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A Decisão de Elisa
IA
O Abrigo Empoeirado
A estufa erguia-se como uma carcaça de vidro e ferro no meio do descampado. As paredes, outrora transparentes, estavam opacas de pó e cinzas, e muitas das vidraças tinham estilhaçado, deixando entrar o vento. O chão de terra batida estava coberto de cacos e restos de vasos partidos. O ar cheirava a mofo e a algo doce, um odor vegetal esquecido. Elisa entrou primeiro, com a espingarda em riste. As botas esmagaram vidros. O coração batia a 110. O suor escorria-lhe pela nuca, mas a mão esquerda não largava a coronha.
Rui e Afonso seguiram-na. Rui fechou a porta metálica atrás de si, soldada com ferros improvisados. O ruído ecoou no silêncio. Afonso pousou a mochila e ajeitou os óculos. A luz da tarde filtrava-se pelas vidraças sujas, criando riscas no ar poeirento.
— Isto serve por enquanto — disse Rui. A voz saiu baixa. Passou a mão pela cicatriz no pescoço. — Os homens do bunker não nos encontraram cá.
— Ainda. — Afonso fungou. — O Vasco tem cães. Vão farejar-nos.
Elisa não respondeu. Percorreu o espaço com os olhos. Bancadas de madeira apodrecida, prateleiras vazias, um sistema de rega entupido de calcário. No centro, uma mesa de cimento com restos de terra seca. Algo naquele lugar lhe apertou o peito. Lembrava-lhe o laboratório. A filha a brincar entre os vasos. A voz do marido ao telefone. A imagem dissolveu-se. Mão na nuca. Os dedos frios.
— Temos de decidir o que fazer — disse Afonso. Tirou o tablet da mochila. O ecrã acendeu com uma luz verde pálida. — Não podemos andar às voltas com isto às costas.
— Isso às costas? — Rui apontou para a mochila de Elisa. — As plantas?
— Exacto. São um alvo.
Elisa pousou a espingarda na mesa. Abriu a mochila. Lá dentro, os tubos de ensaio tilintaram. Retirou um. Dentro, uma pequena folha verde flutuava no líquido de preservação. A cor era quase ofensiva naquele mundo cinzento.
— Estas plantas são a única coisa que resta — murmurou.
— E é por isso que nos vão matar — retorquiu Afonso. — Davi quer controlá-las. Vasco quer destruí-las. Nós somos três. Três.
— Há mais sobreviventes — disse Rui. — Podemos encontrar outros.
— Confiar noutros? — Afonso riu, um som seco. — Já confiei. Sabes o que aconteceu?
Rui tocou na cicatriz. O gesto foi longo.
— Sei. Mas sozinhos também não vamos longe.
Elisa voltou a guardar o tubo. A mão esquerda foi à nuca. As pontas dos dedos pressionaram a pele. O cansaço pesava-lhe nos ombros. A perna ainda latejava do corte do dia anterior. A roupa cheirava a suor e a fumo.
— Precisamos de água — disse. — E de um sítio seguro para as plantas.
— Conheço um laboratório antigo — disse Rui. — Fica a dois dias a pé. Tem estufas subterrâneas. Equipamento. Podíamos estudar as sementes lá.
Afonso ajustou os óculos.
— E como sabes que ainda está de pé?
— Não sei. Mas é a nossa melhor hipótese.
— Ou uma armadilha.
Elisa olhou para Afonso. O engenheiro desviou o olhar. Os dedos tamborilaram no tablet.
— Propões o quê, então? — perguntou ela.
— Separarmo-nos. Eu sigo o meu caminho. Vocês o vosso. Três pessoas chamam mais a atenção do que uma ou duas.
— Isso é suicídio — disse Rui. — Sozinho, o primeiro grupo que te apanha mata-te.
— Talvez. Mas pelo menos não arrasto ninguém comigo.
