"
O Eco do Poço
IA
A Esquadra do Crepúsculo
João Martins chegou a Alpedreza no banco de trás de um carro-patrulha. O veículo abrandou à entrada da vila, onde uma placa metálica e enferrujada anunciava o nome e o número de almas. “Alpedreza – 437”. O condutor não disse nada. João olhou pela janela. A planície alentejana estendia-se até onde a vista alcançava, recortada por sobreiros e oliveiras retorcidas. O céu era uma chapa de cobre a arrefecer. Nem uma única nuvem. O silêncio dentro do carro era tão denso como o calor que ainda emanava da terra.
A vila parecia adormecida. As casas caiadas de branco alinhavam-se ao longo da rua principal, com janelas fechadas e portas entreabertas a deixar escapar réstias de luz. Ninguém na rua. Apenas um cão magro que se ergueu da sombra de um muro e se afastou, lerdo. O carro parou diante de um edifício de um só piso, com uma tabuleta onde se lia “Guarda Nacional Republicana – Posto de Alpedreza”. João saiu. O ar cheirava a esteva e a pó.
— Obrigado. — A voz saiu-lhe rouca.
O condutor acenou, manobrou e arrancou de volta, deixando-o ali. João carregou a mochila ao ombro e entrou na esquadra. O interior era fresco, com um cheiro a papel velho e a desinfetante. Um agente estava sentado atrás de um balcão de madeira gasta, os olhos fixos num formulário. Não se levantou.
— Boa tarde. — João aproximou-se.
— Inspector Martins?
— Pois.
— Agente Lopes. — O homem ergueu-se, os ossos a estalar. Era baixo e entroncado. Bigode grisalho. Olhos pequenos que o avaliaram de cima a baixo. — Chegou bem.
— Obrigado.
Lopes remexeu numa gaveta e retirou uma pasta castanha, que pousou no balcão com um baque seco.
— Os desaparecidos. — Fez um gesto vago. — Três mulheres e um homem. Ninguém viu nada. Ninguém ouviu nada. — Encolheu os ombros. — É o costume.
João pegou na pasta. Pesava mais do que devia.
— Não há pistas?
— Eu cá não encontrei nenhuma. — Lopes coçou o queixo. — Mas o senhor inspector tem fama de ver coisas que os outros não veem. — Fez uma pausa. — Ouvi dizer.
João ignorou o comentário.
— Há muito que trabalha aqui?
— Vinte anos. Conheço cada canto. Cada pessoa. — Lopes inclinou-se para a frente. — Se quer saber, a maioria já fez o luto à sua maneira. Esta terra é assim. Aceita-se a perda e pronto. Não se faz perguntas.
O estômago contraiu-se-lhe num nó duro. Não ia tolerar aquela resignação. Mas não disse nada. Abriu a pasta e viu as fotografias agarradas com clipes. Quatro rostos. Três mulheres jovens, de cabelos escuros e sorrisos tímidos, e um homem de meia-idade, de expressão dura. Quantos mais estariam por ali, esquecidos?
— Onde é a pensão?
— Ao fundo da rua. Dona Alice aluga quartos. É a única nesta altura do ano.
Lopes já lhe dera as costas e voltara a sentar-se, pegando no formulário. João saiu sem se despedir. O calor da rua atingiu-o como um sopro de fornalha. A luz do sol já mal tocava as paredes, engolida pelo horizonte. Caminhou pela rua deserta, ouvindo apenas o som dos seus próprios passos. Alpedreza parecia um cenário abandonado. As cigarras tinham cessado o seu canto. A vila parecia suspensa, como se alguém tivesse apagado todos os sons.
A pensão era uma casa de dois andares, com uma porta de madeira escura e uma placa a dizer “Pensão Alentejana”. João bateu à porta. Uma mulher de idade, de cabelo grisalho apanhado num coque, abriu-lhe.
— Quarto? — perguntou, sem rodeios.
— Sim. Tenho reserva. Martins.
A dona Alice assentiu e levou-o por um corredor estreito até um quarto no primeiro andar. O quarto era pequeno: uma cama de ferro, uma mesa de cabeceira com um candeeiro, um roupeiro baixo. As paredes estavam pintadas de um desbotado amarelo. Sobre a mesa, um jarro com água. João pousou a mochila no chão e sentou-se na cama. O colchão rangeu.
