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O Preço da Protecção
IA
A Chantagem
A ourivesaria cheirava a incenso e a metal frio. Teresa Melo entrou devagar, os olhos castanhos a percorrerem as vitrinas onde o ouro e a prata brilhavam sob a luz amarelada. O coração batia-lhe depressa. As palmas das mãos suavam. Adriano Saragoça estava de costas, a polir uma pedra negra com movimentos lentos, quase hipnóticos. Nem se virou quando ela fechou a porta.
— Sabia que havia de vir. — A voz dele era macia, untuosa. — Sente-se.
Teresa não se sentou. Ficou de pé, os braços cruzados sobre o peito, as unhas a cravarem-se nos antebraços. O xaile de lã escorregou-lhe do ombro, mas não o puxou. O olhar fixou a nuca grisalha de Adriano.
— O que quer de mim?
— Não seja brusca, minha querida. — Ele pousou a pedra e virou-se. O sorriso não lhe chegava aos olhos cinzentos, frios como gelo. — Quero o mesmo que sempre quis. Proteger os nossos.
— Mentira. — A palavra saiu-lhe num sopro, mas não recuou. — O senhor quer controlar-nos. Como controlou o meu pai.
Adriano ergueu uma sobrancelha. Os dedos finos tamborilaram no balcão de mogno.
— O teu pai, Teresa, era um homem fraco. Deixou-se dominar pelo medo. Tal como tu.
— Não tenho medo de si.
— Tens. — Adriano contornou o balcão e aproximou-se. A cada passo, Teresa recuava um, até que as costas bateram na porta. — Tens medo que eu conte a verdade. Que toda a vila saiba que mataste o teu próprio pai.
O ar faltou-lhe. As mãos fecharam-se em punhos. O rosto empalideceu.
— Não foi isso que aconteceu.
— Foi. Tu mataste-o. Com as tuas próprias mãos. — Adriano parou a dois palmos dela. O cheiro a incenso era sufocante. — Eu vi. Nessa noite, na mina. Vi os teus dedos à volta do pescoço dele. Vi a expressão dele quando a vida se foi. E vi o teu alívio.
— Ele ia tornar-se mal — sussurrou Teresa, os olhos a brilharem. — Eu impedi-o. Salvei a vila.
— Salvaste? Ou protegeste-te? — Adriano tocou-lhe no queixo com o indicador, erguendo-lhe o rosto. — O teu pai estava a ser consumido pelo eco. Tu não querias salvar ninguém. Querias o poder. Querias ser tu a controlar o mal.
— Isso é mentira!
— É a verdade, e tu sabes. — Adriano recuou um passo. As mãos enfiaram-se nos bolsos do colete. — Mas não te preocupes. Não vou contar a ninguém. Desde que me ajudes.
Teresa engoliu em seco. As lágrimas ardiam-lhe nos olhos, mas não caíram.
— Ajudar como?
— O inspector Martins. O João. És amiga dele, não és? — Adriano sorriu, um esgar que não atingiu os olhos. — Preciso que fiques perto dele. Que me digas o que ele descobre. Onde vai. Com quem fala.
— Quer que o espione.
— Quero que o protejas. Ele está a mexer em coisas que não compreende. Vai magoar-se. Pode magoar outros. — Adriano deu-lhe as costas, voltando ao balcão. A pedra negra brilhou debaixo dos seus dedos. — Se me avisares a tempo, posso intervir. Evitar tragédias.
— E depois? — A voz de Teresa saiu mais firme. — Depois de eu lhe contar tudo, o que ganho?
— Ganhas a vida. Ganhas o segredo guardado. — Adriano olhou-a de soslaio. — E ganhas o meu respeito, Teresa. O respeito de quem manda aqui.
O silêncio caiu entre eles. Lá fora, o vento levantou uma nuvem de pó. As vidraças tremeram. Teresa olhou para as próprias mãos. As mãos que tinham matado o pai. As mãos que agora tremiam.
— Não tenho escolha, pois não?
