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A Teia da Curandeira
IA
A Visita da Curandeira
A manhã estava cinzenta sobre Alpedreza. Nuvens baixas colavam-se aos telhados. O ar cheirava a terra molhada e a fumo de lenha. João Martins bebericava um café na sala de estar da pensão, o casaco de tweed sobre os ombros, os olhos fixos num ponto vago da parede. Dormira mal. As imagens do celeiro e da carta do pai perseguiam-no. O diário do pai, aberto na mesa de cabeceira, era uma ferida que latejava.
Passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados. A dona Alice entrou na sala, um cesto de roupa suja ao colo.
— Tem uma visita, inspector. — A voz saiu arrastada. — A curandeira.
João ergueu a cabeça. Zulmira Valentim estava parada à porta, o cajado retorcido na mão direita. Os farrapos negros escorriam-lhe do corpo como uma segunda pele. O cheiro a ládano e a incenso entrou com ela, pesado.
— Bom dia. — João não se levantou. — Que a traz cá?
Zulmira entrou sem ser convidada. Os olhos de ônix percorreram a sala. Pousou o cajado contra a parede e sentou-se no sofá de palhinha, defronte dele. Os dedos sujos de terra tamborilaram no braço do sofá.
— O senhor inspector anda muito ocupado — murmurou ela. — Eu ando a ver. E o que vejo não me agrada.
— O que é que vê?
— Vejo a escuridão a crescer. E vejo uma mulher que mente. — Zulmira inclinou a cabeça. Os cabelos grisalhos caíram-lhe sobre o rosto. — Uma mulher que diz ser sua amiga.
João rangeu os dentes. O ruído foi abafado pelo silêncio. Pousou a chávena no pires.
— Fala da Maria do Carmo?
— Falo. Conheço-a desde que nasceu. As mãos dela carregam segredos. Segredos que não quer partilhar consigo. — A voz de Zulmira era um sopro rouco. — Ela não é o que parece.
João inclinou-se para a frente. Os cotovelos apoiaram-se nos joelhos. As mãos entrelaçaram-se.
— Que segredos?
— Vi-a em visões. Ela entregou algo ao ourives. Algo que não devia. Não sei o quê. Mas vi a mão dela a tocar na pedra negra.
O coração de João apertou-se. A pedra negra. A mesma que Adriano polia.
— Isso é grave. Tem provas?
Zulmira ergueu a mão esquerda. Os dedos afastaram-se. As unhas sujas mostravam restos de algo escuro.
— Isto é terra do montado. Encontrei-a no caminho da ourivesaria. Ela esteve lá há duas noites. A horas mortas.
João fixou a mão. A terra parecia igual a qualquer terra. Mas a dúvida era uma brasa.
— Porque me conta isto?
— Porque o mal está a acordar, inspector. E o mal usa os que têm segredos. — Zulmira levantou-se. O cajado raspou no soalho. — A Maria do Carmo não quer que o mal acorde. Ela quer mantê-lo adormecido. Para proteger a vila. Mas o que ela não sabe é que, ao esconder os segredos, está a alimentá-lo.
João também se ergueu. A cabeça latejava.
— Não acredito em si.
Zulmira sorriu. O sorriso não lhe chegou aos olhos.
— Acredite ou não, a verdade está lá. Pergunte-lhe. Pergunte-lhe o que ela viu naquela noite. — Deu meia-volta e dirigiu-se à porta. Antes de sair, virou-se. — Ou pergunte ao ourives. Ele talvez lhe conte o que ela não diz.
A porta fechou-se com um baque seco. João ficou imóvel. O cheiro a incenso ainda pairava. As palavras de Zulmira martelavam-lhe no crânio. Passou a mão pelos cabelos, o gesto repetido. A cicatriz no lábio ardia. Maria do Carmo. Teria ela realmente ido à ourivesaria? E se Zulmira estivesse a mentir? Mas porquê?
Sentou-se de novo. O café arrefecera. Bebeu-o de um trago. O amargo confortou-o. Precisava de respostas. E só havia uma pessoa que lhas podia dar.
Dúvidas na Taberna
A taberna estava vazia quando João entrou. O cheiro a vinho e a tabaco velho embateu-lhe nas narinas. Maria do Carmo estava atrás do balcão, a limpar copos. O pano de prato corria pelo vidro em círculos lentos. Usava um vestido escuro e o xaile de lã nos ombros. Ao vê-lo, pousou o copo.