A dona Alice fechou a porta sem ruído. João ficou imóvel. O cansaço pesava-lhe nos ombros. Esfregou a cara com as mãos. A barba áspera arranhava-lhe a pele. Tirou o casaco de tweed e atirou-o para a cadeira. Abriu a pasta no colchão. As fotografias fitavam-no. Três mulheres, um homem. Os nomes estavam escritos a lápis no verso: Helena, Mariana, Catarina, Tomás. Todos desaparecidos nos últimos seis meses.
Leu os relatórios. As datas, os locais, as circunstâncias. Tudo vago. Nenhuma testemunha. Nenhum vestígio. Ninguém na vila parecia interessado em encontrá-los. João rangeu os dentes. O gesto involuntário trouxe-lhe um travo amargo à boca. Passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados. As têmporas latejavam.
Fechou a pasta. Levantou-se e abriu a janela. A noite caíra por completo. Um céu estrelado, sem lua. O ar estava parado, morno. Lá fora, a escuridão engolia as formas. Só se via a luz pálida do candeeiro da rua. Nenhum som. Nem cães, nem passos. Um silêncio de túmulo.
João fechou a janela. Tirou a camisa e a t-shirt, deixou-as no chão. Ficou de pé, em calças, a olhar para a cama. O corpo doía. A cicatriz fina no lábio superior era uma linha branca na penumbra. Deitou-se, a cabeça afundada na almofada. O candeeiro ainda aceso.
Fechou os olhos. O cansaço empurrou-o para um limbo. Mas o sono não veio. Em vez disso, uma névoa espessa tomou conta da sua mente. Os pensamentos esbateram-se. Já não distinguia se estava acordado ou a sonhar.
O Eco do Poço
O escuro moveu-se. João estava de pé, num descampado. A terra era pedregosa, os arbustos retorcidos. O cheiro a terra molhada e a algo podre subiu-lhe às narinas. O frio da noite feriu-lhe a pele nua do tronco. Mas sabia que não era real.
Uma figura aproximou-se. Uma rapariga de cabelo escuro, o rosto escondido por uma cortina de cabelo molhado. Arrastava os pés descalços sobre as pedras. João quis mover-se, mas as pernas não lhe obedeciam. Ela passou por ele. O vestido roçou-lhe o braço. Era um tecido áspero, húmido.
Então, uma sombra maior ergueu-se atrás da rapariga. Mãos invisíveis agarraram-lhe os cabelos e puxaram-nos para trás. Pela primeira vez, João viu-lhe o rosto. Os olhos arregalaram-se. A boca abriu-se num grito sem som. A boca formou um “O” mudo. O corpo foi arrastado para trás.
João forçou um movimento. Os braços pesavam toneladas. A sombra arrastava a rapariga para um ponto escuro no chão. Um poço. O som do corpo a ser puxado pela terra. Os dedos dela cravaram-se no solo. Unhas quebradas. O cheiro a sangue, a ferrugem.
Ela desapareceu pelo buraco. João ouviu o baque, muitos metros abaixo. Um som oco, molhado. Depois, nada.
Uma voz sussurrou-lhe ao ouvido. Um sopro frio no lóbulo. As palavras saíram arrastadas, como pedras a ranger:
— É o eco do mal.
João tentou gritar. A voz estrangulou-se-lhe na garganta. O corpo inteiro se retesou. Sentiu a boca seca. A língua colada ao céu da boca. A escuridão engoliu-o.
Acordou com um solavanco. O ar entrou-lhe nos pulmões num arquejo. As mãos agarravam os lençóis, os nós dos dedos brancos. O coração batia-lhe contra as costelas. Suor escorria-lhe pelas têmporas, pelo peito.
Sentou-se na cama. O quarto da pensão materializou-se. As paredes amarelas. O roupeiro. O jarro com água. O candeeiro ainda aceso, a luz a tremer. João respirou fundo. O cheiro a terra podre ainda lhe entupia as narinas. Levou as mãos ao rosto. Os dedos tremiam.
Levantou-se. As pernas estavam bambas. Abriu a janela com um safanão. O ar fresco da madrugada entrou no quarto, mas não lhe aliviou o aperto no peito. A visão ainda queimava atrás das pálpebras. O rosto da rapariga. O poço. A voz.
Voltou para a mesa. Pegou no bloco de notas que estava na mochila. As mãos ainda tremiam. O cheiro a terra molhada regressou-lhe por um instante.
Escreveu, com letras tortas:
"Poço da Azinheira".
Ficou a olhar para as palavras. Não sabia de onde vinha aquele nome. Sabia apenas que era real. Aquele poço existia. A rapariga esteve ali.
