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A Pista Falsa de Zulmira
IA
Agarrou na mochila e na lanterna. Ia a sair quando um baque na porta da rua o fez estacar. Pancadas lentas, espaçadas, como se fossem dadas com um bastão.
Desceu as escadas. Abriu a porta.
Uma mulher envolta em farrapos negros. Um cajado retorcido na mão direita. Zulmira Valentim. Os seus olhos, duas pedras de ônix, fixaram-se nos de João. O cheiro a ervas queimadas e a terra seca envolveu-a como uma névoa.
— Bom dia, inspector. — A voz áspera roçava-lhe na garganta. — Preciso de falar consigo.
João recuou um passo. A mão pousou no coldre.
— Que quer?
— Oferecer-lhe ajuda. O senhor inspector procura os desaparecidos. Eu vejo o que os olhos não veem. — Inclinou a cabeça. Os cabelos grisalhos caíram-lhe sobre o rosto.
— E vi um lugar.
— Que lugar?
— Uma cabana, para lá do montado, onde o sol não bate. Ali senti uma presença. — Fechou os olhos. As pálpebras enrugadas tremeram. — Algo me chamou. Como um sopro frio.
João hesitou. A visão do poço provara que o impossível era possível. E se Zulmira tinha o mesmo dom?
— Muito bem. Leve-me lá.
Saíram da vila por um carreiro de pedras soltas entre azinheiras e sobreiros. O ar estava parado. O calor começava a apertar. Zulmira caminhava à frente com uma agilidade surpreendente, o cajado a tatear o chão. João seguia-a. Mal trocaram uma palavra durante uma hora.
A cabana surgiu de repente, após uma curva do caminho. Madeira escura, quase negra. O telhado de zinco meio derrubado. A porta pendia de uma única dobradiça. As janelas estavam entaipadas. O cheiro a mofo e a urina de animal pairava no ar.
— É aqui — murmurou Zulmira. Os dedos sujos de terra apontaram para a porta. — Alguém esteve aqui. Alguém sofreu.
João empurrou a porta com o ombro. A madeira rangeu. Lá dentro, a penumbra era densa. Acendeu a lanterna. O facho varreu o interior: um colchão esburacado a um canto, uma mesa carcomida, um amontoado de trapos no chão de terra batida.
Zulmira entrou atrás dele. Os seus olhos percorreram o espaço como se lessem algo invisível. Baixou-se e agarrou num pedaço de pano sujo, meio escondido debaixo do colchão. Um xaile de lã, outrora de cor viva, agora manchado de terra e de algo escuro.
— Está a ver? — sibilou. — Pertence a uma delas. Consigo sentir.
João pegou no xaile. A lã áspera agarrou-se-lhe aos dedos como se guardasse o frio da cabana. Fechou os olhos por um instante. Nada. Apenas o silêncio.
— Tem a certeza?
— Absoluta. — Zulmira fitou-o. — E mais: vejo o rosto de quem a levou. Um homem de barba cerrada, chapéu de feltro. Um vendedor ambulante. Chamam-lhe António.
João guardou a informação. Um nome. Uma pista.
— Onde posso encontrá-lo?
— Não sei. — Zulmira encolheu os ombros. — Mas ele há de voltar. E quando voltar, levará outra.
João olhou para o xaile, para a cabana, para a velha. Tudo parecia demasiado certo. Mas o desespero empurrava-o a acreditar.
— Obrigado. — Guardou o xaile na mochila. — Se souber de mais alguma coisa...
— Eu sei onde o encontrar, inspector. — Zulmira sorriu. O sorriso não lhe chegou aos olhos. Deu meia-volta e afastou-se pelo carreiro, o cajado a bater na terra.
João ficou à porta, a vê-la desaparecer. O vento levantou uma nuvem de pó. Por um momento, achou ter visto o vulto dela desvanecer-se como uma sombra. O cansaço latejava-lhe nas têmporas. Mas havia um fio de esperança. Um nome. Um fio para puxar.
O Rasto de António
João regressou à vila quando o sol ia alto. Encontrou Maria do Carmo na taberna, a limpar o balcão.
