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Encontro no Ermo
IA
Encontro no Bunker
A luz de emergência no teto do corredor piscava no padrão dos bunkers do setor 7: três segundos ligada, dois desligada. O ar cheirava a ferrugem húmida e ozono residual. A humidade colava a roupa à pele. O medidor de radiação emitiu um sinal: 0,21 microsieverts por hora. Aceitável. A máscara assobiava a cada inspiração. Elisa contava os passos. Oito desde a curva. O eco das botas no metal traía a presença. As paredes tinham fissuras escuras. O silêncio latejava. Parou. O coração batia a 90. O ar reciclado sabia a metal. A garganta seca. O cantil meio vazio. Não beberia. Primeiro, o encontro. Mão firme na arma. Dedos frios. Coronha granulada. Avançou três passos. A porta à frente estava entreaberta. Uma faísca azul brilhou do interior. Vozes. Duas. Tom baixo. Não ouviu risos. Não ouviu gritos. Aproximou-se. O painel da porta carbonizado, fios expostos. Empurrou a porta com o ombro. A dobradiça rangeu. O som propagou-se no silêncio. As vozes calaram-se.
No interior, a sala dos servidores era um retângulo de dez por seis metros. Prateleiras vazias. Caixas de cabos, discos partidos no chão. Uma poça de água suja refletia a luz de uma lanterna portátil. Na parede dos fundos, uma marca queimada: um círculo com uma linha horizontal cortada, como um alvo riscado. Dois vultos junto a um terminal quebrado. Um segurava a lanterna, o outro tinha um tablet. A luz varreu o espaço e incidiu no rosto de Elisa. Ela ergueu a arma.
— Parados.
O homem com a lanterna levantou as mãos. A mão direita tocou a cicatriz irregular no pescoço antes de subir. O outro fechou o tablet e ajeitou os óculos no nariz. Imóvel.
— Não dispares — disse o da cicatriz. A voz saiu grossa e uniforme. — Somos dois. Não vale a pena gastar munição.
Elisa manteve a mira no centro do peito dele. A arma pesava 2,3 quilogramas. O cano alinhado com o esterno. O gatilho tinha uma resistência de 2,5 quilogramas. Não puxaria. Ainda não.
— Nomes? — A pergunta foi seca.
— Rui Santos. — A mão direita tocou a cicatriz, um gesto que Elisa começaria a reconhecer. — E o do tablet é o Afonso Castro. Engenheiro de sistemas. Ou era.
— Não divulgues informações pessoais a intrusos — resmungou Afonso. Olhou para Elisa. — Quem és tu?
— Elisa Moreira. Bióloga de campo. — Disse o título por hábito.
— Bióloga. — Afonso inclinou a cabeça. — Já não há muito campo para biologia.
— Depende do que se procura. — Elisa baixou a arma um centímetro. — O que fazem aqui?
Rui respondeu:
— Recolhemos equipamento. Baterias, componentes, dados de servidores antigos. Este sítio foi uma estação de monitorização ambiental antes do colapso. Há discos rígidos que podem conter informação útil.
— Informação para quê?
— Sobrevivência. Saber zonas contaminadas, lençóis de água potáveis, sementes viáveis.
Afonso fungou.
— Ou pelo menos saber onde não ir. Que já é uma vitória.
Elisa estudou-os. Rui: ombros largos, rosto marcado, olhos atentos. A cicatriz no pescoço parecia antiga, bordos lisos. Afonso: mais magro, dedos ágeis no tablet, óculos grossos e arranhados. O tablet mostrava uma interface de diagnóstico. Código corrompido.
— Preciso de água — disse Elisa.
Rui desapertou o cantil e atirou-o. O cantil bateu no chão a dois passos.
— Temos um pouco extra. Podes beber.
Elisa agachou-se sem desviar a mira. Os joelhos estalaram. A mão esquerda agarrou o cantil. A tampa estava húmida. Abriu, cheirou. Sem odor a químicos. Bebeu dois goles. A água morna sabia a metal. O corpo absorveu-a. A garganta parou de arder. Fechou o cantil e levantou-se.
— Obrigada.
— Educação — comentou Afonso. — Isso é raro.
Elisa guardou o cantil no cinto. Hesitou. Depois tirou um cartucho de filtro do bolso.