A frase ficou suspensa. Elisa sentou-se num banco de cimento. Os joelhos estalaram. A luz começava a esmorecer. O vento lá fora levantava redemoinhos de cinza. O silêncio na estufa era denso, cortado apenas pelo zumbido do tablet.
O cansaço lutava com a adrenalina. As pálpebras pesavam. Mas o sono não vinha. A imagem das plantas mutantes dançava-lhe na mente. E a pergunta: mereciam elas que arriscasse confiar de novo?
O Debate
A noite caíra sobre a estufa. A única luz vinha do tablet de Afonso e de uma pequena lanterna que Rui colocara sobre a mesa. As sombras alongavam-se nas paredes de vidro, e o vento fazia ranger as estruturas metálicas. O ar estava mais frio. Elisa puxou o casaco de oleado sobre os ombros. A mão esquerda não largava a nuca.
Afonso estava encostado a uma prateleira. Os óculos reflectiam a luz verde. A expressão era cerrada.
— Não é falta de coragem — disse ele. — É matemática. Dois grupos pequenos têm mais hipóteses de passar despercebidos. Se formos apanhados juntos, perdemos tudo. As plantas, o conhecimento. Tudo.
Rui deu um passo em frente. A luz da lanterna projectou a sombra da cicatriz.
— E se um grupo for apanhado, o outro fica sem saber. Sem as plantas, sem os dados. Dividir é perder a força que temos.
— Que força? — Afonso riu. — Três pessoas cansadas, mal armadas, com meia dúzia de tubos de ensaio? Isso não é força.
— É a força de estarmos juntos. Eu sei de mecânica, tu sabes de sistemas, ela sabe de botânica. Cada um tem uma peça. Sozinhos, somos inúteis.
— Ou uma carga.
Elisa fechou os olhos. As palavras de Afonso não eram cruéis — eram lógicas. A mesma lógica que ela usara durante dois anos para se isolar. Confiança era um luxo. Cada pessoa a mais era um risco a mais. Cada gesto de ajuda era uma dívida que um dia seria cobrada.
Abriu os olhos.
O seu olhar pousou na mochila. Lá dentro, as plantas. Frágeis, vivas, um milagre absurdo. Lembrou-se da fenda na cave, do primeiro vislumbre de verde. Do coração acelerado. Da culpa.
A culpa.
A imagem surgiu sem pedir licença. A fotografia gasta. O marido a sorrir. A filha ao colo, o vestido azul com flores amarelas. As gargalhadas de domingo. E depois o silêncio do laboratório. O telemóvel a vibrar. As mensagens por ler. O vidro a estilhaçar.
Mão na nuca. Os dedos tremeram.
— Elisa? — A voz de Rui soou distante.
Ela piscou os olhos. A realidade regressou: a estufa, o pó, os dois homens à sua frente. Rui observava-a com os olhos castanhos fixos. Afonso ajustava os óculos, impaciente.
— O que achas? — perguntou Rui.
Elisa respirou fundo. O ar arranhou-lhe a garganta.
— Eu... já confiei. E perdi tudo. — A voz saiu mais frágil do que gostaria. — Perdi a minha filha. O meu marido. Porque não estava lá. Porque estava num laboratório, a tentar salvar plantas que nunca serviram para nada.
Rui deu um passo. A mão dele pairou no ar, sem tocar.
— Eu também perdi — disse ele. — A minha mulher, o meu filho. Sei o que é carregar essa culpa. Mas eles não iam querer que a gente se escondesse para sempre.
Afonso baixou a cabeça. Os dedos apertaram o tablet.
— Eu não perdi ninguém. — A voz era um sussurro. — Mas devia ter perdido. Devia ter avisado. Sabia do cataclismo. Um amigo disse-me. E eu não fiz nada. Pensei que era alarme falso.
O silêncio caiu pesado. Elisa olhou para Afonso. O engenheiro estava rígido, o maxilar cerrado. A mão livre apertava a armação dos óculos.
