Home Categorias Explorar Como Funciona
Login Registar
Por Mauro Sombra

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 4 Assistido por IA
"

A Confissão de Maria do Carmo

IA
A Chávena de Helena

A taberna fechara as portas há uma hora. O cheiro a vinho entornado e a tabaco velho pairava no ar, misturado com a humidade que subia do soalho de madeira. Maria do Carmo remexia nos copos atrás do balcão, o pano de prato a correr pelo vidro em círculos lentos. As suas costas largas estavam voltadas para a porta, mas os ouvidos captavam cada som.

João entrou sem fazer ruído. A porta rangeu apenas um pouco. Ela não se virou. Ele fechou-a devagar, o trinco a estalar. A luz amarelada do candeeiro de petróleo dançava nas paredes caiadas.

— Já fechámos — disse ela, sem olhar.

— Preciso de falar consigo.

Maria pousou o copo. Os dedos esfregaram-se uns nos outros, polegar contra indicador e médio, o gesto inconsciente de um rosário invisível. Virou-se. O seu rosto redondo voltou-se para ele. João estava parado no meio da sala, o casaco de tweed sobre os ombros, os cabelos ainda mais desgrenhados do que de costume. As olheiras cavavam-lhe o rosto.

— Não há mais nada para dizer, inspector. Já lhe dei o café.

— Não é café que eu quero.

João avançou dois passos. A mão esquerda passou pelos cabelos, num gesto nervoso. Ela reparou. O bigode fino de João tremia ligeiramente, e a cicatriz no lábio parecia mais funda.

— Sente-se, então. — Maria apontou para um banco. A sua voz saiu mais áspera do que pretendia. Ele obedeceu.

— A senhora sabe coisas.

— Toda a gente sabe coisas.

— Mas a senhora sabe coisas que os outros não sabem.

Ela encolheu os ombros, o xaile subiu até ao queixo. O silêncio estendeu-se entre eles. Lá fora, o vento amainara e a vila dormia.

— O que viu no poço mexeu consigo — murmurou ela, sem o olhar.

— E o que eu vejo à noite mexe ainda mais.

Ela fitou-o. A mandíbula contraiu-se, mas os olhos pequenos e duros faiscaram. Ele sustentou o olhar. A luz da lamparina piscou.

— Também vê coisas? — A pergunta saiu-lhe num sopro.

— Vejo. Desde sempre. Mas agora não sei se é loucura ou... qualquer outra coisa.

— Loucura é não querer ver. — A frase foi dita com uma firmeza que surpreendeu João. Ela desviou a cabeça para a janela. A escuridão colava-se aos vidros. — A minha avó dizia o mesmo.

— A sua avó? — João rangeu os dentes, o ruído abafado pelo silêncio.

— Queimaram-na. Porque via o que os outros não viam. E ninguém acreditou.

A mão de Maria tremia ao pegar num pano. João via as veias grossas, o esforço para manter a calma.

— Eu acredito — disse ele, baixo.

Ela soltou uma gargalhada seca.

— Acredita? Nem eu acredito em mim. — Apontou para a cabeça com o indicador. — Isto é uma maldição.

— Ou um dom. — João inclinou-se sobre o balcão. — Helena estava no poço exactamente como eu a vi. Ninguém mais sabia. Mas eu vi.

Maria recuou um passo. O seu rosto redondo contraiu-se numa careta de medo.

— O senhor inspector está a dizer que...

— Que lhe pedi ajuda para encontrar a sua amiga e que lhe confesso que vejo os mortos. Ou os seus ecos. Não sei. Mas sei que a senhora também sente coisas. Eu vi naquele dia, no poço. Tocou no corpo. Os seus olhos não enganam.

Ela fechou os olhos com força, como se quisesse apagar uma imagem. Os lábios moveram-se numa prece silenciosa.

— Não quero.

— Mas pode. — João ergueu-se. Aproximou-se do balcão e pousou a mão espalmada na madeira. — Preciso de si. Não como inspector. Como um homem que está à beira de se perder.

A voz dele embargou-se nas últimas palavras. Maria abriu os olhos. Viu-lhe a humidade nas pálpebras, o tremor no queixo. A cicatriz parecia um fio de sangue.

— Que quer de mim? — sussurrou ela.

— Toque nesta chávena. — João tirou uma chávena de café do balcão, uma das que estavam lavadas e secas. — Era a chávena de Helena. As suas mãos tocaram-na muitas vezes.

Ela olhou para a chávena como se fosse uma víbora. As mãos crispadas ao longo do corpo.

— Não, não posso.

— Pode. Eu estou aqui.

— Não sabe o que me acontece. É como se o mundo se abrisse. Dói.

— Eu aguento a dor consigo.

