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O Segredo do Pai
IA
A Carta na Gaveta
João entrou na pensão com o primeiro lusco-fusco da madrugada. O corpo doía-lhe como se tivesse sido espancado. As costelas latejavam. O gosto metálico na boca ainda não desaparecera. Subiu as escadas devagar, um degrau de cada vez, a mão esquerda a arrastar-se pelo corrimão. O soalho gemia sob o seu peso.
No quarto, fechou a porta e encostou-se a ela. O estômago reviava-se. As imagens do celeiro ainda dançavam-lhe atrás das pálpebras — o corpo de Tomás a balançar, a força invisível, o riso de Adriano. As palavras do ourives ecoavam como marteladas: «O mal está a acordar.»
Passou a mão pelos cabelos. O gesto saiu-lhe trémulo. Rangeu os dentes. O ruído foi abafado pelo silêncio do quarto. Arrastou-se até ao toucador. O espelho devolveu-lhe um rosto desfigurado pelo cansaço. A pele cinzenta. As olheiras fundas. A cicatriz no lábio parecia uma fenda aberta.
Deixou cair o casaco no chão. Sentou-se na beira da cama. O colchão rangeu. Fechou os olhos. O cheiro a terra podre do celeiro regressou-lhe às narinas. Apercebeu-se de que ainda tinha lama seca nas calças. Nos sapatos. Nas mãos.
Foi então que a viu.
A gaveta da mesa de cabeceira estava entreaberta. Uma ponta de papel espreitava para fora. João franziu o sobrolho. Não se lembrava de ter guardado nada ali. Levantou-se, os joelhos a estalar. Puxou a gaveta.
Um envelope amarelecido, sem selo, apenas com o seu nome escrito a tinta azul. A caligrafia do pai.
João ficou parado. O ar fugiu-lhe dos pulmões. As mãos tremeram. Sentou-se na cama, o envelope pousado nos joelhos. Durante um minuto, não se mexeu. O coração martelava-lhe o peito.
Rasgou o envelope.
Lá dentro, uma única folha de papel almaço, dobrada em quatro. A letra do pai — firme, apesar de tudo — encheu-lhe os olhos.
«Meu querido João,
Se estás a ler esta carta, é porque foste a Alpedreza. Deus queira que ainda vás a tempo.
Há mais de trinta anos, estive nessa vila. Investiguei desaparecimentos como os que agora encontras. E descobri que o mal que ali habita não é lenda. É real. Chama-se Adriano Saragoça.
Sei que também vês coisas. Herdaste-o de mim. Não te assustes. As visões são o teu guia. Mas não te deixes levar pelo ódio. O Adriano alimenta-se do medo e da raiva. Foi o que me fez perder.
Em Évora, na casa da avó, escondido no baú de cedro, está o meu diário. Lá encontrarás tudo o que descobri. E, João... perdoa-me por não ter sido mais forte. Perdoa-me por te ter abandonado.
Com amor,
Teu pai»
João leu a carta três vezes. À terceira, as palavras bailavam no papel. A mão esquerda passou pelos cabelos, num gesto repetitivo e brusco. Uma veia latejou-lhe na fonte. O pai estivera ali. O pai soubera de Adriano. E o pai... o pai pedira perdão.
Um soluço escapou-se-lhe da garganta. Não era um choro. Era um som seco, rouco, que lhe rasgou o peito. Levou a mão à boca. A cicatriz do lábio ardia. Os olhos arderam, mas as lágrimas não caíram.
— Pai... — sussurrou.
Olhou para a carta. A letra do pai não vacilava. Havia ali uma urgência que trespassava o tempo. «O Adriano alimenta-se do medo e da raiva.» João rangeu os dentes. O medo e a raiva tinham sido a sua bússola nos últimos dias. Estava a cair na mesma armadilha.
Levantou-se de repente. O envelope caiu no chão. Agarrou na mochila. Enfiou a carta dentro. Calçou as botas sem as atar. Atirou o casaco sobre os ombros. A decisão era clara: Évora. O diário. As respostas.
