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O Peso da Herança
IA
A Visão do Xaile
João Martins entrou na taberna com o xaile amarrotado na mão. A porta rangeu, e o cheiro a vinho entornado e a tabaco velho envolveu-o. O soalho de madeira gemeu sob os seus passos. Maria do Carmo estava atrás do balcão, o pano de prato a correr pelo vidro de um copo em círculos lentos. Os ombros largos encurvavam-se sob o xaile de lã que lhe cobria os ombros. Ergueu os olhos castanhos mal a porta se fechou.
— Esse xaile... — A voz saiu arrastada, o sotaque alentejano carregado. — Pensei que já não lhe servia para nada.
João atirou a peça para o balcão. A lã, outrora de um vermelho vivo, agora suja de terra e manchada de um castanho escuro — sangue velho, talvez —, espalhou-se sobre a madeira gasta. As mãos dele passaram pelo cabelo desgrenhado, o gesto repetitivo que traía a ansiedade.
— Preciso de respostas. A Zulmira deu-nos isto naquela cabana falsa. Disse que era de uma desaparecida, mas mentiu. — Rangeu os dentes, um ruído seco. — Agora penso: e se o xaile tiver algo de verdadeiro? Algo que ela não controlou?
Maria pousou o copo. As mãos calejadas descansaram no tampo. Os polegares esfregaram-se nos dedos indicador e médio, num movimento inconsciente — o rosário invisível que herdara da avó. As veias grossas saltaram-lhe nas costas das mãos. Um calor subiu-lhe do peito à garganta. O dom despertava.
— Tem a certeza? — A pergunta saiu num sussurro. Os olhos procuraram os dele. — Da última vez que toquei numa coisa assim, quase enlouqueci. Vi a Helena no poço... e o Tomás no celeiro. Não sei se aguento outra.
João fitou-a. As olheiras cavavam-lhe o rosto, mas os olhos cinzentos brilhavam com uma determinação desesperada. A cicatriz no lábio parecia uma fenda na penumbra.
— Preciso de si, Maria. Sem as suas visões, não consigo ver o que este trapo esconde. Mas consigo e... — Fez uma pausa. Passou a mão esquerda pelos cabelos, num gesto brusco. — Já não confio nos meus olhos. Preciso dos seus.
Ela hesitou. O medo era uma brasa a queimar-lhe o estômago. Mas a coragem de João, aquela teimosia ferida, incendiou-lhe o ânimo. Estendeu a mão trémula. Os dedos calejados roçaram na lã áspera.
O mundo dissolveu-se.
Um zumbido agudo estilhaçou o silêncio. A taberna desvaneceu-se como fumo. Maria viu-se num descampado árido, os sobreiros retorcidos a erguerem os braços como esqueletos contra um céu de chumbo. O cheiro a esteva e a pó entupia-lhe as narinas. O ar cheirava a morte.
À sua frente, uma cena de pesadelo. Catarina, a terceira desaparecida, estava ajoelhada na terra. Os pulsos amarrados com arame, o metal a cravar-se na pele. O vestido de algodão, manchado de lama e de sangue seco, colava-se-lhe ao corpo magro. O cabelo escuro caía-lhe sobre o rosto, mas Maria viu-lhe os olhos — arregalados, vidrados, e a boca aberta num grito mudo.
Ao lado de Catarina, Zulmira Valentim. Os farrapos negros aderiam-lhe ao corpo como uma segunda pele. O cajado retorcido, na mão direita, apontava para a rapariga. A boca desdentada movia-se, murmurando uma prece obscena. As palavras eram incompreensíveis, mas o som gelava a medula. Os olhos de ônix faiscavam com um brilho fanático.
De entre as sombras dos arbustos, uma terceira figura surgiu. Adriano Saragoça. O colete escuro impecável, a camisa branca sem uma ruga. Os olhos cinzentos e frios fixaram a rapariga. Um sorriso fino, desprovido de alegria, desenhou-se-lhe nos lábios. Avançou com passos lentos, as mãos nos bolsos. Pegou em Catarina pelo braço, os dedos longos a cravar-se na carne. Ela tentou debater-se, mas as pernas não lhe obedeciam. Um som rouco, abafado, escapou-se-lhe da garganta. Adriano arrastou-a para a escuridão, sem esforço aparente.
Antes de desaparecer, Zulmira virou-se. Os olhos de ônix cravaram-se nos de Maria — um olhar que trespassava o véu da visão. Um sorriso torpe, quase triunfante, abriu-se-lhe na face. Murmurou uma única palavra, que ecoou como um trovão: "Tarde."
A visão desvaneceu-se.
Maria cambaleou. Os joelhos bateram no balcão com um baque surdo. O copo que João largara escorregou e estilhaçou-se no chão, os cacos a saltitar pelos tacos de madeira. O ar regressou-lhe aos pulmões num arquejo. O suor escorria-lhe pela testa, pelas costas, encharcando o avental. As mãos agarraram-se à borda do balcão, os nós dos dedos brancos como cal.
João correu para ela. Segurou-a pelos ombros, a pressão dos dedos uma âncora.
— Maria! O que viu? — A voz saiu rouca, carregada de urgência.
Ela respirou fundo, o peito a arfar. As palavras saíram a custo, engasgadas:
— A Zulmira... foi ela. Ela entregou a Catarina ao Adriano. Vi-a, João. Vi o Adriano a arrastar a miúda para os arbustos. A Zulmira sabia. Ela servia-o.
João rangeu os dentes com força. Os maxilares estalaram. A cicatriz no lábio latejava.
— Eu sabia. Aquela velha desgraçada. — A mão fechou-se num punho sobre o balcão.
— Temos de a parar. — Maria limpou o suor da testa com as costas da mão. O seu olhar endureceu. — Agora. Antes que leve outra inocente.
João largou-a e pegou na pistola. Verificou o carregador com movimentos rápidos e precisos. A culatra deslizou, um tilintar metálico. Guardou a arma no coldre.
