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O Ritual no Subsolo
IA
A Litania das Sombras
O túnel estreito cheirava a terra húmida e a enxofre. A luz dos archotes dançava nas paredes de xisto, lançando sombras que se contorciam como dedos. João ia à frente, os olhos fixos no escuro adiante. Maria do Carmo seguia-lhe os passos, o archote a crepitar na mão direita. Atrás deles, os passos incertos de Teresa ecoavam na galeria.
O ar tornou-se mais denso, gelado. O zumbido começou baixo, quase imperceptível, crescendo até se tornar um murmúrio arrastado, como um cântico vindo das entranhas da terra. João parou e fez sinal para que as duas mulheres fizessem silêncio.
— Amadeu. A pedra. Tu tiraste-a da igreja. Há quarenta anos.
O sineiro empalideceu. A bengala tremeu.
— Como... como sabes?
— Vejo. — João passou a mão pelos cabelos. — O selo partiu-se por tua causa. Tu abriste a porta.
Amadeu baixou a cabeça. As lágrimas correram-lhe pela barba.
— Foi sem querer. Era uma peça bonita. Não sabia o que desencadeava. — Ergueu os olhos, vidrados de culpa. — Agora vim redimir-me.
Maria tocou-lhe no ombro. O gesto era perdão.
— Então vem. — A voz de João era rouca. — Ajuda-nos a fechar a porta. Ele está a começar.
Continuaram, os corações a martelar. O túnel alargou-se de repente, dando lugar a uma caverna ampla cujo teto se perdia na escuridão. Archotes dispostos em círculo no centro iluminavam uma cena de pesadelo. Teresa fora amarrada a uma coluna de pedra com cordas de sisal, os pulsos presos acima da cabeça. O seu rosto estava pálido, os olhos arregalados de terror, mas a boca amordaçada com um pano sujo não deixava sair qualquer som.
Adriano Saragoça estava de costas para a entrada, os braços erguidos. O colete escuro impecável brilhava à luz das chamas. A voz untuosa ecoava uma litania em latim, palavras que se atropelavam e rastejavam pelas paredes. À sua frente, sobre um altar de pedra tosca, a pedra negra pulsava com uma luz interior, como se respirasse. O corpo do pai de Teresa jazia num sarcófago de madeira, os olhos fechados, a pele cinzenta.
João sentiu o ódio a crescer-lhe no peito. A cicatriz no lábio latejou.
— Acaba com isto, Adriano! — gritou, a voz rouca a ecoar pela caverna.
O ourives não se virou. Apenas baixou os braços e, com um gesto lento, apontou para o tecto. As sombras agitaram-se, formando figuras que se desprenderam das paredes e começaram a flutuar em direção a Teresa. Ela estremeceu, os olhos a revirarem-se. A mordaça foi arrancada por uma força invisível, e um grito agudo encheu a caverna.
— O vaso está pronto. — A voz de Adriano soou plana. — O eco reclama o seu sangue.
João avançou, a pistola na mão. Mas uma onda de choque invisível atirou-o contra a parede, arrancando-lhe a arma. Maria correu para ele, mas também foi empurrada para trás, caindo de joelhos. Os aldeões que tinham vindo com eles — Amadeu apoiado a uma bengala, dois primos pescadores de rostos crispados — ficaram imóveis, paralisados pelo medo.
— Não adianta, inspector. — Adriano virou-se finalmente. Os olhos cinzentos estavam vidrados, como se outra entidade espreitasse por detrás deles. — O teu pai aprendeu da pior forma. Tu também aprenderás.
João rangeu os dentes. O suor escorria-lhe pela testa. A vontade de matar aquele homem era uma labareda. Mas a mão de Maria tocou-lhe no ombro.
— Não — murmurou ela. — É isso que ele quer.
O Último Eco da Criança
João fechou os olhos. O ar vibrava com o zumbido. No meio da raiva, uma imagem surgiu-lhe: a criança de cabelo castanho, de pé à entrada da caverna, a sorrir. Não havia acusação naquele sorriso. Apenas... paz. O menino ergueu a mão e apontou para o coração de João.
— Ouve — sussurrou Maria ao seu lado, como se também tivesse visto.
João respirou fundo. A pistola estava longe. A sua única arma era a verdade.
Endireitou-se e deu um passo em frente, ignorando a resistência no ar. Adriano observava-o, a pedra negra a brilhar na sua mão.