Abriu a porta. O corredor estava escuro. Desceu as escadas. Na cozinha, a dona Alice dormia. João saiu sem fazer barulho. A rua ainda estava deserta. O sol ainda não nascera, mas o céu já perdia o negrume.
Caminhou até à esquadra. O carro-patrulha estava estacionado à porta. Lopes não estava. João deixou um bilhete no balcão: «Fui a Évora. Volto amanhã.» Não deu mais explicações.
Pôs-se a caminho. O motor do carro alugado roncou na quietude. Alpedreza ficou para trás, engolida pela névoa da alvorada.
Viagem a Évora
A estrada para Évora era um corredor de sombras e luz pálida. O sol erguia-se a leste, pintando o céu de tons rosados. Os sobreiros rareavam, dando lugar a vinhas e olivais. O ar entrava pela janela, frio e cortante, mas João mal o sentia. Os olhos fixavam o asfalto. A mente fervia.
Conduziu durante três horas. Parou apenas para abastecer numa estação de serviço. O café que bebeu soube-lhe a cinza. Ninguém na estrada. Apenas ele e o silêncio.
Chegou a Évora a meio da manhã. A cidade branca despertava. As ruas estreitas enchiam-se de gente apressada. João não parou. Conhecia aquelas ruas como a palma da mão. A casa da avó ficava numa viela perto da Sé. Uma casa de dois pisos, com janelas de caixilhos verdes e uma porta de madeira gasta pelo tempo. Ninguém lá vivia desde a morte da avó, há sete anos. João guardara a chave por inércia.
A fechadura rangeu. A porta abriu-se com um gemido. O cheiro a pó e a alfazema velha bateu-lhe no rosto. Entrou. O corredor estava escuro. As tábuas do soalho estalavam sob os pés. À esquerda, a sala onde a avó passava as tardes a ler. À direita, o quarto do pai.
João parou à entrada do quarto. O cheiro a tabaco frio ainda pairava. O mesmo cheiro que o pai deixava na roupa. Os seus dedos tocaram na ombreira. Depois, avançou.
O quarto estava como o pai o deixara. A cama de ferro, a secretária de mogno, o roupeiro. Sobre a secretária, um porta-retratos com uma foto amarelecida: o pai, a mãe e ele, em criança, num piquenique. João pegou na moldura. Os dedos tremeram. Pousou-a com cuidado.
— Pai... — murmurou, de novo.
Respirou fundo. Voltou-se para o roupeiro. O baú de cedro estava ao fundo, coberto por um xaile de lã. João ajoelhou-se. As mãos afastaram o xaile. O cheiro a cedro subiu, pungente. Destrancou o fecho. A tampa rangeu.
Lá dentro, uma pilha de papéis, alguns livros, medalhas antigas. E um caderno de capa preta, gasto nos cantos. João pegou-lhe. A capa estava manchada de humidade e de algo mais escuro — vinho, talvez, ou sangue antigo. As páginas estavam amarelecidas, mas a caligrafia era inconfundível.
«Diário de Henrique Martins — Alpedreza, 1989.»
João sentou-se no chão. As costas apoiaram-se na cama. Abriu o caderno ao acaso. Uma folha solta caiu-lhe no colo — uma fotografia antiga, tirada à entrada da ourivesaria de Adriano. O ourives era mais novo, o cabelo ainda escuro, mas o sorriso era o mesmo. Frio. Mortiço.
O coração acelerou. Voltou à primeira página.
O Diário do Pai
A primeira entrada datava de 3 de março de 1989. A letra do pai era direita, mas as palavras eram tensas:
«Cheguei a Alpedreza esta manhã. A vila é um sepulcro. Ninguém fala. Ninguém vê. Mas eu vejo. Vi-a no poço. A rapariga de vestido escuro. Ninguém acreditou. Amanhã vou descer.»