Bebeu água directamente do jarro. A água estava morna, mas soube-lhe a vida. Encheu o peito de ar. Os pulmões doeram. A pulsação acalmou, mas a urgência não. Havia qualquer coisa naquele nome. Uma âncora.
Lá fora, o céu começava a ganhar um tom leitoso. A primeira luz da alvorada insinuava-se por entre os telhados. João ficou à janela, imóvel. Os minutos passaram. O medo e a vontade lutavam dentro dele. O medo de estar a perder a razão. A vontade de seguir a visão.
Custava-lhe admitir. Mas a verdade era clara: aquelas visões nunca o tinham enganado. Em cada caso, o pormenor mais absurdo revelara-se real. A rapariga da visão era uma das desaparecidas. Ele reconhecera o cabelo, o vestido. Helena? Mariana? Não importava. O poço chamava por ele.
Rangeu os dentes. O ruído ecoou no quarto. A decisão solidificou-se. Vestiu a t-shirt às arrecuas, a camisa, atirou o casaco sobre os ombros. Agarrou na lanterna e na pistola, no coldre junto à mochila. Calçou as botas. O peso da arma no coldre era familiar.
Abriu a porta do quarto. O corredor estava escuro. Desceu as escadas nas pontas dos pés, o soalho a gemer sob o peso. A visão não o largava. O poço. A rapariga. A descida. Algo lhe escapava. Algo de que precisava.
No rés-do-chão, deteve-se. O silêncio era absoluto. A porta da cozinha, à esquerda. À direita, um corredor estreito que dava para a despensa. Empurrou-a. A madeira rangeu.
Lá dentro, pendurado num prego atrás da porta, um rolo de corda de sisal — grossa, gasta, mas resistente. Tirou-a. A fibra áspera roçou-lhe nos dedos.
Voltou ao corredor. Enfiou a corda na mochila. A porta da rua estava ali, a poucos passos e rangeu levemente ao abrir-se.
A rua ainda dormia. O ar fresco da madrugada fez-lhe arder os pulmões. João puxou a gola do casaco. Os olhos fixaram-se no horizonte, a leste, onde o sol ainda não nascera.
Sem olhar para trás, saiu da pensão. O eco da visão pulsava-lhe nas veias. Não sabia se era coragem ou loucura. Mas ia ao Poço da Azinheira.
João Martins chegou a Alpedreza no banco de trás de um carro-patrulha. O veículo abrandou à entrada da vila, onde uma placa metálica e enferrujada anunciava o nome e o número de almas. “Alpedreza – 437”. O condutor não disse nada. João olhou pela janela. A planície alentejana estendia-se até onde a vista alcançava, recortada por sobreiros e oliveiras retorcidas. O céu era uma chapa de cobre a arrefecer. Nem uma única nuvem. O silêncio dentro do carro era tão denso como o calor que ainda emanava da terra.
A vila parecia adormecida. As casas caiadas de branco alinhavam-se ao longo da rua principal, com janelas fechadas e portas entreabertas a deixar escapar réstias de luz. Ninguém na rua. Apenas um cão magro que se ergueu da sombra de um muro e se afastou, lerdo. O carro parou diante de um edifício de um só piso, com uma tabuleta onde se lia “Guarda Nacional Republicana – Posto de Alpedreza”. João saiu. O ar cheirava a esteva e a pó.
— Obrigado. — A voz saiu-lhe rouca.
O condutor acenou, manobrou e arrancou de volta, deixando-o ali. João carregou a mochila ao ombro e entrou na esquadra. O interior era fresco, com um cheiro a papel velho e a desinfetante. Um agente estava sentado atrás de um balcão de madeira gasta, os olhos fixos num formulário. Não se levantou.
— Boa tarde. — João aproximou-se.
— Inspector Martins?
— Pois.
— Agente Lopes. — O homem ergueu-se, os ossos a estalar. Era baixo e entroncado. Bigode grisalho. Olhos pequenos que o avaliaram de cima a baixo. — Chegou bem.
— Obrigado.
Lopes remexeu numa gaveta e retirou uma pasta castanha, que pousou no balcão com um baque seco.
— Os desaparecidos. — Fez um gesto vago. — Três mulheres e um homem. Ninguém viu nada. Ninguém ouviu nada. — Encolheu os ombros. — É o costume.
João pegou na pasta. Pesava mais do que devia.
— Não há pistas?
— Eu cá não encontrei nenhuma. — Lopes coçou o queixo. — Mas o senhor inspector tem fama de ver coisas que os outros não veem. — Fez uma pausa. — Ouvi dizer.