— Parece que viu um fantasma — disse ela, sem rodeios.
João sentou-se num banco. Os cotovelos apoiaram-se no balcão.
— Zulmira esteve comigo.
Maria franziu o sobrolho. O polegar esfregou os dedos indicador e médio.
— A bruxa? O que queria?
— Falou de si. Disse que tem segredos. Que foi à ourivesaria há duas noites.
Maria pousou o pano. Os olhos castanhos fixaram-se nos de João.
— E você acreditou?
— Não sei o que acreditar. — João passou a mão pelos cabelos. — Ela mostrou-me terra do caminho. Disse que a viu em visões.
Maria endireitou o xaile. A sua voz saiu calma, mas uma veia latejou-lhe na fonte.
— Eu não fui à ourivesaria. Há duas noites estava aqui, consigo, a analisar mapas. Lembra-se? Foi quando ouvimos o grito.
João baixou a cabeça. Era verdade. Naquela noite de trovoada, estiveram juntos até o grito os arrastar para a rua. Mas a dúvida persistia.
— Então porque é que ela diria isso?
— Porque quer separar-nos. — Maria inclinou-se sobre o balcão. As mãos calejadas pousaram nas dele. — João, aquela mulher é uma mentira. Sempre foi. E eu já desconfio dela há muito. Foi ela que enganou o seu pai, não foi?
João ergueu os olhos. As pupilas cinzentas faiscaram.
— Como sabe?
— Intuição. A mesma intuição que me diz que ela tem algo a esconder. — Maria largou-lhe as mãos e foi até à janela. A luz pálida do dia entrava esbranquiçada. — Quando toquei na chávena da Helena, vi uma cabana. Lembra-se? A Zulmira também falou de uma cabana, mas era a errada. Ela quis desviar-nos. Agora tenta outra vez.
João levantou-se. Aproximou-se dela.
— Isso não explica a terra. Nem a pedra negra.
— A terra? — Maria virou-se. — Qualquer pessoa pode apanhar terra do caminho. E a pedra negra... o Adriano mostra-a a toda a gente. É a sua marca. Talvez a Zulmira queira incriminar-me. Ou talvez... — Calou-se. As suas feições contraíram-se. — Talvez ela tenha um objeto meu. Algo que usou para me ligar a ele.
— Que objeto?
— Não sei. Mas vou descobrir. — Maria agarrou no xaile e apertou-o contra o peito. — Vou à cabana da Zulmira.
— Não. — João segurou-a pelo braço. — Não sozinha. Aquela mulher é perigosa.
— Perigosa? Eu sei. Mas também sei que ela não espera que eu vá. E se eu encontrar provas, podemos confrontá-la.
— E se for uma armadilha?
Maria fitou-o. As rugas profundas no rosto redondo pareciam sulcos de terra seca.
— Você estará por perto. Não virá comigo agora, mas pode esperar. Se eu não sair em meia hora, entre.
João hesitou. A cicatriz no lábio latejava. Rangeu os dentes.
— Não gosto disto.
— Nem eu. Mas é a única forma de saber a verdade. — Maria tocou-lhe no rosto com a mão áspera. — Confia em mim?
— Confio.
— Então espere. E não se atrase.
Ela saiu da taberna. A porta rangeu. João ficou imóvel. O coração martelava-lhe o peito. Pela primeira vez, sentiu um medo que não era por si. Era por ela.
O Confronto na Cabana
A cabana de Zulmira ficava nos arredores da vila, escondida por sobreiros e urzes. As paredes de pedra eram cobertas de musgo. O telhado de colmo pendia sobre uma porta de madeira escura. O cheiro a ervas queimadas e a terra seca tornava o ar espesso.
Maria do Carmo aproximou-se sem fazer ruído. O coração batia-lhe na garganta. As mãos suavam. Antes de bater, fechou os olhos. Invocou a intuição da avó. Sentiu o pulsar do mal. Ali, naquele lugar, algo estava errado.
Bateu com os nós dos dedos. O som ecoou.
A porta abriu-se. Zulmira estava de pé, o cajado na mão. Os olhos de ônix estreitaram-se.
— Maria do Carmo. Que fazes aqui?
— Precisamos de falar.
— Sobre quê?
— Sobre as mentiras.