— Todos temos escolha. — Adriano aproximou-se outra vez, mas desta vez com passos suaves. A mão direita pousou-lhe no ombro. — Tu escolhes aquilo que te protege. Eu apenas te mostro o caminho.
Teresa fechou os olhos. A imagem do pai, com os olhos vidrados, o rosto pálido, os dedos a segurarem-lhe o braço. A voz dele a sussurrar: «Está dentro de mim. Não me deixes sofrer.» E depois, o silêncio.
— O que quer que eu faça? — A pergunta saiu num murmúrio.
— Por agora, nada. Apenas observa. Fala com ele. Sonda-o. — Adriano afastou-se. — Quando for altura, dir-te-ei.
— E se ele descobrir?
— Não vai. És inteligente, Teresa. Sabes mentir. — O sorriso de Adriano alargou-se. — Afinal, tens mentido a toda a gente há vinte anos. O que é mais umas semanas?
Teresa apertou o xaile contra o peito. As costas doíam de tensão.
— Está bem. Faço-o.
— Bem. — Adriano pegou num saquinho de veludo pousado no balcão e estendeu-lho. — Toma. É um presente. Uma pedra de protecção. Traz sorte.
Teresa hesitou, mas acabou por aceitar. O saquinho era macio, aveludado. Pesava pouco mais que nada.
— Obrigada.
— De nada. Agora vai. E lembra-te: estou a contar contigo.
Teresa abriu a porta e saiu para a rua. O sol bateu-lhe nos olhos. A vila parecia mais escura do que antes. A mochila pesava-lhe nos ombros. O saquinho de veludo queimava-lhe na mão.
Caminhou até ao largo da igreja. Sentou-se num banco de pedra. As lágrimas vieram-lhe finalmente, quentes e grossas, a escorrerem-lhe pelas faces. Enterrou o rosto nas mãos e chorou.
— O que é que eu fiz? — sussurrou.
O vento não respondeu. Apenas a folhagem seca dos sobreiros se arrastou pela calçada. Teresa ergueu o rosto. O céu estava cinzento. O sino da igreja bateu horas, quatro badaladas cavas que ecoaram pelas ruas vazias.
Guardou o saquinho no bolso do casaco. Levantou-se. Os olhos ainda vermelhos. O nariz a escorrer. Soprou o ar e endireitou os ombros.
— Vais pagar, Adriano — murmurou. — Um dia, vais pagar.
Mas a voz saiu-lhe débil, sem convicção. A pedra no bolso pesava mais do que devia. E o medo, o medo era uma âncora que a arrastava para o fundo.
O Interrogatório
A taberna estava vazia quando João e Maria do Carmo entraram. O cheiro a vinho e a tabaco velho pairava no ar. A luz do candeeiro de petróleo dançava nas paredes caiadas. João sentou-se num banco, os cotovelos apoiados no balcão. O casaco de tweed pendia das costas da cadeira.
— Tens a certeza que ela vem? — perguntou Maria, passando um pano num copo.
— Disse que sim. — João passou a mão pelos cabelos desgrenhados. O gesto saiu-lhe nervoso. — É a única que pode ter acesso aos registos antigos. Os papéis do meu pai.
— Confias nela?
João hesitou. A cicatriz no lábio ardia.
— Não sei. Conheço-a há anos. Mas nesta vila... — Suspirou. — Nesta vila, ninguém é o que parece.
A porta rangeu. Teresa entrou, o xaile de lã puxado sobre os ombros. O rosto estava pálido, os olhos vermelhos. Sentou-se ao lado de João sem dizer palavra.
— Estás bem? — perguntou Maria. — Pareces doente.
— São os nervos. — Teresa forçou um sorriso. — Estes dias têm sido difíceis.
João fitou-a. As olheiras cavavam-lhe o rosto. Os dedos dela tamborilaram na mesa, um tique nervoso.
— Precisamos de falar sobre os desaparecimentos.
— Já vos disse tudo o que sei. — Teresa baixou os olhos. — Os registos da Câmara não mostram nada de anómalo. As pessoas somem e pronto.