— Que é que lhe aconteceu? — perguntou ela. — Parece que viu um fantasma.
— Quase isso. — João sentou-se. Tirou o xaile da mochila e estendeu-lho. — Conhece isto?
Maria pegou-lhe. Apalpou o tecido. Fechou os olhos um instante, mas abanou a cabeça.
— Não me diz nada. O feitio é comum. Lã da serra, tingida com urze. Há muitas assim.
— Zulmira Valentim levou-me a uma cabana. Encontrou isto. Disse que era de uma desaparecida. E que o raptor é um ambulante chamado António.
Maria pousou o xaile no balcão.
— Zulmira? — A sua voz saiu seca. — E o senhor acreditou?
— Tenho de seguir todas as pistas. — João passou a mão pelos cabelos. — O que sabe sobre esse António?
— António, o ambulante. — Maria esfregou o polegar contra os dedos. — Passa por cá de três em três meses. Vende panelas e quinquilharias. Mas há mais de meio ano que não o vejo. Dizem que foi para Espanha.
João levantou-se.
— Preciso de confirmar. — Agarrou no xaile. — Vamos ver se alguém sabe disto.
Percorreram a vila. Pararam na casa de Dona Emília, uma viúva de setenta anos que usava xaile. A mulher examinou o pano com as mãos trémulas.
— Não é meu. O meu é mais escuro. Isto é de outra.
Foram à mercearia, à forja, ao largo da igreja. Ninguém reconheceu o xaile. As respostas eram sempre as mesmas: "Não sei", "Nunca vi", "É parecido com um que a minha tia tinha, mas ela morreu há dez anos."
João sentiu a frustração crescer. Guardou o xaile na mochila.
Na esquadra, Lopes confirmou as suspeitas. António estava registado como ausente da vila desde fevereiro. Uma tia em Badajoz mandara uma carta; ele respondera a dizer que estava a trabalhar numa feira em Sevilha. Não havia registo de entrada em Portugal nos últimos seis meses.
João saiu da esquadra com a mandíbula tensa. Maria acompanhou-o até à porta da taberna.
— Não se culpe. — A voz dela era calma. — O importante é que agora sabemos que não podemos confiar nela.
— Mas perdi tempo. — A voz de João saiu áspera. — E se ela está a trabalhar para Adriano?
— Exacto. — Maria baixou a voz. — Isso também é uma pista. Alguém tem medo do que podemos descobrir.
João olhou para o horizonte. Os sobreiros recortavam-se contra o céu cinzento. O sol começava a descer.
— Amanhã, vamos ao montado. Sem falta.
— Sem falta. — Maria tocou-lhe no braço. — Agora vá descansar.
João sorriu — um esgar cansado — e dirigiu-se à pensão. Os passos arrastavam-se no empedrado.
A Suspeita de Maria
O sol caíra atrás das colinas quando a taberna fechou as portas. Maria do Carmo passou o pano no último copo. Lá fora, a rua estava deserta.
João apareceu pouco depois, sem bater. Sentou-se no banco de costume.
— Ainda a remoer? — perguntou ela, sem se virar.
— Não consigo parar. — A voz saiu-lhe rouca. — E se enquanto andamos a correr atrás de pistas falsas, o verdadeiro raptor leva outra?
— Não podemos pensar assim. — Maria encarou-o. — Alguém está a tentar enganar-nos. Isso significa que estamos no caminho certo.
— Mas quem? Zulmira? Adriano? Os dois? — João passou a mão pelos cabelos. — O que escondem?
Maria não respondeu logo. Serviu dois copos de aguardente. Virou o seu de uma vez. O líquido queimou, mas a mente clareou.
— Sabe, inspector, há mais de trinta anos que conheço aquela velha. Nunca fez nada por ninguém sem cobrar.
— Como assim?
— Antes dos desaparecimentos, ela andava a rondar as casas das raparigas. A mãe de uma delas disse-me que Zulmira a avisou: «Cuidado com o lobo.» Mas nunca disse quem era o lobo. — Maria serviu-se de novo. — E agora aparece-lhe com uma pista tão certinha?
João bebeu. A aguardente ardeu-lhe na garganta.