— Agora queres separar-te — disse Rui. — Para não teres de confiar outra vez.
Afonso não respondeu.
Elisa levantou-se. As pernas protestaram. O corte na coxa latejou. Aproximou-se da mochila e abriu-a. Tirou o estojo com os cinco tubos. Alinhou-os sobre a mesa.
— Estas plantas — disse ela — são a prova de que a vida pode voltar. Mas se as perdermos, se as destruírem, talvez não haja outra hipótese. Eu não posso carregar isto sozinha. E vocês também não. — Olhou para Afonso. — Tu sabes disso. Por isso ainda aqui estás.
Afonso desviou o olhar. Ajeitou os óculos.
— Estou aqui porque... — Começou, mas calou-se.
Rui assentiu.
— Estamos todos aqui porque, no fundo, sabemos que separados não vale a pena.
O vento gemeu. Uma vidraça estalou ao longe. O tablet emitiu um bip — bateria a 15%. Afonso apagou o ecrã. A escuridão apertou-se. Apenas a lanterna iluminava os rostos cansados.
Elisa sentiu o coração bater descompassado. Não era medo. Era outra coisa. Uma réstia de algo que julgara morto. A mão esquerda desceu da nuca.
— Há um laboratório — disse. — A dois dias a pé. Se Rui conhece o caminho, podemos chegar lá. Estudar as sementes. Multiplicá-las. — Olhou para Afonso. — Preciso de um engenheiro de sistemas. Para os dados. Para a segurança.
Afonso hesitou.
— E se for uma armadilha?
— Então enfrentamos juntos.
A frase pairou no ar. Afonso ajustou os óculos. Rui passou a mão pela cicatriz. Ninguém falou.
Elisa estendeu a mão direita. A palma para cima. Os dedos ainda trémulos, mas firmes.
— Vamos juntos. Ou vamos sozinhos e falhamos. Não há terceira opção.
O gesto ficou suspenso.
A Mão Estendida
A mão de Elisa permaneceu no ar. O pó dançava no feixe da lanterna. Afonso olhou para ela, depois para Rui. Os dedos do engenheiro tamborilaram na armação dos óculos. Rui não se mexeu. O silêncio durou três batidas de coração.
— Eu já não sei confiar — disse Afonso. A voz saiu rouca. — Cada vez que confiei, fui traído. Ou traí.
— Eu também — respondeu Elisa. — Mas olha para estas plantas. — Apontou para os tubos. — Elas não deviam existir. E, no entanto, aqui estão. Se a vida encontrou um caminho no meio desta desolação, talvez a gente também encontre.
Afonso ajeitou os óculos. O maxilar contraiu-se.
— Isso é poesia. Poesia não enche o estômago nem pára uma bala.
— Não. Mas dá um motivo para continuar.
Rui deu um passo. A mão dele tocou a cicatriz, um gesto que parecia inconsciente.
— Eu tenho um motivo — disse. — Tenho uma semente. Era da minha mulher. Guardei-a durante dois anos. Plantei-a há dias, perto da estufa da Elisa. Foi essa semente que deu origem às plantas mutantes. — Respirou fundo. — A minha mulher era assistente da Diana. Roubou o protótipo antes do cataclismo. Eu não sabia. Só descobri depois.
Elisa virou-se para ele. O coração acelerou. Mão na nuca. Os dedos cravaram-se na pele.
— O quê?
— É verdade. — Rui baixou a cabeça. — Desculpa não ter dito antes. Tinha medo.
Afonso soltou um assobio baixo.
— Portanto, as plantas não são um acaso. São um legado. Uma criação da Diana. — Ajeitou os óculos, os olhos brilharam. — Isso muda tudo.
— Muda? — perguntou Elisa.
— Significa que alguém as desenhou para sobreviver a este inferno. Se a Diana ainda estiver viva, pode saber como as multiplicar. E se o Davi ou o Vasco descobrirem isto... — Não terminou a frase.
