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Por Mauro Sombra

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 12 Assistido por IA
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A Armadilha na Mina

IA
O Plano na Taberna

A taberna cheirava a vinho entornado e a tabaco velho. João Martins entrou e fechou a porta com um baque surdo. A chave de ferro rangeu na fechadura. Maria do Carmo estava de costas, a arrumar os copos atrás do balcão. Os ombros largos encurvavam-se sob o xaile de lã. Ela não se virou.
— Temos de agir — disse João. A voz saiu rouca, o cansaço de dias sem dormir a latejar-lhe nas têmporas. Passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados. O gesto, repetido, era um tique nervoso que ela já conhecia.
Maria pousou o copo. Os polegares esfregaram os dedos indicador e médio, como se desfiassem um rosário invisível. Virou-se. As rugas profundas no rosto redondo pareciam sulcos de terra seca.
— A mina. O Adriano vai preparar o ritual lá. — João puxou um banco e sentou-se, os cotovelos apoiados no tampo gasto. — Se o apanharmos em flagrante, temos provas.
— E precisa de ajuda. — Maria inclinou a cabeça. — Sozinho não vai conseguir.
— Preciso de si. E de mais alguns.
Do lado de fora, o vento uivava. As vidraças tremeram. Maria foi até à porta das traseiras e chamou por Amadeu, o sineiro, que morava num quartinho ao lado. O velho apareceu, a bengala a bater no soalho de madeira. Os olhos, toldados por cataratas, ainda guardavam um brilho esperto.
— O que foi? — perguntou, a voz arrastada.
— Precisamos de cercar a mina. O ourives é um assassino. — João falou sem rodeios. — O senhor conhece a mina. Quer ajudar?
Amadeu coçou a barba rala. Hesitou. Mas o tremor na mão de João convenceu-o.
— Se é para travar o mal, cá estou.
Pouco depois, dois primos pescadores, homens de braços grossos e poucas palavras, juntaram-se a eles. Maria foi buscar Teresa Melo. Bateu à porta da casa da arquivista, uma construção baixa de janelas fechadas. Teresa abriu devagar, os olhos vermelhos, o xaile puxado sobre os ombros.
— Precisamos de ti — disse Maria, sem rodeios.
Teresa engoliu em seco. O coração batia-lhe na garganta. A imagem de Adriano, com aquele sorriso frio, dançava-lhe na mente. Mas também a imagem do pai, os olhos vidrados, os dedos a segurarem-lhe o braço, a voz a sussurrar: «Não me deixes sofrer.» E ela, as mãos à volta do pescoço dele. Apertar. Apertar.
— Vou — murmurou, a voz embargada.
Voltaram à taberna. João desdobrou um mapa amachucado sobre a mesa. A mina abandonada ficava a sul da vila, para lá da pedreira. Duas entradas. A principal, uma boca de pedra escura, e uma secundária, escondida entre urzes, que os locais chamavam de «O Respiro».
— Maria e eu entramos pela principal. Amadeu vem connosco. Os primos ficam na secundária. Se o Adriano fugir, param-no. — João olhou para Teresa. — Tu ficas de vigia no exterior. Se vires alguém a aproximar-se, avisas.
Teresa acenou. As mãos tremiam-lhe no regaço.
— Tens a certeza de que queres fazer isto? — perguntou Maria, fixando-a.
— Quero ajudar. — A resposta saiu demasiado rápida.
O silêncio caiu. A lamparina de petróleo tremeu. Lá fora, o vento arrastava as folhas secas pelas pedras da calçada. Amadeu benzeu-se. Os primos trocaram olhares. Mas João levantou-se e estendeu a mão.
— Ao romper da aurora. Estejamos todos.
Eles saíram um a um. Teresa foi a última. Antes de passar a porta, virou-se. João estava de costas, a olhar para o mapa. Maria, ao lado dele, tocara-lhe no ombro num gesto de conforto. Teresa sentiu um aperto no peito. A culpa, a velha e odiosa culpa, erguia-se como um vómito.
Fechou a porta e caminhou pelas ruas desertas. A lua, pálida, desenhava sombras nas paredes caiadas. Parou diante da ourivesaria. A montra brilhava com o reflexo pálido. Do bolso do vestido, tirou um papel dobrado. Com a mão trémula, enfiou-o por baixo da porta. A mensagem era curta, escrita à pressa num bloco de notas da Câmara: «Amanhã, na mina. Eles vão cercar-te. Foge.»
Depois, afastou-se depressa. As lágrimas escorriam-lhe pelas faces, quentes e grossas. Não sabia se traía João ou se traía a própria alma. Mas o medo, o maldito medo, era uma corda que Adriano apertava à volta do seu pescoço. E ela não via saída.


