pesado.
— É suicídio — disse Afonso. — Ir ao setor 4 é atravessar zonas contaminadas e patrulhas dos dois grupos.
— Fico eu — ofereceu Rui. — Sei mover-me nas ruínas.
— Vais precisar de mim — disse Diana. — Só eu sei exatamente o que procurar. Conheço aquela estação. Trabalhei lá antes do colapso. Lembro-me de cada túnel de serviço, cada esconderijo. Posso levar-vos diretamente.
— Então vamos os três — decidiu Elisa. — Afonso fica a guardar as plantas.
Afonso bufou, mas anuiu.
— Muito bem. Mas se não voltarem...
— Voltamos. — Elisa apertou a correia da mochila. A mão esquerda foi à nuca uma última vez. Depois desceu.
Começaram a preparar o equipamento. Mochilas, armas, filtros, comida racionada. O ar estava carregado de urgência. Cada gesto era rápido e preciso. Lá fora, a noite caía. O vento arrastava cinzas contra as vidraças partidas.
De súbito, um ruído distante. Um zumbido mecânico. Rui parou, a mão na cicatriz. Afonso ajustou os óculos, os olhos arregalados. Elisa entreabriu a porta do laboratório e espreitou para o corredor. O som crescia. Não era o vento. Eram motores. Aproximavam-se do complexo.
— Davi — murmurou Elisa.
O coração bateu-lhe nos ouvidos. A mão esquerda subiu à nuca e ficou ali, os dedos cravados na pele. Lá fora, o rugido dos motores enchia o silêncio da noite. Davi não desistira.
A Corrida Contra o Tempo
O silêncio que se seguiu à constatação foi cortado apenas pelo zumbido distante dos motores. Elisa deixou a mão cair da nuca. O peito arfava, o coração a 110, mas a mente já corria. Os olhos percorreram o laboratório: as bancadas, os frascos, a porta entreaberta.
— Quantos? — A voz de Rui era um sussurro tenso.
— Pelo menos dois veículos. — Afonso espreitou pela frincha da janela selada. A luz dos faróis varria os escombros lá fora. — Talvez três.
Diana empalideceu. As mãos tremeram sobre o caderno.
— Se nos encontrarem aqui, as plantas...
— Cala-te. — Elisa fez-lhe sinal. A voz era seca. — Rui, fecha a porta da cave. Afonso, leva as amostras para a sala do gerador. Esconde tudo.
Rui assentiu e desapareceu pelo corredor, os passos abafados. Afonso agarrou o estojo com os tubos de ensaio e enfiou-o na mochila. Ajustou os óculos e olhou para Elisa.
— E tu?
— Eu e a Diana vamos distraí-los. — Elisa pegou na espingarda. — Se nos seguirem para longe do edifício, ganhamos tempo.
— Isso é loucura! — protestou Afonso. — Vais sacrificar-te?
— Não. Vou ganhar tempo. Vai.
Afonso hesitou. Depois, praguejando, correu para as escadas da cave. Elisa virou-se para Diana.
— Conheces bem este complexo?
— Conheço. — A voz de Diana estava trémula, mas os olhos endureceram. — Há uma saída de emergência no piso superior. Dá para uma conduta de esgotos. Se conseguirmos chegar lá, podemos escapar.
— Então vamos.
Saíram do laboratório principal e subiram a escada de serviço. Os degraus de metal rangiam sob as botas. A luz da lanterna de Elisa cortava a escuridão. O ar era frio e cheirava a bolor. Diana guiava, a respiração ofegante.
No terceiro andar, o corredor estava parcialmente desabado. Vigas de aço retorcidas bloqueavam o caminho. Tiveram de rastejar por debaixo de uma laje inclinada. O pó sufocava. Elisa tossiu, os olhos a arder.
— É aqui — disse Diana, apontando para uma porta de ferro com uma alavanca.
Elisa empurrou a alavanca. Rangeu. A porta abriu-se para um corredor estreito e húmido. O fedor atingiu-as como um soco. Cheiro a podridão, a químicos, a água estagnada há décadas. O chão era uma papa viscosa que se agarrava às botas. As paredes brilhavam com limo. O frio húmido agarrou-se-lhes à pele como uma segunda camisa. Cada passo libertava um som esponjoso.
