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Reconstrução
IA
O Tribunal
A sala tresandava a madeira envernizada e a suor. Teresa Melo entrou com as mãos atadas por uma fita de papel, os nós todos do lado de dentro. O agente Lopes guiou-a até ao estrado e a luz branca do tecto bateu-lhe na nuca. Não havia toga, não havia martelo. Só uma juíza de rosto cansado e um procurador que não tirava os olhos dos papéis.
— Pode sentar-se. — A juíza apontou para a cadeira.
Teresa sentou-se e as pernas tremeram contra a madeira. Sentiu o olhar do João nas costas, ali na segunda fila, e da Maria do Carmo ao seu lado. Não se virou. A sala tinha um cheiro a pó acumulado nas cortinas e a metal frio.
O procurador leu as acusações com voz monocórdica. Perturbação da paz. Desobediência. Danos à propriedade. Teresa ouviu as palavras e elas pareciam pedras a cair num poço. Não piscou os olhos.
— Teresa Melo, o tribunal reconhece que agiu sob ameaça. — A juíza tirou os óculos e massajou a cana do nariz. — O seu marido exerceu sobre si uma violência que justifica, em parte, os actos que cometeu.
A garganta de Teresa apertou-se. Quis tossir mas não conseguiu. A boca encheu-se de saliva e ela engoliu-a com força. As mãos suadas desfizeram a fita de papel.
— Contudo, a lei não pode ignorar o que fez. — A juíza endireitou-se e a voz ficou mais seca. — Condeno-a a seis meses de prisão, suspensa por dois anos, e ao pagamento de uma indemnização à comunidade. — Uma pausa. — Teresa Melo, está livre.
As pernas de Teresa falharam quando se levantou. Lopes estendeu o braço mas ela segurou-se ao estrado. O som dos seus passos ecoou na sala enquanto caminhava para a porta. João levantou-se e tocou-lhe no ombro.
— Obrigada. — A voz dela saiu num fio.
Ele respondeu com um aceno. Maria do Carmo aproximou-se e envolveu Teresa num abraço silencioso. O corpo de Teresa estremeceu e um soluço escapou-se-lhe da boca. Ninguém falou mais. A luz do corredor batia-lhes nos rostos, e a porta da sala fechou-se com um estalido seco.
No exterior, a aldeia estava quieta. O sol da tarde lambia as pedras da praça. Teresa inspirou fundo e o ar frio queimou-lhe os pulmões. Sentiu os olhos da Maria na sua nuca e, pela primeira vez, não os estranhou. Estava tudo no mesmo sítio, mas o mundo parecia ter mudado de cor.
Teresa afastou-se devagar, os ombros mais direitos. A praça ficou quase vazia. João ficou parado, as mãos nos bolsos do casaco. Olhou para o céu e uma gaivota passou, mancha branca contra o azul.
A Festa da União
A festa rebentou ao cair da noite. Montaram mesas na praça e um cheiro a sardinha assada subia do fogareiro. Mãos anónimas estenderam toalhas de pano grosso e pousaram pratos de barro com azeitonas e queijo. As luzes penduradas entre os postes dançavam com o vento e lançavam sombras amarelas nas fachadas.
João encostou-se à parede da esquadra e deixou que o burburinho o envolvesse. Raras vezes ouvira risos naquela aldeia. Agora, as vozes subiam e desciam como maré, e não havia nelas o eco das tensões passadas. Uma criança atirou uma bola contra a parede e a mãe repreendeu-a sem carregar na voz.
— Não está em serviço, inspector? — Lopes aproximou-se com dois copos de plástico.
— Parece que hoje não. — João aceitou o copo e bebeu um gole de vinho tinto. O líquido aqueceu-lhe a garganta.
Lopes apontou para o centro da praça com o queixo. Teresa Melo estava perto do coreto, de costas para eles. Não ria, mas os seus dedos tamborilavam na madeira ao ritmo da música que um velho acordeonista arranhava. As outras mulheres da aldeia formavam um círculo à sua volta, nem muito perto nem muito longe. Era uma distância nova, feita de aceitação cautelosa.
