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A Perseguição
IA
A Emboscada
Elisa levantou-se antes do sol. A luz cinzenta ainda não filtrara as vidraças sujas da estufa. O chão era duro. Raízes secas estalavam sob o peso. A luz da madrugada desenhava sombras nas plantas. O corpo doía-lhe. A perna latejava onde o vidro a cortara. Ignorou. Os músculos do pescoço contraíram-se. A mão esquerda parou a meio. Rui já estava de pé, a ajeitar a mochila. Afonso ajustava os óculos, um tique matinal. O ar dentro da estufa era denso, com odor a terra húmida e a plantas. Elisa esfreu os olhos. A cicatriz na testa ardia com o sal do suor.
— O canal fica a duzentos metros — disse Rui.
— Conheço o caminho. — A voz de Elisa saiu seca.
Saíram. O ar da manhã cheirava a cinza molhada. O vento arrastava farrapos de plástico. As botas esmagaram vidro térmico. Elisa contava os passos. Cem. Duzentos. O medidor de radiação no bolso estalou: 0,2. Tolerável. A mochila com as plantas pesava-lhe nos ombros. Cada fibra do cinto marcava a pele. Os ombros doíam. O peso era familiar. O frasco de água batia na coxa. Verificou o fecho da mochila. As plantas estavam seguras. Os tubos de ensaio tiniam ligeiramente. O vidro era frágil. Cada passo era um risco.
Seguiram o antigo canal de irrigação. As paredes de betão estavam rachadas, com manchas de bolor negro. O chão era um lençol de cascalho. O canal tinha sido uma artéria de irrigação nos campos de cultivo, agora estéreis. As paredes tinham marcas de balas antigas. Um odor a decomposição vegetal misturava-se com o bolor. O céu estava baço, cor de chumbo. Rui ia na frente, Afonso no meio, Elisa na retaguarda. Ninguém falava. O silêncio era denso, cortado apenas pelo ranger das botas. O vento soprava rajadas frias que levantavam pó. Elisa sentia o suor arrefecer na testa. Manteve o olhar nos escombros. A cada passo, o instinto alertava-a. O canal era uma armadilha natural. Os ombros encolhiam-se a cada sombra.
Ao longe, uma estrutura metálica torcida bloqueava o caminho. Rui parou. Agachou-se, examinou o bloqueio. A estrutura era uma antiga comporta, retorcida como um cadáver. As marcas de ferramentas eram recentes. Alguém a soldara ali.
— Temos de contornar.
Afonso fungou.
— Aquilo não estava aqui há semanas. Alguém o moveu.
Elisa apertou a espingarda. O coração acelerou. Mão na nuca. Os dedos cravaram-se na pele. A pele estava fria. O aço da espingarda gelava as palmas.
Rui ergueu a mão.
— Ouçam.
Elisa conteve a respiração. O ar pareceu mais denso. O coração batia-lhe no peito. Os dedos no gatilho estavam brancos. Rui olhou para trás. Os olhos encontraram os dela. Nenhum piscou.
O vento trouxe um som. Botas. Muitas. O ruído de cascalho pisado. Vinham dos lados. Elisa virou-se. Vultos surgiam por entre os escombros. Cinco, talvez seis. Braçadeiras azuis no braço esquerdo. Homens de Davi. Os vultos usavam casacos militares esfarrapados. As braçadeiras azuis estavam manchadas de fuligem. O líder tinha uma pistola no coldre, mas não a sacou. Em vez disso, avançou um passo, confiante.
— Eles sabiam que vínhamos — murmurou Afonso.
Uma voz gritou:
— Entreguem as plantas e ninguém sai magoado!
Elisa não respondeu. Levou a espingarda ao ombro. A mira alinhou com o peito do que falara. O gatilho tinha resistência. Não puxou. Rui avançou um passo.
— Não temos nada para vocês.
Os homens aproximaram-se. O líder, um tipo atarracado com uma cicatriz na testa, sorriu. O ar à volta dele cheirava a suor e tabaco velho.
— O Davi manda cumprimentos.