— Vamos à cabana. Se ela ainda lá estiver, vai confessar tudo.
Maria acenou. Tirou o xaile dos ombros e endireitou o vestido escuro. O medo ainda bailava nas suas pupilas, mas havia ali uma determinação férrea que a surpreendeu a si própria. Pegou numa navalha de osso que guardava atrás do balcão e enfiou-a no bolso do avental.
— Não vou deixar que ela escape.
— Nem eu. — João abriu a porta. O vento lá fora sibilou. As nuvens negras acumulavam-se no céu. A rua estava deserta, mas a tempestade iminente parecia um presságio.
Saíram juntos. A porta bateu atrás deles com um estampido.
O Confronto na Cabana
O vento fustigava as roupas enquanto João e Maria percorriam a rua principal de Alpedreza. As casas caiadas pareciam encolhidas, com as janelas fechadas como pálpebras cerradas. Nenhuma luz filtrava das frinchas. Apenas o som dos seus passos nas pedras da calçada e o uivo distante do vento nos sobreiros. O ar cheirava a pó e a trovoada iminente.
Tomaram o carreiro que saía da vila a sul. O caminho era de terra batida, ladeado por estevas e urzes que se enroscavam umas nas outras. O céu, cada vez mais escuro, transformara-se numa abóbada de chumbo. As cigarras tinham-se calado. Nenhum pássaro cantava. O silêncio era uma presença pesada, apenas quebrada pelo som abafado dos seus passos na terra solta.
João caminhava à frente, a mão direita pousada no coldre. Os olhos cinzentos percorriam as sombras que bailavam entre as árvores. Atrás, Maria segurava o xaile contra o peito, os sapatos a afundarem-se na lama que começava a formar-se. A cada passo, o coração batia-lhe mais depressa. O dom ainda queimava nas suas veias — o eco da visão latejava atrás das pálpebras.
— Lembra-se do caminho? — perguntou João, sem se voltar. A voz saiu tensa.
— Como se fosse ontem. — A resposta de Maria veio abafada. — A minha avó trouxe-me cá uma vez. Tinha eu doze anos. Ela disse-me: "Foge desta mulher, rapariga. Ela fala com as sombras." — Engoliu em seco. — Devia ter-lhe dado ouvidos.
João não respondeu. O trilho serpenteava agora entre azinheiras centenárias, os ramos retorcidos a rangerem como ossos velhos. O cheiro a terra molhada subia do chão, embora não chovesse há semanas. Um odor a podre, subtil, misturava-se no ar. João sentiu um aperto no peito. A imagem do pai, o diário, as palavras de Adriano — tudo lhe pesava como chumbo.
— Se ela confessar, o Adriano cai — murmurou, mais para si mesmo do que para Maria.
— Se ela confessar. — Maria emparelhou com ele. O seu rosto redondo estava tenso, as rugas profundas como sulcos na terra seca. — Aquela mulher é mais fiel ao ourives do que um cão ao dono. E o medo... o medo que ela tem dele é mais forte do que qualquer ameaça nossa. Vai ser difícil.
— Então arrancamos a verdade à força. — João rangeu os dentes. A mão apertou o cabo da pistola, os nós dos dedos brancos. A cicatriz no lábio ardia.
O carreiro alargou-se. À esquerda, uma figueira seca erguia os braços descarnados. Mais adiante, a cabana de Zulmira surgiu como uma mancha escura contra o céu plúmbeo. Era uma construção baixa, de pedra xistosa, com o telhado de colmo remendado aqui e ali. Das frestas da porta, escapava-se um fio de fumo azulado, e o cheiro a ládano e a incenso invadia o ar, denso e nauseabundo.
João fez sinal para Maria parar. O suor colava-lhe a camisa às costas, apesar do frio. O coração martelava-lhe o peito. Olhou para a companheira. Ela tinha a navalha aberta na mão, a lâmina a tremer ligeiramente.
— Fique atrás de mim. Quando eu entrar, não hesite. Se ela tentar alguma coisa...
— Já sei. — A voz de Maria era um fio, mas os olhos castanhos endureceram. — Não vou deixá-la escapar.
Atravessaram os últimos metros. Os pés esmagaram ervas secas. João estendeu a mão e bateu à porta com os nós dos dedos. Três pancadas secas. O som ecoou, engolido pelo silêncio. Nada. Bateu outra vez, com mais força.
— Zulmira! Abra a porta. Somos o inspector Martins e a Maria do Carmo.
Um momento depois, a porta rangeu, entreabrindo-se uma fresta. O rosto macilento de Zulmira apareceu, os olhos de ônix a faiscarem na penumbra. O sorriso torpe alargou-se-lhe nos lábios, mostrando as gengivas escuras.
— Ora, ora... inspector. Maria. A que devo a honra?
— Queremos falar consigo. — João empurrou a porta com o ombro. A madeira cedeu com um gemido, e Zulmira recuou, surpresa. Entraram.
O interior da cabana estava envolto numa penumbra densa, cortada apenas pela luz bruxuleante de uma vela a derreter-se sobre uma mesa de madeira carcomida. O cheiro a incenso, a ervas queimadas e a terra húmida misturava-se num odor acre que apertava a garganta. Ervas secas pendiam do teto, balançando ligeiramente com a corrente de ar que entrou. Num canto, um monte de trapos servia de cama. Noutro, frascos de barro alinhavam-se numa prateleira tosca.
Zulmira recuou até ao centro da divisão, o cajado retorcido na mão direita. Os farrapos negros esvoaçaram. Os olhos de ônix saltitaram de João para Maria.
— Que é que querem? — A voz rouca saiu como um sibilo.
— Sabemos o que fez. — João avançou um passo. A mão pousou no coldre. — A Maria teve uma visão. Viu-a entregar a Catarina ao Adriano.
Zulmira encolheu os ombros. O sorriso torpe não se apagou.