— As coisas endireitam-se. — Lopes falou baixo. — Leva tempo, mas endireitam-se.
João não respondeu. Pousou o copo na borda do muro e cruzou os braços. O acordeon começou uma melodia mais rápida e alguns pares atiraram-se à dança. As saias rodavam e as botas batiam no empedrado com força. O som parecia vir das entranhas da terra.
Maria do Carmo apareceu ao seu lado. Trazia um lenço vermelho ao pescoço e um sorriso que lhe vincava os cantos dos olhos.
— Isto é estranho. — Ela inclinou a cabeça. — Ouvir gente a fazer barulho por nada.
— Melhor do que o outro barulho. — João esboçou um sorriso. Os músculos do rosto pareceram estranhar o movimento, mas depois cederam.
— Não me diga que está a gostar. — Maria pousou-lhe a mão no braço e apontou para um banco de madeira sob uma nogueira. — Vamos sentar-nos. Precisamos de falar.
Sentaram-se. João esticou as pernas e Maria ajeitou o lenço. A música chegava ali mais abafada, misturada com o zumbido dos insectos nocturnos.
— O que vai fazer agora? — Ela não o olhou quando perguntou.
João virou o copo vazio nas mãos. A pergunta apanhou-o desprevenido. Não havia planos, só uma névoa de cansaço acumulado.
— Não sei. — A resposta saiu-lhe seca, mas não agressiva. — Talvez fique por cá uns dias.
— E depois? — Maria arrancou uma folha da nogueira e esfregou-a entre os dedos.
— Depois... — João calou-se. Observou Teresa a aceitar um copo de sumo das mãos de uma rapariga nova. Os lábios dela tremeram, mas não chorou. Um aperto no peito lembrou-lhe o porquê de ter vindo parar àquela terra. — Não me peça certezas.
— Não peço. — Maria soltou a folha e viu-a cair. — Mas pode pensar nisso. Esta aldeia ainda precisa de quem a ouça.
João virou-se para ela. O perfil de Maria contra as luzes da festa parecia talhado em pedra clara. O silêncio entre eles não pesava. Era um silêncio parceiro, daqueles que não exigem palavras para se preencherem.
Uma gargalhada estalou perto do coreto. O acordeon mudou para uma canção de roda e as crianças correram para o centro. João sentiu um riso subir-lhe à garganta e não o reprimiu. Era um som baixo, quase um rumor, mas genuíno.
Maria sorriu de verdade. Os dentes brilharam na penumbra.
— Olhe, até consegue rir-se. — A mão dela encontrou a dele por um instante. — Não perca isso.
João baixou a cabeça, mas o sorriso continuou lá. A festa crescia, e com ela uma sensação de que o tempo, por uma noite, parara de morder.
A lua subiu por detrás do campanário e pintou os telhados de prata. As toalhas ficaram manchadas de vinho e gordura, e o fogareiro apagou-se com um suspiro. As pessoas começaram a dispersar, arrastando cadeiras e trocando boas-noites com vozes arrastadas.
João e Maria ficaram no banco. Uma brisa fria varreu a praça e levou consigo o último eco do acordeon.
— Vou para casa. — Maria levantou-se e puxou o casaco. — Amanhã é outro dia.
— Está mais leve. — João disse, e não sabia se falava do ar ou dela.
Ela entendeu. Pousou-lhe a mão no ombro, como tinha feito a Teresa horas antes, e foi-se embora sem pressa. Os seus passos ecoaram na pedra.
João permaneceu sentado. A aldeia dormia agora, e o silêncio era um cobertor. Não havia visões, nem arrastos, nem choro. Só o vento.
Olhou para o céu e viu mais estrelas do que se lembrava de ter visto em meses. Não contou nenhuma. Apenas ficou ali, até que o banco ficou frio e o seu corpo lhe pediu cama.
Quando se levantou, a praça estava vazia e as luzes apagadas. A escuridão não o assustou. Caminhou para a esquadra com as mãos nos bolsos, e o sorriso, pequeno mas firme, ainda lhe moldava os lábios.