Elisa disparou. O ombro do líder explodiu. Sangue. Cambaleou. O cheiro a pólvora queimada misturou-se com o odor a ferrugem do canal. Os outros avançaram. Rui largou a mochila e atirou-se ao primeiro. O punho dele entrou em cheio no rosto do homem. O som foi um estalo surdo. O atacante caiu. Rui rodou, a perna a varrer outro. Força inesperada. A cicatriz no pescoço brilhou com suor. O segundo homem bateu com as costas no chão, o ar a sair-lhe dos pulmões num grunhido. Afonso recuou, olhando em redor. Viu uma pilha de blocos de betão soltos. Gritou:
— Elisa, cobre-me!
Afonso correu para os blocos. As mãos tremeram nos óculos. Empurrou um bloco. Depois outro. A pilha cedeu. Os escombros rolaram sobre dois homens que tentavam flanquear. O pó subiu. Eles gritaram. O som do betão a bater na carne foi um estrondo abafado. Elisa disparou outra vez. A bala passou de raspão. O coração martelava-lhe nos ouvidos. As plantas. Tinha de as proteger. Um homem agarrou-lhe o braço. Ela torceu-se, o cotovelo a atingir-lhe o nariz. Sangue. O homem grunhiu. Elisa largou a espingarda e puxou uma faca do cinto. A lâmina era curta, mas afiada. Golpeou o ar. O homem recuou. A lâmina assobiou. O homem ergueu as mãos, mas outro atacante surgiu pela esquerda.
Rui estava a lutar com dois. Um conseguiu acertar-lhe no ombro com um bastão. O impacto foi um estalo que ecoou no canal. Rui rangeu os dentes, mas não caiu. Agarrou o bastão e puxou. O homem desequilibrou-se. Rui deu-lhe uma cabeçada. O som foi oco. O outro atacante hesitou. Rui avançou, os punhos como martelos. O cheiro a sangue e suor era intenso. O bastão caíra, e Rui pontapeou-o para longe.
Afonso, atrás dos escombros, encontrou um pedaço de cano. Ergueu-o como uma clava.
— Chega! — gritou.
Atirou o cano a um homem que tentava cercar Elisa. O ferro atingiu-lhe as costas. Ele caiu de joelhos. O homem gemeu, as mãos a agarrar a terra. Elisa viu a oportunidade. Agarrou a espingarda do chão e apontou ao líder que se levantava, o ombro ensanguentado.
— Fora! — A voz dela era um rosnado.
O líder olhou para os companheiros caídos. Dois estavam inconscientes. Outro mancava. O vento levantou cinza. Ele cuspiu sangue. Os olhos estavam raiados de vermelho.
— Isto não fica assim.
Recuou, arrastando os feridos. Os vultos desapareceram por entre as ruínas.
O silêncio caiu. Elisa ficou imóvel, a respiração ofegante. O ar arranhava a garganta. As mãos tremiam. As pernas tremiam. O suor escorria para os olhos. A cada inspiração, o peito doía. A mochila das plantas estava intacta, apertada contra o peito. Rui encostou-se a uma parede, o ombro a sangrar. O sangue empapava a manga do casaco. Afonso ajeitou os óculos, as lentes rachadas.
— Vamos. Antes que voltem. — A voz de Rui saiu rouca.
Elisa assentiu. Respirou fundo. Os dedos não foram à nuca. Em vez disso, apertaram a correia da mochila. O instinto de fuga sobrepôs-se ao tique. Viraram-se e seguiram canal abaixo, mais depressa do que antes. O som das botas no cascalho era agora urgente. O silêncio que se seguiu foi pesado. Nenhum pássaro. Nenhum vento. Apenas o ranger distante de algo metálico. Elisa olhou para as mãos. Estavam sujas de sangue. Não sabia se era o seu.
A Gruta e a Refeição
Andaram durante uma hora, tropeçando em entulho. O canal desembocava num descampado onde os esqueletos de carros se amontoavam. O vento levantara cinza que arranhava os olhos. A luz do sol era um disco pálido atrás das nuvens. Rui parou junto a uma colina de terra batida.