— Vou pagar. Isto vale pela água.
Rui olhou para o filtro. Depois para Afonso.
— E a informação que ias dar?
— A informação é a troca. Aceitam ou não?
Afonso ajeitou os óculos.
— Depende do que trouxeres.
Elisa tirou o mapa laminado do bolso.
— Estou a seguir um sinal de rádio. Frequência 121,5 megahertz. Transmissão intermitente durante as últimas três noites. Origem aproximada neste quadrante. — Apontou uma área no mapa. — Conhecem a zona?
Afonso deu um passo e ajustou os óculos. As lentes ampliaram as pupilas. Estudou o mapa.
— Isto é o sistema de esgotos do setor 7. As condutas profundas. — O dedo percorreu uma linha. — Esta aqui está marcada como colapsada há meses. Mas pode ter sido desobstruída pelas chuvas.
— Foi o que pensei.
— As chuvas eram ácidas — interrompeu Afonso. — Se abriram passagem, o ar pode ter ácido sulfúrico diluído. Filtros específicos. Comprimidos de iodeto se a radiação aumentar.
Elisa apontou para a máscara.
— Tenho filtros N95 com cartuchos para vapores ácidos. E iodeto de potássio para três dias.
Afonso arqueou as sobrancelhas.
— Preparada. Gosto disso.
Rui coçou a cicatriz. Pausa. Desta vez, a mão ficou suspensa um instante antes de tocar a pele. Os olhos dele iam para o bolso do casaco. O tecido estalou quando ele remexeu.
— Por que estás tão interessada nesse sinal? — perguntou. — Pode ser uma armadilha. Ou um loop de emergência antigo.
— Pode ser alguém a pedir ajuda.
— Ajuda. — Afonso ajustou os óculos. — Há dois anos que ninguém a diz.
— Para mim, não.
Rui e Afonso trocaram um olhar. Afonso ajeitou os óculos. Rui tocou a cicatriz. Depois suspirou.
— Muito bem. Aceito ajudar-te. Temporariamente. — Rui olhou para Afonso. — E tu?
Afonso resmungou.
— Se tiver mais mapas e filtros, a relação custo-benefício pode ser positiva. Mas exijo acesso a todos os dados que encontrarmos.
Elisa assentiu.
— Aceito. Acesso total. E ficas com o cartucho.
Atirou o filtro a Afonso, que o agarrou no ar.
— Filtro N95. Quase novo. Vale mais que a água.
Afonso examinou-o.
— Negócio fechado.
Estendeu a mão. Elisa apertou-a. A mão dele estava fria, com calos nas pontas dos dedos. Rui também estendeu a mão. A dele era quente e áspera. O contacto demorou dois segundos.
Elisa verificou o contador de munições. Cinco balas na arma. Mais oito no cinto. Treze. Suficientes. Rui mostrou duas baterias extra na mochila.
— Podemos recarregar o tablet mais tarde.
Afonso acenou.
— O mapa de condutas precisa de atualização. Vou descarregando os dados do servidor.
— Então vamos — disse Rui. — A noite não espera.
O grupo moveu-se para a saída. O corredor estreito. Botas ecoando, três pares. Ritmo irregular. Elisa contava os passos. Rui mantinha a mão perto da cicatriz. Afonso com o tablet encostado ao peito, luz verde pálida no queixo. O ar mudou: mais frio, travo metálico. Medidor de radiação: 0,18. Boca seca. Não bebeu. Racionar. A porta exterior era uma escotilha de aço com ferrugem. Válvula emperrada. Elisa rodou com ambas as mãos. Os músculos tremeram. A válvula estalou, a porta rangeu.
Exterior: descampado de betão rachado. Restos de carros, pneus derretidos, um silo caído. O vento soprava cinza e um cheiro denso a borracha queimada – pneus, talvez, ou isolamento de cabos derretidos há anos. O chão estalava sob as botas: uma crosta de vidro térmico formada por detritos fundidos e resfriados. Redemoinhos. Visibilidade cinquenta metros. Nenhuma luz. Céu de nuvens escuras.
