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O Laboratório Abandonado
IA
A Chegada ao Complexo
O laboratório recortava-se contra o céu de chumbo. Uma estrutura de betão e aço, com quatro andares, janelas escuras como órbitas vazias. A fachada sul desmoronara-se parcialmente. Escombros empilhavam-se num talude que subia até ao segundo piso. O vento arrastava cinzas sobre a crosta de vidro térmico que cobria o solo.
Elisa ajoelhou na berma de escombros. O medidor de radiação estalou duas vezes. 0,15 microsieverts por hora. Aceitável. A mochila pesava-lhe nos ombros. As plantas tilintavam no interior. O suor arrefecia-lhe na testa.
— Ali. — Rui apontou para uma porta de serviço ao nível do rés-do-chão, parcialmente obstruída por uma viga caída. — Deve dar para as caves.
Afonso ajeitou os óculos. O tablet estava desligado, a bateria em 3%.
— Se os geradores ainda funcionam, há energia. As caves podem ter sistemas de suporte de vida. — A voz saiu seca, pragmática.
Elisa olhou para o segundo andar. Um vulto movera-se lá atrás. Havia dez minutos. Podia ser ilusão. O cansaço criava sombras. Passou a mão esquerda pela nuca. Os dedos tocaram a pele fria e húmida.
— Vamos.
Desceram o talude. As botas escorregavam na crosta estaladiça. A porta de serviço era de metal, ferrugenta, com um trinco de alavanca. Rui pousou a mochila e agarrou a alavanca com as duas mãos. Os músculos dos ombros retesaram-se. O metal rangeu. A porta não cedeu.
— Emperrada.
Afonso contornou a viga e encontrou uma fenda na parede. A luz filtrava-se por uma janela de cave, gradeada. Os vidros estavam partidos.
— Por aqui.
Elisa passou a mochila pela janela primeiro, depois enfiou o corpo. O betão arranhou-lhe as costas. Aterrou no chão da cave. O ar era denso, com um cheiro a bolor e a químicos antigos. Ozono. Algo funcionava. O zumbido de um gerador vibrava nas paredes.
Rui e Afonso seguiram-na. Acenderam as lanternas. O feixe varreu uma sala ampla, com prateleiras metálicas vazias. O chão estava coberto de papéis dispersos e frascos partidos. No centro, uma escada de betão subia para o piso térreo.
— Geradores. — Afonso apontou para um painel de controlo na parede. Luzes verdes piscavam. — Alguém os ligou.
— Diana podia ter deixado programado. — A voz de Elisa saiu baixa.
Rui passou a mão pela cicatriz no pescoço.
— Ou alguém esteve aqui depois dela.
Subiram a escada. No piso térreo, o hall de entrada estava parcialmente desabado. Uma clarabóia partida deixava entrar a luz cinzenta. O vento gemia nas vigas retorcidas. Um balcão de receção, coberto de pó, dominava o espaço. Por trás, um corredor conduzia ao interior.
Elisa avançou na frente. As botas esmagavam vidros. O coração batia a 95. A mão esquerda foi à nuca. Os dedos pressionaram a pele, mas o gesto trouxe uma pontada de dor no ombro. Ignorou.
O corredor era forrado de portas, algumas arrombadas. Letreiros indicavam "Sala de Culturas", "Biologia Molecular", "Sala de Servidores". Numa das salas, a luz de emergência piscava num ciclo de três segundos aceso, dois apagado. O mesmo padrão dos bunkers do setor 7. Algo ali seguia os mesmos protocolos.
— Aqui. — Rui apontou para uma porta dupla ao fundo do corredor, com o letreiro ";Laboratório Principal";.
Elisa empurrou a porta com o ombro. Rangeu. A sala era um retângulo de quinze por dez metros. Bancadas de aço inoxidável, equipamentos cobertos de pó, armários de vidro partido. No centro, uma mesa de trabalho com um microscópio. Nas paredes, quadros brancos manchados de fórmulas apagadas. O ar cheirava a álcool e a terra seca.
Mas não era o pó que dominava a sala. Era a presença de algo funcional. No canto, uma estufa vertical, com luzes LED, zumbia baixinho. Dentro, tabuleiros de terra vazios.
