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Por Mauro Sombra

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 11 Assistido por IA
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O Ponto Médio

IA
A Visão da Adega

Maria do Carmo acordou com um zumbido nos ouvidos. O quarto estava escuro. As paredes caiadas da casa, tão familiares, pareciam contrair-se à volta da cama. Sentou-se de súbito. O suor colava-lhe a camisa de noite ao peito. A mão tremeu ao acender a luz do candeeiro.

A visão ardia-lhe atrás das pálpebras. Imagens soltas: uma porta de madeira carcomida, pregos ferrugentos. Escadas de pedra a descer. Um cheiro a terra e a sangue. E um corpo — uma mulher, cabelo escuro caído sobre o rosto. Os lábios entreabertos num grito mudo. As mãos amarradas com arame.

Maria fechou os olhos. O polegar esfregou os dedos indicador e médio num rosário invisível. O dom da avó nunca falhava. Puxou o xaile sobre os ombros. Vestiu-se às pressas. O soalho gemeu sob os seus pés enquanto descia as escadas. No rés-do-chão, a taberna ainda não abrira. As cadeiras estavam em cima das mesas. O cheiro a vinho e a tabaco pairava no ar, mas agora sobrepunha-se-lhe outro, mais intenso: o da visão.

Foi à rua. A madrugada ainda não despontava. Alpedreza dormia sob um céu pesado, sem estrelas. As pedras da calçada brilhavam com a humidade. Maria caminhou depressa, o xaile a esvoaçar. O coração batia-lhe descompassado. Precisava de João.

A pensão estava fechada. Bateu com os nós dos dedos na porta, três pancadas secas. Silêncio. Bateu outra vez. Uma janela no primeiro andar abriu-se. João surgiu, o cabelo ainda mais desgrenhado do que de costume, o torso nu. Os olhos cinzentos estavam toldados de sono.
— Maria? Que se passa? — A voz saiu rouca.
— Preciso de falar consigo, inspector. Agora.

João vestiu a camisa e desceu. Abriu a porta. Maria entrou sem ser convidada, atravessou o corredor e parou na sala de estar. O candeeiro de parede iluminava mal as sombras. João acendeu um cigarro. As mãos ainda tremiam ligeiramente — sonhara com a criança outra vez.
— O que foi? — perguntou.
— Tive uma visão. — Maria fixou-o. — Clara como nunca. Vi o lugar onde escondem os corpos. Uma adega. Escura, húmida. Cheirava a sangue.

João rangeu os dentes. O ruído ecoou no silêncio. Lembrou-se do celeiro, da armadilha de Adriano, da força invisível. A cicatriz no lábio latejou.
— Tem a certeza? Da última vez...
— Da última vez também salvei a sua vida, não foi? — Maria cruzou os braços. Os olhos castanhos faiscaram. — Sei que tem medo, inspector. Eu também tenho. Mas esta visão é diferente. Vi a adega como se lá estivesse. Vi os degraus, a porta, o cheiro. E vi uma mulher morta. Jovem. Talvez Catarina.

João passou a mão pelos cabelos. O gesto saiu nervoso. Depois, baixou a cabeça.
— Desculpe. — A voz abrandou. — Tem razão. Onde é o lugar?
— Não sei o nome. Mas é nos arredores, a sul da vila. Perto da vereda que leva à pedreira. Há uma casa em ruínas, com uma figueira seca ao lado. A adega fica por baixo.
— Conheço essa casa. — João apagou o cigarro no cinzeiro. — É a antiga casa do Parreira. Ninguém mete lá os pés há anos.
— Pois é. E é lá que estão.

João pegou na pistola e na lanterna. Maria hesitou.
— Vai sozinho?
— Vai connosco? — Ele fitou-a. — Precisa de coragem, Maria?
— Não lhe pedi coragem. Pedi-lhe cuidado.
— Então venha.

Saíram juntos. A luz cinzenta da alvorada despontava por entre as nuvens. As ruas estavam desertas. Caminharam em silêncio até ao limite da vila, onde as casas davam lugar a terrenos baldios e carreiros de pedra. O vento levantou uma nuvem de pó. Maria apertou o xaile.
— João...
— Diga.
— Se encontrarmos o corpo, o que fazemos?
— Chamamos a brigada de Évora. Desta vez, ninguém vai levar nada.
— E se o Adriano aparecer?
João parou. Os olhos cinzentos endureceram.
— Desta vez, não fujo.