— Ali. — Apontou para uma abertura escura.
Era uma gruta natural, talvez uma antiga mina. A entrada era baixa. Tiveram de rastejar para entrar. A rocha raspou nas costas. O interior cheirava a terra seca e a guano de morcego. Gotas de água pingavam em algum ponto. O som ecoava nas paredes. Plique. Plique. Irregular. O chão era de areia grossa, misturada com fragmentos de rocha. Uma réstia de luz entrava por uma fenda no teto, mostrando paredes húmidas. A temperatura descera rapidamente. O ar agarrava-se à pele, frio e viscoso. A humidade penetrava a roupa. O silêncio aqui era absoluto, exceto pelo plique-plique das gotas e pelo arrastar das botas.
Elisa pousou a mochila com cuidado. Os tubos de ensaio tilintaram. Afonso sentou-se, as costas contra a parede. Tirou os óculos, limpou as lentes com a ponta da camisa. A luz da fenda refletiu nos vidros, criando um brilho mortiço.
— Bem-vindos ao palácio — murmurou.
Rui despiu o casaco. O ombro esquerdo tinha um golpe feio, mas superficial. Sangue coagulado. A ferida latejava ao ritmo do coração. Tirou um frasco de álcool da mochila e despejou sobre o ferimento. Rangeu os dentes, mas não gemeu. O cheiro a álcool misturou-se com o odor a terra. A pele à volta ficou avermelhada.
Elisa aproximou-se.
— Deixa-me ver.
Rui hesitou. Depois deixou. Ela examinou o corte. A pele estava rasgada, mas limpa. Os bordos não eram profundos. Com um pano, limpou o sangue seco. Depois enrolou uma ligadura com firmeza. As mãos dela ainda tremiam ligeiramente. O toque era firme.
— Obrigado — disse Rui.
Ela acenou. Afonso observava, os óculos de volta ao nariz. Ajeitou-os com um gesto lento.
— Aquilo foi demasiado perto.
— Foi. — Elisa sentou-se. A exaustão pesava-lhe. Os ossos doíam. — Mas estamos vivos.
Rui abriu a mochila e tirou um pacote de comida seca. Bolachas de cereal e carne desidratada.
— Jantar.
Dividiram em três porções iguais, usando a mão como medida. A água foi racionada: apenas um gole cada. Comeram em silêncio. A luz da fenda era agora um fio ténue. O som da mastigação ecoava na gruta. A carne desidratada era rija, salgada. As bolachas esfarelavam-se entre os dentes. A água sabia a metal, mas era fresca e aliviava a garganta seca. Rui guardou o resto da comida. Afonso lambeu os dedos.
Afonso fungou.
— Como sabiam onde estávamos?
— Ivo? — perguntou Rui.
— Não. O Ivo não sabia esta rota. — Elisa passou a mão pela nuca, mas deteve-se. Em vez disso, coçou o braço. A pele estava suja. — Alguém nos seguiu desde a estufa.
— Ou o Davi tem informadores em todo o lado — disse Afonso.
O silêncio caiu de novo. O frio da noite entrava pela entrada. Rui olhou para o bolso do casaco. A mão direita tocou-o, um gesto quase involuntário. Elisa reparou.
— O que tens aí?
Rui desviou o olhar. A mão permaneceu no bolso.
— Nada de importante.
— Rui... — A voz de Elisa era calma, mas firme.
Ele suspirou. Tirou do bolso um pequeno embrulho de pano. Desdobrou-o. Dentro, uma semente minúscula, escura, com uma mancha clara.
— Era da minha mulher. A única coisa que guardo. — A voz dele era um fio.
Elisa olhou para a semente. Conhecia-a. Era idêntica às que Diana descrevera no diário. A confirmação do que Rui lhe contara.
— Ela era assistente da Diana, não era?
Rui assentiu.
— Roubou o protótipo antes do cataclismo. Eu não sabia. — Os dedos dele fecharam-se à volta da semente. — Plantei-a sem querer. Deu origem às tuas plantas.
Afonso ajeitou os óculos.