— Tem razão. Foi demasiado fácil.
— E mais. — Maria inclinou-se sobre o balcão, a voz mais baixa. — Reparou nas mãos dela?
João franziu o sobrolho.
— As mãos?
— Sujas de terra fresca. Mas as unhas tinham restos de caliça. Como se tivesse andado a escavar numa parede. E o xaile... cheirava a bafio, sim. Mas não a cabana. Cheirava a adega. A vinho velho.
João pensou. Não tinha reparado no cheiro. Mas Maria sim. A velha taberneira via mais do que aparentava.
— A senhora notou tudo isso?
— Eu noto o que os outros não veem, inspector. — Ela esfregou o polegar contra os dedos. — Não gosto de acusar sem provas. Mas aquela mulher não é de confiança.
O silêncio caiu entre eles. Lá fora, um cão ladrou ao longe. João terminou a aguardente.
— Vou confrontá-la amanhã.
— Não. — Maria agarrou-lhe o pulso. — Deixe-a pensar que acreditámos na mentira. Se ela se sentir segura, talvez cometa um erro.
João hesitou. A prudência irritava-o, mas a lógica era sólida. Assentiu.
— Está bem. Mas à mínima suspeita...
— Combinado. — Maria soltou-lhe o pulso. — Agora vá. Descanse.
João levantou-se. O cansaço pesava, mas a dúvida era uma brasa acesa. Caminhou até à porta. Virou-se.
— Maria... obrigado.
Ela acenou com a cabeça. João saiu para a rua. A porta fechou-se atrás dele.
Maria do Carmo ficou imóvel atrás do balcão. O silêncio da taberna era absoluto. As mãos pousaram na madeira gasta. Os dedos esfregaram-se uns nos outros — o polegar contra o indicador e o médio, num rosário que nunca tinha contas.
Os olhos castanhos percorreram a sala vazia. A luz do candeeiro tremeu. Lá fora, o vento levantou uma lufada de pó.
Maria suspirou. As palavras saíram-lhe num sussurro, tão baixo que nem ela as ouviu:
— Ela está a enganar-nos. Temos de descobrir o quê.
O eco perdeu-se na escuridão da taberna. Uma prece sem resposta.
Desceu as escadas. Abriu a porta.
Uma mulher envolta em farrapos negros. Um cajado retorcido na mão direita. Zulmira Valentim. Os seus olhos, duas pedras de ônix, fixaram-se nos de João. O cheiro a ervas queimadas e a terra seca envolveu-a como uma névoa.
— Bom dia, inspector. — A voz áspera roçava-lhe na garganta. — Preciso de falar consigo.
João recuou um passo. A mão pousou no coldre.
— Que quer?
— Oferecer-lhe ajuda. O senhor inspector procura os desaparecidos. Eu vejo o que os olhos não veem. — Inclinou a cabeça. Os cabelos grisalhos caíram-lhe sobre o rosto.
— E vi um lugar.
— Que lugar?
— Uma cabana, para lá do montado, onde o sol não bate. Ali senti uma presença. — Fechou os olhos. As pálpebras enrugadas tremeram. — Algo me chamou. Como um sopro frio.
João hesitou. A visão do poço provara que o impossível era possível. E se Zulmira tinha o mesmo dom?
— Muito bem. Leve-me lá.
Saíram da vila por um carreiro de pedras soltas entre azinheiras e sobreiros. O ar estava parado. O calor começava a apertar. Zulmira caminhava à frente com uma agilidade surpreendente, o cajado a tatear o chão. João seguia-a. Mal trocaram uma palavra durante uma hora.
A cabana surgiu de repente, após uma curva do caminho. Madeira escura, quase negra. O telhado de zinco meio derrubado. A porta pendia de uma única dobradiça. As janelas estavam entaipadas. O cheiro a mofo e a urina de animal pairava no ar.
— É aqui — murmurou Zulmira. Os dedos sujos de terra apontaram para a porta. — Alguém esteve aqui. Alguém sofreu.
João empurrou a porta com o ombro. A madeira rangeu. Lá dentro, a penumbra era densa. Acendeu a lanterna. O facho varreu o interior: um colchão esburacado a um canto, uma mesa carcomida, um amontoado de trapos no chão de terra batida.