Elisa sentiu um nó na garganta. A mão ainda na nuca. A revelação de Rui reacendia perguntas. Mas não havia tempo para digerir agora. O perigo estava à porta. E a decisão tinha de ser tomada.
Olhou para Rui. A cicatriz, os olhos castanhos, o corpo magro mas firme. Depois para Afonso. A rigidez, os óculos que reflectiam a luz, o medo mal disfarçado. Dois homens marcados pela perda. Como ela.
— Não posso prometer que vamos conseguir — disse Elisa. — Mas posso prometer que vou tentar. Com tudo o que tenho. Se vierem comigo, prometo o mesmo.
A mão direita ainda estendida. Desta vez, a esquerda também se ergueu, num gesto de oferta.
Rui foi o primeiro. Aproximou-se e pousou a mão sobre a dela. A pele era quente, áspera.
— Estou contigo. — A voz saiu calma.
Ambos olharam para Afonso.
O engenheiro hesitou. Ajustou os óculos. Depois, num movimento brusco, estendeu a mão e pousou-a sobre a de Rui. A pressão era firme.
— Eu também. Mas se houver traição...
— Não haverá — cortou Elisa. — Chega de segredos.
O silêncio regressou. Mas agora era um silêncio diferente. Menos pesado. As mãos permaneceram unidas um instante. Depois, soltaram-se.
— Precisamos de um plano — disse Afonso. Ajeitou os óculos. O tom já era mais prático. — O laboratório de que falaste. Onde fica exactamente?
Rui tirou um mapa do bolso. Desdobrou-o sobre a mesa. A lanterna iluminou as linhas desbotadas.
— Aqui. Antiga estação de investigação agrária. Fica a dois dias a pé, seguindo o antigo canal de irrigação. Tem geradores próprios, estufas subterrâneas, laboratórios equipados. Se não foi saqueada...
— Arriscado — murmurou Afonso. — Mas é a melhor hipótese.
Elisa analisou o mapa. O percurso passava por zona de ruínas densas. Território desconhecido. O coração batia a 90. O medo estava lá. Mas também uma urgência fria.
— Saímos ao nascer do sol — decidiu. — Racionamos a água. Movemo-nos rápido.
— E se encontrarmos alguém? — perguntou Afonso.
— Evitamos. Não há espaço para mais ninguém.
Rui assentiu. Afonso ajustou os óculos e começou a desligar o tablet, preparando a mochila. Elisa recolheu os tubos de ensaio e envolveu-os em panos, amortecendo cada um. As mãos não tremiam. A nuca doía, mas não a tocou.
Lá fora, o vento arrastava cinzas contra as vidraças. O som era um tamborilar irregular. A noite ia longa. O sono chegaria aos poucos. Mas a decisão estava tomada.
Antes de deitar, Elisa olhou pela última vez para as plantas. As pequenas folhas imóveis no líquido de preservação. Toda a esperança do mundo, ali, naqueles tubos. E agora, dois aliados. Uma aliança frágil, como as primeiras raízes a romper a terra morta.
Fechou a mochila. Apertou as fivelas. O estômago contraiu-se. Não era fome. Era a sensação de estar à beira de algo. Um salto. Uma queda. Ou um voo.
— Vai correr bem — disse Rui, aproximando-se.
Ela não respondeu. Apenas assentiu. A mão esquerda, por instinto, subiu à nuca. Os dedos tocaram a pele fria. Mas desta vez, o gesto não foi de nervosismo. Foi de despedida. De uma Elisa que ficava para trás.
Deitaram-se nos cantos opostos da estufa, por entre cacos e sacos de ráfia. O chão era duro. O frio entrava pelas frestas. O silêncio era pontuado por respirações e pelo ranger do metal.
Elisa fechou os olhos. A escuridão engoliu-a. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o sono chegou sem pesadelos.