João passou a mão pelos cabelos. O gesto saiu-lhe nervoso. Leu mais:
«Desci ao poço. Estava lá, exactamente como na visão. Mãos marcadas no pescoço. Olhos abertos. O corpo ainda quente. Levei-a para a superfície. Os aldeões benzeram-se. O ourives, Adriano Saragoça, veio falar comigo. Cortês. Educado. Mas os seus olhos... não sei. Há qualquer coisa nele.»
As páginas seguintes descreviam a investigação. As mesmas pistas falsas. A mesma curandeira, Zulmira, a oferecer ajuda. O mesmo descrédito. Os mesmos desaparecimentos. E depois, o tom mudava.
«Eles são cinco. Sei quem são. O Adriano escolheu-os. A Zulmira serve-o. O mal não é uma força sem nome. É uma pessoa. Ou algo que usa uma pessoa.»
João acelerou a leitura. As mãos tremiam. Uma página estava rasgada ao meio. Mas uma nota solta, escrita num papel de carta amachucado, caiu do caderno. João desdobrou-a. As palavras estavam escritas à pressa, a tinta quase a falhar:
«Ele sabe que estou perto. O mal tem nome: Adriano.»
O coração de João parou. Depois, recomeçou, descompassado. Apercebeu-se de que a nota estava manchada de sangue — umas gotas secas, acastanhadas. O pai sabia. O pai estivera tão perto. E Adriano... Adriano matara-o.
Os olhos de João enevoaram-se. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Não pestanejou. Deixou-as cair. Quentes, grossas, silenciosas. A imagem do pai sobrepunha-se à sua: a mesma solidão, o mesmo desespero. A mesma maldição.
— Tu não te mataste — sussurrou João. — Ele matou-te.
A fúria cresceu. Uma onda vermelha que lhe subiu do peito à garganta. Rangeu os dentes, com força. A cicatriz no lábio latejava. Agarrou no caderno com as duas mãos e apertou-o contra o peito. Depois, largou um grito — um urro surdo, animal, que ecoou pelo quarto vazio.
Ficou assim, de joelhos no chão, durante vários minutos. O choro não lhe aliviava a dor. Era um abismo que se abria. O pai, perdido. Adriano, impune. E ele, ali, com a verdade nas mãos e a impotência no peito.
Levantou-se, as pernas bambas. Cambaleou até à secretária. Havia um telefone antigo, de disco. Pegou no auscultador. Os dedos marcaram o número de Adriano de cor — aquele que o ourives lhe dera, com um sorriso, no primeiro encontro.
O telefone chamou. Uma vez. Duas. Três. Depois, uma voz macia, untuosa:
— Inspector Martins. Já não esperava ouvi-lo. Encontrou o que procurava?
João cerrou o punho. A voz saiu-lhe rouca, estrangulada:
— Tu mataste o meu pai.
Silêncio. Depois, um riso leve, quase um sussurro:
— Ele escolheu a morte. Eu apenas lhe mostrei o caminho. O mesmo caminho que tu estás a seguir, João.
— Mentira! — A mão de João tremia. O suor escorria-lhe pela testa. — Tu enganaste-o. Corrompeste-o.
— Enganei? — Adriano fez uma pausa. — O teu pai era um homem inteligente. Mas fraco. Como tu és fraco. Ele viu o eco do mal e deixou-se engolir. Tu verás o mesmo, mais cedo ou mais tarde.
João rangeu os dentes. A fúria cegava-o. Mas, por um segundo, as palavras do pai ecoaram: «Não te deixes levar pelo ódio.» Conteve o grito. A voz saiu-lhe num fio, mas firme:
— Eu não sou como ele. Não vou ceder.
Adriano riu de novo, um som seco, sem alegria.
— És igual. Herdaste a maldição. Em breve... em breve serás meu.
João desabou. Os joelhos bateram no soalho. O auscultador escapou-se-lhe da mão e ficou a balançar no fio. O riso de Adriano ainda ecoava, distante. João ficou de joelhos no chão, a cabeça caída sobre o peito, os ombros sacudidos por soluços. A voz do ourives repetia-se, como um eco dentro do crânio:
«Em breve serás meu.»