— Visões... a taberneira vê coisas. As visões enganam.
— Não esta. — Maria ergueu a navalha. A lâmina brilhou. — Eu vi a Catarina a ser arrastada. Vi o Adriano. E vi a sua cara, Zulmira. A sua boca a falar com ele. A sua mão a entregar a miúda.
A curandeira rangeu os dentes. O cajado bateu no chão com força, fazendo estremecer o soalho de terra.
— Vocês não sabem com quem estão a mexer. O meu mestre não vai gostar.
— O seu mestre é o Adriano. — João deu outro passo. — Onde está ele? O que planeia?
Zulmira riu. Um som seco, desprovido de alegria, que ecoou nas paredes de pedra.
— Está em toda a parte. Dentro de vocês. O eco não se cala. E nunca se calará.
— Chega de enigmas. — João apontou para os frascos na prateleira. — O que guarda aí? Os seus segredos?
Zulmira virou a cabeça. Por um instante, o sorriso vacilou. João aproveitou a distração e avançou para a prateleira. Zulmira tentou interceptá-lo, mas Maria colocou-se no seu caminho, a navalha erguida ao nível do peito.
— Não toque nisso! — guinchou Zulmira, a voz esganiçada.
João já tinha um frasco na mão. Abriu a tampa. Lá dentro, um pó escuro, de cheiro adocicado e nauseabundo. Havia também um pedaço de tecido, manchado de sangue seco, e... uma pedra negra. Uma pedra idêntica à que Adriano polia na ourivesaria, lisa de um lado, rugosa do outro.
— O que é isto? — João ergueu a pedra. A luz da vela refletiu-se momentaneamente na superfície polida.
Zulmira soltou um grito rouco e atirou-se a ele. O cajado ergueu-se no ar, descrevendo um arco em direção à cabeça de João. Ele esquivou-se, mas a pedra escorregou-lhe da mão e rolou no chão. Maria, rápida, agarrou-a. No instante em que os seus dedos tocaram na superfície fria, uma onda de imagens violentas invadiu-lhe a mente: vultos ajoelhados, sombras a dançar, uma mulher a ser empurrada para um poço sem fundo. E sempre, sempre, o rosto de Adriano e o sorriso de Zulmira.
— Ela tem mais! — gritou Maria, arfando. Apontou para um baú de madeira escura, meio escondido debaixo da cama de trapos. — Ali! Há um baú!
João, num movimento rápido, pontapeou Zulmira, afastando-a. A curandeira tombou no chão, o cajado a voar-lhe da mão. Ele correu para o baú e abriu a tampa. Um cheiro a mofo e a desgraça emanou de dentro. E lá estavam, como um altar macabro, os pertences das desaparecidas: um lenço bordado com as iniciais M.M., um brinco de prata que reconheceu da fotografia de Mariana, um pedaço de vestido de algodão, um botão de osso. Provas irrefutáveis.
— Sua assassina. — A voz de João tremeu de raiva contida. Os olhos cinzentos faiscaram. — Vai pagar por cada uma delas.
Zulmira, no chão, tentou erguer-se. Os olhos de ônix lançavam chispas de ódio. A mão tateou o chão e encontrou o cajado. Com um urro, investiu contra Maria, que ainda segurava a pedra negra.
— Morre, taberneira!
O cajado abateu-se sobre o ombro de Maria com um baque surdo. Ela soltou um grito e cambaleou para o lado. A navalha caiu-lhe da mão. A dor explodiu-lhe no braço.
— Maria! — João atirou-se a Zulmira. Agarrou-lhe o braço e torceu-o com toda a força. A curandeira debateu-se, os farrapos a estalarem, as unhas sujas a procurarem o rosto dele. Mas João era mais forte. Empurrou-a contra a parede de pedra, fazendo-a bater com as costas.
— Quieta! — rugiu, prendendo-lhe os pulsos atrás das costas.
Maria, recuperando-se da dor, pegou na navalha do chão e aproximou-se. A lâmina brilhou junto à garganta de Zulmira.
— Está quieta, bruxa. — A voz de Maria saiu trémula, mas firme. — Acabou.
Zulmira cuspiu, mas não se debateu mais. A cabeça caiu-lhe sobre o peito. Os farrapos negros colavam-se-lhe ao corpo suado.
— O mestre há de vingar-me — murmurou.
— Cala-te. — João puxou uma corda que encontrara no baú e amarrou-lhe os pulsos atrás das costas. Puxou-a com força, os nós a apertarem-se na pele enrugada.
Então, João foi ao baú e recolheu as provas: o lenço, o brinco, o botão, a pedra negra. Meteu tudo num saco de pano que encontrou. Depois, agarrou Zulmira pelo braço.
— Vamos levá-la à esquadra. A vila vai saber a verdade.
Maria acenou, esfregando o ombro dorido. A chuva, lá fora, começava a cair, grossa e fria.
A Confissão e o Eco
João arrastou Zulmira para fora da cabana. A chuva miudinha que caía tornara-se numa cortina de água fria, batendo-lhes no rosto e colando-lhes a roupa ao corpo. O caminho de volta para Alpedreza era lamacento, e os pés afundavam-se na terra encharcada. Maria caminhava ao lado, o braço dorido junto ao peito, os lábios apertados contra a dor.
Quando entraram na rua principal, algumas janelas entreabriram-se. Rostos curiosos espreitaram por detrás das cortinas. A chuva grossa não deteve os aldeões. Um a um, saíram das casas, envoltos em mantos e chapéus, formando uma procissão silenciosa atrás do inspector e da taberneira. As botas de João chapinhavam na lama, e os pés descalços de Zulmira arrastavam-se no chão molhado. Os farrapos negros pesavam, encharcados.
— O que aconteceu? — perguntou uma mulher de xaile preto, a voz ansiosa, tentando ver o rosto da curandeira.