Zulmira não se moveu. A boca desenhou um esgar.
— Entra, então.
O interior da cabana era escuro. Velas pingavam cera num canto. Ervas secas pendiam do teto. Num armário rústico, frascos de barro alinhavam-se. O cheiro a incenso e a ládano era sufocante.
Maria parou no centro da sala. As mãos esfregavam o polegar contra os dedos.
— Hoje de manhã, foste ao inspector. Disseste que eu tinha segredos. Que fui à ourivesaria. Mentira.
Zulmira pousou o cajado. Os dedos sujos de terra tamborilaram na mesa.
— Eu não minto. Eu vejo.
— Vês o que te convém. Ou o que o Adriano te manda ver. — Maria avançou um passo. — A cabana que me mostraste na visão... era falsa. Agora queres separar-me do João. Porquê?
Zulmira riu. Um riso seco, sem alegria.
— Porque tu és fraca, Maria do Carmo. Herdaste o dom da tua avó, mas não o mereces. Ficaste calada quando ela ardeu. E agora queres redimir-te? Tarde demais.
As palavras foram como facas. Maria engoliu em seco.
— Isso não te diz respeito.
— Diz. Porque o mal que aqui habita é maior do que tu. E o inspector está a mexer em coisas que não devia. — Zulmira aproximou-se. O seu hálito cheirava a ervas. — Se o queres proteger, sai da frente.
— Não me assustas.
— Não? — Zulmira agarrou-lhe o braço. A mão era forte, os dedos cravavam-se. — Então toca nisto.
Puxou Maria para o armário. Sobre uma prateleira, uma pequena caixa de madeira. A tampa estava entreaberta. Lá dentro, uma pedra negra, lisa de um lado, rugosa do outro. A mesma pedra de Adriano.
— Toca-lhe — sibilou Zulmira. — Se és tão forte.
Maria hesitou. O dom puxava-a. Mas o medo apertava-lhe o peito. Ainda assim, estendeu a mão trémula. Os dedos tocaram na pedra.
Um zumbido agudo perfurou-lhe os ouvidos. O ar arrefeceu. A cabana desapareceu. Ela estava num lugar escuro. Uma mina. As paredes de xisto brilhavam à luz de archotes. Uma figura de costas, polindo uma pedra. Adriano. A sua voz ecoou: «A taberneira é um estorvo. Livra-te dela.» A figura de Zulmira, de joelhos, a cabeça baixa: «Sim, mestre.»
A visão dissolveu-se. Maria cambaleou. A mão afastou-se da pedra como se tivesse tocado em brasa. O peito arfava. Olhou para Zulmira.
— Tu és dele. És a serva do ourives.
Zulmira recuou. O seu rosto contorceu-se numa máscara de fúria.
— Não devias ter visto isso.
— Agora sei a verdade. E vou contá-la.
— Não vais. — Zulmira levantou o cajado. A madeira retorcida brilhou à luz das velas. — Vais ficar aqui.
Avançou. Maria recuou. As costas bateram na parede. O coração galopava. Mas o medo deu lugar a uma fúria antiga.
— Não me toques.
— Não és nada. A tua avó ardeu. Tu também arderás.
A porta da cabana escancarou-se.
O Resgate e a Ameaça
João irrompeu pela cabana. A pistola na mão, os olhos arregalados. Viu Zulmira com o cajado levantado, Maria encostada à parede. O instinto tomou conta.
— Largue-a!
Zulmira virou-se. O cajado baixou. Os olhos de ônix faiscaram.
— Inspector. Chegou a tempo.
— Afaste-se dela. — João apontou a arma. As mãos não tremiam, mas o coração martelava.
Maria descolou-se da parede. As pernas bambas. O xaile caíra-lhe dos ombros.
— Ela tem uma pedra negra. É igual à de Adriano. Serve-o.
João olhou para a caixa aberta. Viu a pedra. Um arrepio percorreu-lhe a espinha.
— Confirma-se o que eu suspeitava. — A voz saiu rouca. — Zulmira, está presa por cumplicidade nos desaparecimentos.
Zulmira riu. O som ecoou pela cabana, agudo e descontrolado.
— Presa? Eu? Quem me vai prender? Você? — Apontou para o cajado. — Isto é a minha proteção. O meu mestre não deixará.
— O seu mestre está longe. E não a salvará.