A estufa erguia-se como uma carcaça de vidro e ferro no meio do descampado. As paredes, outrora transparentes, estavam opacas de pó e cinzas, e muitas das vidraças tinham estilhaçado, deixando entrar o vento. O chão de terra batida estava coberto de cacos e restos de vasos partidos. O ar cheirava a mofo e a algo doce, um odor vegetal esquecido. Elisa entrou primeiro, com a espingarda em riste. As botas esmagaram vidros. O coração batia a 110. O suor escorria-lhe pela nuca, mas a mão esquerda não largava a coronha.
Rui e Afonso seguiram-na. Rui fechou a porta metálica atrás de si, soldada com ferros improvisados. O ruído ecoou no silêncio. Afonso pousou a mochila e ajeitou os óculos. A luz da tarde filtrava-se pelas vidraças sujas, criando riscas no ar poeirento.
— Isto serve por enquanto — disse Rui. A voz saiu baixa. Passou a mão pela cicatriz no pescoço. — Os homens do bunker não nos encontraram cá.
— Ainda. — Afonso fungou. — O Vasco tem cães. Vão farejar-nos.
Elisa não respondeu. Percorreu o espaço com os olhos. Bancadas de madeira apodrecida, prateleiras vazias, um sistema de rega entupido de calcário. No centro, uma mesa de cimento com restos de terra seca. Algo naquele lugar lhe apertou o peito. Lembrava-lhe o laboratório. A filha a brincar entre os vasos. A voz do marido ao telefone. A imagem dissolveu-se. Mão na nuca. Os dedos frios.
— Temos de decidir o que fazer — disse Afonso. Tirou o tablet da mochila. O ecrã acendeu com uma luz verde pálida. — Não podemos andar às voltas com isto às costas.
— Isso às costas? — Rui apontou para a mochila de Elisa. — As plantas?
— Exacto. São um alvo.
Elisa pousou a espingarda na mesa. Abriu a mochila. Lá dentro, os tubos de ensaio tilintaram. Retirou um. Dentro, uma pequena folha verde flutuava no líquido de preservação. A cor era quase ofensiva naquele mundo cinzento.
— Estas plantas são a única coisa que resta — murmurou.
— E é por isso que nos vão matar — retorquiu Afonso. — Davi quer controlá-las. Vasco quer destruí-las. Nós somos três. Três.
— Há mais sobreviventes — disse Rui. — Podemos encontrar outros.
— Confiar noutros? — Afonso riu, um som seco. — Já confiei. Sabes o que aconteceu?
Rui tocou na cicatriz. O gesto foi longo.
— Sei. Mas sozinhos também não vamos longe.
Elisa voltou a guardar o tubo. A mão esquerda foi à nuca. As pontas dos dedos pressionaram a pele. O cansaço pesava-lhe nos ombros. A perna ainda latejava do corte do dia anterior. A roupa cheirava a suor e a fumo.
— Precisamos de água — disse. — E de um sítio seguro para as plantas.
— Conheço um laboratório antigo — disse Rui. — Fica a dois dias a pé. Tem estufas subterrâneas. Equipamento. Podíamos estudar as sementes lá.
Afonso ajustou os óculos.
— E como sabes que ainda está de pé?
— Não sei. Mas é a nossa melhor hipótese.
— Ou uma armadilha.
Elisa olhou para Afonso. O engenheiro desviou o olhar. Os dedos tamborilaram no tablet.
— Propões o quê, então? — perguntou ela.
— Separarmo-nos. Eu sigo o meu caminho. Vocês o vosso. Três pessoas chamam mais a atenção do que uma ou duas.
— Isso é suicídio — disse Rui. — Sozinho, o primeiro grupo que te apanha mata-te.
— Talvez. Mas pelo menos não arrasto ninguém comigo.