João ignorou o comentário.
— Há muito que trabalha aqui?
— Vinte anos. Conheço cada canto. Cada pessoa. — Lopes inclinou-se para a frente. — Se quer saber, a maioria já fez o luto à sua maneira. Esta terra é assim. Aceita-se a perda e pronto. Não se faz perguntas.
O estômago contraiu-se-lhe num nó duro. Não ia tolerar aquela resignação. Mas não disse nada. Abriu a pasta e viu as fotografias agarradas com clipes. Quatro rostos. Três mulheres jovens, de cabelos escuros e sorrisos tímidos, e um homem de meia-idade, de expressão dura. Quantos mais estariam por ali, esquecidos?
— Onde é a pensão?
— Ao fundo da rua. Dona Alice aluga quartos. É a única nesta altura do ano.
Lopes já lhe dera as costas e voltara a sentar-se, pegando no formulário. João saiu sem se despedir. O calor da rua atingiu-o como um sopro de fornalha. A luz do sol já mal tocava as paredes, engolida pelo horizonte. Caminhou pela rua deserta, ouvindo apenas o som dos seus próprios passos. Alpedreza parecia um cenário abandonado. As cigarras tinham cessado o seu canto. A vila parecia suspensa, como se alguém tivesse apagado todos os sons.
A pensão era uma casa de dois andares, com uma porta de madeira escura e uma placa a dizer “Pensão Alentejana”. João bateu à porta. Uma mulher de idade, de cabelo grisalho apanhado num coque, abriu-lhe.
— Quarto? — perguntou, sem rodeios.
— Sim. Tenho reserva. Martins.
A dona Alice assentiu e levou-o por um corredor estreito até um quarto no primeiro andar. O quarto era pequeno: uma cama de ferro, uma mesa de cabeceira com um candeeiro, um roupeiro baixo. As paredes estavam pintadas de um desbotado amarelo. Sobre a mesa, um jarro com água. João pousou a mochila no chão e sentou-se na cama. O colchão rangeu.
A dona Alice fechou a porta sem ruído. João ficou imóvel. O cansaço pesava-lhe nos ombros. Esfregou a cara com as mãos. A barba áspera arranhava-lhe a pele. Tirou o casaco de tweed e atirou-o para a cadeira. Abriu a pasta no colchão. As fotografias fitavam-no. Três mulheres, um homem. Os nomes estavam escritos a lápis no verso: Helena, Mariana, Catarina, Tomás. Todos desaparecidos nos últimos seis meses.
Leu os relatórios. As datas, os locais, as circunstâncias. Tudo vago. Nenhuma testemunha. Nenhum vestígio. Ninguém na vila parecia interessado em encontrá-los. João rangeu os dentes. O gesto involuntário trouxe-lhe um travo amargo à boca. Passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados. As têmporas latejavam.
Fechou a pasta. Levantou-se e abriu a janela. A noite caíra por completo. Um céu estrelado, sem lua. O ar estava parado, morno. Lá fora, a escuridão engolia as formas. Só se via a luz pálida do candeeiro da rua. Nenhum som. Nem cães, nem passos. Um silêncio de túmulo.
João fechou a janela. Tirou a camisa e a t-shirt, deixou-as no chão. Ficou de pé, em calças, a olhar para a cama. O corpo doía. A cicatriz fina no lábio superior era uma linha branca na penumbra. Deitou-se, a cabeça afundada na almofada. O candeeiro ainda aceso.
Fechou os olhos. O cansaço empurrou-o para um limbo. Mas o sono não veio. Em vez disso, uma névoa espessa tomou conta da sua mente. Os pensamentos esbateram-se. Já não distinguia se estava acordado ou a sonhar.
O Eco do Poço
O escuro moveu-se. João estava de pé, num descampado. A terra era pedregosa, os arbustos retorcidos. O cheiro a terra molhada e a algo podre subiu-lhe às narinas. O frio da noite feriu-lhe a pele nua do tronco. Mas sabia que não era real.
Uma figura aproximou-se. Uma rapariga de cabelo escuro, o rosto escondido por uma cortina de cabelo molhado. Arrastava os pés descalços sobre as pedras. João quis mover-se, mas as pernas não lhe obedeciam. Ela passou por ele. O vestido roçou-lhe o braço. Era um tecido áspero, húmido.