Elisa olhou para leste, onde dois dias antes vira a coluna de fumo. Não havia fumo agora, mas algo escurecia o horizonte: uma mancha irregular no cinzento, como se o solo ali tivesse sido varrido por fogo. Não viu chamas. Viu cinza diferente da circundante – mais negra, mais recente. Marcas de queimadura. Padrões circulares, quase simétricos. O estômago contraiu-se. Guardou a imagem para mais tarde.
Afonso saiu. Ajeitou os óculos. Rui fechou a escotilha com um baque.
— Para onde? — perguntou Rui.
Elisa apontou para norte.
— A entrada da conduta fica a quatrocentos metros. Antiga estação de bombagem.
— Conheço — disse Afonso. — Tem um acesso lateral. Provavelmente inundada.
— Veremos.
Andaram. Chão irregular. A crosta de vidro térmico estalava e, por vezes, cedia em poças de cascalho solto. O sapato direito de Elisa encheu-se de pedra. Ignorou. Afonso olhava para o tablet.
— O sinal de rádio que referiste... — disse ele. — Frequência de emergência. Os militares usavam isso. Ainda há transmissões activas?
— Não sei. Por isso investigo.
— Pode ser automático. Bateria solar.
— Ou alguém viu a nossa fogueira — murmurou Rui. — E quer atrair-nos.
Afonso parou.
— Fogueira? Nós não acendemos fogueira nenhuma.
Elisa virou-se.
— Eu também vi uma coluna de fumo há dois dias. A leste. Vi marcas. Queimaduras no solo. Padrões quase simétricos. Pensei que fossem vocês.
— Não era — disse Rui. — O que significa...
— Significa que há outro grupo — completou Afonso. Ajustou os óculos. A voz baixou para um sussurro. — Disseram-me coisas. Sobre fanáticos. Pessoas que querem destruir tudo o que resta de verde. Que a natureza nos traiu. Vi símbolos no setor 4. Círculos com uma linha horizontal. Queimados nas paredes. Cuidado.
Elisa sentiu o sangue esfriar. O símbolo na sala dos servidores. Não disse nada. Aperrou a arma.
Rui tocou a cicatriz – a quinta vez desde que saíram do bunker.— Vamos pela sombra do silo. Depois viramos para o túnel de serviço.
Caminharam em silêncio. Cem metros. Vento nos cabos caídos. Plástico queimado esvoaçou. Batimentos de Elisa nos 80. Rui olhava para trás a cada vinte passos. Tablet em poupança de energia, ecrã quase negro.
O descampado estendia-se em ruínas. Postes derrubados. Um carro de tejadilho virado, pneus em poças de borracha. O vento levantava cinza. Visibilidade diminuía. Elisa tapou a boca com o cachecol. A respiração tornou-se mais difícil. O peito doía. Rui olhou para o céu. Nenhuma estrela. Cinzento denso. Afonso tropeçou e amaldiçoou.
Chegaram à estação de bombagem. Betão. Porta de metal entreaberta. Cheiro a decomposição. Afonso ativou a lanterna LED no tablet. A luz iluminou a escadaria descendente.
— Aqui é — disse.
Rui tocou na cicatriz. O olhar foi para o bolso do casaco. Afonso ajustou os óculos e murmurou:
— Ouvi dizer que há um grupo que quer destruir tudo o que é verde. Cuidado.
Elisa virou-se.
— Repete.
— Disseram-me que há fanáticos. Pessoas que acreditam que a natureza nos traiu. Que tudo o que resta de verde precisa de ser eliminado. — A voz de Afonso era um sussurro. — Vi marcas no setor 4. Símbolos queimados. Não sei quem são. Mas são reais.
Elisa lembrou-se da marca no bunker. O círculo com a linha horizontal. A pele arrepiou-se.
— Eu vi um símbolo queimado na sala dos servidores.
— O quê? — Afonso deu um passo atrás.
— Um círculo com uma linha no meio. Na parede dos fundos.
Rui agarrou o braço de Elisa.
— Isso muda tudo. Se eles estiveram ali...
— Estiveram — disse Elisa. — E podem estar à nossa espera.
Rui franziu o sobrolho.
— E se estiverem ligados ao sinal de rádio?
— Pior — disse Afonso. — E se o sinal for uma armadilha deles?
Elisa encarou a escuridão da escadaria.
Silêncio.
Coração a 110.
Ar gelado.
Nenhuma luz.
Nenhum som.
Respiração.
Três corpos.