— Portanto, a culpa é tua. — A voz soou plana, sem inflexão.
Rui não riu.
— Talvez. Mas sem isso, não teríamos esperança nenhuma.
Elisa estendeu a mão e cobriu a dele. A pele era áspera, quente.
— Ela fez a coisa certa. E tu também.
Rui olhou para ela. Os olhos castanhos brilhavam na penumbra. Não disse nada. Guardou a semente, enrolando o pano com cuidado.
Afonso tossiu.
— Bom, ao menos temos uma história triste. Todas as famílias felizes são iguais, não é?
Elisa virou-se para ele.
— E a tua, Afonso? O que te trouxe aqui?
Ele ajustou os óculos. A luz da fenda refletiu nas lentes, escondendo os olhos.
— Sobrevivi. — A voz saiu neutra. — Como toda a gente.
— Mas havia mais... — insistiu Elisa.
Afonso levantou-se e foi até à entrada da gruta. Olhou para o céu cinzento. As costas curvadas. As mãos nos bolsos. O vento trouxe um cheiro a cinza.
— Há coisas que é melhor não desenterrar. — Fez uma pausa. — O passado já pesa o suficiente.
Não disse mais nada. Elisa trocou um olhar com Rui. Ambos perceberam que não deviam insistir. Cada um tinha as suas ruínas.
A noite caiu por completo. A escuridão era total. Acenderam uma vela. A chama tremeluziu, projectando sombras nas paredes irregulares. A cera derretida pingou na areia. O calor era escasso. Partilharam mais uma rodada de água. Falaram pouco. Frases soltas sobre o laboratório, sobre o que esperar. Rui mostrou o mapa, os dedos a traçar a rota. A temperatura desceu mais. Encostaram-se uns aos outros para conservar calor. O ombro de Rui estava quente. O corpo de Afonso tremia ligeiramente. Elisa sentia o cansaço a puxar-lhe os membros. O som das gotas continuava, um pano de fundo constante. A gruta era um casulo. Por vezes, um morcego soltava um guincho agudo. O frio não os abandonou, mas estavam juntos. O cansaço venceu a tensão. Adormeceram, cada um a seu tempo, numa vigília partilhada.
O primeiro a acordar foi Rui. A luz cinzenta da fenda já desenhava um rectângulo na areia. O ombro latejava menos. Olhou para os companheiros. Elisa dormia de boca aberta. Afonso ressonava baixinho. Rui não os acordou logo. Deixou-os descansar mais uns minutos. Depois, tocou no ombro de Elisa.
— Está na hora.
Na manhã seguinte, a luz da fenda acordou-os. O corpo de Elisa doía mais. A perna latejava. Mas o ânimo estava diferente. Menos pesado. Rui verificou o ombro. A ligadura estava limpa. Afonso limpou os óculos com a ponta da camisa, as lentes agora menos sujas.
— Temos de continuar.
Saíram da gruta. O céu continuava cor de chumbo. O vento soprava cinza. Caminharam para norte, seguindo o mapa de Rui. O descampado tornou-se uma planície de entulho. Passaram por carcaças de veículos, postes derrubados, silos vazios. O ar cheirava a ferrugem e a plástico queimado. O sol estava alto, mas a luz era difusa, sem calor.
Horas depois, o terreno começou a subir. Subiram a colina de escombros coberta de uma crosta vítrea. A superfície estalava sob as botas. Cada passo exigia equilíbrio. O suor escorria-lhes pelas frontes. Rui foi o primeiro a chegar ao topo. Parou. O corpo enrijeceu.
Elisa alcançou-o, ofegante. O coração acelerou. O que viu apertou-lhe o peito.
No horizonte, recortado contra o céu plúmbeo, erguia-se o laboratório. Uma estrutura de betão e aço, com janelas escuras. Mas não estava morto. Algo se movia num dos andares superiores. Um vulto. Depois outro. Sombra contra a luz baça.
— Alguém está lá — murmurou Afonso.
Elisa os pelos da nuca eriçaram-se. Os dedos não foram à pele. Ficaram imóveis.