Então, uma sombra maior ergueu-se atrás da rapariga. Mãos invisíveis agarraram-lhe os cabelos e puxaram-nos para trás. Pela primeira vez, João viu-lhe o rosto. Os olhos arregalaram-se. A boca abriu-se num grito sem som. A boca formou um “O” mudo. O corpo foi arrastado para trás.
João forçou um movimento. Os braços pesavam toneladas. A sombra arrastava a rapariga para um ponto escuro no chão. Um poço. O som do corpo a ser puxado pela terra. Os dedos dela cravaram-se no solo. Unhas quebradas. O cheiro a sangue, a ferrugem.
Ela desapareceu pelo buraco. João ouviu o baque, muitos metros abaixo. Um som oco, molhado. Depois, nada.
Uma voz sussurrou-lhe ao ouvido. Um sopro frio no lóbulo. As palavras saíram arrastadas, como pedras a ranger:
— É o eco do mal.
João tentou gritar. A voz estrangulou-se-lhe na garganta. O corpo inteiro se retesou. Sentiu a boca seca. A língua colada ao céu da boca. A escuridão engoliu-o.
Acordou com um solavanco. O ar entrou-lhe nos pulmões num arquejo. As mãos agarravam os lençóis, os nós dos dedos brancos. O coração batia-lhe contra as costelas. Suor escorria-lhe pelas têmporas, pelo peito.
Sentou-se na cama. O quarto da pensão materializou-se. As paredes amarelas. O roupeiro. O jarro com água. O candeeiro ainda aceso, a luz a tremer. João respirou fundo. O cheiro a terra podre ainda lhe entupia as narinas. Levou as mãos ao rosto. Os dedos tremiam.
Levantou-se. As pernas estavam bambas. Abriu a janela com um safanão. O ar fresco da madrugada entrou no quarto, mas não lhe aliviou o aperto no peito. A visão ainda queimava atrás das pálpebras. O rosto da rapariga. O poço. A voz.
Voltou para a mesa. Pegou no bloco de notas que estava na mochila. As mãos ainda tremiam. O cheiro a terra molhada regressou-lhe por um instante.
Escreveu, com letras tortas:
"Poço da Azinheira".
Ficou a olhar para as palavras. Não sabia de onde vinha aquele nome. Sabia apenas que era real. Aquele poço existia. A rapariga esteve ali.
Bebeu água directamente do jarro. A água estava morna, mas soube-lhe a vida. Encheu o peito de ar. Os pulmões doeram. A pulsação acalmou, mas a urgência não. Havia qualquer coisa naquele nome. Uma âncora.
Lá fora, o céu começava a ganhar um tom leitoso. A primeira luz da alvorada insinuava-se por entre os telhados. João ficou à janela, imóvel. Os minutos passaram. O medo e a vontade lutavam dentro dele. O medo de estar a perder a razão. A vontade de seguir a visão.
Custava-lhe admitir. Mas a verdade era clara: aquelas visões nunca o tinham enganado. Em cada caso, o pormenor mais absurdo revelara-se real. A rapariga da visão era uma das desaparecidas. Ele reconhecera o cabelo, o vestido. Helena? Mariana? Não importava. O poço chamava por ele.
Rangeu os dentes. O ruído ecoou no quarto. A decisão solidificou-se. Vestiu a t-shirt às arrecuas, a camisa, atirou o casaco sobre os ombros. Agarrou na lanterna e na pistola, no coldre junto à mochila. Calçou as botas. O peso da arma no coldre era familiar.
Abriu a porta do quarto. O corredor estava escuro. Desceu as escadas nas pontas dos pés, o soalho a gemer sob o peso. A visão não o largava. O poço. A rapariga. A descida. Algo lhe escapava. Algo de que precisava.
No rés-do-chão, deteve-se. O silêncio era absoluto. A porta da cozinha, à esquerda. À direita, um corredor estreito que dava para a despensa. Empurrou-a. A madeira rangeu.
Lá dentro, pendurado num prego atrás da porta, um rolo de corda de sisal — grossa, gasta, mas resistente. Tirou-a. A fibra áspera roçou-lhe nos dedos.
Voltou ao corredor. Enfiou a corda na mochila. A porta da rua estava ali, a poucos passos e rangeu levemente ao abrir-se.
A rua ainda dormia. O ar fresco da madrugada fez-lhe arder os pulmões. João puxou a gola do casaco. Os olhos fixaram-se no horizonte, a leste, onde o sol ainda não nascera.
Sem olhar para trás, saiu da pensão. O eco da visão pulsava-lhe nas veias. Não sabia se era coragem ou loucura. Mas ia ao Poço da Azinheira.