"
O Ataque no Celeiro
IA
A Visão de Maria
O grito morreu na chuva. João e Maria correram pela rua deserta. As pedras brilhavam sob a luz amarelada do candeeiro da esquina. Lá ao fundo, um vulto escuro sumiu-se num beco. A chuva batia-lhes no rosto, o frio colava-lhes a roupa ao corpo.
— Viste quem foi? — A voz de João saiu ofegante.
Maria abanou a cabeça. O xaile pesava-lhe nos ombros, encharcado. Os olhos castanhos percorreram as sombras.
— Nada. Mas o grito... não era humano.
João apertou-lhe o braço. A mão tremia-lhe.
— Vamos sair daqui.
Regressaram à taberna. O soalho de madeira gemia sob os seus passos. Maria fechou a porta e encostou-se a ela. O seu peito arfava. João atirou o casaco molhado para uma cadeira e sentou-se, a cabeça entre as mãos. A chuva tamborilava nas vidraças.
— Precisamos de voltar ao montado — disse ele, sem levantar a cabeça. — Aquela cabana que a Zulmira nos mostrou era uma armadilha. Mas a tua visão apontou para algo real. Tem de haver um celeiro.
Maria endireitou-se. O polegar esfregou os dedos indicador e médio, num gesto rápido.
— O celeiro... — A sua voz saiu num fio. — Vi uma estrutura de madeira escura, com um telhado de zinco. Portas altas. E um cheiro a palha podre e a sangue.
João ergueu os olhos. As pupilas cinzentas faiscavam.
— Consegues lembrar-te de mais? Onde fica?
Ela fechou os olhos. As pálpebras tremeram. O corpo estremeceu.
— Para lá do poço... depois dos sobreiros. Há um trilho de pedras soltas que desce para um vale. O celeiro está escondido entre duas colinas. Ninguém lá vai há anos.
— Conheço esse sítio. — João levantou-se. — Fica perto da mina abandonada. — Pegou na lanterna e na pistola. — Vamos.
Maria hesitou. As mãos apertaram o xaile contra o peito.
— É noite. E a chuva ainda não parou.
— Melhor. Ninguém nos vê. — João fitou-a. — Ficas aqui se quiseres. Mas eu vou.
Ela rangeu os dentes. Os olhos endureceram.
— Não me deixes sozinha. — A voz saiu-lhe mais firme do que sentia.
João abriu a porta. A chuva entrou de rajada. Maria pegou num xaile seco e seguiu-o.
O Celeiro Abandonado
Saíram da vila por um carreiro de pedras soltas. A chuva amainara, mas o vento ainda fustigava as copas dos sobreiros. A lanterna de João abria um cone de luz trémula no escuro. Maria seguia-o de perto, os sapatos a chapinhar na lama. O cheiro a terra molhada e a esteva invadia-lhes as narinas.
Caminharam em silêncio durante quase uma hora. As árvores rarearam. O trilho descia agora para um vale estreito, ladeado por duas colinas baixas. A luz da lanterna revelou uma estrutura escura, ao fundo.
— É ali — sussurrou Maria. A mão agarrou o braço de João.
O celeiro surgiu da escuridão como uma carcaça de madeira apodrecida. As tábuas das paredes estavam negras de humidade e fungos. O telhado de zinco, meio arrancado, pendia sobre uma das empenas. As portas altas estavam fechadas, mas uma delas cedia ligeiramente, deixando uma fresta de escuridão.
João fez sinal para Maria parar. Acendeu a lanterna com mais força e aproximou-se. O cheiro a palha velha e a algo mais — um odor adocicado e podre — atingiu-o. O coração acelerou. Encostou o ombro à porta e empurrou. A madeira rangeu.
Lá dentro, a escuridão era densa. A lanterna varreu o interior: fardos de palha apodrecidos, traves de madeira carcomida, uma forquilha enferrujada caída no chão de terra batida. E ao fundo, um vulto suspenso.
Maria soltou um grito abafado. João avançou. O foco iluminou o corpo de um homem pendurado por cordas presas a uma trave. Os braços caídos, as pernas inertes. O rosto virado para baixo.
— Tomás — murmurou João. A voz saiu rouca.
As mãos do cadáver estavam amarradas atrás das costas. A corda grosseira cravava-se na pele roxa. O corpo balançava levemente, impelido por uma corrente de ar invisível. O cheiro a decomposição era insuportável. Moscas zumbiam no escuro.
Maria benzeu-se. As pernas tremiam-lhe.
— Ele está morto há dias...
— Precisamos de provas. — João tirou uma pequena máquina fotográfica da mochila. O flash iluminou o celeiro três vezes. Depois, baixou a câmara e olhou em redor. — Onde estão os outros corpos? A visão mostrava um lugar de cativeiro.
— Não sei. — Maria fechou os olhos. As suas mãos tocaram numa trave próxima. — Sinto... dor. Muito medo. Mas também uma presença. Algo nos observa.
João endireitou-se. O instinto alertava-o. A sua mão pousou na pistola. O silêncio tornou-se opressivo. Nem o zumbido das moscas. Apenas o rangido das traves.
Foi então que as portas do celeiro se fecharam com um estrondo.
