Home Categorias Explorar Como Funciona
Login Registar
Por Mauro Sombra

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 17 Assistido por IA
"

O Fantasma em Paz

IA
A Criança que Sorriu

Saíram da mina quando o céu começava a clarear. A luz fria da alvorada pintava as copas dos sobreiros de tons pálidos. João amparava Maria, que ainda mancava do ombro. Teresa caminhava atrás, os pulsos marcados pelas cordas, o rosto sujo de terra e lágrimas. Os aldeões vinham em grupo, as mãos ainda trémulas, os olhos a evitarem a escuridão da boca da mina. Ninguém falava. O ar cheirava a terra húmida e a fumo, mas já entrava uma brisa limpa, como se a própria manhã quisesse varrer os restos da noite.

No largo da igreja, juntaram-se mais pessoas. As janelas abriram-se e rostos ansiosos espreitaram. Amadeu, apoiado à bengala, benzeu-se repetidamente. Os primos pescadores largaram os archotes e sentaram-se nos degraus da fonte, exaustos. Maria largou o braço de João e endireitou o xaile. O polegar esfregou os dedos indicador e médio, num gesto lento e cansado. Olhou para as casas caiadas, para os telhados que reflectiam a primeira luz. Parecia mais leve, apesar das dores.

— O que foi que fizemos? — murmurou Teresa, os olhos fixos no chão. A voz saiu-lhe rouca, como se tivesse gritado durante horas. — Eu matei o meu pai. E agora o Adriano... o que é que vai ser de mim?

João parou diante dela. A mão esquerda passou pelos cabelos desgrenhados. Respirou fundo. O cansaço e a empatia misturavam-se-lhe nos olhos cinzentos.

— Vais contar a verdade. A toda a gente. — A voz dele era firme, mas sem dureza. — E depois, seja o que a justiça decidir. Mas não tenhas medo. Não estás sozinha.

Teresa ergueu a cabeça. As lágrimas corriam-lhe pelas faces, lavando a terra. Maria aproximou-se e pousou a mão calejada no ombro dela.

— A minha avó foi queimada porque ninguém acreditou nela. — A voz de Maria saiu grave, mas carregada de uma autoridade nova. — Tu não vais ter esse fim. Nós testemunhamos por ti.

Os aldeões que estavam por perto aproximaram-se. Uma mulher de xaile preto, a mesma que gritara "Bruxa!" a Zulmira, olhou para Teresa com os olhos vermelhos. A sua mão tremeu ao tocar-lhe no braço.

— Eu vi o que aquele homem fez. — A mulher engoliu em seco. — O meu filho era amigo da Catarina. Toda a vila sabia que havia qualquer coisa de errado, mas ninguém queria ver. — Virou-se para os outros. — Não podemos deixar que esta rapariga pague sozinha. Ela ajudou a parar o mal.

Um murmúrio de concordância percorreu a pequena multidão. Amadeu bateu com a bengala no chão.

— Ela tem a minha palavra. — A voz do velho sineiro tremeu. — E a minha testemunha. O que ela fez foi para nos proteger.

João agradeceu com um aceno de cabeça. Depois, chamou Lopes, que acabara de chegar com dois agentes. O agente estava pálido, os olhos arregalados ao ver o estado de todos.

— Lopes, a Zulmira está presa na esquadra. O Adriano caiu no poço da mina. — João fez uma pausa, a voz mais baixa. — A Teresa vai entregar-se. Mas quero que a tratem com respeito.

Lopes olhou para Teresa, depois para os aldeões. Assentiu, sem dizer nada. Os agentes algemaram-na com cuidado, e ela não resistiu. Antes de entrar no carro-patrulha, virou-se para João.

— Obrigada. — A palavra saiu-lhe num sopro. — Acredita que eu nunca quis fazer mal a ninguém.

— Eu sei. — João sorriu, um esgar cansado mas genuíno. — E agora, descansa.

O carro afastou-se pela rua principal, e a multidão dispersou lentamente. Alguns ainda comentavam entre si, outros encaminharam-se para a igreja. O sol subia, e a luz tornava-se mais quente, mais dourada.

João ficou sozinho no largo. Maria entrara na taberna para preparar café. As suas pernas estavam bambas. Sentou-se no banco de pedra junto à fonte e fechou os olhos. O corpo doía-lhe, mas era uma dor que o mantinha preso à terra. O cansaço era uma âncora, mas também uma bênção. Pela primeira vez em anos, o seu peito não estava apertado. O zumbido que sempre o acompanhara, aquele frio na nuca, desaparecera.

Foi então que sentiu a presença.

O ar à sua volta arrefeceu. Uma luz suave, azulada, filtrou-se através das suas pálpebras fechadas. Abriu os olhos devagar. Diante dele, a poucos metros, uma figura translúcida fitava-o. Uma jovem de cabelo castanho caído sobre os ombros, vestida com uma blusa simples e uma saia escura. Os olhos grandes e escuros brilhavam com uma doçura infinita. Não era mais a criança que ele recordava das visões. Agora, era uma mulher jovem, na idade que teria se tivesse vivido.

João reconheceu-a imediatamente. O coração acelerou, mas não de medo.

— Vieste... — murmurou, a voz embargada.