— Não acredito nisso. — João inclinou-se para a frente. — Alguém sabe o que se passa. Alguém viu qualquer coisa.
— E eu não sou esse alguém.
Maria pousou dois copos de aguardente no balcão. João empurrou um para Teresa.
— Bebe. Pode ajudar.
Teresa pegou no copo com as duas mãos. Os dedos esfregavam-se uns nos outros, o polegar contra o indicador e o médio. O mesmo gesto de Maria. João reparou.
— O que te disse o Adriano? — A pergunta saiu seca.
Teresa estremeceu. O copo tremeu-lhe na mão.
— Nada. Porquê?
— Porque vieste de lá. A dona Alice viu-te a sair da ourivesaria há uma hora.
O silêncio caiu. Maria deixou o pano e aproximou-se. Os olhos castanhos fixaram Teresa.
— Rapariga, se sabes de alguma coisa, é melhor dizeres.
— Não sei de nada. — Teresa ergueu o copo e bebeu de um trago. A aguardente queimou-lhe a garganta, mas não lhe aqueceu o peito. — O Adriano é uma pessoa respeitável. Ajuda a comunidade.
— Ajuda? — João rangeu os dentes. — Ele esteve no celeiro ontem à noite. Vimo-lo. Ele e os capangas. Levou o corpo do Tomás.
— Isso é mentira.
— Tu sabes que não é. — João levantou-se. O banco raspou no soalho. — Tu sabes o que ele faz. O que ele é.
Teresa também se ergueu. Os olhos brilhavam, mas não era de choro.
— Não me ameaces, João. Tu não sabes nada da minha vida. Do que eu passei.
— Tens razão. Não sei. — A voz dele suavizou. — Mas quero saber. Podes confiar em mim.
— Confiar? — Teresa soltou uma gargalhada amarga. — Confiei no meu pai, e ele tentou matar-me. Confiei no Adriano, e ele... — Calou-se a meio, a mão a tapar a boca.
— Ele o quê? — Maria agarrou-lhe o braço. — Diz.
Teresa desviou o olhar. O peito arfava. As lágrimas ameaçavam cair.
— Não posso. Se ele souber que vos contei...
— Não vai saber. — João pousou a mão no ombro dela. O gesto foi suave, quase paternal. — Nós protegemo-nos uns aos outros.
Ela hesitou. Os olhos percorreram a taberna vazia, as janelas fechadas, a porta trancada. A respiração acelerou. Depois, muito devagar, inclinou a cabeça.
— Ele sabe do meu pai. Sabe o que eu fiz. — As palavras saíram a custo, arrastadas, como se cada sílaba lhe rasgasse a garganta. Fez uma pausa. O peito subiu e desceu. — E disse que se não o ajudar, conta a toda a gente.
— Ajudar como? — perguntou Maria.
Teresa não respondeu de imediato. Os dedos torceram a barra do xaile. Depois, num sopro:
— A vigiar-vos. A dizer-lhe o que vocês descobrem.
João passou a mão pelos cabelos. O gesto foi brusco, quase violento.
— Ele já te destruiu, Teresa. Só tu é que não viste.
— Então o que hei-de fazer? — A voz dela quebrou. As lágrimas correram livres. — Entregar-me à polícia? Dizer que matei o meu pai? Ninguém vai acreditar em mim. Vão chamar-me louca.
— Eu acredito. — João sentou-se novamente. — E a Maria também. Não estamos aqui para te julgar. Estamos aqui para parar o Adriano.
Maria aproximou-se e pousou a mão na de Teresa. Os dedos calejados apertaram-lhe os nós dos dedos.
— A minha avó também foi acusada. Queimaram-na por causa do que ela viu. — A voz de Maria era firme, mas os olhos brilhavam. — Se eu tivesse tido alguém que acreditasse nela, talvez ainda estivesse viva. Tu tens essa pessoa. Nós.
Teresa olhou para elas — João, com as olheiras fundas e a cicatriz no lábio; Maria, com o rosto redondo e os olhos castanhos cheios de ternura. O coração apertou-se-lhe.
— O que querem que faça?