— Vão demorar a encontrar-nos aqui — murmurou Diana.
— Mas não podemos ficar. Precisamos do sintetizador.
Desceram pela conduta. O túnel parecia estreitar-se. A lanterna iluminava canos corroídos, ratazanas que fugiam em guinchos. Uma gota gelada caiu na nuca de Elisa; ela reprimiu um estremecimento. A respiração de Diana era ofegante, o medo a travar-lhe os movimentos. Após vários minutos que pareceram horas, chegaram a uma saída gradeada. A noite lá fora estava escura, mas os faróis dos veículos ainda iluminavam a zona.
— Espera — disse Elisa.
Espreitou pela grade. Viu dois jipes blindados estacionados perto da entrada principal do laboratório. Figuras moviam-se, vozes indistinguíveis. Homens de Davi. Um deles gesticulava, apontando para o edifício.
— Estão a revistar — sussurrou Diana.
— E vão encontrá-lo. Rui e Afonso estão sozinhos.
O coração de Elisa martelava. Os dedos tamborilaram no coldre da faca. Olhou para Diana.
— Se eu criar uma distração, consegues chegar ao sintetizador?
— Sozinha? — Diana hesitou.
— Conheces o caminho. Disseste que te lembras dos túneis. — Elisa fixou-lhe os olhos. — Não há mas. Vais agora. Eu atraio-os para o outro lado do complexo. Quando a barulheira começar, foges pela conduta e segues o mapa. O sintetizador está na estação do setor 4. Voltas com ele.
— E tu?
— Eu volto. Prometo.
Diana agarrou-lhe o braço. Os olhos verdes estavam cheios de uma determinação que Elisa não via há anos.
— Leva isto. — Entregou-lhe o caderno com as anotações. — Se eu não voltar, tens de continuar.
Elisa aceitou o caderno. O peso era insignificante, mas o gesto era enorme.
— Vamos.
Saíram da conduta. Elisa avançou para a escuridão exterior, contornando os escombros. Diana rastejou na direção oposta, em direção às ruínas do setor 4. O vento levantava cinzas. O frio cortava o rosto. Elisa aproximou-se de um dos jipes. Um homem estava de guarda, de costas. Ela sacou a faca do cinto e aproximou-se por trás. Num movimento rápido, imobilizou-o e sussurrou-lhe ao ouvido:
— Um grito e morres. Onde está o Davi?
— No... no edifício principal. — A voz do guarda era um guincho.
— Quantos homens?
— Seis. Mais o chefe.
Elisa afastou-se, deixando o homem atordoado. Correu para a entrada do laboratório. Um disparo para o ar. O estrondo ecoou. Gritos. Passos. Eram muitos.
Lá dentro, Rui e Afonso ouviram o tiro. Rui largou a alavanca.
— É a Elisa.
— Ela vai fazer-se matar — resmungou Afonso.
— Não se deixarmos. Vamos.
Subiram. Dois homens. Rui atirou o punho. Um caiu. Afonso despejou o extintor. O segundo cegou. Pontapé. Tombou.
— Onde está ela?
— Não sei.
Elisa corria pelos corredores. Passos atrás. Dobrou uma esquina. Escombros. Entrou numa sala. Atrás da secretária. O peito a arder. Suor frio. A porta rangeu. Dois vultos com lanternas.
— Ela entrou aqui.
— Procura.
Esperou. Um passou. Ela saltou. Faca. Lâmina no braço. O homem grunhiu. Largou a lanterna. O outro virou-se. Ela apontou a espingarda.
— Quieto.
O homem ergueu as mãos.
— O que é que o Davi quer? — voz rouca.
— As plantas. E a cabeça da velha.
Elisa disparou para o chão. Eles saltaram. Correu. No corredor, encontrou Rui e Afonso.
— Por aqui!
Juntos, desceram pela conduta outra vez. A escuridão viscosa engoliu-os. O fedor. O frio. Os guinchos. A saída gradeada. Diana já não estava. Os faróis lá fora, confusos.
— E agora? — ofegante Afonso.
— Agora esperamos que a Diana consiga — respondeu Elisa.