João entrou na pensão com o primeiro lusco-fusco da madrugada. O corpo doía-lhe como se tivesse sido espancado. As costelas latejavam. O gosto metálico na boca ainda não desaparecera. Subiu as escadas devagar, um degrau de cada vez, a mão esquerda a arrastar-se pelo corrimão. O soalho gemia sob o seu peso.
No quarto, fechou a porta e encostou-se a ela. O estômago reviava-se. As imagens do celeiro ainda dançavam-lhe atrás das pálpebras — o corpo de Tomás a balançar, a força invisível, o riso de Adriano. As palavras do ourives ecoavam como marteladas: «O mal está a acordar.»
Passou a mão pelos cabelos. O gesto saiu-lhe trémulo. Rangeu os dentes. O ruído foi abafado pelo silêncio do quarto. Arrastou-se até ao toucador. O espelho devolveu-lhe um rosto desfigurado pelo cansaço. A pele cinzenta. As olheiras fundas. A cicatriz no lábio parecia uma fenda aberta.
Deixou cair o casaco no chão. Sentou-se na beira da cama. O colchão rangeu. Fechou os olhos. O cheiro a terra podre do celeiro regressou-lhe às narinas. Apercebeu-se de que ainda tinha lama seca nas calças. Nos sapatos. Nas mãos.
Foi então que a viu.
A gaveta da mesa de cabeceira estava entreaberta. Uma ponta de papel espreitava para fora. João franziu o sobrolho. Não se lembrava de ter guardado nada ali. Levantou-se, os joelhos a estalar. Puxou a gaveta.
Um envelope amarelecido, sem selo, apenas com o seu nome escrito a tinta azul. A caligrafia do pai.
João ficou parado. O ar fugiu-lhe dos pulmões. As mãos tremeram. Sentou-se na cama, o envelope pousado nos joelhos. Durante um minuto, não se mexeu. O coração martelava-lhe o peito.
Rasgou o envelope.
Lá dentro, uma única folha de papel almaço, dobrada em quatro. A letra do pai — firme, apesar de tudo — encheu-lhe os olhos.
«Meu querido João,
Se estás a ler esta carta, é porque foste a Alpedreza. Deus queira que ainda vás a tempo.
Há mais de trinta anos, estive nessa vila. Investiguei desaparecimentos como os que agora encontras. E descobri que o mal que ali habita não é lenda. É real. Chama-se Adriano Saragoça.
Sei que também vês coisas. Herdaste-o de mim. Não te assustes. As visões são o teu guia. Mas não te deixes levar pelo ódio. O Adriano alimenta-se do medo e da raiva. Foi o que me fez perder.
Em Évora, na casa da avó, escondido no baú de cedro, está o meu diário. Lá encontrarás tudo o que descobri. E, João... perdoa-me por não ter sido mais forte. Perdoa-me por te ter abandonado.
Com amor,
Teu pai»
João leu a carta três vezes. À terceira, as palavras bailavam no papel. A mão esquerda passou pelos cabelos, num gesto repetitivo e brusco. Uma veia latejou-lhe na fonte. O pai estivera ali. O pai soubera de Adriano. E o pai... o pai pedira perdão.
Um soluço escapou-se-lhe da garganta. Não era um choro. Era um som seco, rouco, que lhe rasgou o peito. Levou a mão à boca. A cicatriz do lábio ardia. Os olhos arderam, mas as lágrimas não caíram.
— Pai... — sussurrou.
Olhou para a carta. A letra do pai não vacilava. Havia ali uma urgência que trespassava o tempo. «O Adriano alimenta-se do medo e da raiva.» João rangeu os dentes. O medo e a raiva tinham sido a sua bússola nos últimos dias. Estava a cair na mesma armadilha.
Levantou-se de repente. O envelope caiu no chão. Agarrou na mochila. Enfiou a carta dentro. Calçou as botas sem as atar. Atirou o casaco sobre os ombros. A decisão era clara: Évora. O diário. As respostas.