— Continua a fingir que colaboras com ele. — João baixou a voz. — Diz-lhe o que ele quer ouvir. Mas avisa-nos do que ele planeia. Assim, podemos estar um passo à frente.
— E se ele descobrir?
— Não vai. — João ergueu o copo. — Nós protegemo-nos. Até ao fim.
Teresa limpou as lágrimas com as costas da mão. Assoou o nariz a um lenço que Maria lhe estendeu. Respirou fundo.
— Está bem. Faço-o.
— Boa rapariga. — Maria apertou-lhe a mão. — Não vais arrepender-te.
O silêncio caiu novamente. O vento uivou lá fora. João olhou para a janela, para a rua deserta, para as sombras que se alongavam.
— Ele falou em mais alguém? — perguntou. — Noutros cúmplices?
— Apenas na Zulmira. — Teresa puxou o xaile. — Diz que ela é útil. Que semeia a discórdia. Mas há mais pessoas. Ele não me disse quem.
— Vamos descobrir. — João levantou-se. — Agora vai. E cuidado.
Teresa levantou-se. As pernas tremiam-lhe. Caminhou até à porta, mas antes de sair, virou-se.
— João...
— Diz.
— Obrigada. Por não me julgarem.
— Ainda não acabámos. — Ele sorriu, um esgar cansado. — Quando isto passar, logo vemos.
Teresa saiu. A porta fechou-se com um estalido seco. Maria foi até à janela e espreitou por entre as cortinas.
— Está a ir para casa.
— Acreditas nela? — perguntou João.
Maria hesitou. Os polegares esfregavam os dedos indicador e médio.
— Quero acreditar. Mas ela esconde qualquer coisa. Os olhos não mentem. Ela está a sofrer, sim. Mas também está a mentir.
— Sobre o quê?
— Não sei. — Maria virou-se. — Mas vamos descobrir. Até lá, vigiamo-la de perto.
João assentiu. O cansaço pesava-lhe nos ombros. A noite caía sobre Alpedreza, e o mal estava a acordar.
O Preço
Teresa fechou a porta de casa com um baque surdo. Encostou-se a ela, as costas contra a madeira fria. O quarto estava escuro. Apenas a luz da rua entrava pelas frinchas das persianas, desenhando riscas pálidas no soalho. O coração batia-lhe descompassado.
Levantou-se e acendeu o candeeiro da sala. A luz amarelada iluminou as sombras. As paredes vazias. Os móveis cobertos por lençóis brancos. A casa cheirava a tabaco e a mofo. Cheirava a vinte anos de silêncio.
Foi até à cozinha. Bebeu água directamente do cano. Lavou a cara. Olhou para o espelho em cima do lava-loiça. O rosto que lhe devolveu tinha os olhos arregalados, os lábios secos. Parecia uma assombração.
— És uma assassina — disse para o reflexo.
O reflexo não respondeu.
Teresa pegou no telefone. Os dedos hesitaram sobre o disco. Marcou o número de Adriano. Uma vez. Duas. Três. Ao quarto toque, a voz macia atendeu.
— Teresa. Já tomei conta do recado. Está tudo a postos?
Ela fechou os olhos. A imagem do pai surgiu-lhe na mente — o rosto pálido, os olhos vidrados, os dedos a apertarem-lhe o braço. «Não me deixes sofrer.» Abriu os olhos. O dedo indicador enrolou o fio do telefone. Depois, com um suspiro, respondeu.
— Está tudo a postos.
— Bem. — Adriano fez uma pausa. — Então falamos amanhã. Vai dormir descansada.
O clique seco do desligar ecoou no quarto vazio. Teresa deixou o auscultador cair ao chão. O telefone ficou a balançar no fio, como um corpo enforcado.
Sentou-se na cadeira da cozinha. As mãos pousaram no tampo gasto. As lágrimas vieram, grossas e quentes. Não as limpou. Lá fora, o vento uivou entre as árvores. As persianas bateram. A noite engoliu Alpedreza.
— Perdoa-me, pai — sussurrou.
A casa não respondeu. Apenas o silêncio, e o eco das suas próprias palavras.
