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Por Mauro Sombra

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 6 Assistido por IA
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O Beijo na Taberna

IA
Trovoada e Mapas

A trovoada desabou sobre Alpedreza ao cair da noite. Trovões ribombavam nas colinas e a chuva fustigava as vidraças da taberna com uma fúria antiga. Lá dentro, a luz amarelada do candeeiro de petróleo dançava nas paredes caiadas. O cheiro a vinho entornado e a tabaco velho pairava no ar, misturado com a humidade que subia do soalho de madeira.

João Martins estava sentado a uma mesa do canto, os cotovelos apoiados no tampo gasto. Mapas e anotações espalhavam-se diante dele — croquis do montado, relatórios dos desaparecidos, um caderno de capa preta onde rabiscara as pistas. A camisa branca estava amarrotada e o casaco de tweed pendia das costas da cadeira. Passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados. O gesto repetiu-se, automático.

Maria do Carmo remexia nos copos atrás do balcão. O pano de prato corria pelo vidro em círculos lentos. Usava um xaile de lã sobre os ombros largos e o cabelo grisalho estava preso num coque apertado. De vez em quando, os seus olhos castanhos erguiam-se para espreitar o inspector.

— Mais café? — perguntou, a voz arrastada pelo cansaço.

— Não. Obrigado. — João não levantou a cabeça. Os dedos tamborilaram na mesa. O polegar direito roçou na cicatriz do lábio.

A chuva redobrava lá fora. Uma rajada de vento fez estremecer a porta. Maria pousou o copo e aproximou-se, o soalho a gemer sob os seus passos firmes.

— Precisa de descansar, inspector. — A frase saiu mais suave do que pretendia.

— Não há tempo. — João ergueu os olhos cinzentos, toldados por olheiras profundas. — Aquela cabana no montado... o xaile que a Zulmira nos deu... tudo pistas falsas. E o Adriano continua livre.

Maria sentou-se no banco à sua frente. As mãos calejadas pousaram na mesa, os polegares a esfregarem-se nos dedos indicador e médio.

— Sempre a remoer. — Abanou a cabeça. — Vai dar em doido.

— Já dou. — Um esgar cansado passou-lhe pelo rosto. — Mas não posso parar.

Ela fitou-o. As rugas profundas no rosto redondo pareciam sulcos de terra seca. Conhecia aquele olhar. O mesmo do seu pai, dissera-lhe Adriano um dia. O mesmo fogo que queimava por dentro.

— Sabe, inspector... João... — A voz embargou-se-lhe. — Eu também não durmo. Desde que toquei na chávena da Helena, vejo-a. A miúda está sempre ali, no fundo do poço. E a minha avó...

João largou o caderno. A mão esquerda avançou e pousou sobre a dela. Os dedos ásperos de Maria estremeceram.

— Não está sozinha. — A voz dele saiu rouca, mas firme. — Eu também vejo. E enquanto estivermos juntos, não enlouquecemos.

O trovão ribombou por cima do telhado. A luz do candeeiro tremeu. Maria puxou a mão devagar, mas os olhos não se desviaram dos dele.

— Acredita mesmo nisso?

— Acredito. — João rangeu os dentes. O ruído foi abafado pela chuva. — Esta manhã, quando esteve comigo no largo, senti qualquer coisa que já não sentia há muito. Uma esperança estúpida.

Ela baixou a cabeça. O xaile escorregou-lhe do ombro. A pele clara do pescoço revelou uma linha de suor.

— Eu também. — As palavras saíram num sussurro. — E isso assusta-me mais do que as visões.


O Beijo e o Grito

O silêncio entre eles encheu-se de trovões. A taberna parecia um casulo. Maria ergueu os olhos. O candeeiro dançava-lhe nas pupilas. João sentiu o ar mais quente. O coração acelerou.

— Maria... — A voz saiu-lhe mais baixa.

Ela levantou-se, devagar. As mãos alisaram o avental. Os dedos esfregavam-se uns nos outros, o polegar contra o indicador e o médio.

— Já é tarde. Devia ir para casa.

João também se ergueu. O banco raspou no soalho. Ficaram frente a frente, a palmo de distância. O cheiro a lixívia e a manjerona que nela sempre havia tornou-se mais intenso. Ele viu-lhe as pequenas veias nas faces, o tremor no lábio inferior.

— Obrigado — disse ela, subitamente. A mão direita tocou-lhe no braço. Os dedos calejados apertaram-no de leve. — Por acreditar em mim. Por me fazer sentir menos maluca.

João olhou para a mão no seu braço. Depois, para os olhos castanhos. O cansaço e a ternura misturaram-se numa onda.

— Eu é que agradeço. Sem si, já tinha desistido.

O rosto dela aproximou-se. As rugas acentuaram-se na penumbra. O tempo parou. João baixou a cabeça. Os lábios roçaram nos dela. O beijo foi breve — um toque hesitante, doce, quase fugaz. Mas o mundo pareceu aquietar-se por um instante. A chuva, lá fora, era um rumor distante.

Maria recuou um passo, as faces coradas. A mão subiu à boca, como se quisesse reter o sabor.

— Isto não é próprio de uma mulher da minha idade. — A voz saiu-lhe trémula, mas sem raiva.

João sorriu. O esgar cansado tornou-se quase luminoso.

— A idade não interessa. O que interessa é que estamos juntos nisto.

Ela abanou a cabeça, os lábios a desenhar um sorriso incrédulo. O xaile foi puxado sobre os ombros. O gesto era um escudo.

— És um tolo, João Martins.

— Talvez. — Ele enfiou as mãos nos bolsos. — Mas um tolo que não vai largar a tua mão.

O trovão estalou como um chicote. A porta da taberna rangeu. Uma rajada de vento entrou pela frincha. O candeeiro apagou-se por um segundo, mergulhando a sala na escuridão. Depois, a chama reacendeu-se, mais fraca.

Um grito rompeu a noite.

Era um som agudo, desumano, vindo da rua. João gelou. Maria levou as mãos ao peito.

— Ouviste?

— Ouvi.

O grito repetiu-se, mais longo, arrastado. Um lamento que trespassou a chuva. João agarrou no casaco e correu para a porta. Maria seguiu-o, o pano de prato ainda na mão.

A porta abriu-se com estrondo. A rua estava deserta. A chuva caía em cortinas grossas. Lá ao fundo, na esquina, um vulto escuro desapareceu. O grito cessou abruptamente.

João e Maria correram para a rua.
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