— Veremos. — Zulmira ergueu o cajado. Murmurou palavras estranhas. O ar arrefeceu. As velas tremeram.
João sentiu um zumbido nos ouvidos. Lutou contra ele. Rangeu os dentes.
— Pare com isso.
Maria agarrou-lhe o braço.
— Vamos. Ela não vale a pena.
João hesitou. Olhou para a pedra. Depois, para Zulmira. O ódio queimava-lhe o peito. Mas a mão de Maria no seu braço trouxe-o de volta.
— Tens razão. Vamos.
Recuaram para a porta. Zulmira baixou o cajado. O seu sorriso voltou, torcido.
— Fujam. Mas lembrem-se: o mal está a acordar. E vocês são as primeiras vítimas.
João e Maria saíram da cabana. A luz do sol bateu-lhes nos olhos. Caminharam em silêncio até à vila. O vento levantava nuvens de pó. Nenhum dos dois falou. Só quando chegaram à taberna, Maria caiu num banco. As mãos tremiam.
— Ela vai tentar outra vez.
— Não vai. Vamos alertar a vila. Contar a verdade.
— Ninguém acreditará. — Maria fitou-o. — As pessoas têm medo. Como sempre tiveram.
João pousou a pistola no balcão. Passou a mão pelos cabelos.
— Então temos de acreditar nós. E de proteger quem está em risco.
Maria assentiu. Os polegares esfregavam os dedos, o gesto repetitivo.
— Obrigada. Por teres vindo.
— Eu disse que não te largava. — João esboçou um sorriso cansado. — Descansa. Depois falamos.
Ela levantou-se, arrastando os pés. João ficou na taberna, os olhos fixos na rua. A sombra de Zulmira pairava sobre Alpedreza.
Enquanto isso, na cabana, a curandeira fechou a porta. O riso cessou. Sozinha, pegou na caixa de madeira. Abriu-a. Sob a pedra negra, uma fotografia amarelecida. Adriano Saragoça, mais novo, o sorriso frio. Zulmira acariciou a imagem com os dedos sujos.
— Vais ver como eles se afastam. — A voz saiu num sussurro, como uma prece. — Vais ver.
O vento uivou lá fora. As velas apagaram-se. E a escuridão engoliu a cabana.
A manhã estava cinzenta sobre Alpedreza. Nuvens baixas colavam-se aos telhados. O ar cheirava a terra molhada e a fumo de lenha. João Martins bebericava um café na sala de estar da pensão, o casaco de tweed sobre os ombros, os olhos fixos num ponto vago da parede. Dormira mal. As imagens do celeiro e da carta do pai perseguiam-no. O diário do pai, aberto na mesa de cabeceira, era uma ferida que latejava.
Passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados. A dona Alice entrou na sala, um cesto de roupa suja ao colo.
— Tem uma visita, inspector. — A voz saiu arrastada. — A curandeira.
João ergueu a cabeça. Zulmira Valentim estava parada à porta, o cajado retorcido na mão direita. Os farrapos negros escorriam-lhe do corpo como uma segunda pele. O cheiro a ládano e a incenso entrou com ela, pesado.
— Bom dia. — João não se levantou. — Que a traz cá?
Zulmira entrou sem ser convidada. Os olhos de ônix percorreram a sala. Pousou o cajado contra a parede e sentou-se no sofá de palhinha, defronte dele. Os dedos sujos de terra tamborilaram no braço do sofá.
— O senhor inspector anda muito ocupado — murmurou ela. — Eu ando a ver. E o que vejo não me agrada.
— O que é que vê?
— Vejo a escuridão a crescer. E vejo uma mulher que mente. — Zulmira inclinou a cabeça. Os cabelos grisalhos caíram-lhe sobre o rosto. — Uma mulher que diz ser sua amiga.
João rangeu os dentes. O ruído foi abafado pelo silêncio. Pousou a chávena no pires.
— Fala da Maria do Carmo?
— Falo. Conheço-a desde que nasceu. As mãos dela carregam segredos. Segredos que não quer partilhar consigo. — A voz de Zulmira era um sopro rouco. — Ela não é o que parece.
João inclinou-se para a frente. Os cotovelos apoiaram-se nos joelhos. As mãos entrelaçaram-se.
— Que segredos?
— Vi-a em visões. Ela entregou algo ao ourives. Algo que não devia. Não sei o quê. Mas vi a mão dela a tocar na pedra negra.