— Incrível. — Afonso ajustou os óculos. — Alguém manteve isto.
Elisa aproximou-se da estufa. A vibração era mais intensa. O painel de controlo mostrava temperatura e humidade estáveis. A terra nos tabuleiros estava húmida. Alguém a regara recentemente.
O coração acelerou. Mão na nuca. A pele estava arrepiada.
— Não estamos sozinhos.
Os Cadernos de Diana
Elisa afastou-se da estufa. As luzes LED projectavam sombras azuladas nas paredes. A humidade da terra colava-se ao ar. A mão esquerda desceu da nuca. O coração ainda martelava, mas a adrenalina dava lugar a uma urgência fria. Precisava de perceber.
— Vou ver o que há por ali. — Apontou para uma porta lateral, onde um letreiro dizia "Arquivo".
Rui assentiu. A mão direita tocou a cicatriz.
— Nós exploramos o perímetro. Afonso, confere os geradores.
Afonso fungou.
— Os geradores, sim. Depois quero ver o servidor. Pode ter dados.
Separaram-se. Elisa entrou na sala do arquivo. Era um espaço exíguo, com estantes de metal a abarrotar de dossiês e caixas de papelão. O ar cheirava a papel velho e a traça. Uma lâmpada de haleto piscava intermitente. O zumbido do gerador era mais abafado ali.
Vasculhou as estantes. Muitos dossiês estavam ilegíveis, manchados de humidade. Outros continham relatórios de investigação, mas as datas eram anteriores ao cataclismo. Nada sobre o organismo sintético. Nada de Diana. Até que, num armário com porta de vidro partida, viu uma caixa de arquivo com a etiqueta: "Campos, D. — Projecto Esperança — CONFIDENCIAL".
O coração deu um salto. As mãos tremeram ao abrir a caixa. Lá dentro, cadernos de capa preta, iguais aos que usara na universidade. A letra miúda e inclinada era inconfundível. Diana escrevera aquilo.
Sentou-se no chão, de costas para a estante. A luz da lâmpada piscou. Abriu o primeiro caderno numa página ao acaso.
"O organismo sintético (OS-01) foi desenhado para metabolizar cinzas alcalinas e fixar azoto em solo estéril. Testes in vitro mostram eficiência de 78% em substrato simulado Pós-Evento."
Pós-Evento. Diana previra o cataclismo? Ou apenas projetara para um cenário hipotético? Passou a mão pela nuca. Os dedos encontraram a pele molhada de suor. Virou mais páginas.
"As plantas mutantes exibem poliploidia induzida. O genoma do OS-01 integrou-se no ADN da flora local. A transmissão é vertical. Se o protótipo foi libertado, a propagação é irreversível."
Protótipo. A palavra ecoou-lhe na mente. As plantas não eram um acaso. Eram o resultado de uma experiência. Uma experiência que Diana escondera. Porquê? A mão esquerda apertou o caderno. Os nós dos dedos ficaram brancos.
Noutra página, uma anotação mais pessoal, a letra mais trémula:
"Não posso contar a ninguém. Se descobrirem que fui eu, vão culpar-me. Talvez tenham razão. O OS-01 nunca foi testado em campo. Mas se ficar guardado, não servirá de nada. Enterrei as sementes no parque da universidade. Quem sabe..."
A frase terminava aí. O resto da página estava em branco. Elisa fechou o caderno. O peito doía. A mentora que admirava criara aquilo. E depois escondera a verdade. A culpa que Diana carregava era da mesma natureza que a sua. Mas as consequências eram diferentes. As plantas existiam. Eram reais. Eram a esperança. Mas também eram um segredo que podia destruir a confiança de todos.
Fechou os olhos. A imagem da filha surgiu. O vestido azul com flores amarelas. O riso. A última chamada que não atendeu. Se Diana tivesse partilhado o seu conhecimento, talvez o mundo estivesse preparado. Talvez... Mas não havia talvez. Havia apenas o agora.
Abriu os olhos. Guardou os cadernos na mochila. Eram a prova. Eram a chave. Mas também eram um fardo.