A ourivesaria cheirava a incenso e a metal frio. Teresa Melo entrou devagar, os olhos castanhos a percorrerem as vitrinas onde o ouro e a prata brilhavam sob a luz amarelada. O coração batia-lhe depressa. As palmas das mãos suavam. Adriano Saragoça estava de costas, a polir uma pedra negra com movimentos lentos, quase hipnóticos. Nem se virou quando ela fechou a porta.
— Sabia que havia de vir. — A voz dele era macia, untuosa. — Sente-se.
Teresa não se sentou. Ficou de pé, os braços cruzados sobre o peito, as unhas a cravarem-se nos antebraços. O xaile de lã escorregou-lhe do ombro, mas não o puxou. O olhar fixou a nuca grisalha de Adriano.
— O que quer de mim?
— Não seja brusca, minha querida. — Ele pousou a pedra e virou-se. O sorriso não lhe chegava aos olhos cinzentos, frios como gelo. — Quero o mesmo que sempre quis. Proteger os nossos.
— Mentira. — A palavra saiu-lhe num sopro, mas não recuou. — O senhor quer controlar-nos. Como controlou o meu pai.
Adriano ergueu uma sobrancelha. Os dedos finos tamborilaram no balcão de mogno.
— O teu pai, Teresa, era um homem fraco. Deixou-se dominar pelo medo. Tal como tu.
— Não tenho medo de si.
— Tens. — Adriano contornou o balcão e aproximou-se. A cada passo, Teresa recuava um, até que as costas bateram na porta. — Tens medo que eu conte a verdade. Que toda a vila saiba que mataste o teu próprio pai.
O ar faltou-lhe. As mãos fecharam-se em punhos. O rosto empalideceu.
— Não foi isso que aconteceu.
— Foi. Tu mataste-o. Com as tuas próprias mãos. — Adriano parou a dois palmos dela. O cheiro a incenso era sufocante. — Eu vi. Nessa noite, na mina. Vi os teus dedos à volta do pescoço dele. Vi a expressão dele quando a vida se foi. E vi o teu alívio.
— Ele ia tornar-se mal — sussurrou Teresa, os olhos a brilharem. — Eu impedi-o. Salvei a vila.
— Salvaste? Ou protegeste-te? — Adriano tocou-lhe no queixo com o indicador, erguendo-lhe o rosto. — O teu pai estava a ser consumido pelo eco. Tu não querias salvar ninguém. Querias o poder. Querias ser tu a controlar o mal.
— Isso é mentira!
— É a verdade, e tu sabes. — Adriano recuou um passo. As mãos enfiaram-se nos bolsos do colete. — Mas não te preocupes. Não vou contar a ninguém. Desde que me ajudes.
Teresa engoliu em seco. As lágrimas ardiam-lhe nos olhos, mas não caíram.
— Ajudar como?
— O inspector Martins. O João. És amiga dele, não és? — Adriano sorriu, um esgar que não atingiu os olhos. — Preciso que fiques perto dele. Que me digas o que ele descobre. Onde vai. Com quem fala.
— Quer que o espione.
— Quero que o protejas. Ele está a mexer em coisas que não compreende. Vai magoar-se. Pode magoar outros. — Adriano deu-lhe as costas, voltando ao balcão. A pedra negra brilhou debaixo dos seus dedos. — Se me avisares a tempo, posso intervir. Evitar tragédias.
— E depois? — A voz de Teresa saiu mais firme. — Depois de eu lhe contar tudo, o que ganho?
— Ganhas a vida. Ganhas o segredo guardado. — Adriano olhou-a de soslaio. — E ganhas o meu respeito, Teresa. O respeito de quem manda aqui.
O silêncio caiu entre eles. Lá fora, o vento levantou uma nuvem de pó. As vidraças tremeram. Teresa olhou para as próprias mãos. As mãos que tinham matado o pai. As mãos que agora tremiam.
— Não tenho escolha, pois não?