— A Zulmira é cúmplice do Adriano — respondeu João, sem parar. A chuva escorria-lhe pelo cabelo desgrenhado, pingando-lhe nos olhos cinzentos. — Ela ajudou a raptar a Catarina. E as outras.
Murmúrios de choque e indignação percorreram a pequena multidão. Alguém benzeu-se. Outro cuspiu no chão. Uma velha, encostada a uma bengala, gritou: "Bruxa! Sempre soube!" Zulmira, com os pulsos amarrados e a cabeça baixa, não reagiu. Apenas os seus lábios se moviam, murmurando uma prece silenciosa.
Chegaram à esquadra. A porta estava entreaberta, e a luz amarelada do interior derramava-se na rua escura. João empurrou a porta com o ombro e entrou, puxando Zulmira. A sala estava deserta — o agente de serviço devia ter saido com a chuva. Maria fechou a porta, deixando a multidão do lado de fora, mas as janelas sem vidros permitiam que todos ouvissem.
João obrigou Zulmira a sentar-se numa cadeira de madeira, no centro da sala. A água escorria dela, formando uma poça no chão de cimento. Ele ficou de pé à sua frente, a respiração ainda acelerada.
— Agora — disse, a voz rouca —, vai confessar. Tudo. Quem te mandou? Porque levaste aquelas raparigas?
Zulmira ergueu lentamente a cabeça. Os olhos de ônix percorreram a sala, os rostos ávidos que espreitavam pela janela. O sorriso torpe regressou, mas havia algo de diferente — um brilho de derrota, talvez. Ou de libertação.
— Mandou? Ninguém me mandou. Eu servi. Sirvo o eco. O eco do mal.
— Fala claro. — João bateu com o punho na mesinha ao lado. O som ecoou. — O Adriano. Foi ele quem te ordenou?
Ela hesitou. A chuva tamborilava no telhado. Um trovão ribombou ao longe, fazendo tremer as vidraças. Depois, lentamente, assentiu.
— Sim. O ourives. Ele é o guardião do mal ancestral. Eu... eu apenas lhe entregava as oferendas.
Maria avançou um passo. O rosto pálido de dor, mas os olhos castanhos ardiam. Segurava o braço ferido contra o peito.
— Oferendas? Eram pessoas, Zulmira! Mulheres inocentes! Jovens com sonhos!
— Eram necessárias. — A voz de Zulmira tornou-se um sussurro, mas cada palavra era audível no silêncio tenso. — O eco precisa de sangue para adormecer. Se não saciado, ele devora a vila toda. Eu só queria proteger Alpedreza.
— Mentira! — gritou um homem da janela. — Tu sempre quiseste poder!
Outros gritaram insultos. João ergueu a mão, pedindo silêncio. O seu olhar não se desviou de Zulmira.
— Continua. O que fazia com os corpos depois de os entregar?
Zulmira fechou os olhos. As pálpebras enrugadas tremeram. Respirou fundo, como se reunisse forças.
— Adriano levava-os para a mina. Lá, no subsolo, numa câmara secreta, realizava os rituais. O sangue das vítimas alimentava o eco. E o eco... o eco concedia-lhe poder. Poder sobre a terra, sobre as mentes. Ele ouvia os segredos de todos.
— Quem mais está envolvido? — João inclinou-se, os punhos apoiados na mesinha, os nós dos dedos brancos.
— Só nós dois. E o filho do lenhador, o Manuel, mas ele não sabia o que fazia. Adriano pagava-lhe para cavar os túneis.
Houve um pesado silêncio. A chuva amainou ligeiramente, transformando-se numa garoa fina. Maria olhou para os aldeões na janela. Alguns choravam. Outros cerravam os punhos. A raiva e a dor estampavam-se nos rostos molhados.
João endireitou-se. Tirou as algemas do cinto e prendeu-as nos pulsos de Zulmira, por cima da corda. O metal estalou ao fechar.
— Zulmira Valentim, está presa por assassinato, sequestro e cumplicidade em ocultação de cadáver. O que disse será usado contra si no tribunal.
Ela não respondeu. A cabeça tombou sobre o peito. Um fio de saliva escorreu-lhe do canto da boca. Parecia derrotada, mas havia uma quietude estranha, como se um peso lhe tivesse sido retirado.
João puxou-a pela algema e conduziu-a à cela nos fundos da esquadra. A porta de ferro rangeu ao abrir-se. Lá dentro, um catre de lona e uma bacia de esmalte. Empurrou-a para dentro e fechou a grade com um estrondo metálico. Zulmira caiu sentada no catre, imóvel.
Maria, encostada à parede, deixou escapar um suspiro trémulo. As lágrimas misturavam-se com a chuva no seu rosto.
— Conseguimos. — A voz saiu-lhe embargada. — Ela vai pagar. As famílias vão ter justiça.
— Ainda falta o Adriano. — João limpou a água do rosto com as costas da mão. A cicatriz no lábio latejava. — Mas esta foi uma vitória.
Olhou pela janela. A multidão começava a dispersar, levando a notícia para toda a vila. A chuva parara por completo. O céu abria-se lentamente, deixando entrar uma réstia de sol pálido.
Foi então que João o viu.
À distância, no limite da vila, onde as casas davam lugar ao descampado, um vulto escuro observava. Adriano Saragoça. Estava de pé, imóvel, o colete escuro a brilhar com a humidade. As mãos nos bolsos. Os olhos cinzentos fixos na esquadra.
João sentiu um arrepio. A mão pousou na pistola. Mas Adriano não se moveu. Apenas sorriu — um sorriso frio, que não chegou aos olhos. Depois, lentamente, deu meia-volta. Os seus passos ecoaram na terra molhada enquanto se dirigia para a mina, a entrada escura que se abria no sopé da colina.
Antes de desaparecer na escuridão, Adriano virou a cabeça e murmurou, num sussurro que o vento trouxe até João:
— Ainda não acabou.