Levantou-se. O joelho estalou. A perna ainda latejava. Saiu do arquivo e foi ao encontro dos outros. Encontrou-os na sala dos servidores, ao lado do laboratório principal. Rui examinava um terminal antigo. Afonso ligara o tablet a uma porta USB, os óculos a reflectir linhas de código.
— Descobri alguma coisa. — Afonso não desviou os olhos do ecrã. — No diário de bordo do sistema, há entradas recentes. Alguém acedeu aos dados há três dias.
— Três dias? — Rui franziu o sobrolho. — Isso foi quando vimos as pegadas no bunker.
— Mesmo. — Afonso ajustou os óculos. — E há mais. O sistema de vigilância ainda grava. As câmaras da cave mostram movimento.
Elisa aproximou-se. O tablet mostrava uma imagem granulada, a preto e branco. Um corredor escuro. Uma sombra movia-se. Depois outra.
— Quantas pessoas?
— Pelo menos duas. — Afonso ampliou a imagem. — Mas não consigo identificar.
O silêncio caiu pesado. O dos geradores enchia o ar. O cheiro a ozono era mais intenso. Rui tocou a cicatriz.
— Então não estamos sozinhos. E quem quer que seja, pode estar a ver-nos.
Elisa olhou para as câmaras. Os olhos da sombra pareciam fitá-la. A mão esquerda foi à nuca. Desta vez, o gesto não trouxe conforto. Apenas a certeza de que o perigo estava mais próximo do que nunca.
A Voz nas Sombras
A revelação do sistema de vigilância acelerou a tensão. Elisa desligou o tablet e encarou os companheiros.
— Temos de encontrar quem está aqui. Pode ser Diana. Pode ser um sobrevivente que precise de ajuda. Ou pode ser uma armadilha.
— Ou as três coisas. — Afonso ajeitou os óculos. — Não me fio.
Rui passou a mão pela cicatriz.
— Concordemos em ser cautelosos. Vamos explorar o resto do complexo. Juntos. Sem separações.
Elisa assentiu. A espingarda ao ombro, a mochila com os cadernos e as plantas segura. Saíram da sala dos servidores. O corredor principal era mais escuro agora. A luz da clarabóia diminuíra. As lâmpadas de emergência piscavam, lançando sombras irregulares.
Avançaram em silêncio. O som das botas no betão ecoava. Cada porta que passavam era uma boca escura. Elisa contava os passos. Em cada esquina, a mão esquerda subia à nuca, mas parava a meio. O gesto tornara-se um tique que tentava controlar.
No final do corredor, uma escada de serviço subia para os pisos superiores. Os degraus de metal rangiam. Nas paredes, marcas de queimaduras recentes. Círculos com uma linha horizontal. O símbolo que vira no bunker.
— Eles estiveram aqui. — A voz de Elisa saiu seca.
— Quem? — perguntou Rui.
— Os fanáticos. Os que falaste, Afonso. Os que querem destruir tudo o que é verde.
Afonso empalideceu. Ajustou os óculos, as mãos a tremer.
— Então não é seguro. Se encontraram este sítio...
— As plantas ainda estão vivas — cortou Elisa. — E a estufa estava a funcionar. Quem quer que seja, pode não ter encontrado tudo.
Subiram mais um lance. O segundo andar era uma ala de escritórios e pequenas salas de reunião. O chão estava coberto de vidros partidos. O vento entrava por uma janela despedaçada, arrastando cinzas. No final do corredor, uma porta entreaberta deixava sair um fio de luz.
Elisa fez sinal para pararem. O coração batia a 100. A mão esquerda apertou a coronha da espingarda. Aproximou-se da porta. O cheiro que saía era diferente. Ozono, sim, mas também um odor doce, vegetal. Como a estufa, mas mais intenso.
Empurrou a porta com o ombro. A sala era um pequeno laboratório, com uma bancada ao centro. Sobre ela, frascos de cultura de tecidos, com pequenas plantas verdes. Uma luz de cultivo zumbia. Alguém trabalhava ali recentemente. As plantas estavam vivas, viçosas.