Esconderam-se nos destroços de um armazém próximo. A noite esfriava. O som dos motores ainda se ouvia, mas mais distante. Davi não desistira. Reorganizava os seus homens.
— Ele vai voltar — murmurou Rui.
— E nós estaremos prontos — disse Elisa. A mão tocou o coldre da faca, depois soltou. Havia uma nova firmeza no seu olhar.
O relógio corria. As plantas murchavam. E a única esperança estava nas mãos de uma mulher quebrada, a fugir pela noite.
O zumbido do gerador enchia a sala de cultura como um coração metálico. A luz de emergência amarela pintava as faces exaustas. O ar cheirava a betão partido e a desinfetante antigo. Diana estava encostada a uma bancada de aço, os ombros encolhidos sob o oleado gasto. As mãos tremiam-lhe. O rosto magro, sulcado de rugas, parecia o de uma velha boneca de cera.
Elisa fechou o caderno com um estalido seco. A capa preta estava manchada de pó. Olhou para a mentora. A mão esquerda foi à nuca, os dedos a pressionar a pele arrepiada.
— O organismo não está só a espalhar-se — repetiu Elisa, a voz baixa e controlada. A cada palavra, um novo peso no peito. — Está a evoluir. Disseste que o erro podia ser pior do que o cataclismo. O que é que não nos contaste?
Rui e Afonso tinham regressado do corredor. Estavam cobertos de fuligem e pó. Rui passou a mão pela cicatriz no pescoço, um gesto lento. Afonso ajeitou os óculos de aro partido, as lentes a faiscarem à luz de emergência.
Diana ergueu a cabeça. Os olhos verdes estavam rasos de água, mas a voz saiu mais firme.
— Antes do cataclismo, quando criei o organismo sintético, não era apenas para regenerar solos. Era para ser uma solução total. Um superorganismo que resistisse a tudo. Radiação, seca, toxinas. — Engoliu em seco. A garganta moveu-se. — Mas tive medo.
— Medo de quê? — Afonso deu um passo em frente. A voz era um fio carregado de irritação. — Medo de que funcionasse demasiado bem?
— Medo de que caísse nas mãos erradas. — Diana baixou a cabeça. As lágrimas caíram-lhe pelo rosto, abrindo sulcos na sujidade. — Se alguém controlasse um organismo que podia tomar conta de ecossistemas inteiros, o poder seria absoluto. Então, incluí um gene de autodestruição.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Apenas o zumbido do gerador. O coração de Elisa bateu três vezes, surdo. A mão esquerda desceu até ao coldre da faca e os dedos roçaram o cabo.
— Um gene de autodestruição — repetiu Elisa. A boca seca.
— Programado para matar a vida vegetal após alguns meses se não fosse desativado por um inibidor. — As palavras de Diana saíram apressadas, como se confessasse um crime. — Mas o protótipo que a tua mulher roubou... ele sofreu uma mutação. O gene ficou latente mais tempo do que o previsto. As plantas desenvolveram uma resistência parcial, mas agora começaram a degradar-se. As que encontraste são as últimas sobreviventes. E estão condenadas a murchar dentro de semanas.
Rui crispou os punhos. A cicatriz no pescoço pareceu mais vermelha.
— Condenadas. — A voz saiu rouca. — A minha mulher roubou o protótipo. Plantou-o a acreditar que era a salvação. E agora dizes que está tudo podre por dentro?
— Eu não sabia que o protótipo sobrevivera. — Diana soluçou. — Pensei que tudo estaria perdido. Só quando vi as imagens da vigilância é que percebi que o organismo escapara. E que o gene de autodestruição estava ativo. Mas tarde de mais.
Afonso atirou os óculos para a bancada. O plástico partido raspou no aço. O rosto dele estava vermelho.
— Brincaste aos deuses! — gritou. — E agora temos um punhado de plantas moribundas e mais nada! Achaste que eras quem para decidir o destino do mundo?
— Eu quis proteger... — balbuciou Diana.
— Proteger? — Afonso riu, um som seco e amargo. — Protegeste o teu egoísmo. O teu medo. E deixaste-nos a todos sem nada.