Zulmira entrou atrás dele. Os seus olhos percorreram o espaço como se lessem algo invisível. Baixou-se e agarrou num pedaço de pano sujo, meio escondido debaixo do colchão. Um xaile de lã, outrora de cor viva, agora manchado de terra e de algo escuro.
— Está a ver? — sibilou. — Pertence a uma delas. Consigo sentir.
João pegou no xaile. A lã áspera agarrou-se-lhe aos dedos como se guardasse o frio da cabana. Fechou os olhos por um instante. Nada. Apenas o silêncio.
— Tem a certeza?
— Absoluta. — Zulmira fitou-o. — E mais: vejo o rosto de quem a levou. Um homem de barba cerrada, chapéu de feltro. Um vendedor ambulante. Chamam-lhe António.
João guardou a informação. Um nome. Uma pista.
— Onde posso encontrá-lo?
— Não sei. — Zulmira encolheu os ombros. — Mas ele há de voltar. E quando voltar, levará outra.
João olhou para o xaile, para a cabana, para a velha. Tudo parecia demasiado certo. Mas o desespero empurrava-o a acreditar.
— Obrigado. — Guardou o xaile na mochila. — Se souber de mais alguma coisa...
— Eu sei onde o encontrar, inspector. — Zulmira sorriu. O sorriso não lhe chegou aos olhos. Deu meia-volta e afastou-se pelo carreiro, o cajado a bater na terra.
João ficou à porta, a vê-la desaparecer. O vento levantou uma nuvem de pó. Por um momento, achou ter visto o vulto dela desvanecer-se como uma sombra. O cansaço latejava-lhe nas têmporas. Mas havia um fio de esperança. Um nome. Um fio para puxar.
O Rasto de António
João regressou à vila quando o sol ia alto. Encontrou Maria do Carmo na taberna, a limpar o balcão.
— Que é que lhe aconteceu? — perguntou ela. — Parece que viu um fantasma.
— Quase isso. — João sentou-se. Tirou o xaile da mochila e estendeu-lho. — Conhece isto?
Maria pegou-lhe. Apalpou o tecido. Fechou os olhos um instante, mas abanou a cabeça.
— Não me diz nada. O feitio é comum. Lã da serra, tingida com urze. Há muitas assim.
— Zulmira Valentim levou-me a uma cabana. Encontrou isto. Disse que era de uma desaparecida. E que o raptor é um ambulante chamado António.
Maria pousou o xaile no balcão.
— Zulmira? — A sua voz saiu seca. — E o senhor acreditou?
— Tenho de seguir todas as pistas. — João passou a mão pelos cabelos. — O que sabe sobre esse António?
— António, o ambulante. — Maria esfregou o polegar contra os dedos. — Passa por cá de três em três meses. Vende panelas e quinquilharias. Mas há mais de meio ano que não o vejo. Dizem que foi para Espanha.
João levantou-se.
— Preciso de confirmar. — Agarrou no xaile. — Vamos ver se alguém sabe disto.
Percorreram a vila. Pararam na casa de Dona Emília, uma viúva de setenta anos que usava xaile. A mulher examinou o pano com as mãos trémulas.
— Não é meu. O meu é mais escuro. Isto é de outra.
Foram à mercearia, à forja, ao largo da igreja. Ninguém reconheceu o xaile. As respostas eram sempre as mesmas: "Não sei", "Nunca vi", "É parecido com um que a minha tia tinha, mas ela morreu há dez anos."
João sentiu a frustração crescer. Guardou o xaile na mochila.
Na esquadra, Lopes confirmou as suspeitas. António estava registado como ausente da vila desde fevereiro. Uma tia em Badajoz mandara uma carta; ele respondera a dizer que estava a trabalhar numa feira em Sevilha. Não havia registo de entrada em Portugal nos últimos seis meses.
João saiu da esquadra com a mandíbula tensa. Maria acompanhou-o até à porta da taberna.
— Não se culpe. — A voz dela era calma. — O importante é que agora sabemos que não podemos confiar nela.
