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Por Elisa Vaz

A Última Primavera

Ficção científica pós-apocalíptico Capítulo 3 Assistido por IA
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A Sombra da Mão Firme

IA
Vozes no Silêncio

Elisa fechou a porta do abrigo e recostou a testa na madeira fria. As pegadas na lama não saíam da sua mente. Durante a noite, alguém estivera ali. De dia, nenhum movimento suspeito. Mas o silêncio agora tinha uma textura diferente. Passou a mão esquerda pela nuca. Os dedos encontraram a pele arrepiada, apesar do frio controlado da cave.

Os tubos de ensaio estavam alinhados sobre a mesa. A luz baça da manhã filtrava-se pela janela gradeada, desenhando riscas no chão de cimento. Elisa sentou-se no banco. O microscópio estava montado. O caderno aberto na página onde registara a possível poliploidia. Precisava de continuar a análise. As células guardavam mais segredos.

A agulha do medidor de radiação estalou. 0.4. Aceitável. Elisa respirou fundo e inclinou-se sobre a ocular. As paredes celulares grossas apareceram no visor. Os cloroplastos agrupados. A massa de cromatina densa. Os dedos tremiam ligeiramente. Ajustou o foco.

Um zumbido distante cortou o ar. Elisa ergueu a cabeça. O som era metálico, um motor de combustão. Não o vento. Não um animal. O coração acelerou. Ficou imóvel, os ouvidos em alerta. O zumbido cresceu, depois diminuiu, como se um veículo percorresse as ruínas a pouca distância.

Levantou-se devagar. As pernas responderam com uma tensão elástica. Foi até à janela e espreitou. O céu cinzento. As pilhas de entulho. Nenhum movimento. O zumbido parou.

Depois, vozes.

Palavras abafadas, arrastadas pelo vento. Eram vozes masculinas, duas ou três. O tom era áspero, sem risos. Elisa recuou um passo. A mão direita fechou-se sobre a coronha da espingarda. A esquerda foi à nuca, os dedos cravaram-se na pele.

As vozes aproximavam-se. Ouviu passos sobre o cascalho. Botas. As mesmas pegadas da manhã? O peito comprimiu-se. O ar entrou com um assobio. Os olhos percorreram o abrigo. As plantas estavam escondidas atrás de um painel solto. As amostras essenciais... Num gesto rápido, agarrou o estojo com os cinco tubos e enfiou-o dentro do casaco, junto ao peito. O frio do vidro atravessou a camisa. A espingarda estava ao lado.

Os passos pararam. Uma voz, mais próxima, soou do outro lado da porta.

— Elisa Moreira. Sabemos que está aí.

A voz era grave, calma. Demasiado calma.

Elisa não respondeu. A respiração suspendeu-se. O suor brotou nas têmporas.

— Não vale a pena o silêncio. O Davi manda-lhe uma proposta. — A pausa foi milimétrica. — Abra a porta.

A mão na espingarda apertou. Ela conhecia o nome. Davi. O líder da Mão Firme. Ouvira falar em outros abrigos, antes de se isolar. Um grupo que controlava território, recursos. Que oferecia proteção em troca de obediência. A proposta cheirava a armadilha.

— Não estou interessada. — A sua voz saiu seca.

Silêncio. Depois, outra voz, mais brutal:

— Abre a porta ou deitamo-la abaixo.

Elisa olhou para a porta. A tranca de ferro aguentava, mas não para sempre. O coração martelava nas têmporas. As mãos tremiam, mas a mente corria. A cave tinha apenas uma saída. A janela era muito pequena. Se tentasse fugir por ali, ficaria presa.

A primeira voz retomou, conciliadora:

— Não queremos violência. O Davi oferece proteção. Alimentação. Segurança. Em troca, só pede as suas plantas. Uma parceria. Pense.

As plantas. A confirmação gelou-a. Sabiam das plantas. Como? As pegadas. Alguém a vigiava há mais tempo? O emissário de Davi não estava ali por acaso.

— Não tenho nada para vocês. — A voz de Elisa não vacilou.

— Pois não. — O tom tornou-se frio. — Então vamos ter de levar.

Um baque na porta. Depois outro. Os gonzos rangeram. A tranca estremeceu. Elisa recuou até à mesa. Pousou a espingarda? Não. Empunhou-a. A coronha encaixou no ombro. O feixe da mira passou pela porta.