— Tu achas que o teu poder vem do medo — disse João, a voz firme, embora o coração batesse descompassado. — Mas o mal não é força nenhuma. É uma ferida. E as feridas podem sarar.
Adriano riu, um som seco.
— Sãar? O teu pai tentou. E olha no que deu.
— O meu pai estava sozinho. Eu não estou. — João olhou para trás. Maria ergueu-se e colocou-se ao seu lado. Os pescadores, um a um, também se aproximaram, as mãos trémulas mas os rostos determinados. Amadeu benzeu-se e avançou com a sua bengala. Teresa, ainda amarrada, fitou-os com os olhos cheios de lágrimas, mas havia ali uma esperança que não se via antes.
João voltou-se para Adriano.
— Não vou alimentar a tua escuridão. Ofereço-te o que nunca te deram: perdão. Perdão pelo que fizeste ao meu pai. Perdão pelo que fizeste a estas pessoas. Liberta-te.
O rosto de Adriano contraiu-se. Por um momento, os olhos cinzentos vacilaram. A pedra negra tremeu-lhe na mão.
— Perdão? — cuspiu. — É isso que tu ofereces? Eu que podia ter esmagado a tua sanidade como esmaguei a do teu pai... tu ofereces-me perdão?
— Porque já ninguém o fez. E é isso que te prende. — João deu outro passo. A resistência no ar diminuiu. — O mal não é uma maldição. É uma escolha. E eu escolho não ser como tu.
Adriano soltou um urro. A caverna tremeu. As sombras agitaram-se, uivando. A pedra negra ergueu-se no ar, emitindo uma luz fria. Teresa gritou, o corpo a arquear-se como se uma mão invisível a apertasse.
— Então morrem todos! — rugiu Adriano, e uma onda negra brotou da pedra, avançando sobre João e os aldeões.
Mas então, Maria do Carmo ergueu a sua cruz de madeira, e os aldeões, instintivamente, deram as mãos uns aos outros, formando um círculo à volta de João. A luz dos archotes pareceu intensificar-se, e uma barreira dourada, ténue como a luz da alvorada, ergueu-se entre eles e a escuridão.
A onda chocou contra a barreira e dissipou-se num clarão. Adriano cambaleou, os olhos arregalados.
— Não pode ser! O eco nunca recuou!
— Porque nunca ninguém acreditou — disse Maria, os dedos esfregando o polegar no indicador. — Hoje acreditamos.
O Poço Vazio
A luz dourada expandiu-se, inundando a caverna. As sombras recuaram, guinchando, para os cantos mais escuros. Adriano recuou, a pedra negra a perder o brilho.
— Isto é impossível! — gritou. — Eu sou o guardião! O mal é eterno!
— O mal és tu. — João avançou, agora sem qualquer obstáculo. — Durante séculos, alimentaste-te do medo e da solidão. Mas o medo acaba quando as pessoas se unem.
Adriano olhou em volta, vendo os rostos determinados dos aldeões. Até Teresa, que se libertara das cordas com a ajuda de Maria, se juntara ao círculo, as mãos trémulas mas firmes. O ourives riu, mas o riso soou oco.
— Acham que me podem derrotar? Eu sou o eco do mal! Enquanto houver sombras, eu existirei!
Num movimento rápido, Adriano agarrou a pedra negra e ergueu-a acima da cabeça. O chão da caverna fendeu-se com um estrondo, e um poço escuro abriu-se aos seus pés. Um vento gelado saiu do abismo, trazendo consigo o cheiro a podridão e a vozes sussurrantes.
— O mal nunca morre! — gritou Adriano, e atirou-se para o poço.
João tentou agarrá-lo, mas já era tarde. O corpo de Adriano desceu, engolido pela escuridão. A pedra negra caiu a seus pés, partindo-se em três pedaços, que se desfizeram em pó. O poço fechou-se com um ruído de pedras a ranger, e o silêncio caiu sobre a caverna.
Durante um longo momento, ninguém se mexeu. Depois, o ar aqueceu. A luz dos archotes tornou-se mais amarela, mais viva. As sombras recolheram-se, estáticas, inofensivas.
Teresa caiu de joelhos, soluçando. Maria abraçou-a. Os pescadores trocaram olhares, incrédulos. Amadeu benzeu-se uma e outra vez.
João permanecia imóvel, os olhos fixos no chão onde o poço se fechara. Sentiu um vazio. A raiva desaparecera, mas também algo mais. Procurou dentro de si a presença das visões, o frio que sempre o acompanhara. O frio não estava lá. Apenas uma paz triste, como um céu depois da tempestade.