— Mas perdi tempo. — A voz de João saiu áspera. — E se ela está a trabalhar para Adriano?
— Exacto. — Maria baixou a voz. — Isso também é uma pista. Alguém tem medo do que podemos descobrir.
João olhou para o horizonte. Os sobreiros recortavam-se contra o céu cinzento. O sol começava a descer.
— Amanhã, vamos ao montado. Sem falta.
— Sem falta. — Maria tocou-lhe no braço. — Agora vá descansar.
João sorriu — um esgar cansado — e dirigiu-se à pensão. Os passos arrastavam-se no empedrado.
A Suspeita de Maria
O sol caíra atrás das colinas quando a taberna fechou as portas. Maria do Carmo passou o pano no último copo. Lá fora, a rua estava deserta.
João apareceu pouco depois, sem bater. Sentou-se no banco de costume.
— Ainda a remoer? — perguntou ela, sem se virar.
— Não consigo parar. — A voz saiu-lhe rouca. — E se enquanto andamos a correr atrás de pistas falsas, o verdadeiro raptor leva outra?
— Não podemos pensar assim. — Maria encarou-o. — Alguém está a tentar enganar-nos. Isso significa que estamos no caminho certo.
— Mas quem? Zulmira? Adriano? Os dois? — João passou a mão pelos cabelos. — O que escondem?
Maria não respondeu logo. Serviu dois copos de aguardente. Virou o seu de uma vez. O líquido queimou, mas a mente clareou.
— Sabe, inspector, há mais de trinta anos que conheço aquela velha. Nunca fez nada por ninguém sem cobrar.
— Como assim?
— Antes dos desaparecimentos, ela andava a rondar as casas das raparigas. A mãe de uma delas disse-me que Zulmira a avisou: «Cuidado com o lobo.» Mas nunca disse quem era o lobo. — Maria serviu-se de novo. — E agora aparece-lhe com uma pista tão certinha?
João bebeu. A aguardente ardeu-lhe na garganta.
— Tem razão. Foi demasiado fácil.
— E mais. — Maria inclinou-se sobre o balcão, a voz mais baixa. — Reparou nas mãos dela?
João franziu o sobrolho.
— As mãos?
— Sujas de terra fresca. Mas as unhas tinham restos de caliça. Como se tivesse andado a escavar numa parede. E o xaile... cheirava a bafio, sim. Mas não a cabana. Cheirava a adega. A vinho velho.
João pensou. Não tinha reparado no cheiro. Mas Maria sim. A velha taberneira via mais do que aparentava.
— A senhora notou tudo isso?
— Eu noto o que os outros não veem, inspector. — Ela esfregou o polegar contra os dedos. — Não gosto de acusar sem provas. Mas aquela mulher não é de confiança.
O silêncio caiu entre eles. Lá fora, um cão ladrou ao longe. João terminou a aguardente.
— Vou confrontá-la amanhã.
— Não. — Maria agarrou-lhe o pulso. — Deixe-a pensar que acreditámos na mentira. Se ela se sentir segura, talvez cometa um erro.
João hesitou. A prudência irritava-o, mas a lógica era sólida. Assentiu.
— Está bem. Mas à mínima suspeita...
— Combinado. — Maria soltou-lhe o pulso. — Agora vá. Descanse.
João levantou-se. O cansaço pesava, mas a dúvida era uma brasa acesa. Caminhou até à porta. Virou-se.
— Maria... obrigado.
Ela acenou com a cabeça. João saiu para a rua. A porta fechou-se atrás dele.
Maria do Carmo ficou imóvel atrás do balcão. O silêncio da taberna era absoluto. As mãos pousaram na madeira gasta. Os dedos esfregaram-se uns nos outros — o polegar contra o indicador e o médio, num rosário que nunca tinha contas.
Os olhos castanhos percorreram a sala vazia. A luz do candeeiro tremeu. Lá fora, o vento levantou uma lufada de pó.
Maria suspirou. As palavras saíram-lhe num sussurro, tão baixo que nem ela as ouviu:
— Ela está a enganar-nos. Temos de descobrir o quê.
O eco perdeu-se na escuridão da taberna. Uma prece sem resposta.