Elisa fechou os olhos por um instante. A imagem da filha, o vestido azul com flores amarelas, surgiu sem pedir licença. O riso dela. A voz do marido. O telemóvel a vibrar no laboratório. A culpa que carregara durante anos — e agora descobria que o seu único propósito, as plantas, era uma bomba-relógio. A esperança era uma ilusão. Cerrou os punhos até as unhas lhe cravarem as palmas. A dor física sobrepunha-se à vertigem.
Rui aproximou-se de Diana. Os olhos castanhos estavam sombrios, mas a voz saiu calma.
— A minha mulher morreu a acreditar que essa semente era o futuro. Dá-me uma razão para não te odiar.
Diana olhou-o nos olhos. As lágrimas secaram. A expressão endureceu.
— Porque ainda é possível uma cura. — Respirou fundo. — O gene de autodestruição foi desenhado para ser desativado. Eu criei um inibidor. Mas nunca o testei. Perdi os dados no colapso. Teria de sintetizar de novo.
Elisa abriu os olhos. A mão esquerda desceu da nuca. O coração ainda martelava, mas a mente, treinada em mil experiências, começou a processar.
— Quanto tempo?
— Dias. Talvez semanas. — Diana agarrou-se a um caderno sobre a bancada, o mesmo que Elisa estivera a ler. — Preciso de um laboratório funcional, reagentes, um sequenciador. Coisas que este sítio já não tem.
— Mas sabes a sequência? — A pergunta de Elisa foi cirúrgica.
— Sei. Está nos meus cadernos. E na minha cabeça.
Afonso pegou nos óculos e colocou-os de novo, as mãos a tremer.
— E se estiveres a mentir outra vez?
— Não estou. — Diana endireitou-se. A fragilidade deu lugar a uma determinação cansada. — Sei o que fiz. Sei que mereço o vosso ódio. Mas se me ajudarem, talvez possamos salvar as plantas. E o que resta do mundo.
Elisa olhou para Rui. Ele passou a mão pela cicatriz, o maxilar cerrado. Depois olhou para Afonso. O engenheiro ajeitou os óculos, a raiva ainda a ferver, mas um brilho pragmático nos olhos.
— Engolir o orgulho — murmurou Elisa para si mesma. A mão direita tamborilou na coxa. Em vez disso, apontou para Diana. — Vais trabalhar numa cura. Agora. Sem mais segredos. Sem mais mentiras. Se falhares, perdemos tudo.
Diana anuiu.
— Farei tudo o que puder. Juro.
— As juras não valem nada — cortou Afonso. — Mas os teus conhecimentos, sim.
Rui destrancou a espingarda e inspecionou o carregador.
— Muito bem. Mas não ficas sozinha. Eu vigio.
— Eu apoio — disse Elisa. — Precisamos de um plano. Reagentes, equipamento. O que há neste laboratório?
Diana apontou para uma porta do fundo.
— A cave tem uma arca frigorífica com alguns reagentes. Mas está danificada.
— Então vamos lá. — Elisa pegou na lanterna. — Não há tempo a perder.
Saíram da sala de cultura. O corredor estava escuro, os destroços ainda a bloquear parte do caminho. Rui ia à frente com a espingarda, Afonso a segurar o tablet com uma mão e uma alavanca na outra. Diana caminhava atrás de Elisa, os passos vacilantes. O ar cheirava a ozono e a pó. O medidor de radiação no pulso de Elisa emitiu um bip: 0,5 microsieverts. Aceitável.
Desceram uma escada estreita de betão. A cave era um labirinto de salas frias e condutas de ventilação. A luz da lanterna de Elisa varria as paredes húmidas. Diana guiou-os até uma porta de aço com a inscrição "Armazém Químico". A fechadura estava emperrada. Rui usou a alavanca para a forçar. O metal rangeu. A porta cedeu.
Lá dentro, prateleiras metálicas cobertas de pó. Frascos de vidro com rótulos desbotados. A arca frigorífica estava num canto, a porta entreaberta. O motor emitia um gemido baixo. Diana abriu-a e examinou o interior. A luz do tablet de Afonso iluminou fileiras de caixas de petri vazias e tubos de ensaio.