E a mina engoliu-o.
João Martins entrou na taberna com o xaile amarrotado na mão. A porta rangeu, e o cheiro a vinho entornado e a tabaco velho envolveu-o. O soalho de madeira gemeu sob os seus passos. Maria do Carmo estava atrás do balcão, o pano de prato a correr pelo vidro de um copo em círculos lentos. Os ombros largos encurvavam-se sob o xaile de lã que lhe cobria os ombros. Ergueu os olhos castanhos mal a porta se fechou.
— Esse xaile... — A voz saiu arrastada, o sotaque alentejano carregado. — Pensei que já não lhe servia para nada.
João atirou a peça para o balcão. A lã, outrora de um vermelho vivo, agora suja de terra e manchada de um castanho escuro — sangue velho, talvez —, espalhou-se sobre a madeira gasta. As mãos dele passaram pelo cabelo desgrenhado, o gesto repetitivo que traía a ansiedade.
— Preciso de respostas. A Zulmira deu-nos isto naquela cabana falsa. Disse que era de uma desaparecida, mas mentiu. — Rangeu os dentes, um ruído seco. — Agora penso: e se o xaile tiver algo de verdadeiro? Algo que ela não controlou?
Maria pousou o copo. As mãos calejadas descansaram no tampo. Os polegares esfregaram-se nos dedos indicador e médio, num movimento inconsciente — o rosário invisível que herdara da avó. As veias grossas saltaram-lhe nas costas das mãos. Um calor subiu-lhe do peito à garganta. O dom despertava.
— Tem a certeza? — A pergunta saiu num sussurro. Os olhos procuraram os dele. — Da última vez que toquei numa coisa assim, quase enlouqueci. Vi a Helena no poço... e o Tomás no celeiro. Não sei se aguento outra.
João fitou-a. As olheiras cavavam-lhe o rosto, mas os olhos cinzentos brilhavam com uma determinação desesperada. A cicatriz no lábio parecia uma fenda na penumbra.
— Preciso de si, Maria. Sem as suas visões, não consigo ver o que este trapo esconde. Mas consigo e... — Fez uma pausa. Passou a mão esquerda pelos cabelos, num gesto brusco. — Já não confio nos meus olhos. Preciso dos seus.
Ela hesitou. O medo era uma brasa a queimar-lhe o estômago. Mas a coragem de João, aquela teimosia ferida, incendiou-lhe o ânimo. Estendeu a mão trémula. Os dedos calejados roçaram na lã áspera.
O mundo dissolveu-se.
Um zumbido agudo estilhaçou o silêncio. A taberna desvaneceu-se como fumo. Maria viu-se num descampado árido, os sobreiros retorcidos a erguerem os braços como esqueletos contra um céu de chumbo. O cheiro a esteva e a pó entupia-lhe as narinas. O ar cheirava a morte.
À sua frente, uma cena de pesadelo. Catarina, a terceira desaparecida, estava ajoelhada na terra. Os pulsos amarrados com arame, o metal a cravar-se na pele. O vestido de algodão, manchado de lama e de sangue seco, colava-se-lhe ao corpo magro. O cabelo escuro caía-lhe sobre o rosto, mas Maria viu-lhe os olhos — arregalados, vidrados, e a boca aberta num grito mudo.
Ao lado de Catarina, Zulmira Valentim. Os farrapos negros aderiam-lhe ao corpo como uma segunda pele. O cajado retorcido, na mão direita, apontava para a rapariga. A boca desdentada movia-se, murmurando uma prece obscena. As palavras eram incompreensíveis, mas o som gelava a medula. Os olhos de ônix faiscavam com um brilho fanático.
De entre as sombras dos arbustos, uma terceira figura surgiu. Adriano Saragoça. O colete escuro impecável, a camisa branca sem uma ruga. Os olhos cinzentos e frios fixaram a rapariga. Um sorriso fino, desprovido de alegria, desenhou-se-lhe nos lábios. Avançou com passos lentos, as mãos nos bolsos. Pegou em Catarina pelo braço, os dedos longos a cravar-se na carne. Ela tentou debater-se, mas as pernas não lhe obedeciam. Um som rouco, abafado, escapou-se-lhe da garganta. Adriano arrastou-a para a escuridão, sem esforço aparente.
Antes de desaparecer, Zulmira virou-se. Os olhos de ônix cravaram-se nos de Maria — um olhar que trespassava o véu da visão. Um sorriso torpe, quase triunfante, abriu-se-lhe na face. Murmurou uma única palavra, que ecoou como um trovão: "Tarde."
A visão desvaneceu-se.
Maria cambaleou. Os joelhos bateram no balcão com um baque surdo. O copo que João largara escorregou e estilhaçou-se no chão, os cacos a saltitar pelos tacos de madeira. O ar regressou-lhe aos pulmões num arquejo. O suor escorria-lhe pela testa, pelas costas, encharcando o avental. As mãos agarraram-se à borda do balcão, os nós dos dedos brancos como cal.
João correu para ela. Segurou-a pelos ombros, a pressão dos dedos uma âncora.
— Maria! O que viu? — A voz saiu rouca, carregada de urgência.
Ela respirou fundo, o peito a arfar. As palavras saíram a custo, engasgadas:
— A Zulmira... foi ela. Ela entregou a Catarina ao Adriano. Vi-a, João. Vi o Adriano a arrastar a miúda para os arbustos. A Zulmira sabia. Ela servia-o.
João rangeu os dentes com força. Os maxilares estalaram. A cicatriz no lábio latejava.
— Eu sabia. Aquela velha desgraçada. — A mão fechou-se num punho sobre o balcão.
— Temos de a parar. — Maria limpou o suor da testa com as costas da mão. O seu olhar endureceu. — Agora. Antes que leve outra inocente.
João largou-a e pegou na pistola. Verificou o carregador com movimentos rápidos e precisos. A culatra deslizou, um tilintar metálico. Guardou a arma no coldre.