— Todos temos escolha. — Adriano aproximou-se outra vez, mas desta vez com passos suaves. A mão direita pousou-lhe no ombro. — Tu escolhes aquilo que te protege. Eu apenas te mostro o caminho.
Teresa fechou os olhos. A imagem do pai, com os olhos vidrados, o rosto pálido, os dedos a segurarem-lhe o braço. A voz dele a sussurrar: «Está dentro de mim. Não me deixes sofrer.» E depois, o silêncio.
— O que quer que eu faça? — A pergunta saiu num murmúrio.
— Por agora, nada. Apenas observa. Fala com ele. Sonda-o. — Adriano afastou-se. — Quando for altura, dir-te-ei.
— E se ele descobrir?
— Não vai. És inteligente, Teresa. Sabes mentir. — O sorriso de Adriano alargou-se. — Afinal, tens mentido a toda a gente há vinte anos. O que é mais umas semanas?
Teresa apertou o xaile contra o peito. As costas doíam de tensão.
— Está bem. Faço-o.
— Bem. — Adriano pegou num saquinho de veludo pousado no balcão e estendeu-lho. — Toma. É um presente. Uma pedra de protecção. Traz sorte.
Teresa hesitou, mas acabou por aceitar. O saquinho era macio, aveludado. Pesava pouco mais que nada.
— Obrigada.
— De nada. Agora vai. E lembra-te: estou a contar contigo.
Teresa abriu a porta e saiu para a rua. O sol bateu-lhe nos olhos. A vila parecia mais escura do que antes. A mochila pesava-lhe nos ombros. O saquinho de veludo queimava-lhe na mão.
Caminhou até ao largo da igreja. Sentou-se num banco de pedra. As lágrimas vieram-lhe finalmente, quentes e grossas, a escorrerem-lhe pelas faces. Enterrou o rosto nas mãos e chorou.
— O que é que eu fiz? — sussurrou.
O vento não respondeu. Apenas a folhagem seca dos sobreiros se arrastou pela calçada. Teresa ergueu o rosto. O céu estava cinzento. O sino da igreja bateu horas, quatro badaladas cavas que ecoaram pelas ruas vazias.
Guardou o saquinho no bolso do casaco. Levantou-se. Os olhos ainda vermelhos. O nariz a escorrer. Soprou o ar e endireitou os ombros.
— Vais pagar, Adriano — murmurou. — Um dia, vais pagar.
Mas a voz saiu-lhe débil, sem convicção. A pedra no bolso pesava mais do que devia. E o medo, o medo era uma âncora que a arrastava para o fundo.
O Interrogatório
A taberna estava vazia quando João e Maria do Carmo entraram. O cheiro a vinho e a tabaco velho pairava no ar. A luz do candeeiro de petróleo dançava nas paredes caiadas. João sentou-se num banco, os cotovelos apoiados no balcão. O casaco de tweed pendia das costas da cadeira.
— Tens a certeza que ela vem? — perguntou Maria, passando um pano num copo.
— Disse que sim. — João passou a mão pelos cabelos desgrenhados. O gesto saiu-lhe nervoso. — É a única que pode ter acesso aos registos antigos. Os papéis do meu pai.
— Confias nela?
João hesitou. A cicatriz no lábio ardia.
— Não sei. Conheço-a há anos. Mas nesta vila... — Suspirou. — Nesta vila, ninguém é o que parece.
A porta rangeu. Teresa entrou, o xaile de lã puxado sobre os ombros. O rosto estava pálido, os olhos vermelhos. Sentou-se ao lado de João sem dizer palavra.
— Estás bem? — perguntou Maria. — Pareces doente.
— São os nervos. — Teresa forçou um sorriso. — Estes dias têm sido difíceis.
João fitou-a. As olheiras cavavam-lhe o rosto. Os dedos dela tamborilaram na mesa, um tique nervoso.
— Precisamos de falar sobre os desaparecimentos.
— Já vos disse tudo o que sei. — Teresa baixou os olhos. — Os registos da Câmara não mostram nada de anómalo. As pessoas somem e pronto.
— Não acredito nisso. — João inclinou-se para a frente. — Alguém sabe o que se passa. Alguém viu qualquer coisa.