A frase ficou suspensa. Elisa sentou-se num banco de cimento. Os joelhos estalaram. A luz começava a esmorecer. O vento lá fora levantava redemoinhos de cinza. O silêncio na estufa era denso, cortado apenas pelo zumbido do tablet.
O cansaço lutava com a adrenalina. As pálpebras pesavam. Mas o sono não vinha. A imagem das plantas mutantes dançava-lhe na mente. E a pergunta: mereciam elas que arriscasse confiar de novo?
O Debate
A noite caíra sobre a estufa. A única luz vinha do tablet de Afonso e de uma pequena lanterna que Rui colocara sobre a mesa. As sombras alongavam-se nas paredes de vidro, e o vento fazia ranger as estruturas metálicas. O ar estava mais frio. Elisa puxou o casaco de oleado sobre os ombros. A mão esquerda não largava a nuca.
Afonso estava encostado a uma prateleira. Os óculos reflectiam a luz verde. A expressão era cerrada.
— Não é falta de coragem — disse ele. — É matemática. Dois grupos pequenos têm mais hipóteses de passar despercebidos. Se formos apanhados juntos, perdemos tudo. As plantas, o conhecimento. Tudo.
Rui deu um passo em frente. A luz da lanterna projectou a sombra da cicatriz.
— E se um grupo for apanhado, o outro fica sem saber. Sem as plantas, sem os dados. Dividir é perder a força que temos.
— Que força? — Afonso riu. — Três pessoas cansadas, mal armadas, com meia dúzia de tubos de ensaio? Isso não é força.
— É a força de estarmos juntos. Eu sei de mecânica, tu sabes de sistemas, ela sabe de botânica. Cada um tem uma peça. Sozinhos, somos inúteis.
— Ou uma carga.
Elisa fechou os olhos. As palavras de Afonso não eram cruéis — eram lógicas. A mesma lógica que ela usara durante dois anos para se isolar. Confiança era um luxo. Cada pessoa a mais era um risco a mais. Cada gesto de ajuda era uma dívida que um dia seria cobrada.
Abriu os olhos.
O seu olhar pousou na mochila. Lá dentro, as plantas. Frágeis, vivas, um milagre absurdo. Lembrou-se da fenda na cave, do primeiro vislumbre de verde. Do coração acelerado. Da culpa.
A culpa.
A imagem surgiu sem pedir licença. A fotografia gasta. O marido a sorrir. A filha ao colo, o vestido azul com flores amarelas. As gargalhadas de domingo. E depois o silêncio do laboratório. O telemóvel a vibrar. As mensagens por ler. O vidro a estilhaçar.
Mão na nuca. Os dedos tremeram.
— Elisa? — A voz de Rui soou distante.
Ela piscou os olhos. A realidade regressou: a estufa, o pó, os dois homens à sua frente. Rui observava-a com os olhos castanhos fixos. Afonso ajustava os óculos, impaciente.
— O que achas? — perguntou Rui.
Elisa respirou fundo. O ar arranhou-lhe a garganta.
— Eu... já confiei. E perdi tudo. — A voz saiu mais frágil do que gostaria. — Perdi a minha filha. O meu marido. Porque não estava lá. Porque estava num laboratório, a tentar salvar plantas que nunca serviram para nada.
Rui deu um passo. A mão dele pairou no ar, sem tocar.
— Eu também perdi — disse ele. — A minha mulher, o meu filho. Sei o que é carregar essa culpa. Mas eles não iam querer que a gente se escondesse para sempre.
Afonso baixou a cabeça. Os dedos apertaram o tablet.
— Eu não perdi ninguém. — A voz era um sussurro. — Mas devia ter perdido. Devia ter avisado. Sabia do cataclismo. Um amigo disse-me. E eu não fiz nada. Pensei que era alarme falso.
O silêncio caiu pesado. Elisa olhou para Afonso. O engenheiro estava rígido, o maxilar cerrado. A mão livre apertava a armação dos óculos.