A madeira estalou. Uma primeira lasca saltou. O cheiro a ferrugem intensificou-se.

Ela não podia ficar ali. Os olhos correram o abrigo. O canto das prateleiras. A conduta de ventilação. O espaço era mínimo. Mas conhecia cada centímetro. Havia uma saída que nunca usava. Uma porta dos fundos que dava para um poço cego. Fechada com ferros, mas destrancável.

Os homens bateram de novo. A tranca gemia. Minutos. Elisa foi até ao fundo, silenciosa. Com a mão esquerda, desengatou o trinco. A porta rangeu, mas o som foi abafado pelo estrondo dos socos. Um cheiro a mofo e a terra molhada subiu do poço.

Ela enfiou-se na abertura. A escuridão envolveu-a. Os pés tatearam degraus metálicos. A espingarda raspou nas paredes. Lá atrás, a porta principal cedeu com um estalo de madeira partida.

— Ela não está! — A voz brutal.

— Procurem! — A voz do emissário.

Elisa não esperou. Desceu os degraus às apalpadelas. A humidade empapava-lhe a roupa. No fundo, um corredor estreito. Luz nenhuma. A lanterna ficara na mesa. Amaldiçoou o esquecimento. A mão esquerda tateou a parede viscosa. O coração batia nos ouvidos. Avançou.

Os passos ecoavam lá em cima, no abrigo. Móveis a serem arrastados. Vidros a partir. O estojo de tubos no peito pesava. Pelo menos, as amostras estavam salvas. O resto... o resto não importava.

O corredor dava para uma escada. Subiu. Uma grade de ferro no topo. Empurrou-a com o ombro. Rangeu, mas abriu. A luz cinzenta feriu-lhe os olhos. Estava num beco entre dois edifícios em ruínas. O vento trouxe-lhe cinzas ao rosto.

Ouviu gritos vindos de trás.

— Por ali!

Maldição. Tinham-na visto. Elisa correu.


A Caçada e o Grito

Elisa correu pelo beco, os pés a esbarrarem em escombros. O ar gelado arranhava-lhe a garganta. As cinzas levantavam-se à sua passagem. A espingarda batia-lhe nas costas. O estojo de tubos saltava contra o peito.

Atrás, as vozes dos homens ecoavam. Eram três. Botas pesadas a martelarem o chão. O emissário gritou:

— Cerquem-na! Não a deixem fugir para o lado nascente!

Elisa dobrou à esquerda, enfiando-se num portal desmoronado. A estrutura de betão inclinava-se, criando uma gruta de escombros. Ela mergulhou na sombra. O cheiro a ferrugem e a mofo era intenso.

Acelerou. O corpo movia-se por instinto. Cada esquina, cada monte de entulho, estavam mapeados na memória muscular. Dias a fio a percorrer aquelas ruínas em busca de comida e água. Agora, cada segundo valia ouro.

Um homem surgiu à sua frente. O mesmo tipo brutal da porta. Alto, ombros largos, uma cicatriz na testa. Bloqueava a saída do portal. Elisa travou. O coração deu um salto. O homem sorriu.

— Agora não foges.

Ela recuou um passo. Atrás, os outros aproximavam-se. O beco sem saída. O emissário apareceu. Magro, cabelo escuro cortado curto, olhos cinzentos e frios. Segurava uma pistola.

— Pronto, botânica. Chega de correrias. Entrega as plantas e o Davi até te arranja uma cama quente.

A voz era calma, mas os olhos não sorriam. Elisa olhou em redor. A única saída era para cima. Uma pilha de detritos junto à parede permitia escalar até uma janela do segundo andar. Se conseguisse chegar lá antes que disparassem...

O homem da cicatriz avançou.

— Vá, passa para cá isso.

A mão dele agarrou-lhe o braço. O toque foi bruto. Ela torceu o corpo. O cotovelo esquerdo atingiu-o na cara. Um estalo de cartilagem. O homem grunhiu, largou-a. O sangue brotou-lhe do nariz.

O emissário ergueu a pistola. Elisa não esperou. Saltou para a pilha de escombros. Os pés escorregaram no cascalho. As mãos agarraram-se a uma viga. A mochila prendeu-se numa ponta de ferro. O ombro esticou, o tecido rasgou. A mochila caiu, espalhando o conteúdo: o caderno, as pinças, a lupa. A lanterna rolou pelo chão.