— E eu não sou esse alguém.
Maria pousou dois copos de aguardente no balcão. João empurrou um para Teresa.
— Bebe. Pode ajudar.
Teresa pegou no copo com as duas mãos. Os dedos esfregavam-se uns nos outros, o polegar contra o indicador e o médio. O mesmo gesto de Maria. João reparou.
— O que te disse o Adriano? — A pergunta saiu seca.
Teresa estremeceu. O copo tremeu-lhe na mão.
— Nada. Porquê?
— Porque vieste de lá. A dona Alice viu-te a sair da ourivesaria há uma hora.
O silêncio caiu. Maria deixou o pano e aproximou-se. Os olhos castanhos fixaram Teresa.
— Rapariga, se sabes de alguma coisa, é melhor dizeres.
— Não sei de nada. — Teresa ergueu o copo e bebeu de um trago. A aguardente queimou-lhe a garganta, mas não lhe aqueceu o peito. — O Adriano é uma pessoa respeitável. Ajuda a comunidade.
— Ajuda? — João rangeu os dentes. — Ele esteve no celeiro ontem à noite. Vimo-lo. Ele e os capangas. Levou o corpo do Tomás.
— Isso é mentira.
— Tu sabes que não é. — João levantou-se. O banco raspou no soalho. — Tu sabes o que ele faz. O que ele é.
Teresa também se ergueu. Os olhos brilhavam, mas não era de choro.
— Não me ameaces, João. Tu não sabes nada da minha vida. Do que eu passei.
— Tens razão. Não sei. — A voz dele suavizou. — Mas quero saber. Podes confiar em mim.
— Confiar? — Teresa soltou uma gargalhada amarga. — Confiei no meu pai, e ele tentou matar-me. Confiei no Adriano, e ele... — Calou-se a meio, a mão a tapar a boca.
— Ele o quê? — Maria agarrou-lhe o braço. — Diz.
Teresa desviou o olhar. O peito arfava. As lágrimas ameaçavam cair.
— Não posso. Se ele souber que vos contei...
— Não vai saber. — João pousou a mão no ombro dela. O gesto foi suave, quase paternal. — Nós protegemo-nos uns aos outros.
Ela hesitou. Os olhos percorreram a taberna vazia, as janelas fechadas, a porta trancada. A respiração acelerou. Depois, muito devagar, inclinou a cabeça.
— Ele sabe do meu pai. Sabe o que eu fiz. — As palavras saíram a custo, arrastadas, como se cada sílaba lhe rasgasse a garganta. Fez uma pausa. O peito subiu e desceu. — E disse que se não o ajudar, conta a toda a gente.
— Ajudar como? — perguntou Maria.
Teresa não respondeu de imediato. Os dedos torceram a barra do xaile. Depois, num sopro:
— A vigiar-vos. A dizer-lhe o que vocês descobrem.
João passou a mão pelos cabelos. O gesto foi brusco, quase violento.
— Ele já te destruiu, Teresa. Só tu é que não viste.
— Então o que hei-de fazer? — A voz dela quebrou. As lágrimas correram livres. — Entregar-me à polícia? Dizer que matei o meu pai? Ninguém vai acreditar em mim. Vão chamar-me louca.
— Eu acredito. — João sentou-se novamente. — E a Maria também. Não estamos aqui para te julgar. Estamos aqui para parar o Adriano.
Maria aproximou-se e pousou a mão na de Teresa. Os dedos calejados apertaram-lhe os nós dos dedos.
— A minha avó também foi acusada. Queimaram-na por causa do que ela viu. — A voz de Maria era firme, mas os olhos brilhavam. — Se eu tivesse tido alguém que acreditasse nela, talvez ainda estivesse viva. Tu tens essa pessoa. Nós.
Teresa olhou para elas — João, com as olheiras fundas e a cicatriz no lábio; Maria, com o rosto redondo e os olhos castanhos cheios de ternura. O coração apertou-se-lhe.
— O que querem que faça?