Foi então que a viu. A criança de cabelo castanho estava ao fundo da caverna, banhada por uma luz suave. Sorria, um sorriso que iluminava os olhos grandes. Levantou a mão num aceno lento e, pela primeira vez, João ouviu a sua voz, clara como água:
— Já não preciso de ti. Estou em paz.
A figura dissolveu-se, deixando um rasto de luz que se apagou lentamente.
João sentiu os olhos arderem. Uma lágrima rolou-lhe pela face. Não a limpou.
— Está feito. — Maria tocou-lhe no ombro. — Conseguiste.
Ele abanou a cabeça, sem responder. Aproximou-se do sítio onde o poço estivera. A terra estava lisa, como se nada tivesse acontecido.
— Esperem — murmurou. Baixou-se e pousou a mão no chão. A terra estava fria, morta.
Um sussurro, quase imperceptível, elevou-se do solo, como um sopro de vento:
— O mal nunca morre...
João ergueu-se. A calma nos seus olhos deu lugar a uma vigilância eterna. Olhou para os aldeões, para Maria, para Teresa.
— O poço está vazio — disse, a voz rouca. — O eco nunca se cala. Mas hoje, aprendemos a ouvi-lo sem lhe obedecer.
O silêncio regressou à caverna, mas não era opressivo. Era um silêncio de trégua.
O Sussurro na Escuridão
Saíram da mina sob a luz fria da alvorada. O ar puro soube-lhes a vitória. Os aldeões dispersaram-se, levando a notícia à vila. Amadeu abraçou João, os olhos húmidos. Os pescadores despediram-se com acenos graves. Maria e Teresa caminharam ao lado de João, em silêncio.
No largo da igreja, os primeiros raios de sol pintavam as casas caiadas de tons rosados. João parou e olhou para o horizonte. A planície alentejana, ontem tão opressiva, agora respirava.
— E agora? — perguntou Teresa, a voz ainda trémula.
— Agora recomeçamos. — João passou a mão pelos cabelos desgrenhados, o gesto familiar. — O mal perdeu o seu guardião. Mas não morreu. Ficará adormecido, até que alguém o volte a alimentar.
— E nós cá estaremos para o impedir. — Maria endireitou o xaile, os polegares esfregando os dedos. — A minha avó não conseguiu porque estava sozinha. Nós não estamos.
João olhou para as duas mulheres. Teresa, apesar das lágrimas, tinha agora um brilho de determinação no olhar. Maria, com as suas rugas e mãos calejadas, parecia mais forte do que nunca.
— Obrigado — disse João, a voz embargada. — Sem vocês, eu teria sucumbido.
— Sem ti, nós também. — Maria deu-lhe um abraço, breve mas apertado. — Agora vai descansar. A vila precisa de um guardião, mas os guardiões também dormem.
João sorriu, um esgar cansado. Virou-se para a pensão. Mas antes de entrar, deteve-se. Uma sombra furtiva, ao fundo da rua, chamou-lhe a atenção. Por um instante, pensou ver o vulto de Adriano, mas era apenas um gato a trepar um muro.
Subiu ao quarto. As paredes amarelas, o roupeiro, o jarro com água. Tudo igual, mas tudo diferente. Sentou-se na cama e fechou os olhos. A imagem da criança sorridente ainda dançava atrás das pálpebras. A paz era real, mas também o era o aviso.
Horas mais tarde, quando o sol já ia alto, João regressou à mina. Sozinho. A entrada estava tranquila, as pedras imóveis. Acendeu um archote e desceu. A caverna estava vazia, o chão liso. Nenhum vestígio do ritual, do poço, de Adriano.
Mas quando se inclinou para examinar o solo, o sussurro regressou, tão baixo que podia ser o vento:
— O mal nunca morre...
João endireitou-se. O coração apertou-se-lhe, mas não de medo. De responsabilidade.
— Eu sei — murmurou. — E eu estarei aqui.
Apagou o archote e saiu para a luz do dia. O sol queimava, mas ele não se importou. A sua sombra, no chão de terra, parecia mais escura do que devia.
Na vila, a vida recomeçava. A taberna de Maria enchia-se de vozes. Teresa, acompanhada por dois agentes, ia a caminho de Évora para o julgamento. Os aldeões, de olhos mais leves, falavam de um novo começo.
Mas no fundo da mina, onde a escuridão era eterna, o eco adormecido aguardava.
O poço onde Adriano caiu está vazio. Um sussurro ecoa: 'O mal nunca morre...'