— Agora queres separar-te — disse Rui. — Para não teres de confiar outra vez.
Afonso não respondeu.
Elisa levantou-se. As pernas protestaram. O corte na coxa latejou. Aproximou-se da mochila e abriu-a. Tirou o estojo com os cinco tubos. Alinhou-os sobre a mesa.
— Estas plantas — disse ela — são a prova de que a vida pode voltar. Mas se as perdermos, se as destruírem, talvez não haja outra hipótese. Eu não posso carregar isto sozinha. E vocês também não. — Olhou para Afonso. — Tu sabes disso. Por isso ainda aqui estás.
Afonso desviou o olhar. Ajeitou os óculos.
— Estou aqui porque... — Começou, mas calou-se.
Rui assentiu.
— Estamos todos aqui porque, no fundo, sabemos que separados não vale a pena.
O vento gemeu. Uma vidraça estalou ao longe. O tablet emitiu um bip — bateria a 15%. Afonso apagou o ecrã. A escuridão apertou-se. Apenas a lanterna iluminava os rostos cansados.
Elisa sentiu o coração bater descompassado. Não era medo. Era outra coisa. Uma réstia de algo que julgara morto. A mão esquerda desceu da nuca.
— Há um laboratório — disse. — A dois dias a pé. Se Rui conhece o caminho, podemos chegar lá. Estudar as sementes. Multiplicá-las. — Olhou para Afonso. — Preciso de um engenheiro de sistemas. Para os dados. Para a segurança.
Afonso hesitou.
— E se for uma armadilha?
— Então enfrentamos juntos.
A frase pairou no ar. Afonso ajustou os óculos. Rui passou a mão pela cicatriz. Ninguém falou.
Elisa estendeu a mão direita. A palma para cima. Os dedos ainda trémulos, mas firmes.
— Vamos juntos. Ou vamos sozinhos e falhamos. Não há terceira opção.
O gesto ficou suspenso.
A Mão Estendida
A mão de Elisa permaneceu no ar. O pó dançava no feixe da lanterna. Afonso olhou para ela, depois para Rui. Os dedos do engenheiro tamborilaram na armação dos óculos. Rui não se mexeu. O silêncio durou três batidas de coração.
— Eu já não sei confiar — disse Afonso. A voz saiu rouca. — Cada vez que confiei, fui traído. Ou traí.
— Eu também — respondeu Elisa. — Mas olha para estas plantas. — Apontou para os tubos. — Elas não deviam existir. E, no entanto, aqui estão. Se a vida encontrou um caminho no meio desta desolação, talvez a gente também encontre.
Afonso ajeitou os óculos. O maxilar contraiu-se.
— Isso é poesia. Poesia não enche o estômago nem pára uma bala.
— Não. Mas dá um motivo para continuar.
Rui deu um passo. A mão dele tocou a cicatriz, um gesto que parecia inconsciente.
— Eu tenho um motivo — disse. — Tenho uma semente. Era da minha mulher. Guardei-a durante dois anos. Plantei-a há dias, perto da estufa da Elisa. Foi essa semente que deu origem às plantas mutantes. — Respirou fundo. — A minha mulher era assistente da Diana. Roubou o protótipo antes do cataclismo. Eu não sabia. Só descobri depois.
Elisa virou-se para ele. O coração acelerou. Mão na nuca. Os dedos cravaram-se na pele.
— O quê?
— É verdade. — Rui baixou a cabeça. — Desculpa não ter dito antes. Tinha medo.
Afonso soltou um assobio baixo.
— Portanto, as plantas não são um acaso. São um legado. Uma criação da Diana. — Ajeitou os óculos, os olhos brilharam. — Isso muda tudo.
— Muda? — perguntou Elisa.
— Significa que alguém as desenhou para sobreviver a este inferno. Se a Diana ainda estiver viva, pode saber como as multiplicar. E se o Davi ou o Vasco descobrirem isto... — Não terminou a frase.