A Explosão na Mina

A aurora trouxe um céu cor de chumbo. As nuvens baixas colavam-se aos telhados de Alpedreza. João, Maria e os outros encontraram-se na saída da vila, junto ao velho forno comunitário. Ninguém falava. Amadeu apoiava-se na bengala. Os primos pescadores carregavam archotes e uma corda grossa. Teresa, de xaile escuro, mantinha os olhos no chão.
Caminharam em fila pelo carreiro de pedras soltas. O ar cheirava a esteva e a terra molhada. Ao longe, a silhueta da pedreira recortava-se contra o cinzento. Ao chegarem, João fez sinal para se separarem. Os primos dirigiram-se para a entrada secundária, desaparecendo entre os arbustos. Amadeu, Maria e João aproximaram-se da boca da mina.
A entrada era um buraco escavado na rocha de xisto. Uma trave de madeira carcomida sustentava o lintel. O cheiro a mofo e a enxofre emanava do interior. João acendeu um archote e espreitou. A escuridão era densa, como uma cortina. Não se ouvia nenhum som.
— Ele está lá — sussurrou Maria, os polegares a esfregarem-se nos dedos. — Sinto-o.
João fez um gesto para avançarem. Mas, nesse instante, um estampido ribombou no ar. Uma labareda laranja irrompeu da boca da mina, seguida de uma nuvem de fumo negro e acre. O estrondo ecoou pelos montes. Pedras voaram pelos ares. Amadeu foi atirado ao chão, a bengala a partir-se. Um grito de dor cortou a manhã.
João cambaleou. O som do impacto fê-lo perder o equilíbrio. Apoiou-se a uma pedra. Os ouvidos zumbiam. Maria estava de joelhos, as mãos a tapar a cara. O fumo, denso e picante, invadia-lhes os pulmões.
— Amadeu! — gritou João, correndo para o velho.
O sineiro estava caído, uma perna torcida, o rosto sujo de sangue. Um dos primos pescadores apareceu, arquejante.
— A outra entrada explodiu também! — berrou. — Não há passagem.
João rangeu os dentes. A cicatriz no lábio ardia. Olhou para trás, para a boca da mina agora bloqueada por escombros. O fumo ainda saía, espesso. Uma gargalhada ecoou, amplificada pelas rochas. A voz de Adriano, distorcida, parecia vir de todo o lado ao mesmo tempo.
— Inspector Martins! Penso que me subestimou! — O som era um eco perturbador. — A cobardia dos seus amigos foi a sua ruína!
João virou-se para Teresa. Ela estava parada a poucos metros, o rosto branco como cal. As mãos agarravam o xaile num nó apertado. Os olhos arregalados fugiam dos dele.
— Foste tu — a voz de João saiu num sopro. Mas não era uma pergunta.
Teresa recuou um passo. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Não disse nada. O silêncio bastou.
Maria levantou-se, limpando a terra da saia. Os olhos castanhos cravavam-se em Teresa.
— Ele sabia que vinhamos. Tu avisaste-o.
Teresa caiu de joelhos no chão pedregoso. As pedras magoavam-lhe os joelhos, mas a dor era bem-vinda. Os soluços sacudiam-lhe o corpo.
— Ele sabe... o que eu fiz... ao meu pai... — As palavras saíram a custo, entrecortadas.
João aproximou-se. A raiva lutava com a compaixão. Passou a mão pelos cabelos, o gesto brusco.
— O teu pai? — perguntou Maria.
Mas João interrompeu. Olhou para Amadeu, que gemia no chão. Os primos ajudavam-no a erguer-se. O velho tinha uma ferida na testa, mas estava vivo. O perigo imediato passara. Adriano fugira.
— Vamos tratar do Amadeu. Depois falamos — disse João, a voz rouca. Não desviava os olhos de Teresa.
Os primos carregaram Amadeu de volta para a vila. Maria ficou ao lado de João. Teresa, ainda de joelhos, parecia uma figura de pedra.
— Levanta-te — ordenou Maria, com uma dureza que não era habitual. — Tens muito que explicar.
Teresa ergueu-se, as pernas bambas. O xaile caíra-lhe dos ombros. O vestido escuro estava sujo de terra. O rosto, manchado de lágrimas, era uma máscara de culpa.
— Desculpa... desculpa... — murmurou.
João não respondeu. Virou-lhe as costas e ajudou a carregar Amadeu. Mas o seu silêncio doía mais do que qualquer grito.