-- FIM --
A sala tresandava a madeira envernizada e a suor. Teresa Melo entrou com as mãos atadas por uma fita de papel, os nós todos do lado de dentro. O agente Lopes guiou-a até ao estrado e a luz branca do tecto bateu-lhe na nuca. Não havia toga, não havia martelo. Só uma juíza de rosto cansado e um procurador que não tirava os olhos dos papéis.
— Pode sentar-se. — A juíza apontou para a cadeira.
Teresa sentou-se e as pernas tremeram contra a madeira. Sentiu o olhar do João nas costas, ali na segunda fila, e da Maria do Carmo ao seu lado. Não se virou. A sala tinha um cheiro a pó acumulado nas cortinas e a metal frio.
O procurador leu as acusações com voz monocórdica. Perturbação da paz. Desobediência. Danos à propriedade. Teresa ouviu as palavras e elas pareciam pedras a cair num poço. Não piscou os olhos.
— Teresa Melo, o tribunal reconhece que agiu sob ameaça. — A juíza tirou os óculos e massajou a cana do nariz. — O seu marido exerceu sobre si uma violência que justifica, em parte, os actos que cometeu.
A garganta de Teresa apertou-se. Quis tossir mas não conseguiu. A boca encheu-se de saliva e ela engoliu-a com força. As mãos suadas desfizeram a fita de papel.
— Contudo, a lei não pode ignorar o que fez. — A juíza endireitou-se e a voz ficou mais seca. — Condeno-a a seis meses de prisão, suspensa por dois anos, e ao pagamento de uma indemnização à comunidade. — Uma pausa. — Teresa Melo, está livre.
As pernas de Teresa falharam quando se levantou. Lopes estendeu o braço mas ela segurou-se ao estrado. O som dos seus passos ecoou na sala enquanto caminhava para a porta. João levantou-se e tocou-lhe no ombro.
— Obrigada. — A voz dela saiu num fio.
Ele respondeu com um aceno. Maria do Carmo aproximou-se e envolveu Teresa num abraço silencioso. O corpo de Teresa estremeceu e um soluço escapou-se-lhe da boca. Ninguém falou mais. A luz do corredor batia-lhes nos rostos, e a porta da sala fechou-se com um estalido seco.
No exterior, a aldeia estava quieta. O sol da tarde lambia as pedras da praça. Teresa inspirou fundo e o ar frio queimou-lhe os pulmões. Sentiu os olhos da Maria na sua nuca e, pela primeira vez, não os estranhou. Estava tudo no mesmo sítio, mas o mundo parecia ter mudado de cor.
Teresa afastou-se devagar, os ombros mais direitos. A praça ficou quase vazia. João ficou parado, as mãos nos bolsos do casaco. Olhou para o céu e uma gaivota passou, mancha branca contra o azul.
A Festa da União
A festa rebentou ao cair da noite. Montaram mesas na praça e um cheiro a sardinha assada subia do fogareiro. Mãos anónimas estenderam toalhas de pano grosso e pousaram pratos de barro com azeitonas e queijo. As luzes penduradas entre os postes dançavam com o vento e lançavam sombras amarelas nas fachadas.
João encostou-se à parede da esquadra e deixou que o burburinho o envolvesse. Raras vezes ouvira risos naquela aldeia. Agora, as vozes subiam e desciam como maré, e não havia nelas o eco das tensões passadas. Uma criança atirou uma bola contra a parede e a mãe repreendeu-a sem carregar na voz.
— Não está em serviço, inspector? — Lopes aproximou-se com dois copos de plástico.
— Parece que hoje não. — João aceitou o copo e bebeu um gole de vinho tinto. O líquido aqueceu-lhe a garganta.
Lopes apontou para o centro da praça com o queixo. Teresa Melo estava perto do coreto, de costas para eles. Não ria, mas os seus dedos tamborilavam na madeira ao ritmo da música que um velho acordeonista arranhava. As outras mulheres da aldeia formavam um círculo à sua volta, nem muito perto nem muito longe. Era uma distância nova, feita de aceitação cautelosa.