— Alguns reagentes ainda estão bons — murmurou. — Mas preciso de enzimas específicas. E de um termociclador.
— Há um no laboratório principal — disse Elisa. — Vi-o quando chegámos.
— Estava coberto de pó, mas pode funcionar — acrescentou Afonso. — Se os geradores aguentarem.
Rui olhou para o teto, onde um cano pingava.
— E água? Precisamos de água para as culturas.
— O sistema de recolha da chuva ainda funciona — respondeu Diana. — Mas a água é ácida. Tem de ser filtrada.
— Eu trato disso — disse Afonso. Ajustou os óculos. — Sei como construir um filtro com carvão ativado e areia.
Elisa olhou para os três. A tensão ainda pairava, mas havia uma centelha de ação. A mão esquerda tocou a nuca, um gesto breve. O coração batia a 80.
— Rui, ajuda o Afonso com a água. Eu fico com a Diana no laboratório. Precisamos de começar já.
Dividiram-se. Elisa e Diana subiram ao piso térreo, até ao laboratório principal. A sala estava como a tinham deixado: bancadas cobertas de pó, equipamentos tombados, a estufa vertical a zumbir. Diana acendeu a luz de cultivo e começou a organizar o espaço com gestos precisos, apesar do tremor nas mãos.
— O primeiro passo é extrair uma amostra de tecido das tuas plantas — disse. — Preciso de ver o estado do gene.
Elisa abriu a mochila e retirou o estojo com os tubos de ensaio. As pequenas folhas verdes flutuavam no líquido de preservação. Entregou um tubo a Diana.
— Toma. A última esperança.
Diana pegou no tubo com reverência. Os olhos verdes encontraram os de Elisa.
— Lamento. Por tudo.
— Guarda as desculpas para quando tivermos uma cura. — A voz de Elisa saiu mais áspera do que pretendia. A mão esquerda foi à nuca, mas desceu logo.
Diana não respondeu. Colocou a amostra sob o microscópio e ajustou o foco. Elisa observava, o coração apertado. As células que vira antes, com as paredes espessas e os cloroplastos compactados, agora pareciam diferentes. Como se algo as corroesse por dentro.
— O gene de autodestruição ataca as mitocôndrias — explicou Diana, sem desviar os olhos da ocular. — As células vão perdendo energia. Murcham em poucos dias. Se conseguíssemos inibir a expressão do gene...
— Como?
— Com um vetor viral que entregue uma sequência de silenciamento. — Diana endireitou-se e foi buscar um caderno. A letra miúda e inclinada cobria as páginas. — Tenho aqui a sequência do inibidor. Mas precisaria de sintetizar o RNA interferente. E isso requer um sintetizador automático. Que este laboratório não tem.
Elisa amaldiçoou baixinho. A mão na nuca apertou.
— Então estamos presos?
— Não necessariamente. — Diana folheou o caderno. — Há um sintetizador no setor 4. Noutra estação de investigação. Mas fica a um dia de caminhada. Em território hostil.
— Território de Vasco?
— E de Davi.
Elisa respirou fundo. O coração acelerou. A mão esquerda massajou a nuca. A decisão era clara, mas o medo apertava-lhe o peito.
— Então vamos a essa estação. Não há outra opção.
Diana olhou para ela, surpresa.
— Vais arriscar tudo por uma possibilidade?
— Já arrisquei tudo. — Elisa baixou a mão. — Agora é a única coisa que faz sentido.
A porta rangeu. Rui e Afonso entraram, carregando baldes de água barrenta.
— O filtro está a funcionar — anunciou Afonso. — Em poucas horas teremos água potável.
Rui pousou o seu balde e olhou para Elisa.
— O que se passa?
Elisa explicou o plano. O silêncio foi pesado.
— É suicídio — disse Afonso. — Ir ao setor 4 é atravessar zonas contaminadas e patrulhas dos dois grupos.
— Fico eu — ofereceu Rui. — Sei mover-me nas ruínas.
— Vais precisar de mim — disse Diana. — Só eu sei exatamente o que procurar. Conheço aquela estação. Trabalhei lá antes do colapso. Lembro-me de cada túnel de serviço, cada esconderijo. Posso levar-vos diretamente.