Elisa sentiu um nó na garganta. A mão ainda na nuca. A revelação de Rui reacendia perguntas. Mas não havia tempo para digerir agora. O perigo estava à porta. E a decisão tinha de ser tomada.
Olhou para Rui. A cicatriz, os olhos castanhos, o corpo magro mas firme. Depois para Afonso. A rigidez, os óculos que reflectiam a luz, o medo mal disfarçado. Dois homens marcados pela perda. Como ela.
— Não posso prometer que vamos conseguir — disse Elisa. — Mas posso prometer que vou tentar. Com tudo o que tenho. Se vierem comigo, prometo o mesmo.
A mão direita ainda estendida. Desta vez, a esquerda também se ergueu, num gesto de oferta.
Rui foi o primeiro. Aproximou-se e pousou a mão sobre a dela. A pele era quente, áspera.
— Estou contigo. — A voz saiu calma.
Ambos olharam para Afonso.
O engenheiro hesitou. Ajustou os óculos. Depois, num movimento brusco, estendeu a mão e pousou-a sobre a de Rui. A pressão era firme.
— Eu também. Mas se houver traição...
— Não haverá — cortou Elisa. — Chega de segredos.
O silêncio regressou. Mas agora era um silêncio diferente. Menos pesado. As mãos permaneceram unidas um instante. Depois, soltaram-se.
— Precisamos de um plano — disse Afonso. Ajeitou os óculos. O tom já era mais prático. — O laboratório de que falaste. Onde fica exactamente?
Rui tirou um mapa do bolso. Desdobrou-o sobre a mesa. A lanterna iluminou as linhas desbotadas.
— Aqui. Antiga estação de investigação agrária. Fica a dois dias a pé, seguindo o antigo canal de irrigação. Tem geradores próprios, estufas subterrâneas, laboratórios equipados. Se não foi saqueada...
— Arriscado — murmurou Afonso. — Mas é a melhor hipótese.
Elisa analisou o mapa. O percurso passava por zona de ruínas densas. Território desconhecido. O coração batia a 90. O medo estava lá. Mas também uma urgência fria.
— Saímos ao nascer do sol — decidiu. — Racionamos a água. Movemo-nos rápido.
— E se encontrarmos alguém? — perguntou Afonso.
— Evitamos. Não há espaço para mais ninguém.
Rui assentiu. Afonso ajustou os óculos e começou a desligar o tablet, preparando a mochila. Elisa recolheu os tubos de ensaio e envolveu-os em panos, amortecendo cada um. As mãos não tremiam. A nuca doía, mas não a tocou.
Lá fora, o vento arrastava cinzas contra as vidraças. O som era um tamborilar irregular. A noite ia longa. O sono chegaria aos poucos. Mas a decisão estava tomada.
Antes de deitar, Elisa olhou pela última vez para as plantas. As pequenas folhas imóveis no líquido de preservação. Toda a esperança do mundo, ali, naqueles tubos. E agora, dois aliados. Uma aliança frágil, como as primeiras raízes a romper a terra morta.
Fechou a mochila. Apertou as fivelas. O estômago contraiu-se. Não era fome. Era a sensação de estar à beira de algo. Um salto. Uma queda. Ou um voo.
— Vai correr bem — disse Rui, aproximando-se.
Ela não respondeu. Apenas assentiu. A mão esquerda, por instinto, subiu à nuca. Os dedos tocaram a pele fria. Mas desta vez, o gesto não foi de nervosismo. Foi de despedida. De uma Elisa que ficava para trás.
Deitaram-se nos cantos opostos da estufa, por entre cacos e sacos de ráfia. O chão era duro. O frio entrava pelas frestas. O silêncio era pontuado por respirações e pelo ranger do metal.
Elisa fechou os olhos. A escuridão engoliu-a. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o sono chegou sem pesadelos.