— Isto não devia estar aqui. — Afonso entrou, os olhos arregalados. — É uma réplica do trabalho da Diana.
Elisa aproximou-se da bancada. Os frascos tinham etiquetas com a letra de Diana. Datas de há dois dias. Anotações sobre o crescimento. Um caderno aberto ao lado, com esquemas genéticos. A letra era mais recente, mais tremida, mas ainda assim a dela.
— Ela esteve aqui. — A voz de Elisa saiu num fio.
De repente, um ruído. Algo a cair no corredor. Os três viraram-se. A porta rangeu. Uma sombra passou rápida. Depois, silêncio.
— Ela! — gritou Rui, e correu para o corredor.
Elisa seguiu-o. O corredor estava vazio. Apenas o vento. As cinzas dançavam. No chão, pegadas frescas na poeira. Levavam à escada que subia para o terceiro andar.
— Está lá em cima. — Rui apontou.
Subiram as escadas com cautela. O terceiro andar era um espaço amplo, com divisórias de vidro partido. No centro, uma sala de reuniões com uma mesa comprida. Nas paredes, mais quadros brancos, cheios de fórmulas e diagramas. O ar era mais frio. Algo se movia nas sombras, atrás de uma coluna.
— Mostra-te. — A voz de Elisa saiu firme, mas o coração martelava.
Nenhuma resposta. Apenas o zumbido distante dos geradores. Depois, passos lentos. Uma figura saiu das sombras. Pequena, encolhida. Um casaco de oleado, capuz erguido. As mãos tremiam.
— Não disparem. — A voz era trémula, mas feminina.
A figura recuou um passo, as mãos erguidas. O capuz caíu-lhe para trás, revelando um rosto magro, envelhecido, cabelo grisalho curto. Os olhos verdes estavam cansados, mas vivos. Ela conhecia aqueles olhos. Eram os mesmos que a tinham orientado durante anos.
— Diana? — A palavra saiu num sussurro.
A mulher hesitou. Depois, um aceno.
— Elisa. — A voz era um sopro. — Não deviam ter vindo. Mas já que estão aqui... ajudem-me.
O laboratório recortava-se contra o céu de chumbo. Uma estrutura de betão e aço, com quatro andares, janelas escuras como órbitas vazias. A fachada sul desmoronara-se parcialmente. Escombros empilhavam-se num talude que subia até ao segundo piso. O vento arrastava cinzas sobre a crosta de vidro térmico que cobria o solo.
Elisa ajoelhou na berma de escombros. O medidor de radiação estalou duas vezes. 0,15 microsieverts por hora. Aceitável. A mochila pesava-lhe nos ombros. As plantas tilintavam no interior. O suor arrefecia-lhe na testa.
— Ali. — Rui apontou para uma porta de serviço ao nível do rés-do-chão, parcialmente obstruída por uma viga caída. — Deve dar para as caves.
Afonso ajeitou os óculos. O tablet estava desligado, a bateria em 3%.
— Se os geradores ainda funcionam, há energia. As caves podem ter sistemas de suporte de vida. — A voz saiu seca, pragmática.
Elisa olhou para o segundo andar. Um vulto movera-se lá atrás. Havia dez minutos. Podia ser ilusão. O cansaço criava sombras. Passou a mão esquerda pela nuca. Os dedos tocaram a pele fria e húmida.
— Vamos.
Desceram o talude. As botas escorregavam na crosta estaladiça. A porta de serviço era de metal, ferrugenta, com um trinco de alavanca. Rui pousou a mochila e agarrou a alavanca com as duas mãos. Os músculos dos ombros retesaram-se. O metal rangeu. A porta não cedeu.
— Emperrada.
Afonso contornou a viga e encontrou uma fenda na parede. A luz filtrava-se por uma janela de cave, gradeada. Os vidros estavam partidos.
— Por aqui.
Elisa passou a mochila pela janela primeiro, depois enfiou o corpo. O betão arranhou-lhe as costas. Aterrou no chão da cave. O ar era denso, com um cheiro a bolor e a químicos antigos. Ozono. Algo funcionava. O zumbido de um gerador vibrava nas paredes.