João pegou-lhe na mão direita com delicadeza, o polegar a acariciar-lhe os nós dos dedos. A pele dela era áspera e quente. Ela estremeceu. A cabeça ergueu-se devagar. Havia ali um reconhecimento, uma irmandade de almas feridas.

Lentamente, Maria do Carmo estendeu a mão esquerda para a chávena. Os dedos tocaram na porcelana fria.

Um zumbido agudo perfurou-lhe os ouvidos. O ar ficou mais pesado. Depois, o mundo desabou.

A taberna desapareceu. Ela estava num descampado de terra vermelha, sobreiros retorcidos a perderem-se de vista. O cheiro a esteva e a pó entupia-lhe as narinas. O céu era uma mancha cinzenta, sem sol. Ao longe, uma cabana de madeira escura, com a porta entreaberta. O silêncio era cortado por um zumbido de moscas.

Ela caminhou, os pés descalços a magoarem-se nas pedras. A cabana aproximou-se. A porta rangeu. Lá dentro, a escuridão. Um cheiro adocicado e podre. Uma figura deitada no chão de terra.

Helena.

O rosto da rapariga estava pálido, os olhos abertos e vidrados. As marcas roxas no pescoço. O vestido de algodão manchado de sangue seco. As mãos da rapariga seguravam um objecto pequeno e escuro. Uma pedra, talvez. Brilhava na penumbra.

Uma voz sussurrou-lhe ao ouvido: "É o eco do mal."

Maria gritou. Mas o grito não saiu. Apenas um arquejo mudo.

A visão dissolveu-se. Ela estava de novo na taberna, de joelhos no chão, a chávena partida em cacos à sua volta. João ajoelhara-se ao seu lado, as mãos nos seus ombros.

— Maria! Maria! — chamava ele, o pânico na voz.

Ela tremia da cabeça aos pés. O suor escorria-lhe pela testa, pelas costas. As pupilas estavam dilatadas, a respiração presa. Olhou para João.

— Vi-a. Vi a Helena. — A sua voz era um fio. — Está morta. Numa cabana, no montado.

João apertou-lhe os ombros.

— Onde? Consegue ver o lugar?

— Os sobreiros... há um caminho de pedras soltas. E uma figueira seca ao lado. A cabana é de madeira escura, com a porta a cair.

— O montado do lado sul. — João levantou-se, a mente já a correr. — Conhece esse sítio?

— Conheço. É para lá do poço. Mas, João... — Ela agarrou-lhe o braço. — Havia qualquer coisa mais. Uma voz. A mesma que me chamou quando era menina.

João parou. O seu rosto ensombrou-se.

— O eco do mal.

Maria benzeu-se.

— Como sabe?

— Porque também a oiço. — João passou a mão pelos cabelos, o gesto quase violento. — Desde o primeiro dia nesta vila.

Ela soltou-o e levantou-se devagar, apoiando-se ao balcão. Os cacos da chávena estalaram sob os seus sapatos.

— Então é verdade. — Maria afastou-se dos cacos. A sua voz ganhou uma calma que não sentia. — Está aqui.

— E nós temos de o parar. — João fitou-a com intensidade. — Juntos.

Maria olhou-o nos olhos. O medo ainda bailava nas suas pupilas, mas havia ali também uma centelha de determinação.

— A minha avó não conseguiu porque estava sozinha. — A voz dela ganhou força. — Mas eu não estou.

— Não está. — João sorriu, um esgar cansado mas sincero. — E eu também não.

Ela pegou no pano caído e limpou as mãos. Depois, endireitou o xaile e ergueu o queixo.

— Muito bem, inspector. Que fazemos agora?

— Amanhã, vamos ao montado. Você e eu. Encontrar essa cabana.

Maria assentiu. Havia uma nova firmeza no seu olhar, uma coragem que não tinha mostrado antes. Pela primeira vez em muitos anos, sentia que a sua maldição podia servir para algo.

João apertou-lhe a mão. O calor dos dedos calejados transmitiu-lhe uma calma inesperada.

— Até amanhã, então.

— Até amanhã. — Ela segurou-lhe a mão por mais um segundo. — E, inspector... João... obrigada por acreditar.

— Obrigado por ver.

Ele saiu para a rua. A noite estava fresca, o céu cravejado de estrelas. Ao fundo, ouvia-se o ladrar de um cão. Maria ficou na porta da taberna, a vê-lo afastar-se. Depois, fechou a porta e encostou-se a ela, os olhos fechados. As visões ainda queimavam atrás das pálpebras, mas o medo dera lugar a uma estranha esperança.
0
0
15
1 2 3 4 5 6 … 20

Comentários 0

Inicia sessão para participares na conversa.

Entrar

Ainda ninguém sussurrou por aqui.