Ela não parou. Impulsionou-se para cima. A janela estava ali, um retângulo escuro. Enfiou-se por ela, arranhando os joelhos nos vidros partidos. Doeu. Quente. Sangue.

Aterrou no que restava de um quarto. Pó e mofo. Uma cama de ferro retorcida. A porta aberta dava para um corredor. Levantou-se. A perna esquerda doía. Um caco de vidro cravado na coxa. Puxou-o. O sangue escorreu, mas não era fundo. Apertou o local com a mão. Atrás, ouviam-se os homens a escalarem.

— Ela foi para o prédio! — A voz do emissário.

Elisa mancou pelo corredor. O soalho rangeu. Cada passo era uma agonia. O estojo de tubos ainda estava seguro. O essencial. O coração batia descompassado. Respirar doía. Mas continuou.

O prédio era uma antiga habitação. Escadas estreitas, portas arrombadas. Desceu. A cada lance, o perigo de encontrar os homens. No rés-do-chão, a porta da frente estava bloqueada por uma viga caída. Saiu por uma janela lateral, saltando para um pátio interior.

O pátio estava cheio de lixo e cinzas. Uma velha carrinha carbonizada. Um poço seco. Elisa escondeu-se atrás da carrinha. Os pulmões ardiam. A perna latejava. Do pátio, via o prédio onde entrara. Os homens saíram pela porta principal, derrubando a viga.

— Espalhem-se! Ela não pode ter ido longe.

O emissário ficou no centro do pátio. Os outros dois revistavam os cantos. Elisa encolheu-se. A mão na nuca, os dedos trémulos. O suor frio escorria-lhe pelas costas.

Um dos capangas aproximou-se da carrinha. Elisa conteve a respiração. O homem olhou para o capô queimado, depois virou as costas. Ela esperou que se afastasse. Depois, rastejou para o poço. A tampa de metal estava entreaberta. Levantou-a devagar. O rangido foi mínimo. Desceu para a escuridão.

O poço era seco. No fundo, um túnel de manutenção. Antigos canos de água. Ela enfiou-se nele. A escuridão era total. Tateou as paredes. Humidade e ferrugem. Avançou às apalpadelas. O som dos homens ficou para trás.

O túnel desembocava noutra rua. Saiu por uma tampa de esgoto. A luz cinzenta cegou-a por um momento. O silêncio. Apenas o vento. As cinzas dançavam. Estava num quarteirão diferente. Conhecia a zona. Um antigo armazém de cereais, agora uma carcaça de betão.

Entrou. O interior era um labirinto de colunas e entulho. Subiu a uma escada de serviço até ao terceiro andar. As janelas amplas davam para a rua. Escondeu-se atrás de uma pilha de sacos de ráfia apodrecidos. Ofegante, o peito a arfar, a perna a latejar. As mãos tremiam. O estojo de tubos ainda ali.

Fechou os olhos por um instante. O cheiro a pó e a bolor. O som do vento nas vigas.

Elisa abriu os olhos. A respiração ainda era um assobio. A perna latejava, o sangue a escorrer pelo tornozelo, mas não havia tempo para ligaduras. A mão esquerda subiu à nuca. Os dedos tocaram a pele fria e húmida de suor.

Lá fora, o vento arrastava cinzas contra as paredes do armazém. O silêncio era denso. Espreitou por entre os sacos de ráfia. A janela empoeirada mostrava a rua deserta. Nenhum movimento. Mas o perigo estava ali.

O coração ainda batia acelerado. Os ouvidos filravam cada som. Um estalido distante. Passos? Talvez. A tensão comprimia-lhe o peito. As mãos apertavam o estojo contra o corpo. As amostras. A última esperança.

E então, a voz.

Ecoou de algures lá fora, entre as ruínas. Era o emissário. O tom já não era conciliador. Era uma ameaça pura, lançada ao vento como uma rede.

— Não vais longe, botânica! O Davi vai apanhar-te!

As palavras cravaram-se no ar. Elisa encolheu-se ainda mais, os olhos fixos na janela. A voz foi levada pelo vento, mas a sentença ficou. O Davi. A sombra de uma mão firme que se fechava sobre ela.

O silêncio regressou. Mas agora era um silêncio carregado. Elisa fechou os olhos. A perseguição não ia parar. O seu mundo solitário acabara.
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