Rui e Afonso seguiram-na. Acenderam as lanternas. O feixe varreu uma sala ampla, com prateleiras metálicas vazias. O chão estava coberto de papéis dispersos e frascos partidos. No centro, uma escada de betão subia para o piso térreo.
— Geradores. — Afonso apontou para um painel de controlo na parede. Luzes verdes piscavam. — Alguém os ligou.
— Diana podia ter deixado programado. — A voz de Elisa saiu baixa.
Rui passou a mão pela cicatriz no pescoço.
— Ou alguém esteve aqui depois dela.
Subiram a escada. No piso térreo, o hall de entrada estava parcialmente desabado. Uma clarabóia partida deixava entrar a luz cinzenta. O vento gemia nas vigas retorcidas. Um balcão de receção, coberto de pó, dominava o espaço. Por trás, um corredor conduzia ao interior.
Elisa avançou na frente. As botas esmagavam vidros. O coração batia a 95. A mão esquerda foi à nuca. Os dedos pressionaram a pele, mas o gesto trouxe uma pontada de dor no ombro. Ignorou.
O corredor era forrado de portas, algumas arrombadas. Letreiros indicavam "Sala de Culturas", "Biologia Molecular", "Sala de Servidores". Numa das salas, a luz de emergência piscava num ciclo de três segundos aceso, dois apagado. O mesmo padrão dos bunkers do setor 7. Algo ali seguia os mesmos protocolos.
— Aqui. — Rui apontou para uma porta dupla ao fundo do corredor, com o letreiro ";Laboratório Principal";.
Elisa empurrou a porta com o ombro. Rangeu. A sala era um retângulo de quinze por dez metros. Bancadas de aço inoxidável, equipamentos cobertos de pó, armários de vidro partido. No centro, uma mesa de trabalho com um microscópio. Nas paredes, quadros brancos manchados de fórmulas apagadas. O ar cheirava a álcool e a terra seca.
Mas não era o pó que dominava a sala. Era a presença de algo funcional. No canto, uma estufa vertical, com luzes LED, zumbia baixinho. Dentro, tabuleiros de terra vazios.
— Incrível. — Afonso ajustou os óculos. — Alguém manteve isto.
Elisa aproximou-se da estufa. A vibração era mais intensa. O painel de controlo mostrava temperatura e humidade estáveis. A terra nos tabuleiros estava húmida. Alguém a regara recentemente.
O coração acelerou. Mão na nuca. A pele estava arrepiada.
— Não estamos sozinhos.
Os Cadernos de Diana
Elisa afastou-se da estufa. As luzes LED projectavam sombras azuladas nas paredes. A humidade da terra colava-se ao ar. A mão esquerda desceu da nuca. O coração ainda martelava, mas a adrenalina dava lugar a uma urgência fria. Precisava de perceber.
— Vou ver o que há por ali. — Apontou para uma porta lateral, onde um letreiro dizia "Arquivo".
Rui assentiu. A mão direita tocou a cicatriz.
— Nós exploramos o perímetro. Afonso, confere os geradores.
Afonso fungou.
— Os geradores, sim. Depois quero ver o servidor. Pode ter dados.
Separaram-se. Elisa entrou na sala do arquivo. Era um espaço exíguo, com estantes de metal a abarrotar de dossiês e caixas de papelão. O ar cheirava a papel velho e a traça. Uma lâmpada de haleto piscava intermitente. O zumbido do gerador era mais abafado ali.
Vasculhou as estantes. Muitos dossiês estavam ilegíveis, manchados de humidade. Outros continham relatórios de investigação, mas as datas eram anteriores ao cataclismo. Nada sobre o organismo sintético. Nada de Diana. Até que, num armário com porta de vidro partida, viu uma caixa de arquivo com a etiqueta: "Campos, D. — Projecto Esperança — CONFIDENCIAL".
O coração deu um salto. As mãos tremeram ao abrir a caixa. Lá dentro, cadernos de capa preta, iguais aos que usara na universidade. A letra miúda e inclinada era inconfundível. Diana escrevera aquilo.