Maria não insistiu. Retomaram a marcha. O carreiro serpenteava entre azinheiras e arbustos de esteva. O cheiro a terra molhada subia do chão. Atrás deles, Alpedreza desapareceu na névoa da manhã.


A Adega e a Emboscada

A casa em ruínas surgiu ao fundo do carreiro. As paredes caiadas haviam desbotado para um cinzento sujo, com manchas de bolor e de musgo. O telhado de telha rústica estava parcialmente desabado. Ao lado, uma figueira seca, de braços retorcidos, erguia-se como um esqueleto. O silêncio era total. Nem o canto de um pássaro. Nem o zumbido de um inseto.

— É aqui — murmurou Maria, parando. O polegar esfregou os dedos indicador e médio num gesto rápido. — A adega fica atrás da casa.

João aproximou-se devagar, a pistola na mão. A humidade colava-se-lhe à pele. Atrás da casa, uma estrutura baixa de xisto, com uma porta de madeira carcomida. Pregos ferrugentos. O cheiro a sangue era ténue, mas presente. João sentiu o estômago contrair-se. Fez sinal a Maria para recuar. Ela obedeceu, mas ficou por perto.

Empurrou a porta com o ombro. A madeira rangeu, soltando uma lufada de ar frio e podre. Acendeu a lanterna e apontou para dentro. Degraus de pedra, estreitos e gastos pelo tempo, desciam para a escuridão. João respirou fundo e começou a descer. Cada passo ecoava nas paredes de xisto. A luz da lanterna dançava à sua frente. O ar ficava mais espesso, mais gelado. Uma humidade antiga entranhava-se-lhe nos pulmões.

Ao fundo, a adega abria-se numa sala baixa, de teto abobadado. Paredes de pedra nua, cobertas de salitre. O chão era de terra batida, manchada de escuro. No centro, sobre uma mesa de madeira, jazia um corpo.

Uma mulher. Cabelo escuro caído sobre o rosto. O vestido de algodão estava sujo de terra e de sangue seco. As mãos estavam amarradas com arame. Os pés descalços. Uma das sandálias caíra no chão. O cheiro a decomposição açucarava o ar. Moscas zumbiam.

João cobriu a boca com a mão. A imagem sobrepôs-se à da sua visão antiga — o corpo de Helena no poço. Agora, Catarina? A garganta apertou-se-lhe. Aproximou-se. Os dedos da morta estavam crispados. As unhas quebradas. Uma luta, ali mesmo. A pele do rosto tinha um tom azulado. Os olhos abertos fitavam o vazio.

— Maria! — gritou João. — Está aqui!

Os passos de Maria ecoaram nas escadas. Ela entrou na adega e benzeu-se. As pernas tremeram.
— É a Catarina...
— Temos de sair daqui. — João puxou o telemóvel do bolso. Sem rede. — Vou chamar reforços. Fique atrás de mim.

Nesse momento, a porta da adega fechou-se com um estrondo. A luz da lanterna tremeu. João virou-se. Da escuridão das escadas, surgiram vultos. Três homens, encorpados, com capuzes. Adriano Saragoça vinha atrás, o colete escuro impecável, as mãos nos bolsos. O sorriso fino e frio iluminou-se à luz da lanterna.
— Bom dia, inspector. — A voz untuosa ecoou nas paredes. — E a senhora Maria do Carmo. Estão a brincar com forças que não compreendem.

João levantou a pistola. A mão não tremia, mas o coração martelava.
— Afaste-se, Adriano. Desta vez não escapa.
— Escapar? — Adriano riu, um som seco. — Quem é que vai escapar? Vocês? Olhem à vossa volta.

Os capangas avançaram. Um deles arrancou a pistola da mão de João com um movimento rápido. O outro agarrou-o pelos braços, torcendo-lhos atrás das costas. João debateu-se, mas a força do homem era esmagadora. Um terceiro imobilizou Maria, que tentava correr para a escada.
— Larguem-na! — gritou João. O suor escorria-lhe pela testa. A camisa rasgou-se num ombro.
— Quieto. — Adriano aproximou-se. Os olhos cinzentos fitaram João de cima a baixo. — Sempre tão teimoso. O seu pai era igual. E veja no que deu.