O laboratório não estava abandonado.
Elisa levantou-se antes do sol. A luz cinzenta ainda não filtrara as vidraças sujas da estufa. O chão era duro. Raízes secas estalavam sob o peso. A luz da madrugada desenhava sombras nas plantas. O corpo doía-lhe. A perna latejava onde o vidro a cortara. Ignorou. Os músculos do pescoço contraíram-se. A mão esquerda parou a meio. Rui já estava de pé, a ajeitar a mochila. Afonso ajustava os óculos, um tique matinal. O ar dentro da estufa era denso, com odor a terra húmida e a plantas. Elisa esfreu os olhos. A cicatriz na testa ardia com o sal do suor.
— O canal fica a duzentos metros — disse Rui.
— Conheço o caminho. — A voz de Elisa saiu seca.
Saíram. O ar da manhã cheirava a cinza molhada. O vento arrastava farrapos de plástico. As botas esmagaram vidro térmico. Elisa contava os passos. Cem. Duzentos. O medidor de radiação no bolso estalou: 0,2. Tolerável. A mochila com as plantas pesava-lhe nos ombros. Cada fibra do cinto marcava a pele. Os ombros doíam. O peso era familiar. O frasco de água batia na coxa. Verificou o fecho da mochila. As plantas estavam seguras. Os tubos de ensaio tiniam ligeiramente. O vidro era frágil. Cada passo era um risco.
Seguiram o antigo canal de irrigação. As paredes de betão estavam rachadas, com manchas de bolor negro. O chão era um lençol de cascalho. O canal tinha sido uma artéria de irrigação nos campos de cultivo, agora estéreis. As paredes tinham marcas de balas antigas. Um odor a decomposição vegetal misturava-se com o bolor. O céu estava baço, cor de chumbo. Rui ia na frente, Afonso no meio, Elisa na retaguarda. Ninguém falava. O silêncio era denso, cortado apenas pelo ranger das botas. O vento soprava rajadas frias que levantavam pó. Elisa sentia o suor arrefecer na testa. Manteve o olhar nos escombros. A cada passo, o instinto alertava-a. O canal era uma armadilha natural. Os ombros encolhiam-se a cada sombra.
Ao longe, uma estrutura metálica torcida bloqueava o caminho. Rui parou. Agachou-se, examinou o bloqueio. A estrutura era uma antiga comporta, retorcida como um cadáver. As marcas de ferramentas eram recentes. Alguém a soldara ali.
— Temos de contornar.
Afonso fungou.
— Aquilo não estava aqui há semanas. Alguém o moveu.
Elisa apertou a espingarda. O coração acelerou. Mão na nuca. Os dedos cravaram-se na pele. A pele estava fria. O aço da espingarda gelava as palmas.
Rui ergueu a mão.
— Ouçam.
Elisa conteve a respiração. O ar pareceu mais denso. O coração batia-lhe no peito. Os dedos no gatilho estavam brancos. Rui olhou para trás. Os olhos encontraram os dela. Nenhum piscou.
O vento trouxe um som. Botas. Muitas. O ruído de cascalho pisado. Vinham dos lados. Elisa virou-se. Vultos surgiam por entre os escombros. Cinco, talvez seis. Braçadeiras azuis no braço esquerdo. Homens de Davi. Os vultos usavam casacos militares esfarrapados. As braçadeiras azuis estavam manchadas de fuligem. O líder tinha uma pistola no coldre, mas não a sacou. Em vez disso, avançou um passo, confiante.
— Eles sabiam que vínhamos — murmurou Afonso.
Uma voz gritou:
— Entreguem as plantas e ninguém sai magoado!
Elisa não respondeu. Levou a espingarda ao ombro. A mira alinhou com o peito do que falara. O gatilho tinha resistência. Não puxou. Rui avançou um passo.
— Não temos nada para vocês.
Os homens aproximaram-se. O líder, um tipo atarracado com uma cicatriz na testa, sorriu. O ar à volta dele cheirava a suor e tabaco velho.
— O Davi manda cumprimentos.