O coração de João apertou-se. A pedra negra. A mesma que Adriano polia.
— Isso é grave. Tem provas?
Zulmira ergueu a mão esquerda. Os dedos afastaram-se. As unhas sujas mostravam restos de algo escuro.
— Isto é terra do montado. Encontrei-a no caminho da ourivesaria. Ela esteve lá há duas noites. A horas mortas.
João fixou a mão. A terra parecia igual a qualquer terra. Mas a dúvida era uma brasa.
— Porque me conta isto?
— Porque o mal está a acordar, inspector. E o mal usa os que têm segredos. — Zulmira levantou-se. O cajado raspou no soalho. — A Maria do Carmo não quer que o mal acorde. Ela quer mantê-lo adormecido. Para proteger a vila. Mas o que ela não sabe é que, ao esconder os segredos, está a alimentá-lo.
João também se ergueu. A cabeça latejava.
— Não acredito em si.
Zulmira sorriu. O sorriso não lhe chegou aos olhos.
— Acredite ou não, a verdade está lá. Pergunte-lhe. Pergunte-lhe o que ela viu naquela noite. — Deu meia-volta e dirigiu-se à porta. Antes de sair, virou-se. — Ou pergunte ao ourives. Ele talvez lhe conte o que ela não diz.
A porta fechou-se com um baque seco. João ficou imóvel. O cheiro a incenso ainda pairava. As palavras de Zulmira martelavam-lhe no crânio. Passou a mão pelos cabelos, o gesto repetido. A cicatriz no lábio ardia. Maria do Carmo. Teria ela realmente ido à ourivesaria? E se Zulmira estivesse a mentir? Mas porquê?
Sentou-se de novo. O café arrefecera. Bebeu-o de um trago. O amargo confortou-o. Precisava de respostas. E só havia uma pessoa que lhas podia dar.
Dúvidas na Taberna
A taberna estava vazia quando João entrou. O cheiro a vinho e a tabaco velho embateu-lhe nas narinas. Maria do Carmo estava atrás do balcão, a limpar copos. O pano de prato corria pelo vidro em círculos lentos. Usava um vestido escuro e o xaile de lã nos ombros. Ao vê-lo, pousou o copo.
— Parece que viu um fantasma — disse ela, sem rodeios.
João sentou-se num banco. Os cotovelos apoiaram-se no balcão.
— Zulmira esteve comigo.
Maria franziu o sobrolho. O polegar esfregou os dedos indicador e médio.
— A bruxa? O que queria?
— Falou de si. Disse que tem segredos. Que foi à ourivesaria há duas noites.
Maria pousou o pano. Os olhos castanhos fixaram-se nos de João.
— E você acreditou?
— Não sei o que acreditar. — João passou a mão pelos cabelos. — Ela mostrou-me terra do caminho. Disse que a viu em visões.
Maria endireitou o xaile. A sua voz saiu calma, mas uma veia latejou-lhe na fonte.
— Eu não fui à ourivesaria. Há duas noites estava aqui, consigo, a analisar mapas. Lembra-se? Foi quando ouvimos o grito.
João baixou a cabeça. Era verdade. Naquela noite de trovoada, estiveram juntos até o grito os arrastar para a rua. Mas a dúvida persistia.
— Então porque é que ela diria isso?
— Porque quer separar-nos. — Maria inclinou-se sobre o balcão. As mãos calejadas pousaram nas dele. — João, aquela mulher é uma mentira. Sempre foi. E eu já desconfio dela há muito. Foi ela que enganou o seu pai, não foi?
João ergueu os olhos. As pupilas cinzentas faiscaram.
— Como sabe?
— Intuição. A mesma intuição que me diz que ela tem algo a esconder. — Maria largou-lhe as mãos e foi até à janela. A luz pálida do dia entrava esbranquiçada. — Quando toquei na chávena da Helena, vi uma cabana. Lembra-se? A Zulmira também falou de uma cabana, mas era a errada. Ela quis desviar-nos. Agora tenta outra vez.
João levantou-se. Aproximou-se dela.
— Isso não explica a terra. Nem a pedra negra.
— A terra? — Maria virou-se. — Qualquer pessoa pode apanhar terra do caminho. E a pedra negra... o Adriano mostra-a a toda a gente. É a sua marca. Talvez a Zulmira queira incriminar-me. Ou talvez... — Calou-se. As suas feições contraíram-se. — Talvez ela tenha um objeto meu. Algo que usou para me ligar a ele.