O túnel estreito cheirava a terra húmida e a enxofre. A luz dos archotes dançava nas paredes de xisto, lançando sombras que se contorciam como dedos. João ia à frente, os olhos fixos no escuro adiante. Maria do Carmo seguia-lhe os passos, o archote a crepitar na mão direita. Atrás deles, os passos incertos de Teresa ecoavam na galeria.
O ar tornou-se mais denso, gelado. O zumbido começou baixo, quase imperceptível, crescendo até se tornar um murmúrio arrastado, como um cântico vindo das entranhas da terra. João parou e fez sinal para que as duas mulheres fizessem silêncio.
— Amadeu. A pedra. Tu tiraste-a da igreja. Há quarenta anos.
O sineiro empalideceu. A bengala tremeu.
— Como... como sabes?
— Vejo. — João passou a mão pelos cabelos. — O selo partiu-se por tua causa. Tu abriste a porta.
Amadeu baixou a cabeça. As lágrimas correram-lhe pela barba.
— Foi sem querer. Era uma peça bonita. Não sabia o que desencadeava. — Ergueu os olhos, vidrados de culpa. — Agora vim redimir-me.
Maria tocou-lhe no ombro. O gesto era perdão.
— Então vem. — A voz de João era rouca. — Ajuda-nos a fechar a porta. Ele está a começar.
Continuaram, os corações a martelar. O túnel alargou-se de repente, dando lugar a uma caverna ampla cujo teto se perdia na escuridão. Archotes dispostos em círculo no centro iluminavam uma cena de pesadelo. Teresa fora amarrada a uma coluna de pedra com cordas de sisal, os pulsos presos acima da cabeça. O seu rosto estava pálido, os olhos arregalados de terror, mas a boca amordaçada com um pano sujo não deixava sair qualquer som.
Adriano Saragoça estava de costas para a entrada, os braços erguidos. O colete escuro impecável brilhava à luz das chamas. A voz untuosa ecoava uma litania em latim, palavras que se atropelavam e rastejavam pelas paredes. À sua frente, sobre um altar de pedra tosca, a pedra negra pulsava com uma luz interior, como se respirasse. O corpo do pai de Teresa jazia num sarcófago de madeira, os olhos fechados, a pele cinzenta.
João sentiu o ódio a crescer-lhe no peito. A cicatriz no lábio latejou.
— Acaba com isto, Adriano! — gritou, a voz rouca a ecoar pela caverna.
O ourives não se virou. Apenas baixou os braços e, com um gesto lento, apontou para o tecto. As sombras agitaram-se, formando figuras que se desprenderam das paredes e começaram a flutuar em direção a Teresa. Ela estremeceu, os olhos a revirarem-se. A mordaça foi arrancada por uma força invisível, e um grito agudo encheu a caverna.
— O vaso está pronto. — A voz de Adriano soou plana. — O eco reclama o seu sangue.
João avançou, a pistola na mão. Mas uma onda de choque invisível atirou-o contra a parede, arrancando-lhe a arma. Maria correu para ele, mas também foi empurrada para trás, caindo de joelhos. Os aldeões que tinham vindo com eles — Amadeu apoiado a uma bengala, dois primos pescadores de rostos crispados — ficaram imóveis, paralisados pelo medo.
— Não adianta, inspector. — Adriano virou-se finalmente. Os olhos cinzentos estavam vidrados, como se outra entidade espreitasse por detrás deles. — O teu pai aprendeu da pior forma. Tu também aprenderás.
João rangeu os dentes. O suor escorria-lhe pela testa. A vontade de matar aquele homem era uma labareda. Mas a mão de Maria tocou-lhe no ombro.
— Não — murmurou ela. — É isso que ele quer.
O Último Eco da Criança
João fechou os olhos. O ar vibrava com o zumbido. No meio da raiva, uma imagem surgiu-lhe: a criança de cabelo castanho, de pé à entrada da caverna, a sorrir. Não havia acusação naquele sorriso. Apenas... paz. O menino ergueu a mão e apontou para o coração de João.
— Ouve — sussurrou Maria ao seu lado, como se também tivesse visto.
João respirou fundo. A pistola estava longe. A sua única arma era a verdade.
Endireitou-se e deu um passo em frente, ignorando a resistência no ar. Adriano observava-o, a pedra negra a brilhar na sua mão.
— Tu achas que o teu poder vem do medo — disse João, a voz firme, embora o coração batesse descompassado. — Mas o mal não é força nenhuma. É uma ferida. E as feridas podem sarar.