— Então vamos os três — decidiu Elisa. — Afonso fica a guardar as plantas.
Afonso bufou, mas anuiu.
— Muito bem. Mas se não voltarem...
— Voltamos. — Elisa apertou a correia da mochila. A mão esquerda foi à nuca uma última vez. Depois desceu.
Começaram a preparar o equipamento. Mochilas, armas, filtros, comida racionada. O ar estava carregado de urgência. Cada gesto era rápido e preciso. Lá fora, a noite caía. O vento arrastava cinzas contra as vidraças partidas.
De súbito, um ruído distante. Um zumbido mecânico. Rui parou, a mão na cicatriz. Afonso ajustou os óculos, os olhos arregalados. Elisa entreabriu a porta do laboratório e espreitou para o corredor. O som crescia. Não era o vento. Eram motores. Aproximavam-se do complexo.
— Davi — murmurou Elisa.
O coração bateu-lhe nos ouvidos. A mão esquerda subiu à nuca e ficou ali, os dedos cravados na pele. Lá fora, o rugido dos motores enchia o silêncio da noite. Davi não desistira.
A Corrida Contra o Tempo
O silêncio que se seguiu à constatação foi cortado apenas pelo zumbido distante dos motores. Elisa deixou a mão cair da nuca. O peito arfava, o coração a 110, mas a mente já corria. Os olhos percorreram o laboratório: as bancadas, os frascos, a porta entreaberta.
— Quantos? — A voz de Rui era um sussurro tenso.
— Pelo menos dois veículos. — Afonso espreitou pela frincha da janela selada. A luz dos faróis varria os escombros lá fora. — Talvez três.
Diana empalideceu. As mãos tremeram sobre o caderno.
— Se nos encontrarem aqui, as plantas...
— Cala-te. — Elisa fez-lhe sinal. A voz era seca. — Rui, fecha a porta da cave. Afonso, leva as amostras para a sala do gerador. Esconde tudo.
Rui assentiu e desapareceu pelo corredor, os passos abafados. Afonso agarrou o estojo com os tubos de ensaio e enfiou-o na mochila. Ajustou os óculos e olhou para Elisa.
— E tu?
— Eu e a Diana vamos distraí-los. — Elisa pegou na espingarda. — Se nos seguirem para longe do edifício, ganhamos tempo.
— Isso é loucura! — protestou Afonso. — Vais sacrificar-te?
— Não. Vou ganhar tempo. Vai.
Afonso hesitou. Depois, praguejando, correu para as escadas da cave. Elisa virou-se para Diana.
— Conheces bem este complexo?
— Conheço. — A voz de Diana estava trémula, mas os olhos endureceram. — Há uma saída de emergência no piso superior. Dá para uma conduta de esgotos. Se conseguirmos chegar lá, podemos escapar.
— Então vamos.
Saíram do laboratório principal e subiram a escada de serviço. Os degraus de metal rangiam sob as botas. A luz da lanterna de Elisa cortava a escuridão. O ar era frio e cheirava a bolor. Diana guiava, a respiração ofegante.
No terceiro andar, o corredor estava parcialmente desabado. Vigas de aço retorcidas bloqueavam o caminho. Tiveram de rastejar por debaixo de uma laje inclinada. O pó sufocava. Elisa tossiu, os olhos a arder.
— É aqui — disse Diana, apontando para uma porta de ferro com uma alavanca.
Elisa empurrou a alavanca. Rangeu. A porta abriu-se para um corredor estreito e húmido. O fedor atingiu-as como um soco. Cheiro a podridão, a químicos, a água estagnada há décadas. O chão era uma papa viscosa que se agarrava às botas. As paredes brilhavam com limo. O frio húmido agarrou-se-lhes à pele como uma segunda camisa. Cada passo libertava um som esponjoso.
— Vão demorar a encontrar-nos aqui — murmurou Diana.
— Mas não podemos ficar. Precisamos do sintetizador.
Desceram pela conduta. O túnel parecia estreitar-se. A lanterna iluminava canos corroídos, ratazanas que fugiam em guinchos. Uma gota gelada caiu na nuca de Elisa; ela reprimiu um estremecimento. A respiração de Diana era ofegante, o medo a travar-lhe os movimentos. Após vários minutos que pareceram horas, chegaram a uma saída gradeada. A noite lá fora estava escura, mas os faróis dos veículos ainda iluminavam a zona.