Elisa disparou. O ombro do líder explodiu. Sangue. Cambaleou. O cheiro a pólvora queimada misturou-se com o odor a ferrugem do canal. Os outros avançaram. Rui largou a mochila e atirou-se ao primeiro. O punho dele entrou em cheio no rosto do homem. O som foi um estalo surdo. O atacante caiu. Rui rodou, a perna a varrer outro. Força inesperada. A cicatriz no pescoço brilhou com suor. O segundo homem bateu com as costas no chão, o ar a sair-lhe dos pulmões num grunhido. Afonso recuou, olhando em redor. Viu uma pilha de blocos de betão soltos. Gritou:
— Elisa, cobre-me!
Afonso correu para os blocos. As mãos tremeram nos óculos. Empurrou um bloco. Depois outro. A pilha cedeu. Os escombros rolaram sobre dois homens que tentavam flanquear. O pó subiu. Eles gritaram. O som do betão a bater na carne foi um estrondo abafado. Elisa disparou outra vez. A bala passou de raspão. O coração martelava-lhe nos ouvidos. As plantas. Tinha de as proteger. Um homem agarrou-lhe o braço. Ela torceu-se, o cotovelo a atingir-lhe o nariz. Sangue. O homem grunhiu. Elisa largou a espingarda e puxou uma faca do cinto. A lâmina era curta, mas afiada. Golpeou o ar. O homem recuou. A lâmina assobiou. O homem ergueu as mãos, mas outro atacante surgiu pela esquerda.
Rui estava a lutar com dois. Um conseguiu acertar-lhe no ombro com um bastão. O impacto foi um estalo que ecoou no canal. Rui rangeu os dentes, mas não caiu. Agarrou o bastão e puxou. O homem desequilibrou-se. Rui deu-lhe uma cabeçada. O som foi oco. O outro atacante hesitou. Rui avançou, os punhos como martelos. O cheiro a sangue e suor era intenso. O bastão caíra, e Rui pontapeou-o para longe.
Afonso, atrás dos escombros, encontrou um pedaço de cano. Ergueu-o como uma clava.
— Chega! — gritou.
Atirou o cano a um homem que tentava cercar Elisa. O ferro atingiu-lhe as costas. Ele caiu de joelhos. O homem gemeu, as mãos a agarrar a terra. Elisa viu a oportunidade. Agarrou a espingarda do chão e apontou ao líder que se levantava, o ombro ensanguentado.
— Fora! — A voz dela era um rosnado.
O líder olhou para os companheiros caídos. Dois estavam inconscientes. Outro mancava. O vento levantou cinza. Ele cuspiu sangue. Os olhos estavam raiados de vermelho.
— Isto não fica assim.
Recuou, arrastando os feridos. Os vultos desapareceram por entre as ruínas.
O silêncio caiu. Elisa ficou imóvel, a respiração ofegante. O ar arranhava a garganta. As mãos tremiam. As pernas tremiam. O suor escorria para os olhos. A cada inspiração, o peito doía. A mochila das plantas estava intacta, apertada contra o peito. Rui encostou-se a uma parede, o ombro a sangrar. O sangue empapava a manga do casaco. Afonso ajeitou os óculos, as lentes rachadas.
— Vamos. Antes que voltem. — A voz de Rui saiu rouca.
Elisa assentiu. Respirou fundo. Os dedos não foram à nuca. Em vez disso, apertaram a correia da mochila. O instinto de fuga sobrepôs-se ao tique. Viraram-se e seguiram canal abaixo, mais depressa do que antes. O som das botas no cascalho era agora urgente. O silêncio que se seguiu foi pesado. Nenhum pássaro. Nenhum vento. Apenas o ranger distante de algo metálico. Elisa olhou para as mãos. Estavam sujas de sangue. Não sabia se era o seu.
A Gruta e a Refeição
Andaram durante uma hora, tropeçando em entulho. O canal desembocava num descampado onde os esqueletos de carros se amontoavam. O vento levantara cinza que arranhava os olhos. A luz do sol era um disco pálido atrás das nuvens. Rui parou junto a uma colina de terra batida.