A Confissão de Teresa

De volta à taberna, fecharam as portas. Amadeu foi levado para casa, com a ferida ligada. Os primos montaram guarda do lado de fora. João e Maria sentaram-se num banco, diante de Teresa, que permanecia de pé, encostada à parede. O silêncio era uma terceira presença.
— Conta — disse João. A voz saiu plana, sem raiva. Mas os olhos cinzentos eram duas pedras.
Teresa respirou fundo. O peito arfou. As mãos esfregavam-se, uma na outra, como se quisessem apagar uma nódoa invisível.
— O meu pai... — começou ela, a voz a tremer. — Ele estava a ser consumido pelo eco do mal. O mesmo mal que agora atormenta a vila. Eu vi. Vi os olhos dele mudarem. Vi a escuridão a tomar conta. Um dia, ele tentou matar-me. Disse que eu era o receptáculo, que tinha de me sacrificar.
As lágrimas corriam abundantes. Ela não as limpou.
— Eu... eu não queria morrer. Mas também não queria que ele se tornasse num monstro. Naquela noite, na mina, ele estava de joelhos, a rezar. Pediu-me que não o deixasse. Disse-me que o mal já estava dentro dele e que precisava de ser parado. E eu...
A voz embargou-se. Maria levantou-se e foi até ela, mas não tocou.
— E tu mataste-o — completou Maria, baixinho.
— Estrangulei-o. Com as minhas próprias mãos. Senti a vida a fugir-lhe do corpo. Senti o seu último suspiro. E depois, escondi o corpo. Nunca contei a ninguém.
Teresa cobriu o rosto com as mãos. Os ombros sacudiam-se.
— Adriano sabia. Ele apareceu na minha casa, uma noite. Mostrou-me a pedra negra. Disse que tinha visto tudo. Que se eu não o ajudasse, contaria a toda a vila. E eu... eu tive medo. Medo de ser julgada. De ser odiada. De ser queimada como a avó da Maria.
João ergueu-se. Deu dois passos lentos. Parou diante de Teresa. O seu rosto estava a centímetros do dela. Ela não se atreveu a levantar os olhos.
— Eu não vou contar a ninguém — disse João, a voz agora suave. — Não porque mereças, mas porque a vingança não nos vai ajudar. O que interessa é o que fazes agora.
Teresa ergueu a cabeça, incrédula. Os olhos vermelhos encontraram os cinzentos de João.
— Vais... perdoar-me?
— Não sou padre. Mas ofereço-te uma hipótese. — João recuou um passo. — Ajuda-nos a parar o Adriano. A sério, desta vez.
Maria aproximou-se e pousou a mão no ombro de Teresa.
— A minha avó não teve ninguém para a perdoar. Eu tive de aprender a perdoar-me a mim mesma. Não te julgues mais duramente do que nos julgas.
Teresa soluçou. Depois, lentamente, endireitou os ombros. O xaile escorregou, mas ela não o puxou. Respirou fundo.
— O que querem que eu faça?