— Vamos à cabana. Se ela ainda lá estiver, vai confessar tudo.
Maria acenou. Tirou o xaile dos ombros e endireitou o vestido escuro. O medo ainda bailava nas suas pupilas, mas havia ali uma determinação férrea que a surpreendeu a si própria. Pegou numa navalha de osso que guardava atrás do balcão e enfiou-a no bolso do avental.
— Não vou deixar que ela escape.
— Nem eu. — João abriu a porta. O vento lá fora sibilou. As nuvens negras acumulavam-se no céu. A rua estava deserta, mas a tempestade iminente parecia um presságio.
Saíram juntos. A porta bateu atrás deles com um estampido.
O Confronto na Cabana
O vento fustigava as roupas enquanto João e Maria percorriam a rua principal de Alpedreza. As casas caiadas pareciam encolhidas, com as janelas fechadas como pálpebras cerradas. Nenhuma luz filtrava das frinchas. Apenas o som dos seus passos nas pedras da calçada e o uivo distante do vento nos sobreiros. O ar cheirava a pó e a trovoada iminente.
Tomaram o carreiro que saía da vila a sul. O caminho era de terra batida, ladeado por estevas e urzes que se enroscavam umas nas outras. O céu, cada vez mais escuro, transformara-se numa abóbada de chumbo. As cigarras tinham-se calado. Nenhum pássaro cantava. O silêncio era uma presença pesada, apenas quebrada pelo som abafado dos seus passos na terra solta.
João caminhava à frente, a mão direita pousada no coldre. Os olhos cinzentos percorriam as sombras que bailavam entre as árvores. Atrás, Maria segurava o xaile contra o peito, os sapatos a afundarem-se na lama que começava a formar-se. A cada passo, o coração batia-lhe mais depressa. O dom ainda queimava nas suas veias — o eco da visão latejava atrás das pálpebras.
— Lembra-se do caminho? — perguntou João, sem se voltar. A voz saiu tensa.
— Como se fosse ontem. — A resposta de Maria veio abafada. — A minha avó trouxe-me cá uma vez. Tinha eu doze anos. Ela disse-me: "Foge desta mulher, rapariga. Ela fala com as sombras." — Engoliu em seco. — Devia ter-lhe dado ouvidos.
João não respondeu. O trilho serpenteava agora entre azinheiras centenárias, os ramos retorcidos a rangerem como ossos velhos. O cheiro a terra molhada subia do chão, embora não chovesse há semanas. Um odor a podre, subtil, misturava-se no ar. João sentiu um aperto no peito. A imagem do pai, o diário, as palavras de Adriano — tudo lhe pesava como chumbo.
— Se ela confessar, o Adriano cai — murmurou, mais para si mesmo do que para Maria.
— Se ela confessar. — Maria emparelhou com ele. O seu rosto redondo estava tenso, as rugas profundas como sulcos na terra seca. — Aquela mulher é mais fiel ao ourives do que um cão ao dono. E o medo... o medo que ela tem dele é mais forte do que qualquer ameaça nossa. Vai ser difícil.
— Então arrancamos a verdade à força. — João rangeu os dentes. A mão apertou o cabo da pistola, os nós dos dedos brancos. A cicatriz no lábio ardia.
O carreiro alargou-se. À esquerda, uma figueira seca erguia os braços descarnados. Mais adiante, a cabana de Zulmira surgiu como uma mancha escura contra o céu plúmbeo. Era uma construção baixa, de pedra xistosa, com o telhado de colmo remendado aqui e ali. Das frestas da porta, escapava-se um fio de fumo azulado, e o cheiro a ládano e a incenso invadia o ar, denso e nauseabundo.
João fez sinal para Maria parar. O suor colava-lhe a camisa às costas, apesar do frio. O coração martelava-lhe o peito. Olhou para a companheira. Ela tinha a navalha aberta na mão, a lâmina a tremer ligeiramente.
— Fique atrás de mim. Quando eu entrar, não hesite. Se ela tentar alguma coisa...
— Já sei. — A voz de Maria era um fio, mas os olhos castanhos endureceram. — Não vou deixá-la escapar.
Atravessaram os últimos metros. Os pés esmagaram ervas secas. João estendeu a mão e bateu à porta com os nós dos dedos. Três pancadas secas. O som ecoou, engolido pelo silêncio. Nada. Bateu outra vez, com mais força.
— Zulmira! Abra a porta. Somos o inspector Martins e a Maria do Carmo.
Um momento depois, a porta rangeu, entreabrindo-se uma fresta. O rosto macilento de Zulmira apareceu, os olhos de ônix a faiscarem na penumbra. O sorriso torpe alargou-se-lhe nos lábios, mostrando as gengivas escuras.
— Ora, ora... inspector. Maria. A que devo a honra?
— Queremos falar consigo. — João empurrou a porta com o ombro. A madeira cedeu com um gemido, e Zulmira recuou, surpresa. Entraram.
O interior da cabana estava envolto numa penumbra densa, cortada apenas pela luz bruxuleante de uma vela a derreter-se sobre uma mesa de madeira carcomida. O cheiro a incenso, a ervas queimadas e a terra húmida misturava-se num odor acre que apertava a garganta. Ervas secas pendiam do teto, balançando ligeiramente com a corrente de ar que entrou. Num canto, um monte de trapos servia de cama. Noutro, frascos de barro alinhavam-se numa prateleira tosca.
Zulmira recuou até ao centro da divisão, o cajado retorcido na mão direita. Os farrapos negros esvoaçaram. Os olhos de ônix saltitaram de João para Maria.
— Que é que querem? — A voz rouca saiu como um sibilo.
— Sabemos o que fez. — João avançou um passo. A mão pousou no coldre. — A Maria teve uma visão. Viu-a entregar a Catarina ao Adriano.
Zulmira encolheu os ombros. O sorriso torpe não se apagou.