A jovem sorriu. Um sorriso que lhe iluminou o rosto, como se todo o calor do mundo estivesse ali. Aproximou-se, flutuando a um palmo do chão. Estendeu a mão e tocou-lhe na mão direita. O toque era gelado, mas suave como uma carícia. João sentiu um arrepio percorrer-lhe o braço, e depois uma onda de calor inundou-lhe o peito. A culpa, o peso que carregara durante décadas, dissolveu-se como névoa ao sol. As lágrimas correram-lhe pela face, livres e sem amargura.

— Estás em paz — sussurrou ele.

A jovem acenou lentamente com a cabeça. Depois, como se o vento a levasse, desvaneceu-se. A luz azulada esbateu-se, e o ar voltou a aquecer. No lugar onde estivera, apenas um raio de sol batia na pedra.

João ficou imóvel, a mão ainda estendida. O peito arfou num soluço que não era de dor, mas de alívio. Uma paz imensa, como um manto, envolveu-o. Não precisava mais de carregar aquele fardo. A criança, agora mulher, perdoara-o.

A porta da taberna rangeu. Maria saiu com duas chávenas de café fumegante. Ao vê-lo, parou. Os olhos castanhos examinaram-lhe o rosto molhado de lágrimas.

— João? — A voz dela saiu suave.

Ele ergueu-se. As pernas ainda tremiam, mas o sorriso que lhe puxava a cicatriz do lábio era genuíno.

— Ela veio — disse ele, a voz rouca mas firme. — A criança que eu não salvei. Veio e sorriu-me. Toquei-lhe na mão.

Maria pousou as chávenas no banco. Aproximou-se e abraçou-o. Os braços robustos envolveram-no num abraço apertado, cheio de calor. Ele retribuiu, os ombros finalmente relaxados.

— Estou tão grato — murmurou João contra o ombro dela. — Sem ti, eu teria sucumbido. Sem ti, nunca teria acreditado.

Maria afastou-se um pouco, as mãos ainda nos ombros dele.

— Fizemos isto juntos. — Os seus olhos brilhavam. — A minha avó, onde quer que esteja, está a sorrir.

João enxugou as lágrimas com as costas da mão. Pegou na chávena de café e bebeu um gole. O líquido quente soube-lhe a vida.

— Vou ficar — anunciou de repente. A voz saiu-lhe calma, como se estivesse a constatar um facto. — Em Alpedreza. Não vou voltar para a cidade.

Maria franziu o sobrolho.

— Ficar? Mas e a tua carreira?

— A minha carreira sempre foi isto: proteger as pessoas. — João olhou para o céu, onde o sol já se erguia por completo. — E este lugar precisa de alguém que o vigie. O mal não morreu, Maria. Apenas adormeceu. Alguém tem de ficar de guarda.

Ela assentiu lentamente. Os polegares esfregaram os dedos indicador e médio, num gesto pensativo.

— E tens a certeza?

— Nunca tive tanta certeza de nada. — João passou a mão pelos cabelos, mas desta vez o gesto foi sereno. — O meu pai tentou fugir deste lugar, e o eco perseguiu-o. Eu não vou fugir. Vou ficar e enfrentá-lo. Mas desta vez, não sozinho.

Maria sorriu. Pela primeira vez, aquele sorriso não tinha sombras.

— Então, terás a minha ajuda. E a de todos os que acreditarem.

Os aldeões que ainda estavam no largo aproximaram-se. Amadeu, apoiado à bengala, ergueu a mão.

— Eu também fico. — A voz do velho sineiro era firme. — Já vivi muito e pequei muito. Mas este lugar é a minha casa.

Os primos pescadores acenaram. A mulher do xaile preto enxugou as lágrimas e assentiu. Um a um, os aldeões foram-se aproximando, formando um círculo à volta de João e Maria. Não era uma multidão enfurecida, mas uma comunidade que renascia.

João olhou para aqueles rostos marcados pela terra e pelo medo, e sentiu uma esperança que não sabia que existia. O mal ancestral alimentava-se da solidão e da desconfiança. Mas ali, naquela manhã, o sol iluminava um novo princípio.

As horas seguintes passaram-se entre abraços e conversas. A taberna encheu-se de vozes. Maria serviu café e sopa. João contou a Lopes tudo o que acontecera na mina, sem esconder a verdade sobrenatural. O agente ouviu em silêncio e, no fim, apenas murmurou: «Sempre soube que havia qualquer coisa.»

Ao fim da tarde, quando o sol começava a descer sobre os montes, João saiu da taberna e caminhou pela rua principal. As casas caiadas brilhavam com a luz alaranjada. O ar cheirava a esteva e a terra quente. A vila, que antes lhe parecera um sepulcro, agora pulsava com uma vida frágil, mas real.

Dirigiu-se ao poço da Azinheira. A boca de pedra ainda estava lá, rodeada de vedações improvisadas. A água no fundo reflectia o céu. Apoiou as mãos no rebordo e olhou para baixo. O cheiro a terra húmida subiu, mas já não trazia o odor a podridão. Apenas a memória.

Foi então que a viu.

Ao longe, junto ao poço, uma sombra feminina acena a João. Ele não sente medo, mas um propósito.
0
0
2
1 15 16 17 18 19 20

Comentários 0

Inicia sessão para participares na conversa.

Entrar

Ainda ninguém sussurrou por aqui.