João rangeu os dentes. A fúria subiu-lhe à garganta, mas conteve o grito. Os homens de Adriano prenderam-lhe as mãos com uma corda. Maria foi atada a um pilar de pedra. Ela mordeu o lábio, mas não soltou um som.
— O que vai fazer? — perguntou João, a voz rouca.
— O que devia ter feito há muito tempo. — Adriano fez um sinal aos capangas. — Levem o corpo.

Dois homens foram à mesa. Com uma frieza mecânica, enrolaram o cadáver de Catarina num lençol grosseiro que trouxeram. Arrastaram-na pelas escadas. O som do corpo a bater nos degraus ecoou pela adega. João fechou os olhos. O ódio latejava-lhe nas têmporas.
— Seu cobarde. Esconde-se atrás de mortos.
— Mortos? — Adriano inclinou a cabeça. — Eles são os portadores do mal. O eco precisa de alimento. E vocês estão a perturbá-lo. Mas não por muito tempo.

Aproximou-se de João. O cheiro a incenso e a metal frio envolveu-o. Tirou a pedra negra do bolso do colete e mostrou-lha.
— Sabe o que é isto, inspector? É a essência do que habita esta terra. O seu pai tocou-lhe uma vez. E enlouqueceu.
— Mentira. O meu pai era mais forte do que isso.
— Era? — Adriano sorriu. — Então porque é que se matou? Porque é que o deixou sozinho? Porque é que você, agora, está a vê-lo em cada sombra?

João tentou soltar-se. A corda mordeu-lhe os pulsos. Sangue escorreu-lhe pelos dedos. Maria gritou:
— Deixe-o em paz!
— Calma, taberneira. — Adriano virou-se para ela. — Você que herdou o dom da avó, devia perceber. Este mal está dentro de todos nós. Alimenta-se do medo. E o inspector tem muito medo. Medo de ser como o pai. Medo de enlouquecer.

Maria cuspiu no chão. Os olhos castanhos ardiam.
— Não sabe nada de mim.
— Sei o suficiente. — Adriano devolveu a pedra ao bolso. — E sei que, se continuarem a interferir, a próxima vítima será alguém de quem gostam. Quem sabe... a Teresa? Ou o velho Amadeu?

João engoliu em seco. A impotência era uma nódoa a crescer no peito. Viu os capangas a saírem com o corpo. Catarina desapareceu pela porta, engolida pela luz da manhã que entrava agora. Adriano observou-o, o sorriso intacto.
— Vamos deixá-los aqui, por agora. Que pensem no que fizeram. Talvez aprendam. — Deu um passo para as escadas. — Ah, e inspector... se voltar a cruzar-se no meu caminho, não serei tão generoso.

Os capangas soltaram uma gargalhada rouca. Adriano subiu os degraus lentamente, as botas a ranger na pedra. A porta da adega ficou entreaberta. O som dos passos afastou-se. Depois, o silêncio.

João ficou imóvel, os pulsos a sangrar. Maria, atada ao pilar, respirou fundo.
— Ele levou-a.
— Levou. — A voz de João saiu num fio. — E eu não pude fazer nada.

Debateu-se contra as cordas, mas os nós eram fortes. O esforço fez-lhe doer os ombros. Gritou. Um urro surdo, animal, que ecoou pela adega. Depois, caiu de joelhos no chão de terra. A cabeça baixou. Os cabelos desgrenhados colaram-se à testa suada.

Maria puxou as cordas que a prendiam.
— João... temos de sair daqui.
— Para quê? — Ele levantou o rosto. Os olhos cinzentos estavam vermelhos. — Para quê? Ele vai continuar. E eu não consigo pará-lo. Sou como o meu pai. Fraco.

— Não é. — Maria forçou um tom calmo. — O seu pai estava sozinho. Você não está.

João não respondeu. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Não as limpou. O cheiro a sangue e a podridão enchia-lhe os pulmões. A impotência era uma âncora. Lembrou-se da carta do pai. Das palavras de Adriano no celeiro. Do riso que agora ainda ecoava nas paredes.

— Ele vai pagar. — A voz saiu rouca, quase inaudível. — Juro que vai pagar.

Maria nada disse. Apenas fechou os olhos. O polegar esfregou os dedos indicador e médio.

Lá fora, o sol nascia sobre Alpedreza. Mas na adega, a escuridão reinava. João, deitado no chão, murra o punho de raiva. A terra cedeu sob os nós dos dedos. O sangue manchou-lhe a pele. E o silêncio engoliu o som.
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