— Visões... a taberneira vê coisas. As visões enganam.
— Não esta. — Maria ergueu a navalha. A lâmina brilhou. — Eu vi a Catarina a ser arrastada. Vi o Adriano. E vi a sua cara, Zulmira. A sua boca a falar com ele. A sua mão a entregar a miúda.
A curandeira rangeu os dentes. O cajado bateu no chão com força, fazendo estremecer o soalho de terra.
— Vocês não sabem com quem estão a mexer. O meu mestre não vai gostar.
— O seu mestre é o Adriano. — João deu outro passo. — Onde está ele? O que planeia?
Zulmira riu. Um som seco, desprovido de alegria, que ecoou nas paredes de pedra.
— Está em toda a parte. Dentro de vocês. O eco não se cala. E nunca se calará.
— Chega de enigmas. — João apontou para os frascos na prateleira. — O que guarda aí? Os seus segredos?
Zulmira virou a cabeça. Por um instante, o sorriso vacilou. João aproveitou a distração e avançou para a prateleira. Zulmira tentou interceptá-lo, mas Maria colocou-se no seu caminho, a navalha erguida ao nível do peito.
— Não toque nisso! — guinchou Zulmira, a voz esganiçada.
João já tinha um frasco na mão. Abriu a tampa. Lá dentro, um pó escuro, de cheiro adocicado e nauseabundo. Havia também um pedaço de tecido, manchado de sangue seco, e... uma pedra negra. Uma pedra idêntica à que Adriano polia na ourivesaria, lisa de um lado, rugosa do outro.
— O que é isto? — João ergueu a pedra. A luz da vela refletiu-se momentaneamente na superfície polida.
Zulmira soltou um grito rouco e atirou-se a ele. O cajado ergueu-se no ar, descrevendo um arco em direção à cabeça de João. Ele esquivou-se, mas a pedra escorregou-lhe da mão e rolou no chão. Maria, rápida, agarrou-a. No instante em que os seus dedos tocaram na superfície fria, uma onda de imagens violentas invadiu-lhe a mente: vultos ajoelhados, sombras a dançar, uma mulher a ser empurrada para um poço sem fundo. E sempre, sempre, o rosto de Adriano e o sorriso de Zulmira.
— Ela tem mais! — gritou Maria, arfando. Apontou para um baú de madeira escura, meio escondido debaixo da cama de trapos. — Ali! Há um baú!
João, num movimento rápido, pontapeou Zulmira, afastando-a. A curandeira tombou no chão, o cajado a voar-lhe da mão. Ele correu para o baú e abriu a tampa. Um cheiro a mofo e a desgraça emanou de dentro. E lá estavam, como um altar macabro, os pertences das desaparecidas: um lenço bordado com as iniciais M.M., um brinco de prata que reconheceu da fotografia de Mariana, um pedaço de vestido de algodão, um botão de osso. Provas irrefutáveis.
— Sua assassina. — A voz de João tremeu de raiva contida. Os olhos cinzentos faiscaram. — Vai pagar por cada uma delas.
Zulmira, no chão, tentou erguer-se. Os olhos de ônix lançavam chispas de ódio. A mão tateou o chão e encontrou o cajado. Com um urro, investiu contra Maria, que ainda segurava a pedra negra.
— Morre, taberneira!
O cajado abateu-se sobre o ombro de Maria com um baque surdo. Ela soltou um grito e cambaleou para o lado. A navalha caiu-lhe da mão. A dor explodiu-lhe no braço.
— Maria! — João atirou-se a Zulmira. Agarrou-lhe o braço e torceu-o com toda a força. A curandeira debateu-se, os farrapos a estalarem, as unhas sujas a procurarem o rosto dele. Mas João era mais forte. Empurrou-a contra a parede de pedra, fazendo-a bater com as costas.
— Quieta! — rugiu, prendendo-lhe os pulsos atrás das costas.
Maria, recuperando-se da dor, pegou na navalha do chão e aproximou-se. A lâmina brilhou junto à garganta de Zulmira.
— Está quieta, bruxa. — A voz de Maria saiu trémula, mas firme. — Acabou.
Zulmira cuspiu, mas não se debateu mais. A cabeça caiu-lhe sobre o peito. Os farrapos negros colavam-se-lhe ao corpo suado.
— O mestre há de vingar-me — murmurou.
— Cala-te. — João puxou uma corda que encontrara no baú e amarrou-lhe os pulsos atrás das costas. Puxou-a com força, os nós a apertarem-se na pele enrugada.
Então, João foi ao baú e recolheu as provas: o lenço, o brinco, o botão, a pedra negra. Meteu tudo num saco de pano que encontrou. Depois, agarrou Zulmira pelo braço.
— Vamos levá-la à esquadra. A vila vai saber a verdade.
Maria acenou, esfregando o ombro dorido. A chuva, lá fora, começava a cair, grossa e fria.
A Confissão e o Eco
João arrastou Zulmira para fora da cabana. A chuva miudinha que caía tornara-se numa cortina de água fria, batendo-lhes no rosto e colando-lhes a roupa ao corpo. O caminho de volta para Alpedreza era lamacento, e os pés afundavam-se na terra encharcada. Maria caminhava ao lado, o braço dorido junto ao peito, os lábios apertados contra a dor.
Quando entraram na rua principal, algumas janelas entreabriram-se. Rostos curiosos espreitaram por detrás das cortinas. A chuva grossa não deteve os aldeões. Um a um, saíram das casas, envoltos em mantos e chapéus, formando uma procissão silenciosa atrás do inspector e da taberneira. As botas de João chapinhavam na lama, e os pés descalços de Zulmira arrastavam-se no chão molhado. Os farrapos negros pesavam, encharcados.
— O que aconteceu? — perguntou uma mulher de xaile preto, a voz ansiosa, tentando ver o rosto da curandeira.