Adriano riu, um som seco.
— Sãar? O teu pai tentou. E olha no que deu.
— O meu pai estava sozinho. Eu não estou. — João olhou para trás. Maria ergueu-se e colocou-se ao seu lado. Os pescadores, um a um, também se aproximaram, as mãos trémulas mas os rostos determinados. Amadeu benzeu-se e avançou com a sua bengala. Teresa, ainda amarrada, fitou-os com os olhos cheios de lágrimas, mas havia ali uma esperança que não se via antes.
João voltou-se para Adriano.
— Não vou alimentar a tua escuridão. Ofereço-te o que nunca te deram: perdão. Perdão pelo que fizeste ao meu pai. Perdão pelo que fizeste a estas pessoas. Liberta-te.
O rosto de Adriano contraiu-se. Por um momento, os olhos cinzentos vacilaram. A pedra negra tremeu-lhe na mão.
— Perdão? — cuspiu. — É isso que tu ofereces? Eu que podia ter esmagado a tua sanidade como esmaguei a do teu pai... tu ofereces-me perdão?
— Porque já ninguém o fez. E é isso que te prende. — João deu outro passo. A resistência no ar diminuiu. — O mal não é uma maldição. É uma escolha. E eu escolho não ser como tu.
Adriano soltou um urro. A caverna tremeu. As sombras agitaram-se, uivando. A pedra negra ergueu-se no ar, emitindo uma luz fria. Teresa gritou, o corpo a arquear-se como se uma mão invisível a apertasse.
— Então morrem todos! — rugiu Adriano, e uma onda negra brotou da pedra, avançando sobre João e os aldeões.
Mas então, Maria do Carmo ergueu a sua cruz de madeira, e os aldeões, instintivamente, deram as mãos uns aos outros, formando um círculo à volta de João. A luz dos archotes pareceu intensificar-se, e uma barreira dourada, ténue como a luz da alvorada, ergueu-se entre eles e a escuridão.
A onda chocou contra a barreira e dissipou-se num clarão. Adriano cambaleou, os olhos arregalados.
— Não pode ser! O eco nunca recuou!
— Porque nunca ninguém acreditou — disse Maria, os dedos esfregando o polegar no indicador. — Hoje acreditamos.
O Poço Vazio
A luz dourada expandiu-se, inundando a caverna. As sombras recuaram, guinchando, para os cantos mais escuros. Adriano recuou, a pedra negra a perder o brilho.
— Isto é impossível! — gritou. — Eu sou o guardião! O mal é eterno!
— O mal és tu. — João avançou, agora sem qualquer obstáculo. — Durante séculos, alimentaste-te do medo e da solidão. Mas o medo acaba quando as pessoas se unem.
Adriano olhou em volta, vendo os rostos determinados dos aldeões. Até Teresa, que se libertara das cordas com a ajuda de Maria, se juntara ao círculo, as mãos trémulas mas firmes. O ourives riu, mas o riso soou oco.
— Acham que me podem derrotar? Eu sou o eco do mal! Enquanto houver sombras, eu existirei!
Num movimento rápido, Adriano agarrou a pedra negra e ergueu-a acima da cabeça. O chão da caverna fendeu-se com um estrondo, e um poço escuro abriu-se aos seus pés. Um vento gelado saiu do abismo, trazendo consigo o cheiro a podridão e a vozes sussurrantes.
— O mal nunca morre! — gritou Adriano, e atirou-se para o poço.
João tentou agarrá-lo, mas já era tarde. O corpo de Adriano desceu, engolido pela escuridão. A pedra negra caiu a seus pés, partindo-se em três pedaços, que se desfizeram em pó. O poço fechou-se com um ruído de pedras a ranger, e o silêncio caiu sobre a caverna.
Durante um longo momento, ninguém se mexeu. Depois, o ar aqueceu. A luz dos archotes tornou-se mais amarela, mais viva. As sombras recolheram-se, estáticas, inofensivas.
Teresa caiu de joelhos, soluçando. Maria abraçou-a. Os pescadores trocaram olhares, incrédulos. Amadeu benzeu-se uma e outra vez.
João permanecia imóvel, os olhos fixos no chão onde o poço se fechara. Sentiu um vazio. A raiva desaparecera, mas também algo mais. Procurou dentro de si a presença das visões, o frio que sempre o acompanhara. O frio não estava lá. Apenas uma paz triste, como um céu depois da tempestade.