— Espera — disse Elisa.
Espreitou pela grade. Viu dois jipes blindados estacionados perto da entrada principal do laboratório. Figuras moviam-se, vozes indistinguíveis. Homens de Davi. Um deles gesticulava, apontando para o edifício.
— Estão a revistar — sussurrou Diana.
— E vão encontrá-lo. Rui e Afonso estão sozinhos.
O coração de Elisa martelava. Os dedos tamborilaram no coldre da faca. Olhou para Diana.
— Se eu criar uma distração, consegues chegar ao sintetizador?
— Sozinha? — Diana hesitou.
— Conheces o caminho. Disseste que te lembras dos túneis. — Elisa fixou-lhe os olhos. — Não há mas. Vais agora. Eu atraio-os para o outro lado do complexo. Quando a barulheira começar, foges pela conduta e segues o mapa. O sintetizador está na estação do setor 4. Voltas com ele.
— E tu?
— Eu volto. Prometo.
Diana agarrou-lhe o braço. Os olhos verdes estavam cheios de uma determinação que Elisa não via há anos.
— Leva isto. — Entregou-lhe o caderno com as anotações. — Se eu não voltar, tens de continuar.
Elisa aceitou o caderno. O peso era insignificante, mas o gesto era enorme.
— Vamos.
Saíram da conduta. Elisa avançou para a escuridão exterior, contornando os escombros. Diana rastejou na direção oposta, em direção às ruínas do setor 4. O vento levantava cinzas. O frio cortava o rosto. Elisa aproximou-se de um dos jipes. Um homem estava de guarda, de costas. Ela sacou a faca do cinto e aproximou-se por trás. Num movimento rápido, imobilizou-o e sussurrou-lhe ao ouvido:
— Um grito e morres. Onde está o Davi?
— No... no edifício principal. — A voz do guarda era um guincho.
— Quantos homens?
— Seis. Mais o chefe.
Elisa afastou-se, deixando o homem atordoado. Correu para a entrada do laboratório. Um disparo para o ar. O estrondo ecoou. Gritos. Passos. Eram muitos.
Lá dentro, Rui e Afonso ouviram o tiro. Rui largou a alavanca.
— É a Elisa.
— Ela vai fazer-se matar — resmungou Afonso.
— Não se deixarmos. Vamos.
Subiram. Dois homens. Rui atirou o punho. Um caiu. Afonso despejou o extintor. O segundo cegou. Pontapé. Tombou.
— Onde está ela?
— Não sei.
Elisa corria pelos corredores. Passos atrás. Dobrou uma esquina. Escombros. Entrou numa sala. Atrás da secretária. O peito a arder. Suor frio. A porta rangeu. Dois vultos com lanternas.
— Ela entrou aqui.
— Procura.
Esperou. Um passou. Ela saltou. Faca. Lâmina no braço. O homem grunhiu. Largou a lanterna. O outro virou-se. Ela apontou a espingarda.
— Quieto.
O homem ergueu as mãos.
— O que é que o Davi quer? — voz rouca.
— As plantas. E a cabeça da velha.
Elisa disparou para o chão. Eles saltaram. Correu. No corredor, encontrou Rui e Afonso.
— Por aqui!
Juntos, desceram pela conduta outra vez. A escuridão viscosa engoliu-os. O fedor. O frio. Os guinchos. A saída gradeada. Diana já não estava. Os faróis lá fora, confusos.
— E agora? — ofegante Afonso.
— Agora esperamos que a Diana consiga — respondeu Elisa.
Esconderam-se nos destroços de um armazém próximo. A noite esfriava. O som dos motores ainda se ouvia, mas mais distante. Davi não desistira. Reorganizava os seus homens.
— Ele vai voltar — murmurou Rui.
— E nós estaremos prontos — disse Elisa. A mão tocou o coldre da faca, depois soltou. Havia uma nova firmeza no seu olhar.
O relógio corria. As plantas murchavam. E a única esperança estava nas mãos de uma mulher quebrada, a fugir pela noite.