A Voz do Ourives

De volta à entrada da mina, o fumo já se dissipara. As pedras ainda fumegavam. Os primos pescadores juntaram-se a eles, com Amadeu apoiado num banco de pedra. O velho recusara ficar para trás.
— Ele deixou qualquer coisa ali — disse um dos primos, apontando para uma pedra caída.
João agachou-se. Entre os escombros, brilhava um pequeno gravador de voz. Um aparelho preto, moderno, deslocado naquele lugar de xisto e terra. João pegou-lhe com cuidado. O visor mostrava um ficheiro: «Para o Inspector e os seus Amigos».
— É dele — murmurou Maria.
João pressionou o botão de reproduzir. A voz de Adriano encheu o ar, distorcida, como se fosse filtrada por água. Um arrepio percorreu-lhes as espinhas.
— «Inspector Martins. Maria do Carmo. E a nossa querida Teresa. Vejo que sobreviveram. Deviam ter percebido que eu nunca seria apanhado tão facilmente. Mas vocês insistem. Bem... deixem-me oferecer-vos uma prenda.» — Houve uma pausa, um riso abafado. — «Teresa, minha cara, nunca imaginei que tivesses a coragem de confessar. Mas não importa. O teu pai, aquele que tu mataste com tanto... carinho, será a minha âncora. O corpo dele vai servir de canal para o eco do mal. E, quando o ritual estiver completo, tu serás o vaso. A herdeira. Está no teu sangue. No teu destino. O mal não se mata. O mal não se prende. O mal... herda-se.»
A gravação terminou com um estalido seco. O silêncio que se seguiu foi um peso.
Teresa levou as mãos à cabeça. Os dedos cravaram-se nos cabelos. Soltou um grito — não de medo, mas de pura desolação.
— Não... não posso deixar que ele faça isso!
João pousou o gravador e segurou-a pelos ombros.
— Não vai fazer. Vamos encontrá-lo. Tu conheces a passagem secreta. Leva-nos.
Teresa enxugou as lágrimas com as costas da mão. As suas feições endureceram. Havia agora uma fúria fria nos seus olhos.
— É por baixo da mina. Há uma galeria antiga que vai dar a uma caverna. Lá está o corpo do meu pai. É lá que ele quer fazer o ritual.
Maria acendeu um archote. Os primos agarraram nos seus. Amadeu benzeu-se e pegou num pedaço de corda.
— Vamos — disse João. A voz não tremia.
A mina principal estava bloqueada, mas Teresa guiou-os para a esquerda, onde uma fresta na rocha se abria para um túnel estreito. As paredes brilhavam com humidade. O teto era baixo, obrigando-os a curvar-se. Maria ia atrás de João, o archote a lançar sombras dançantes.
— A galeria antiga vai dar a uma câmara — explicou Teresa, a voz ecoando. — O meu pai costumava trazer-me aqui em criança. Dizia que era um lugar sagrado, onde os antigos guardavam os seus mortos. Mas Adriano perverteu-o.
O chão era irregular, cheio de pedras soltas. Passaram por restos de carris enferrujados e um carro de mina tombado. O ar tornava-se cada vez mais denso. Um odor adocicado, nauseabundo, começou a impregnar o ambiente.
— É o cheiro da podridão — murmurou Amadeu, a voz débil.
João acendeu a lanterna com mais força. À frente, o túnel alargava-se. Uma caverna abria-se perante eles, negra como um abismo. O som de água a pingar ecoava. E, ao fundo, uma luz bruxuleante. Uma vela, talvez.
— É ali — sussurrou Teresa.
João fez um gesto para silenciarem. Empunhou a pistola. O coração martelava-lhe o peito. Estavam na toca do lobo.
— Vamos entrar com cuidado. Fiquem atrás de mim.
Maria tocou-lhe no ombro. O calor da mão calejada transmitiu-lhe uma coragem calma.
— Juntos — disse ela.
E assim, um a um, entraram na escuridão. Os passos, abafados pelo lodo, mal se ouviam. As sombras engoliam-nos. A única luz era a das suas lanternas, que cortavam a treva como facas.
João, Maria e Teresa, com os aldeões, avançaram para dentro da mina às escuras.
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