— Ali. — Apontou para uma abertura escura.
Era uma gruta natural, talvez uma antiga mina. A entrada era baixa. Tiveram de rastejar para entrar. A rocha raspou nas costas. O interior cheirava a terra seca e a guano de morcego. Gotas de água pingavam em algum ponto. O som ecoava nas paredes. Plique. Plique. Irregular. O chão era de areia grossa, misturada com fragmentos de rocha. Uma réstia de luz entrava por uma fenda no teto, mostrando paredes húmidas. A temperatura descera rapidamente. O ar agarrava-se à pele, frio e viscoso. A humidade penetrava a roupa. O silêncio aqui era absoluto, exceto pelo plique-plique das gotas e pelo arrastar das botas.
Elisa pousou a mochila com cuidado. Os tubos de ensaio tilintaram. Afonso sentou-se, as costas contra a parede. Tirou os óculos, limpou as lentes com a ponta da camisa. A luz da fenda refletiu nos vidros, criando um brilho mortiço.
— Bem-vindos ao palácio — murmurou.
Rui despiu o casaco. O ombro esquerdo tinha um golpe feio, mas superficial. Sangue coagulado. A ferida latejava ao ritmo do coração. Tirou um frasco de álcool da mochila e despejou sobre o ferimento. Rangeu os dentes, mas não gemeu. O cheiro a álcool misturou-se com o odor a terra. A pele à volta ficou avermelhada.
Elisa aproximou-se.
— Deixa-me ver.
Rui hesitou. Depois deixou. Ela examinou o corte. A pele estava rasgada, mas limpa. Os bordos não eram profundos. Com um pano, limpou o sangue seco. Depois enrolou uma ligadura com firmeza. As mãos dela ainda tremiam ligeiramente. O toque era firme.
— Obrigado — disse Rui.
Ela acenou. Afonso observava, os óculos de volta ao nariz. Ajeitou-os com um gesto lento.
— Aquilo foi demasiado perto.
— Foi. — Elisa sentou-se. A exaustão pesava-lhe. Os ossos doíam. — Mas estamos vivos.
Rui abriu a mochila e tirou um pacote de comida seca. Bolachas de cereal e carne desidratada.
— Jantar.
Dividiram em três porções iguais, usando a mão como medida. A água foi racionada: apenas um gole cada. Comeram em silêncio. A luz da fenda era agora um fio ténue. O som da mastigação ecoava na gruta. A carne desidratada era rija, salgada. As bolachas esfarelavam-se entre os dentes. A água sabia a metal, mas era fresca e aliviava a garganta seca. Rui guardou o resto da comida. Afonso lambeu os dedos.
Afonso fungou.
— Como sabiam onde estávamos?
— Ivo? — perguntou Rui.
— Não. O Ivo não sabia esta rota. — Elisa passou a mão pela nuca, mas deteve-se. Em vez disso, coçou o braço. A pele estava suja. — Alguém nos seguiu desde a estufa.
— Ou o Davi tem informadores em todo o lado — disse Afonso.
O silêncio caiu de novo. O frio da noite entrava pela entrada. Rui olhou para o bolso do casaco. A mão direita tocou-o, um gesto quase involuntário. Elisa reparou.
— O que tens aí?
Rui desviou o olhar. A mão permaneceu no bolso.
— Nada de importante.
— Rui... — A voz de Elisa era calma, mas firme.
Ele suspirou. Tirou do bolso um pequeno embrulho de pano. Desdobrou-o. Dentro, uma semente minúscula, escura, com uma mancha clara.
— Era da minha mulher. A única coisa que guardo. — A voz dele era um fio.
Elisa olhou para a semente. Conhecia-a. Era idêntica às que Diana descrevera no diário. A confirmação do que Rui lhe contara.
— Ela era assistente da Diana, não era?
Rui assentiu.
— Roubou o protótipo antes do cataclismo. Eu não sabia. — Os dedos dele fecharam-se à volta da semente. — Plantei-a sem querer. Deu origem às tuas plantas.
Afonso ajeitou os óculos.