Desceu o primeiro degrau.
A luz de emergência no teto do corredor piscava no padrão dos bunkers do setor 7: três segundos ligada, dois desligada. O ar cheirava a ferrugem húmida e ozono residual. A humidade colava a roupa à pele. O medidor de radiação emitiu um sinal: 0,21 microsieverts por hora. Aceitável. A máscara assobiava a cada inspiração. Elisa contava os passos. Oito desde a curva. O eco das botas no metal traía a presença. As paredes tinham fissuras escuras. O silêncio latejava. Parou. O coração batia a 90. O ar reciclado sabia a metal. A garganta seca. O cantil meio vazio. Não beberia. Primeiro, o encontro. Mão firme na arma. Dedos frios. Coronha granulada. Avançou três passos. A porta à frente estava entreaberta. Uma faísca azul brilhou do interior. Vozes. Duas. Tom baixo. Não ouviu risos. Não ouviu gritos. Aproximou-se. O painel da porta carbonizado, fios expostos. Empurrou a porta com o ombro. A dobradiça rangeu. O som propagou-se no silêncio. As vozes calaram-se.
No interior, a sala dos servidores era um retângulo de dez por seis metros. Prateleiras vazias. Caixas de cabos, discos partidos no chão. Uma poça de água suja refletia a luz de uma lanterna portátil. Na parede dos fundos, uma marca queimada: um círculo com uma linha horizontal cortada, como um alvo riscado. Dois vultos junto a um terminal quebrado. Um segurava a lanterna, o outro tinha um tablet. A luz varreu o espaço e incidiu no rosto de Elisa. Ela ergueu a arma.
— Parados.
O homem com a lanterna levantou as mãos. A mão direita tocou a cicatriz irregular no pescoço antes de subir. O outro fechou o tablet e ajeitou os óculos no nariz. Imóvel.
— Não dispares — disse o da cicatriz. A voz saiu grossa e uniforme. — Somos dois. Não vale a pena gastar munição.
Elisa manteve a mira no centro do peito dele. A arma pesava 2,3 quilogramas. O cano alinhado com o esterno. O gatilho tinha uma resistência de 2,5 quilogramas. Não puxaria. Ainda não.
— Nomes? — A pergunta foi seca.
— Rui Santos. — A mão direita tocou a cicatriz, um gesto que Elisa começaria a reconhecer. — E o do tablet é o Afonso Castro. Engenheiro de sistemas. Ou era.
— Não divulgues informações pessoais a intrusos — resmungou Afonso. Olhou para Elisa. — Quem és tu?
— Elisa Moreira. Bióloga de campo. — Disse o título por hábito.
— Bióloga. — Afonso inclinou a cabeça. — Já não há muito campo para biologia.
— Depende do que se procura. — Elisa baixou a arma um centímetro. — O que fazem aqui?
Rui respondeu:
— Recolhemos equipamento. Baterias, componentes, dados de servidores antigos. Este sítio foi uma estação de monitorização ambiental antes do colapso. Há discos rígidos que podem conter informação útil.
— Informação para quê?
— Sobrevivência. Saber zonas contaminadas, lençóis de água potáveis, sementes viáveis.
Afonso fungou.
— Ou pelo menos saber onde não ir. Que já é uma vitória.
Elisa estudou-os. Rui: ombros largos, rosto marcado, olhos atentos. A cicatriz no pescoço parecia antiga, bordos lisos. Afonso: mais magro, dedos ágeis no tablet, óculos grossos e arranhados. O tablet mostrava uma interface de diagnóstico. Código corrompido.
— Preciso de água — disse Elisa.
Rui desapertou o cantil e atirou-o. O cantil bateu no chão a dois passos.
— Temos um pouco extra. Podes beber.
Elisa agachou-se sem desviar a mira. Os joelhos estalaram. A mão esquerda agarrou o cantil. A tampa estava húmida. Abriu, cheirou. Sem odor a químicos. Bebeu dois goles. A água morna sabia a metal. O corpo absorveu-a. A garganta parou de arder. Fechou o cantil e levantou-se.
— Obrigada.
— Educação — comentou Afonso. — Isso é raro.
Elisa guardou o cantil no cinto. Hesitou. Depois tirou um cartucho de filtro do bolso.
— Vou pagar. Isto vale pela água.