Abriu a porta. O corredor estava escuro. Desceu as escadas. Na cozinha, a dona Alice dormia. João saiu sem fazer barulho. A rua ainda estava deserta. O sol ainda não nascera, mas o céu já perdia o negrume.
Caminhou até à esquadra. O carro-patrulha estava estacionado à porta. Lopes não estava. João deixou um bilhete no balcão: «Fui a Évora. Volto amanhã.» Não deu mais explicações.
Pôs-se a caminho. O motor do carro alugado roncou na quietude. Alpedreza ficou para trás, engolida pela névoa da alvorada.
Viagem a Évora
A estrada para Évora era um corredor de sombras e luz pálida. O sol erguia-se a leste, pintando o céu de tons rosados. Os sobreiros rareavam, dando lugar a vinhas e olivais. O ar entrava pela janela, frio e cortante, mas João mal o sentia. Os olhos fixavam o asfalto. A mente fervia.
Conduziu durante três horas. Parou apenas para abastecer numa estação de serviço. O café que bebeu soube-lhe a cinza. Ninguém na estrada. Apenas ele e o silêncio.
Chegou a Évora a meio da manhã. A cidade branca despertava. As ruas estreitas enchiam-se de gente apressada. João não parou. Conhecia aquelas ruas como a palma da mão. A casa da avó ficava numa viela perto da Sé. Uma casa de dois pisos, com janelas de caixilhos verdes e uma porta de madeira gasta pelo tempo. Ninguém lá vivia desde a morte da avó, há sete anos. João guardara a chave por inércia.
A fechadura rangeu. A porta abriu-se com um gemido. O cheiro a pó e a alfazema velha bateu-lhe no rosto. Entrou. O corredor estava escuro. As tábuas do soalho estalavam sob os pés. À esquerda, a sala onde a avó passava as tardes a ler. À direita, o quarto do pai.
João parou à entrada do quarto. O cheiro a tabaco frio ainda pairava. O mesmo cheiro que o pai deixava na roupa. Os seus dedos tocaram na ombreira. Depois, avançou.
O quarto estava como o pai o deixara. A cama de ferro, a secretária de mogno, o roupeiro. Sobre a secretária, um porta-retratos com uma foto amarelecida: o pai, a mãe e ele, em criança, num piquenique. João pegou na moldura. Os dedos tremeram. Pousou-a com cuidado.
— Pai... — murmurou, de novo.
Respirou fundo. Voltou-se para o roupeiro. O baú de cedro estava ao fundo, coberto por um xaile de lã. João ajoelhou-se. As mãos afastaram o xaile. O cheiro a cedro subiu, pungente. Destrancou o fecho. A tampa rangeu.
Lá dentro, uma pilha de papéis, alguns livros, medalhas antigas. E um caderno de capa preta, gasto nos cantos. João pegou-lhe. A capa estava manchada de humidade e de algo mais escuro — vinho, talvez, ou sangue antigo. As páginas estavam amarelecidas, mas a caligrafia era inconfundível.
«Diário de Henrique Martins — Alpedreza, 1989.»
João sentou-se no chão. As costas apoiaram-se na cama. Abriu o caderno ao acaso. Uma folha solta caiu-lhe no colo — uma fotografia antiga, tirada à entrada da ourivesaria de Adriano. O ourives era mais novo, o cabelo ainda escuro, mas o sorriso era o mesmo. Frio. Mortiço.
O coração acelerou. Voltou à primeira página.
O Diário do Pai
A primeira entrada datava de 3 de março de 1989. A letra do pai era direita, mas as palavras eram tensas:
«Cheguei a Alpedreza esta manhã. A vila é um sepulcro. Ninguém fala. Ninguém vê. Mas eu vejo. Vi-a no poço. A rapariga de vestido escuro. Ninguém acreditou. Amanhã vou descer.»