— Continua a fingir que colaboras com ele. — João baixou a voz. — Diz-lhe o que ele quer ouvir. Mas avisa-nos do que ele planeia. Assim, podemos estar um passo à frente.
— E se ele descobrir?
— Não vai. — João ergueu o copo. — Nós protegemo-nos. Até ao fim.
Teresa limpou as lágrimas com as costas da mão. Assoou o nariz a um lenço que Maria lhe estendeu. Respirou fundo.
— Está bem. Faço-o.
— Boa rapariga. — Maria apertou-lhe a mão. — Não vais arrepender-te.
O silêncio caiu novamente. O vento uivou lá fora. João olhou para a janela, para a rua deserta, para as sombras que se alongavam.
— Ele falou em mais alguém? — perguntou. — Noutros cúmplices?
— Apenas na Zulmira. — Teresa puxou o xaile. — Diz que ela é útil. Que semeia a discórdia. Mas há mais pessoas. Ele não me disse quem.
— Vamos descobrir. — João levantou-se. — Agora vai. E cuidado.
Teresa levantou-se. As pernas tremiam-lhe. Caminhou até à porta, mas antes de sair, virou-se.
— João...
— Diz.
— Obrigada. Por não me julgarem.
— Ainda não acabámos. — Ele sorriu, um esgar cansado. — Quando isto passar, logo vemos.
Teresa saiu. A porta fechou-se com um estalido seco. Maria foi até à janela e espreitou por entre as cortinas.
— Está a ir para casa.
— Acreditas nela? — perguntou João.
Maria hesitou. Os polegares esfregavam os dedos indicador e médio.
— Quero acreditar. Mas ela esconde qualquer coisa. Os olhos não mentem. Ela está a sofrer, sim. Mas também está a mentir.
— Sobre o quê?
— Não sei. — Maria virou-se. — Mas vamos descobrir. Até lá, vigiamo-la de perto.
João assentiu. O cansaço pesava-lhe nos ombros. A noite caía sobre Alpedreza, e o mal estava a acordar.
O Preço
Teresa fechou a porta de casa com um baque surdo. Encostou-se a ela, as costas contra a madeira fria. O quarto estava escuro. Apenas a luz da rua entrava pelas frinchas das persianas, desenhando riscas pálidas no soalho. O coração batia-lhe descompassado.
Levantou-se e acendeu o candeeiro da sala. A luz amarelada iluminou as sombras. As paredes vazias. Os móveis cobertos por lençóis brancos. A casa cheirava a tabaco e a mofo. Cheirava a vinte anos de silêncio.
Foi até à cozinha. Bebeu água directamente do cano. Lavou a cara. Olhou para o espelho em cima do lava-loiça. O rosto que lhe devolveu tinha os olhos arregalados, os lábios secos. Parecia uma assombração.
— És uma assassina — disse para o reflexo.
O reflexo não respondeu.
Teresa pegou no telefone. Os dedos hesitaram sobre o disco. Marcou o número de Adriano. Uma vez. Duas. Três. Ao quarto toque, a voz macia atendeu.
— Teresa. Já tomei conta do recado. Está tudo a postos?
Ela fechou os olhos. A imagem do pai surgiu-lhe na mente — o rosto pálido, os olhos vidrados, os dedos a apertarem-lhe o braço. «Não me deixes sofrer.» Abriu os olhos. O dedo indicador enrolou o fio do telefone. Depois, com um suspiro, respondeu.
— Está tudo a postos.
— Bem. — Adriano fez uma pausa. — Então falamos amanhã. Vai dormir descansada.
O clique seco do desligar ecoou no quarto vazio. Teresa deixou o auscultador cair ao chão. O telefone ficou a balançar no fio, como um corpo enforcado.
Sentou-se na cadeira da cozinha. As mãos pousaram no tampo gasto. As lágrimas vieram, grossas e quentes. Não as limpou. Lá fora, o vento uivou entre as árvores. As persianas bateram. A noite engoliu Alpedreza.
— Perdoa-me, pai — sussurrou.
A casa não respondeu. Apenas o silêncio, e o eco das suas próprias palavras.