Rui olhou para o filtro. Depois para Afonso.
— E a informação que ias dar?
— A informação é a troca. Aceitam ou não?
Afonso ajeitou os óculos.
— Depende do que trouxeres.
Elisa tirou o mapa laminado do bolso.
— Estou a seguir um sinal de rádio. Frequência 121,5 megahertz. Transmissão intermitente durante as últimas três noites. Origem aproximada neste quadrante. — Apontou uma área no mapa. — Conhecem a zona?
Afonso deu um passo e ajustou os óculos. As lentes ampliaram as pupilas. Estudou o mapa.
— Isto é o sistema de esgotos do setor 7. As condutas profundas. — O dedo percorreu uma linha. — Esta aqui está marcada como colapsada há meses. Mas pode ter sido desobstruída pelas chuvas.
— Foi o que pensei.
— As chuvas eram ácidas — interrompeu Afonso. — Se abriram passagem, o ar pode ter ácido sulfúrico diluído. Filtros específicos. Comprimidos de iodeto se a radiação aumentar.
Elisa apontou para a máscara.
— Tenho filtros N95 com cartuchos para vapores ácidos. E iodeto de potássio para três dias.
Afonso arqueou as sobrancelhas.
— Preparada. Gosto disso.
Rui coçou a cicatriz. Pausa. Desta vez, a mão ficou suspensa um instante antes de tocar a pele. Os olhos dele iam para o bolso do casaco. O tecido estalou quando ele remexeu.
— Por que estás tão interessada nesse sinal? — perguntou. — Pode ser uma armadilha. Ou um loop de emergência antigo.
— Pode ser alguém a pedir ajuda.
— Ajuda. — Afonso ajustou os óculos. — Há dois anos que ninguém a diz.
— Para mim, não.
Rui e Afonso trocaram um olhar. Afonso ajeitou os óculos. Rui tocou a cicatriz. Depois suspirou.
— Muito bem. Aceito ajudar-te. Temporariamente. — Rui olhou para Afonso. — E tu?
Afonso resmungou.
— Se tiver mais mapas e filtros, a relação custo-benefício pode ser positiva. Mas exijo acesso a todos os dados que encontrarmos.
Elisa assentiu.
— Aceito. Acesso total. E ficas com o cartucho.
Atirou o filtro a Afonso, que o agarrou no ar.
— Filtro N95. Quase novo. Vale mais que a água.
Afonso examinou-o.
— Negócio fechado.
Estendeu a mão. Elisa apertou-a. A mão dele estava fria, com calos nas pontas dos dedos. Rui também estendeu a mão. A dele era quente e áspera. O contacto demorou dois segundos.
Elisa verificou o contador de munições. Cinco balas na arma. Mais oito no cinto. Treze. Suficientes. Rui mostrou duas baterias extra na mochila.
— Podemos recarregar o tablet mais tarde.
Afonso acenou.
— O mapa de condutas precisa de atualização. Vou descarregando os dados do servidor.
— Então vamos — disse Rui. — A noite não espera.
O grupo moveu-se para a saída. O corredor estreito. Botas ecoando, três pares. Ritmo irregular. Elisa contava os passos. Rui mantinha a mão perto da cicatriz. Afonso com o tablet encostado ao peito, luz verde pálida no queixo. O ar mudou: mais frio, travo metálico. Medidor de radiação: 0,18. Boca seca. Não bebeu. Racionar. A porta exterior era uma escotilha de aço com ferrugem. Válvula emperrada. Elisa rodou com ambas as mãos. Os músculos tremeram. A válvula estalou, a porta rangeu.
Exterior: descampado de betão rachado. Restos de carros, pneus derretidos, um silo caído. O vento soprava cinza e um cheiro denso a borracha queimada – pneus, talvez, ou isolamento de cabos derretidos há anos. O chão estalava sob as botas: uma crosta de vidro térmico formada por detritos fundidos e resfriados. Redemoinhos. Visibilidade cinquenta metros. Nenhuma luz. Céu de nuvens escuras.
Elisa olhou para leste, onde dois dias antes vira a coluna de fumo. Não havia fumo agora, mas algo escurecia o horizonte: uma mancha irregular no cinzento, como se o solo ali tivesse sido varrido por fogo. Não viu chamas. Viu cinza diferente da circundante – mais negra, mais recente. Marcas de queimadura. Padrões circulares, quase simétricos. O estômago contraiu-se. Guardou a imagem para mais tarde.