— As coisas endireitam-se. — Lopes falou baixo. — Leva tempo, mas endireitam-se.
João não respondeu. Pousou o copo na borda do muro e cruzou os braços. O acordeon começou uma melodia mais rápida e alguns pares atiraram-se à dança. As saias rodavam e as botas batiam no empedrado com força. O som parecia vir das entranhas da terra.
Maria do Carmo apareceu ao seu lado. Trazia um lenço vermelho ao pescoço e um sorriso que lhe vincava os cantos dos olhos.
— Isto é estranho. — Ela inclinou a cabeça. — Ouvir gente a fazer barulho por nada.
— Melhor do que o outro barulho. — João esboçou um sorriso. Os músculos do rosto pareceram estranhar o movimento, mas depois cederam.
— Não me diga que está a gostar. — Maria pousou-lhe a mão no braço e apontou para um banco de madeira sob uma nogueira. — Vamos sentar-nos. Precisamos de falar.
Sentaram-se. João esticou as pernas e Maria ajeitou o lenço. A música chegava ali mais abafada, misturada com o zumbido dos insectos nocturnos.
— O que vai fazer agora? — Ela não o olhou quando perguntou.
João virou o copo vazio nas mãos. A pergunta apanhou-o desprevenido. Não havia planos, só uma névoa de cansaço acumulado.
— Não sei. — A resposta saiu-lhe seca, mas não agressiva. — Talvez fique por cá uns dias.
— E depois? — Maria arrancou uma folha da nogueira e esfregou-a entre os dedos.
— Depois... — João calou-se. Observou Teresa a aceitar um copo de sumo das mãos de uma rapariga nova. Os lábios dela tremeram, mas não chorou. Um aperto no peito lembrou-lhe o porquê de ter vindo parar àquela terra. — Não me peça certezas.
— Não peço. — Maria soltou a folha e viu-a cair. — Mas pode pensar nisso. Esta aldeia ainda precisa de quem a ouça.
João virou-se para ela. O perfil de Maria contra as luzes da festa parecia talhado em pedra clara. O silêncio entre eles não pesava. Era um silêncio parceiro, daqueles que não exigem palavras para se preencherem.
Uma gargalhada estalou perto do coreto. O acordeon mudou para uma canção de roda e as crianças correram para o centro. João sentiu um riso subir-lhe à garganta e não o reprimiu. Era um som baixo, quase um rumor, mas genuíno.
Maria sorriu de verdade. Os dentes brilharam na penumbra.
— Olhe, até consegue rir-se. — A mão dela encontrou a dele por um instante. — Não perca isso.
João baixou a cabeça, mas o sorriso continuou lá. A festa crescia, e com ela uma sensação de que o tempo, por uma noite, parara de morder.
A lua subiu por detrás do campanário e pintou os telhados de prata. As toalhas ficaram manchadas de vinho e gordura, e o fogareiro apagou-se com um suspiro. As pessoas começaram a dispersar, arrastando cadeiras e trocando boas-noites com vozes arrastadas.
João e Maria ficaram no banco. Uma brisa fria varreu a praça e levou consigo o último eco do acordeon.
— Vou para casa. — Maria levantou-se e puxou o casaco. — Amanhã é outro dia.
— Está mais leve. — João disse, e não sabia se falava do ar ou dela.
Ela entendeu. Pousou-lhe a mão no ombro, como tinha feito a Teresa horas antes, e foi-se embora sem pressa. Os seus passos ecoaram na pedra.
João permaneceu sentado. A aldeia dormia agora, e o silêncio era um cobertor. Não havia visões, nem arrastos, nem choro. Só o vento.
Olhou para o céu e viu mais estrelas do que se lembrava de ter visto em meses. Não contou nenhuma. Apenas ficou ali, até que o banco ficou frio e o seu corpo lhe pediu cama.
Quando se levantou, a praça estava vazia e as luzes apagadas. A escuridão não o assustou. Caminhou para a esquadra com as mãos nos bolsos, e o sorriso, pequeno mas firme, ainda lhe moldava os lábios.
-- FIM --