Sentou-se no chão, de costas para a estante. A luz da lâmpada piscou. Abriu o primeiro caderno numa página ao acaso.
"O organismo sintético (OS-01) foi desenhado para metabolizar cinzas alcalinas e fixar azoto em solo estéril. Testes in vitro mostram eficiência de 78% em substrato simulado Pós-Evento."
Pós-Evento. Diana previra o cataclismo? Ou apenas projetara para um cenário hipotético? Passou a mão pela nuca. Os dedos encontraram a pele molhada de suor. Virou mais páginas.
"As plantas mutantes exibem poliploidia induzida. O genoma do OS-01 integrou-se no ADN da flora local. A transmissão é vertical. Se o protótipo foi libertado, a propagação é irreversível."
Protótipo. A palavra ecoou-lhe na mente. As plantas não eram um acaso. Eram o resultado de uma experiência. Uma experiência que Diana escondera. Porquê? A mão esquerda apertou o caderno. Os nós dos dedos ficaram brancos.
Noutra página, uma anotação mais pessoal, a letra mais trémula:
"Não posso contar a ninguém. Se descobrirem que fui eu, vão culpar-me. Talvez tenham razão. O OS-01 nunca foi testado em campo. Mas se ficar guardado, não servirá de nada. Enterrei as sementes no parque da universidade. Quem sabe..."
A frase terminava aí. O resto da página estava em branco. Elisa fechou o caderno. O peito doía. A mentora que admirava criara aquilo. E depois escondera a verdade. A culpa que Diana carregava era da mesma natureza que a sua. Mas as consequências eram diferentes. As plantas existiam. Eram reais. Eram a esperança. Mas também eram um segredo que podia destruir a confiança de todos.
Fechou os olhos. A imagem da filha surgiu. O vestido azul com flores amarelas. O riso. A última chamada que não atendeu. Se Diana tivesse partilhado o seu conhecimento, talvez o mundo estivesse preparado. Talvez... Mas não havia talvez. Havia apenas o agora.
Abriu os olhos. Guardou os cadernos na mochila. Eram a prova. Eram a chave. Mas também eram um fardo.
Levantou-se. O joelho estalou. A perna ainda latejava. Saiu do arquivo e foi ao encontro dos outros. Encontrou-os na sala dos servidores, ao lado do laboratório principal. Rui examinava um terminal antigo. Afonso ligara o tablet a uma porta USB, os óculos a reflectir linhas de código.
— Descobri alguma coisa. — Afonso não desviou os olhos do ecrã. — No diário de bordo do sistema, há entradas recentes. Alguém acedeu aos dados há três dias.
— Três dias? — Rui franziu o sobrolho. — Isso foi quando vimos as pegadas no bunker.
— Mesmo. — Afonso ajustou os óculos. — E há mais. O sistema de vigilância ainda grava. As câmaras da cave mostram movimento.
Elisa aproximou-se. O tablet mostrava uma imagem granulada, a preto e branco. Um corredor escuro. Uma sombra movia-se. Depois outra.
— Quantas pessoas?
— Pelo menos duas. — Afonso ampliou a imagem. — Mas não consigo identificar.
O silêncio caiu pesado. O dos geradores enchia o ar. O cheiro a ozono era mais intenso. Rui tocou a cicatriz.
— Então não estamos sozinhos. E quem quer que seja, pode estar a ver-nos.
Elisa olhou para as câmaras. Os olhos da sombra pareciam fitá-la. A mão esquerda foi à nuca. Desta vez, o gesto não trouxe conforto. Apenas a certeza de que o perigo estava mais próximo do que nunca.
A Voz nas Sombras
A revelação do sistema de vigilância acelerou a tensão. Elisa desligou o tablet e encarou os companheiros.
— Temos de encontrar quem está aqui. Pode ser Diana. Pode ser um sobrevivente que precise de ajuda. Ou pode ser uma armadilha.
— Ou as três coisas. — Afonso ajeitou os óculos. — Não me fio.
Rui passou a mão pela cicatriz.
— Concordemos em ser cautelosos. Vamos explorar o resto do complexo. Juntos. Sem separações.