Afonso saiu. Ajeitou os óculos. Rui fechou a escotilha com um baque.
— Para onde? — perguntou Rui.
Elisa apontou para norte.
— A entrada da conduta fica a quatrocentos metros. Antiga estação de bombagem.
— Conheço — disse Afonso. — Tem um acesso lateral. Provavelmente inundada.
— Veremos.
Andaram. Chão irregular. A crosta de vidro térmico estalava e, por vezes, cedia em poças de cascalho solto. O sapato direito de Elisa encheu-se de pedra. Ignorou. Afonso olhava para o tablet.
— O sinal de rádio que referiste... — disse ele. — Frequência de emergência. Os militares usavam isso. Ainda há transmissões activas?
— Não sei. Por isso investigo.
— Pode ser automático. Bateria solar.
— Ou alguém viu a nossa fogueira — murmurou Rui. — E quer atrair-nos.
Afonso parou.
— Fogueira? Nós não acendemos fogueira nenhuma.
Elisa virou-se.
— Eu também vi uma coluna de fumo há dois dias. A leste. Vi marcas. Queimaduras no solo. Padrões quase simétricos. Pensei que fossem vocês.
— Não era — disse Rui. — O que significa...
— Significa que há outro grupo — completou Afonso. Ajustou os óculos. A voz baixou para um sussurro. — Disseram-me coisas. Sobre fanáticos. Pessoas que querem destruir tudo o que resta de verde. Que a natureza nos traiu. Vi símbolos no setor 4. Círculos com uma linha horizontal. Queimados nas paredes. Cuidado.
Elisa sentiu o sangue esfriar. O símbolo na sala dos servidores. Não disse nada. Aperrou a arma.
Rui tocou a cicatriz – a quinta vez desde que saíram do bunker.— Vamos pela sombra do silo. Depois viramos para o túnel de serviço.
Caminharam em silêncio. Cem metros. Vento nos cabos caídos. Plástico queimado esvoaçou. Batimentos de Elisa nos 80. Rui olhava para trás a cada vinte passos. Tablet em poupança de energia, ecrã quase negro.
O descampado estendia-se em ruínas. Postes derrubados. Um carro de tejadilho virado, pneus em poças de borracha. O vento levantava cinza. Visibilidade diminuía. Elisa tapou a boca com o cachecol. A respiração tornou-se mais difícil. O peito doía. Rui olhou para o céu. Nenhuma estrela. Cinzento denso. Afonso tropeçou e amaldiçoou.
Chegaram à estação de bombagem. Betão. Porta de metal entreaberta. Cheiro a decomposição. Afonso ativou a lanterna LED no tablet. A luz iluminou a escadaria descendente.
— Aqui é — disse.
Rui tocou na cicatriz. O olhar foi para o bolso do casaco. Afonso ajustou os óculos e murmurou:
— Ouvi dizer que há um grupo que quer destruir tudo o que é verde. Cuidado.
Elisa virou-se.
— Repete.
— Disseram-me que há fanáticos. Pessoas que acreditam que a natureza nos traiu. Que tudo o que resta de verde precisa de ser eliminado. — A voz de Afonso era um sussurro. — Vi marcas no setor 4. Símbolos queimados. Não sei quem são. Mas são reais.
Elisa lembrou-se da marca no bunker. O círculo com a linha horizontal. A pele arrepiou-se.
— Eu vi um símbolo queimado na sala dos servidores.
— O quê? — Afonso deu um passo atrás.
— Um círculo com uma linha no meio. Na parede dos fundos.
Rui agarrou o braço de Elisa.
— Isso muda tudo. Se eles estiveram ali...
— Estiveram — disse Elisa. — E podem estar à nossa espera.
Rui franziu o sobrolho.
— E se estiverem ligados ao sinal de rádio?
— Pior — disse Afonso. — E se o sinal for uma armadilha deles?
Elisa encarou a escuridão da escadaria.
Silêncio.
Coração a 110.
Ar gelado.
Nenhuma luz.
Nenhum som.
Respiração.
Três corpos.
Desceu o primeiro degrau.