Foi então que a viu. A criança de cabelo castanho estava ao fundo da caverna, banhada por uma luz suave. Sorria, um sorriso que iluminava os olhos grandes. Levantou a mão num aceno lento e, pela primeira vez, João ouviu a sua voz, clara como água:
— Já não preciso de ti. Estou em paz.
A figura dissolveu-se, deixando um rasto de luz que se apagou lentamente.
João sentiu os olhos arderem. Uma lágrima rolou-lhe pela face. Não a limpou.
— Está feito. — Maria tocou-lhe no ombro. — Conseguiste.
Ele abanou a cabeça, sem responder. Aproximou-se do sítio onde o poço estivera. A terra estava lisa, como se nada tivesse acontecido.
— Esperem — murmurou. Baixou-se e pousou a mão no chão. A terra estava fria, morta.
Um sussurro, quase imperceptível, elevou-se do solo, como um sopro de vento:
— O mal nunca morre...
João ergueu-se. A calma nos seus olhos deu lugar a uma vigilância eterna. Olhou para os aldeões, para Maria, para Teresa.
— O poço está vazio — disse, a voz rouca. — O eco nunca se cala. Mas hoje, aprendemos a ouvi-lo sem lhe obedecer.
O silêncio regressou à caverna, mas não era opressivo. Era um silêncio de trégua.
O Sussurro na Escuridão
Saíram da mina sob a luz fria da alvorada. O ar puro soube-lhes a vitória. Os aldeões dispersaram-se, levando a notícia à vila. Amadeu abraçou João, os olhos húmidos. Os pescadores despediram-se com acenos graves. Maria e Teresa caminharam ao lado de João, em silêncio.
No largo da igreja, os primeiros raios de sol pintavam as casas caiadas de tons rosados. João parou e olhou para o horizonte. A planície alentejana, ontem tão opressiva, agora respirava.
— E agora? — perguntou Teresa, a voz ainda trémula.
— Agora recomeçamos. — João passou a mão pelos cabelos desgrenhados, o gesto familiar. — O mal perdeu o seu guardião. Mas não morreu. Ficará adormecido, até que alguém o volte a alimentar.
— E nós cá estaremos para o impedir. — Maria endireitou o xaile, os polegares esfregando os dedos. — A minha avó não conseguiu porque estava sozinha. Nós não estamos.
João olhou para as duas mulheres. Teresa, apesar das lágrimas, tinha agora um brilho de determinação no olhar. Maria, com as suas rugas e mãos calejadas, parecia mais forte do que nunca.
— Obrigado — disse João, a voz embargada. — Sem vocês, eu teria sucumbido.
— Sem ti, nós também. — Maria deu-lhe um abraço, breve mas apertado. — Agora vai descansar. A vila precisa de um guardião, mas os guardiões também dormem.
João sorriu, um esgar cansado. Virou-se para a pensão. Mas antes de entrar, deteve-se. Uma sombra furtiva, ao fundo da rua, chamou-lhe a atenção. Por um instante, pensou ver o vulto de Adriano, mas era apenas um gato a trepar um muro.
Subiu ao quarto. As paredes amarelas, o roupeiro, o jarro com água. Tudo igual, mas tudo diferente. Sentou-se na cama e fechou os olhos. A imagem da criança sorridente ainda dançava atrás das pálpebras. A paz era real, mas também o era o aviso.
Horas mais tarde, quando o sol já ia alto, João regressou à mina. Sozinho. A entrada estava tranquila, as pedras imóveis. Acendeu um archote e desceu. A caverna estava vazia, o chão liso. Nenhum vestígio do ritual, do poço, de Adriano.
Mas quando se inclinou para examinar o solo, o sussurro regressou, tão baixo que podia ser o vento:
— O mal nunca morre...
João endireitou-se. O coração apertou-se-lhe, mas não de medo. De responsabilidade.
— Eu sei — murmurou. — E eu estarei aqui.
Apagou o archote e saiu para a luz do dia. O sol queimava, mas ele não se importou. A sua sombra, no chão de terra, parecia mais escura do que devia.
Na vila, a vida recomeçava. A taberna de Maria enchia-se de vozes. Teresa, acompanhada por dois agentes, ia a caminho de Évora para o julgamento. Os aldeões, de olhos mais leves, falavam de um novo começo.
Mas no fundo da mina, onde a escuridão era eterna, o eco adormecido aguardava.
O poço onde Adriano caiu está vazio. Um sussurro ecoa: 'O mal nunca morre...'