— Que objeto?
— Não sei. Mas vou descobrir. — Maria agarrou no xaile e apertou-o contra o peito. — Vou à cabana da Zulmira.
— Não. — João segurou-a pelo braço. — Não sozinha. Aquela mulher é perigosa.
— Perigosa? Eu sei. Mas também sei que ela não espera que eu vá. E se eu encontrar provas, podemos confrontá-la.
— E se for uma armadilha?
Maria fitou-o. As rugas profundas no rosto redondo pareciam sulcos de terra seca.
— Você estará por perto. Não virá comigo agora, mas pode esperar. Se eu não sair em meia hora, entre.
João hesitou. A cicatriz no lábio latejava. Rangeu os dentes.
— Não gosto disto.
— Nem eu. Mas é a única forma de saber a verdade. — Maria tocou-lhe no rosto com a mão áspera. — Confia em mim?
— Confio.
— Então espere. E não se atrase.
Ela saiu da taberna. A porta rangeu. João ficou imóvel. O coração martelava-lhe o peito. Pela primeira vez, sentiu um medo que não era por si. Era por ela.
O Confronto na Cabana
A cabana de Zulmira ficava nos arredores da vila, escondida por sobreiros e urzes. As paredes de pedra eram cobertas de musgo. O telhado de colmo pendia sobre uma porta de madeira escura. O cheiro a ervas queimadas e a terra seca tornava o ar espesso.
Maria do Carmo aproximou-se sem fazer ruído. O coração batia-lhe na garganta. As mãos suavam. Antes de bater, fechou os olhos. Invocou a intuição da avó. Sentiu o pulsar do mal. Ali, naquele lugar, algo estava errado.
Bateu com os nós dos dedos. O som ecoou.
A porta abriu-se. Zulmira estava de pé, o cajado na mão. Os olhos de ônix estreitaram-se.
— Maria do Carmo. Que fazes aqui?
— Precisamos de falar.
— Sobre quê?
— Sobre as mentiras.
Zulmira não se moveu. A boca desenhou um esgar.
— Entra, então.
O interior da cabana era escuro. Velas pingavam cera num canto. Ervas secas pendiam do teto. Num armário rústico, frascos de barro alinhavam-se. O cheiro a incenso e a ládano era sufocante.
Maria parou no centro da sala. As mãos esfregavam o polegar contra os dedos.
— Hoje de manhã, foste ao inspector. Disseste que eu tinha segredos. Que fui à ourivesaria. Mentira.
Zulmira pousou o cajado. Os dedos sujos de terra tamborilaram na mesa.
— Eu não minto. Eu vejo.
— Vês o que te convém. Ou o que o Adriano te manda ver. — Maria avançou um passo. — A cabana que me mostraste na visão... era falsa. Agora queres separar-me do João. Porquê?
Zulmira riu. Um riso seco, sem alegria.
— Porque tu és fraca, Maria do Carmo. Herdaste o dom da tua avó, mas não o mereces. Ficaste calada quando ela ardeu. E agora queres redimir-te? Tarde demais.
As palavras foram como facas. Maria engoliu em seco.
— Isso não te diz respeito.
— Diz. Porque o mal que aqui habita é maior do que tu. E o inspector está a mexer em coisas que não devia. — Zulmira aproximou-se. O seu hálito cheirava a ervas. — Se o queres proteger, sai da frente.
— Não me assustas.
— Não? — Zulmira agarrou-lhe o braço. A mão era forte, os dedos cravavam-se. — Então toca nisto.
Puxou Maria para o armário. Sobre uma prateleira, uma pequena caixa de madeira. A tampa estava entreaberta. Lá dentro, uma pedra negra, lisa de um lado, rugosa do outro. A mesma pedra de Adriano.
— Toca-lhe — sibilou Zulmira. — Se és tão forte.
Maria hesitou. O dom puxava-a. Mas o medo apertava-lhe o peito. Ainda assim, estendeu a mão trémula. Os dedos tocaram na pedra.
Um zumbido agudo perfurou-lhe os ouvidos. O ar arrefeceu. A cabana desapareceu. Ela estava num lugar escuro. Uma mina. As paredes de xisto brilhavam à luz de archotes. Uma figura de costas, polindo uma pedra. Adriano. A sua voz ecoou: «A taberneira é um estorvo. Livra-te dela.» A figura de Zulmira, de joelhos, a cabeça baixa: «Sim, mestre.»