— Portanto, a culpa é tua. — A voz soou plana, sem inflexão.
Rui não riu.
— Talvez. Mas sem isso, não teríamos esperança nenhuma.
Elisa estendeu a mão e cobriu a dele. A pele era áspera, quente.
— Ela fez a coisa certa. E tu também.
Rui olhou para ela. Os olhos castanhos brilhavam na penumbra. Não disse nada. Guardou a semente, enrolando o pano com cuidado.
Afonso tossiu.
— Bom, ao menos temos uma história triste. Todas as famílias felizes são iguais, não é?
Elisa virou-se para ele.
— E a tua, Afonso? O que te trouxe aqui?
Ele ajustou os óculos. A luz da fenda refletiu nas lentes, escondendo os olhos.
— Sobrevivi. — A voz saiu neutra. — Como toda a gente.
— Mas havia mais... — insistiu Elisa.
Afonso levantou-se e foi até à entrada da gruta. Olhou para o céu cinzento. As costas curvadas. As mãos nos bolsos. O vento trouxe um cheiro a cinza.
— Há coisas que é melhor não desenterrar. — Fez uma pausa. — O passado já pesa o suficiente.
Não disse mais nada. Elisa trocou um olhar com Rui. Ambos perceberam que não deviam insistir. Cada um tinha as suas ruínas.
A noite caiu por completo. A escuridão era total. Acenderam uma vela. A chama tremeluziu, projectando sombras nas paredes irregulares. A cera derretida pingou na areia. O calor era escasso. Partilharam mais uma rodada de água. Falaram pouco. Frases soltas sobre o laboratório, sobre o que esperar. Rui mostrou o mapa, os dedos a traçar a rota. A temperatura desceu mais. Encostaram-se uns aos outros para conservar calor. O ombro de Rui estava quente. O corpo de Afonso tremia ligeiramente. Elisa sentia o cansaço a puxar-lhe os membros. O som das gotas continuava, um pano de fundo constante. A gruta era um casulo. Por vezes, um morcego soltava um guincho agudo. O frio não os abandonou, mas estavam juntos. O cansaço venceu a tensão. Adormeceram, cada um a seu tempo, numa vigília partilhada.
O primeiro a acordar foi Rui. A luz cinzenta da fenda já desenhava um rectângulo na areia. O ombro latejava menos. Olhou para os companheiros. Elisa dormia de boca aberta. Afonso ressonava baixinho. Rui não os acordou logo. Deixou-os descansar mais uns minutos. Depois, tocou no ombro de Elisa.
— Está na hora.
Na manhã seguinte, a luz da fenda acordou-os. O corpo de Elisa doía mais. A perna latejava. Mas o ânimo estava diferente. Menos pesado. Rui verificou o ombro. A ligadura estava limpa. Afonso limpou os óculos com a ponta da camisa, as lentes agora menos sujas.
— Temos de continuar.
Saíram da gruta. O céu continuava cor de chumbo. O vento soprava cinza. Caminharam para norte, seguindo o mapa de Rui. O descampado tornou-se uma planície de entulho. Passaram por carcaças de veículos, postes derrubados, silos vazios. O ar cheirava a ferrugem e a plástico queimado. O sol estava alto, mas a luz era difusa, sem calor.
Horas depois, o terreno começou a subir. Subiram a colina de escombros coberta de uma crosta vítrea. A superfície estalava sob as botas. Cada passo exigia equilíbrio. O suor escorria-lhes pelas frontes. Rui foi o primeiro a chegar ao topo. Parou. O corpo enrijeceu.
Elisa alcançou-o, ofegante. O coração acelerou. O que viu apertou-lhe o peito.
No horizonte, recortado contra o céu plúmbeo, erguia-se o laboratório. Uma estrutura de betão e aço, com janelas escuras. Mas não estava morto. Algo se movia num dos andares superiores. Um vulto. Depois outro. Sombra contra a luz baça.
— Alguém está lá — murmurou Afonso.
Elisa os pelos da nuca eriçaram-se. Os dedos não foram à pele. Ficaram imóveis.
O laboratório não estava abandonado.