Elisa assentiu. A espingarda ao ombro, a mochila com os cadernos e as plantas segura. Saíram da sala dos servidores. O corredor principal era mais escuro agora. A luz da clarabóia diminuíra. As lâmpadas de emergência piscavam, lançando sombras irregulares.
Avançaram em silêncio. O som das botas no betão ecoava. Cada porta que passavam era uma boca escura. Elisa contava os passos. Em cada esquina, a mão esquerda subia à nuca, mas parava a meio. O gesto tornara-se um tique que tentava controlar.
No final do corredor, uma escada de serviço subia para os pisos superiores. Os degraus de metal rangiam. Nas paredes, marcas de queimaduras recentes. Círculos com uma linha horizontal. O símbolo que vira no bunker.
— Eles estiveram aqui. — A voz de Elisa saiu seca.
— Quem? — perguntou Rui.
— Os fanáticos. Os que falaste, Afonso. Os que querem destruir tudo o que é verde.
Afonso empalideceu. Ajustou os óculos, as mãos a tremer.
— Então não é seguro. Se encontraram este sítio...
— As plantas ainda estão vivas — cortou Elisa. — E a estufa estava a funcionar. Quem quer que seja, pode não ter encontrado tudo.
Subiram mais um lance. O segundo andar era uma ala de escritórios e pequenas salas de reunião. O chão estava coberto de vidros partidos. O vento entrava por uma janela despedaçada, arrastando cinzas. No final do corredor, uma porta entreaberta deixava sair um fio de luz.
Elisa fez sinal para pararem. O coração batia a 100. A mão esquerda apertou a coronha da espingarda. Aproximou-se da porta. O cheiro que saía era diferente. Ozono, sim, mas também um odor doce, vegetal. Como a estufa, mas mais intenso.
Empurrou a porta com o ombro. A sala era um pequeno laboratório, com uma bancada ao centro. Sobre ela, frascos de cultura de tecidos, com pequenas plantas verdes. Uma luz de cultivo zumbia. Alguém trabalhava ali recentemente. As plantas estavam vivas, viçosas.
— Isto não devia estar aqui. — Afonso entrou, os olhos arregalados. — É uma réplica do trabalho da Diana.
Elisa aproximou-se da bancada. Os frascos tinham etiquetas com a letra de Diana. Datas de há dois dias. Anotações sobre o crescimento. Um caderno aberto ao lado, com esquemas genéticos. A letra era mais recente, mais tremida, mas ainda assim a dela.
— Ela esteve aqui. — A voz de Elisa saiu num fio.
De repente, um ruído. Algo a cair no corredor. Os três viraram-se. A porta rangeu. Uma sombra passou rápida. Depois, silêncio.
— Ela! — gritou Rui, e correu para o corredor.
Elisa seguiu-o. O corredor estava vazio. Apenas o vento. As cinzas dançavam. No chão, pegadas frescas na poeira. Levavam à escada que subia para o terceiro andar.
— Está lá em cima. — Rui apontou.
Subiram as escadas com cautela. O terceiro andar era um espaço amplo, com divisórias de vidro partido. No centro, uma sala de reuniões com uma mesa comprida. Nas paredes, mais quadros brancos, cheios de fórmulas e diagramas. O ar era mais frio. Algo se movia nas sombras, atrás de uma coluna.
— Mostra-te. — A voz de Elisa saiu firme, mas o coração martelava.
Nenhuma resposta. Apenas o zumbido distante dos geradores. Depois, passos lentos. Uma figura saiu das sombras. Pequena, encolhida. Um casaco de oleado, capuz erguido. As mãos tremiam.
— Não disparem. — A voz era trémula, mas feminina.
A figura recuou um passo, as mãos erguidas. O capuz caíu-lhe para trás, revelando um rosto magro, envelhecido, cabelo grisalho curto. Os olhos verdes estavam cansados, mas vivos. Ela conhecia aqueles olhos. Eram os mesmos que a tinham orientado durante anos.
— Diana? — A palavra saiu num sussurro.
A mulher hesitou. Depois, um aceno.
— Elisa. — A voz era um sopro. — Não deviam ter vindo. Mas já que estão aqui... ajudem-me.