A visão dissolveu-se. Maria cambaleou. A mão afastou-se da pedra como se tivesse tocado em brasa. O peito arfava. Olhou para Zulmira.
— Tu és dele. És a serva do ourives.
Zulmira recuou. O seu rosto contorceu-se numa máscara de fúria.
— Não devias ter visto isso.
— Agora sei a verdade. E vou contá-la.
— Não vais. — Zulmira levantou o cajado. A madeira retorcida brilhou à luz das velas. — Vais ficar aqui.
Avançou. Maria recuou. As costas bateram na parede. O coração galopava. Mas o medo deu lugar a uma fúria antiga.
— Não me toques.
— Não és nada. A tua avó ardeu. Tu também arderás.
A porta da cabana escancarou-se.
O Resgate e a Ameaça
João irrompeu pela cabana. A pistola na mão, os olhos arregalados. Viu Zulmira com o cajado levantado, Maria encostada à parede. O instinto tomou conta.
— Largue-a!
Zulmira virou-se. O cajado baixou. Os olhos de ônix faiscaram.
— Inspector. Chegou a tempo.
— Afaste-se dela. — João apontou a arma. As mãos não tremiam, mas o coração martelava.
Maria descolou-se da parede. As pernas bambas. O xaile caíra-lhe dos ombros.
— Ela tem uma pedra negra. É igual à de Adriano. Serve-o.
João olhou para a caixa aberta. Viu a pedra. Um arrepio percorreu-lhe a espinha.
— Confirma-se o que eu suspeitava. — A voz saiu rouca. — Zulmira, está presa por cumplicidade nos desaparecimentos.
Zulmira riu. O som ecoou pela cabana, agudo e descontrolado.
— Presa? Eu? Quem me vai prender? Você? — Apontou para o cajado. — Isto é a minha proteção. O meu mestre não deixará.
— O seu mestre está longe. E não a salvará.
— Veremos. — Zulmira ergueu o cajado. Murmurou palavras estranhas. O ar arrefeceu. As velas tremeram.
João sentiu um zumbido nos ouvidos. Lutou contra ele. Rangeu os dentes.
— Pare com isso.
Maria agarrou-lhe o braço.
— Vamos. Ela não vale a pena.
João hesitou. Olhou para a pedra. Depois, para Zulmira. O ódio queimava-lhe o peito. Mas a mão de Maria no seu braço trouxe-o de volta.
— Tens razão. Vamos.
Recuaram para a porta. Zulmira baixou o cajado. O seu sorriso voltou, torcido.
— Fujam. Mas lembrem-se: o mal está a acordar. E vocês são as primeiras vítimas.
João e Maria saíram da cabana. A luz do sol bateu-lhes nos olhos. Caminharam em silêncio até à vila. O vento levantava nuvens de pó. Nenhum dos dois falou. Só quando chegaram à taberna, Maria caiu num banco. As mãos tremiam.
— Ela vai tentar outra vez.
— Não vai. Vamos alertar a vila. Contar a verdade.
— Ninguém acreditará. — Maria fitou-o. — As pessoas têm medo. Como sempre tiveram.
João pousou a pistola no balcão. Passou a mão pelos cabelos.
— Então temos de acreditar nós. E de proteger quem está em risco.
Maria assentiu. Os polegares esfregavam os dedos, o gesto repetitivo.
— Obrigada. Por teres vindo.
— Eu disse que não te largava. — João esboçou um sorriso cansado. — Descansa. Depois falamos.
Ela levantou-se, arrastando os pés. João ficou na taberna, os olhos fixos na rua. A sombra de Zulmira pairava sobre Alpedreza.
Enquanto isso, na cabana, a curandeira fechou a porta. O riso cessou. Sozinha, pegou na caixa de madeira. Abriu-a. Sob a pedra negra, uma fotografia amarelecida. Adriano Saragoça, mais novo, o sorriso frio. Zulmira acariciou a imagem com os dedos sujos.
— Vais ver como eles se afastam. — A voz saiu num sussurro, como uma prece. — Vais ver.
O vento uivou lá fora. As velas apagaram-se. E a escuridão engoliu a cabana.