João passou a mão pelos cabelos. O gesto saiu-lhe nervoso. Leu mais:
«Desci ao poço. Estava lá, exactamente como na visão. Mãos marcadas no pescoço. Olhos abertos. O corpo ainda quente. Levei-a para a superfície. Os aldeões benzeram-se. O ourives, Adriano Saragoça, veio falar comigo. Cortês. Educado. Mas os seus olhos... não sei. Há qualquer coisa nele.»
As páginas seguintes descreviam a investigação. As mesmas pistas falsas. A mesma curandeira, Zulmira, a oferecer ajuda. O mesmo descrédito. Os mesmos desaparecimentos. E depois, o tom mudava.
«Eles são cinco. Sei quem são. O Adriano escolheu-os. A Zulmira serve-o. O mal não é uma força sem nome. É uma pessoa. Ou algo que usa uma pessoa.»
João acelerou a leitura. As mãos tremiam. Uma página estava rasgada ao meio. Mas uma nota solta, escrita num papel de carta amachucado, caiu do caderno. João desdobrou-a. As palavras estavam escritas à pressa, a tinta quase a falhar:
«Ele sabe que estou perto. O mal tem nome: Adriano.»
O coração de João parou. Depois, recomeçou, descompassado. Apercebeu-se de que a nota estava manchada de sangue — umas gotas secas, acastanhadas. O pai sabia. O pai estivera tão perto. E Adriano... Adriano matara-o.
Os olhos de João enevoaram-se. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Não pestanejou. Deixou-as cair. Quentes, grossas, silenciosas. A imagem do pai sobrepunha-se à sua: a mesma solidão, o mesmo desespero. A mesma maldição.
— Tu não te mataste — sussurrou João. — Ele matou-te.
A fúria cresceu. Uma onda vermelha que lhe subiu do peito à garganta. Rangeu os dentes, com força. A cicatriz no lábio latejava. Agarrou no caderno com as duas mãos e apertou-o contra o peito. Depois, largou um grito — um urro surdo, animal, que ecoou pelo quarto vazio.
Ficou assim, de joelhos no chão, durante vários minutos. O choro não lhe aliviava a dor. Era um abismo que se abria. O pai, perdido. Adriano, impune. E ele, ali, com a verdade nas mãos e a impotência no peito.
Levantou-se, as pernas bambas. Cambaleou até à secretária. Havia um telefone antigo, de disco. Pegou no auscultador. Os dedos marcaram o número de Adriano de cor — aquele que o ourives lhe dera, com um sorriso, no primeiro encontro.
O telefone chamou. Uma vez. Duas. Três. Depois, uma voz macia, untuosa:
— Inspector Martins. Já não esperava ouvi-lo. Encontrou o que procurava?
João cerrou o punho. A voz saiu-lhe rouca, estrangulada:
— Tu mataste o meu pai.
Silêncio. Depois, um riso leve, quase um sussurro:
— Ele escolheu a morte. Eu apenas lhe mostrei o caminho. O mesmo caminho que tu estás a seguir, João.
— Mentira! — A mão de João tremia. O suor escorria-lhe pela testa. — Tu enganaste-o. Corrompeste-o.
— Enganei? — Adriano fez uma pausa. — O teu pai era um homem inteligente. Mas fraco. Como tu és fraco. Ele viu o eco do mal e deixou-se engolir. Tu verás o mesmo, mais cedo ou mais tarde.
João rangeu os dentes. A fúria cegava-o. Mas, por um segundo, as palavras do pai ecoaram: «Não te deixes levar pelo ódio.» Conteve o grito. A voz saiu-lhe num fio, mas firme:
— Eu não sou como ele. Não vou ceder.
Adriano riu de novo, um som seco, sem alegria.
— És igual. Herdaste a maldição. Em breve... em breve serás meu.
João desabou. Os joelhos bateram no soalho. O auscultador escapou-se-lhe da mão e ficou a balançar no fio. O riso de Adriano ainda ecoava, distante. João ficou de joelhos no chão, a cabeça caída sobre o peito, os ombros sacudidos por soluços. A voz do ourives repetia-se, como um eco dentro do crânio:
«Em breve serás meu.»