— A Zulmira é cúmplice do Adriano — respondeu João, sem parar. A chuva escorria-lhe pelo cabelo desgrenhado, pingando-lhe nos olhos cinzentos. — Ela ajudou a raptar a Catarina. E as outras.
Murmúrios de choque e indignação percorreram a pequena multidão. Alguém benzeu-se. Outro cuspiu no chão. Uma velha, encostada a uma bengala, gritou: "Bruxa! Sempre soube!" Zulmira, com os pulsos amarrados e a cabeça baixa, não reagiu. Apenas os seus lábios se moviam, murmurando uma prece silenciosa.
Chegaram à esquadra. A porta estava entreaberta, e a luz amarelada do interior derramava-se na rua escura. João empurrou a porta com o ombro e entrou, puxando Zulmira. A sala estava deserta — o agente de serviço devia ter saido com a chuva. Maria fechou a porta, deixando a multidão do lado de fora, mas as janelas sem vidros permitiam que todos ouvissem.
João obrigou Zulmira a sentar-se numa cadeira de madeira, no centro da sala. A água escorria dela, formando uma poça no chão de cimento. Ele ficou de pé à sua frente, a respiração ainda acelerada.
— Agora — disse, a voz rouca —, vai confessar. Tudo. Quem te mandou? Porque levaste aquelas raparigas?
Zulmira ergueu lentamente a cabeça. Os olhos de ônix percorreram a sala, os rostos ávidos que espreitavam pela janela. O sorriso torpe regressou, mas havia algo de diferente — um brilho de derrota, talvez. Ou de libertação.
— Mandou? Ninguém me mandou. Eu servi. Sirvo o eco. O eco do mal.
— Fala claro. — João bateu com o punho na mesinha ao lado. O som ecoou. — O Adriano. Foi ele quem te ordenou?
Ela hesitou. A chuva tamborilava no telhado. Um trovão ribombou ao longe, fazendo tremer as vidraças. Depois, lentamente, assentiu.
— Sim. O ourives. Ele é o guardião do mal ancestral. Eu... eu apenas lhe entregava as oferendas.
Maria avançou um passo. O rosto pálido de dor, mas os olhos castanhos ardiam. Segurava o braço ferido contra o peito.
— Oferendas? Eram pessoas, Zulmira! Mulheres inocentes! Jovens com sonhos!
— Eram necessárias. — A voz de Zulmira tornou-se um sussurro, mas cada palavra era audível no silêncio tenso. — O eco precisa de sangue para adormecer. Se não saciado, ele devora a vila toda. Eu só queria proteger Alpedreza.
— Mentira! — gritou um homem da janela. — Tu sempre quiseste poder!
Outros gritaram insultos. João ergueu a mão, pedindo silêncio. O seu olhar não se desviou de Zulmira.
— Continua. O que fazia com os corpos depois de os entregar?
Zulmira fechou os olhos. As pálpebras enrugadas tremeram. Respirou fundo, como se reunisse forças.
— Adriano levava-os para a mina. Lá, no subsolo, numa câmara secreta, realizava os rituais. O sangue das vítimas alimentava o eco. E o eco... o eco concedia-lhe poder. Poder sobre a terra, sobre as mentes. Ele ouvia os segredos de todos.
— Quem mais está envolvido? — João inclinou-se, os punhos apoiados na mesinha, os nós dos dedos brancos.
— Só nós dois. E o filho do lenhador, o Manuel, mas ele não sabia o que fazia. Adriano pagava-lhe para cavar os túneis.
Houve um pesado silêncio. A chuva amainou ligeiramente, transformando-se numa garoa fina. Maria olhou para os aldeões na janela. Alguns choravam. Outros cerravam os punhos. A raiva e a dor estampavam-se nos rostos molhados.
João endireitou-se. Tirou as algemas do cinto e prendeu-as nos pulsos de Zulmira, por cima da corda. O metal estalou ao fechar.
— Zulmira Valentim, está presa por assassinato, sequestro e cumplicidade em ocultação de cadáver. O que disse será usado contra si no tribunal.
Ela não respondeu. A cabeça tombou sobre o peito. Um fio de saliva escorreu-lhe do canto da boca. Parecia derrotada, mas havia uma quietude estranha, como se um peso lhe tivesse sido retirado.
João puxou-a pela algema e conduziu-a à cela nos fundos da esquadra. A porta de ferro rangeu ao abrir-se. Lá dentro, um catre de lona e uma bacia de esmalte. Empurrou-a para dentro e fechou a grade com um estrondo metálico. Zulmira caiu sentada no catre, imóvel.
Maria, encostada à parede, deixou escapar um suspiro trémulo. As lágrimas misturavam-se com a chuva no seu rosto.
— Conseguimos. — A voz saiu-lhe embargada. — Ela vai pagar. As famílias vão ter justiça.
— Ainda falta o Adriano. — João limpou a água do rosto com as costas da mão. A cicatriz no lábio latejava. — Mas esta foi uma vitória.
Olhou pela janela. A multidão começava a dispersar, levando a notícia para toda a vila. A chuva parara por completo. O céu abria-se lentamente, deixando entrar uma réstia de sol pálido.
Foi então que João o viu.
À distância, no limite da vila, onde as casas davam lugar ao descampado, um vulto escuro observava. Adriano Saragoça. Estava de pé, imóvel, o colete escuro a brilhar com a humidade. As mãos nos bolsos. Os olhos cinzentos fixos na esquadra.
João sentiu um arrepio. A mão pousou na pistola. Mas Adriano não se moveu. Apenas sorriu — um sorriso frio, que não chegou aos olhos. Depois, lentamente, deu meia-volta. Os seus passos ecoaram na terra molhada enquanto se dirigia para a mina, a entrada escura que se abria no sopé da colina.
Antes de desaparecer na escuridão, Adriano virou a cabeça e murmurou, num sussurro que o vento trouxe até João:
— Ainda não acabou.
E a mina engoliu-o.