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Por Mauro Sombra

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 3 Assistido por IA
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O Sorriso do Ourives

IA
A Ourivesaria

João passou a manhã a vasculhar a vida de Helena. Falou com a vizinha, uma mulher de lenço na cabeça que olhava para o chão. Espreitou o quarto que ela alugara, um cubículo com uma cama de ferro e uma fotografia da mãe na mesinha. Nenhum diário, nenhuma carta. Apenas um avental cinzento dobrado na gaveta.
— Trabalhava em casa do ourives — disse a vizinha. — Limpezas.
João anotou. O nome de Adriano Saragoça surgia outra vez. Como uma sombra que se colava às esquinas.
A ourivesaria ficava na rua principal, entre a taberna e a igreja. A fachada era de pedra escura, com uma porta de madeira maciça e uma montra onde brilhavam peças de prata e ouro. Um cheiro a metal e a incenso escapava-se pelas frestas. João empurrou a porta. Uma campainha tilintou.
Adriano estava atrás do balcão, a polir uma pedra negra. Os seus dedos moviam-se com lentidão, alisando a superfície irregular. Levantou os olhos cinzentos. O sorriso demorou um segundo a formar-se.
— Inspector Martins. Esperava-o. — A voz era macia, untuosa. — Sirva-se de aguardente. É da terra.
João fechou a porta. O ar dentro era fresco, pesado. As paredes estavam forradas de relógios antigos e crucifixos. Uma jarra de barro com ervas secas exalava um aroma adocicado.
— Obrigado. — João sentou-se num banco alto. Adriano pousou a pedra no balcão e serviu dois copos.
— A Helena trabalhava aqui — disse João, sem rodeios.
— Trabalhava. — Adriano inclinou a cabeça. — Uma rapariga calada. Vinha duas vezes por semana. Nunca deu problemas.
— Sabe de alguém que lhe quisesse mal?
O ourives sorriu. Os lábios finos esticaram-se devagar.
— Ninguém lhe queria mal, inspector. Ela era uma sombra. As sombras não têm inimigos.
João rangeu os dentes. O ruído foi abafado pelo tilintar do copo que levou aos lábios. A aguardente queimou-lhe a garganta.
— E o senhor? Onde estava na noite em que ela desapareceu?
— Aqui. Sozinho. A trabalhar. — Adriano apontou para uma porta ao fundo. — Tenho uma oficina. Passo noites a polir pedras. É o meu vício.
Pegou na pedra negra e mostrou-a a João. Era lisa num dos lados, rugosa do outro. Não reflectia luz.
— Bonita — murmurou João, sem interesse.
— Encontrei-a há muitos anos, num poço. — Adriano fixou-o. — O Poço da Azinheira.
João sentiu um arrepio na nuca. Adriano continuou:
— Foi o seu pai que me falou dele.
O copo de João estremeceu. Pousou-o no balcão com força.
— O meu pai?
— Sim. O inspector Martins, de Évora. Esteve cá há mais de trinta anos. Uma investigação qualquer. Falámos. — Adriano recostou-se. Os olhos não pestanejavam. — Um homem inteligente. Mas via coisas.
João cerrou os punhos. As palavras de Adriano cravavam-se como anzóis.
— Via coisas?
— Via. — O sorriso abriu-se ainda mais. — E pelo que ouvi, o filho herdou o mesmo... talento. — Fez uma pausa. — Ouvi dizer que ele se matou.
O ar arrefeceu. João sentiu o coração acelerar. O rosto de Adriano era uma máscara de cortesia.
— O meu pai morreu num acidente — disse João, a voz rouca.
— Claro. Um acidente. — Adriano ergueu o copo. — Saúde.
Bebeu um gole, sem desviar o olhar. João via as rugas profundas ao redor dos lábios, o prazer escondido em cada sílaba.
— Porque é que me está a contar isto?
— Porque o senhor inspector veio à procura de respostas. E eu acho que as respostas começam com as perguntas certas. — Adriano inclinou-se sobre o balcão. O metal frio rangeu. — O seu pai também procurava respostas. E encontrou-as. Mas talvez não tenham sido as que queria.
João levantou-se. O banco raspou no soalho.
— Obrigado pela aguardente. — Atirou o copo vazio para o balcão.
— Sempre que quiser. A porta está aberta. — Adriano endireitou-se. — Ah, e inspector... tome cuidado. Às vezes, ver o que os outros não veem pode ser um poço sem fundo.
João saiu para a rua. O sol bateu-lhe nos olhos. O ar fedia a pó. As mãos ainda lhe tremiam. A cicatriz no lábio ardia. Caminhou sem destino, as palavras de Adriano a latejar no crânio. O pai em Alpedreza. O mesmo mal. A loucura que se herdava.
Parou a uma esquina e respirou fundo. O cheiro a incenso ainda estava agarrado à roupa. Olhou para trás. A porta da ourivesaria abriu-se e Adriano apareceu, polindo a pedra. Ergueu-a à luz. O sorriso não saía do rosto.
João virou costas. Mas sentia os olhos cinzentos a segui-lo, como duas lâminas.


No Quarto

A tarde foi um corredor de portas fechadas e olhares desviados. João voltou à pensão quando o sol já arrefecia. Subiu as escadas sem ver ninguém. A dona Alice não apareceu.
No quarto, trancou a porta. A luz do candeeiro tremia. Tirou o casaco e atirou-o para a cadeira. Depois, ficou de pé, imóvel, a olhar para o espelho em cima do toucador.
O vidro devolveu-lhe um rosto que não reconheceu. As olheiras eram mais fundas. O cabelo desgrenhado. A cicatriz no lábio parecia uma fenda. Os olhos cinzentos estavam vidrados.
Passou a mão esquerda pelos cabelos. O gesto repetiu-se, automático. A voz de Adriano ecoava: “O seu pai via coisas. Herdou... talento. Ele matou-se.”
João rangeu os dentes. O ruído saiu áspero. Uma veia latejou-lhe na testa. Duvidou. Pela primeira vez, duvidou a sério. As visões sempre tinham sido certezas. Mas agora, a certeza era um fio a estalar.
O espelho pareceu embaciar. João pestanejou. A sua imagem tremia. Atrás de si, o quarto escureceu. As paredes amarelas tornaram-se cinzas. Um cheiro a terra molhada subiu. Não vinha de fora.
Fechou os olhos. O escuro moveu-se. Uma figura de vestido. O corpo a ser arrastado. O poço. A voz: “É o eco do mal.”
Abriu os olhos. Nada. O quarto estava igual. Mas a imagem no espelho continuava a tremer. João deu um passo em frente. As mãos pousaram na beira do toucador. Os dedos agarravam a madeira gasta.
Inclinou-se para o espelho. O rosto aproximou-se. Os olhos fitaram-se. A boca abriu-se num esgar. As palavras de Adriano eram marteladas: “Via coisas. Matou-se.”
João sentiu a cabeça a latejar. Agarrou-se aos cabelos. Os dedos cravaram-se no couro cabeludo. Apertou. A dor foi uma âncora. Mas o pânico não cedeu.
O quarto estava em silêncio. Apenas a respiração ofegante. O cheiro a terra molhada desvaneceu-se. Mas a dúvida ficou.
João ergueu o rosto para o espelho. As mãos deslizaram dos cabelos para as têmporas. Segurou a cabeça como se quisesse arrancá-la do pescoço. Apertou com força. Os olhos no vidro estavam arregalados. Secos.
Lá fora, a noite caía sobre Alpedreza. E no quarto, o inspector Martins lutava contra as visões que lhe roíam a sanidade.
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