A Força Invisível
O som ribombou como um trovão seco. João e Maria viraram-se. As portas estavam firmemente fechadas. Não havia tranca, mas a madeira parecia colada. A lanterna de João tremeu na sua mão.
— O que foi isto? — A voz de Maria saiu trémula.
João não respondeu. A sua mão apertou a pistola. O ar tornou-se pesado. Um zumbido grave encheu o celeiro. As traves estremeceram. O corpo de Tomás oscilou violentamente.
De repente, uma onda de choque invisível arremessou João contra a parede. O seu corpo bateu nas tábuas com um baque oco. A lanterna caiu e rolou pelo chão. Maria foi projectada para o lado oposto, os pés a perderem o contacto com a terra. Caíu de joelhos, o xaile a rasgar-se nos pregos do chão.
— João! — gritou ela.
Outra onda atingiu-os. Desta vez, mais forte. O celeiro todo rangeu. A forquilha de ferro voou pelos ares e cravou-se numa trave. João tentou levantar-se, mas uma força esmagava-lhe o peito. A boca encheu-se de um gosto metálico.
O ar arrefeceu. Um riso ecoou. Não vinha de um ponto fixo, mas de toda a parte. Um riso grave, arrastado, que gelava a medula.
— Estão a brincar com forças que não compreendem.
A voz de Adriano. João rangeu os dentes. A cicatriz no lábio ardia. Ergueu-se, apoiando-se à parede. A pistola apontou para a escuridão, mas a mão bailava.
— Mostra-te, cobarde.
Uma gargalhada. As portas abriram-se de rompante. Adriano Saragoça estava de pé à entrada, as mãos nos bolsos do colete. Dois homens encorpados ladeavam-no, as caras escondidas por capuzes. Atrás deles, a chuva miudinha caía.
— Inspector Martins. — O sorriso de Adriano era uma fenda. — E a senhora Maria do Carmo. Que bela surpresa.
Maria levantou-se. As mãos esfregavam os braços doridos. Os seus olhos cravaram-se nos do ourives.
— Você... foi você.
— Fui eu o quê? — Adriano inclinou a cabeça. — Apenas guardo o que me pertence. Esta vila, estas almas... são minhas. E vocês estão a perturbar o equilíbrio.
João avançou um passo. Os capangas moveram-se, mas Adriano ergueu a mão.
— Não se aproxime, inspector. A força que aqui habita não aprecia intrusos. — Fez um gesto para o corpo de Tomás. — Levem-no.
Os dois homens dirigiram-se ao centro do celeiro. Com uma destreza mecânica, desamarraram as cordas e puxaram o corpo para baixo. Tomás caiu no chão com um baque surdo. Arrastaram-no para a porta.
— Vão apagar as provas — rugiu João. — Não vou deixar.
Levantou a pistola. Mas uma terceira onda de choque atingiu-o em cheio. A arma voou-lhe da mão. O corpo foi de novo atirado contra a madeira. Maria gritou e tentou correr para ele, mas uma força invisível reteve-a, os pés colados ao chão.
Adriano observava, o sorriso intacto.
— Vejam só. A vossa própria teimosia atrai o mal. É como um íman. — Deu um passo em frente. Os seus olhos cinzentos brilhavam na penumbra. — O eco do passado não se cala com balas. É preciso outra coisa. Algo que vocês não têm.
João cuspiu sangue. As costelas doíam. Mas a raiva era maior.
— O meu pai... tu mataste-o.
Adriano parou. A sua expressão mudou, tornou-se sombria.
— O teu pai escolheu a morte. Eu apenas lhe mostrei o reflexo do seu medo. — Aproximou-se mais. — E tu, João, és igual a ele. Herdaste a mesma escuridão. Só ainda não a aceitaste.
— Cala-te! — Maria libertou-se da força invisível e colocou-se entre os dois. — Não lhe toques.
Adriano olhou para ela com desprezo.
— A taberneira que vê visões. Sabes porque é que a tua avó ardeu? Porque ousou desafiar o que não entendia. Tu segues o mesmo caminho.
As lágrimas correram pelo rosto de Maria. Mas não recuou.
— Prefiro arder do que servir-te.
Adriano riu. Um riso seco, sem alegria.
— Muito bem. Hoje não vão arder. Mas vão sair daqui com uma lição. — Fez um sinal aos capangas. — Larguem o corpo. Deixem-nos ir.
Os homens hesitaram, mas obedeceram. Largaram Tomás perto da porta. Adriano apontou para a saída.
— Fujam. Voltem para a vila e digam a todos o que viram. Ninguém acreditará em vocês. E lembrem-se: o mal está a acordar.
João agarrou Maria pelo braço. Tropeçaram para fora do celeiro. A chuva caía agora mansa. Atrás deles, Adriano permaneceu de pé, observando-os. O seu vulto escuro recortava-se contra a entrada. Antes que desaparecessem na noite, a sua voz soou uma última vez, fria como aço:
— O mal está a acordar.
A Fuga e o Terror
João e Maria cambalearam pelo trilho de pedras. A chuva colava-se-lhes ao rosto. Atrás, o celeiro desapareceu na escuridão. Nenhum som os perseguia. Apenas o vento e o ladrar distante de um cão.
As pernas de João cederam. Caiu de joelhos na lama. Maria ajoelhou-se ao seu lado.
— João! Estás ferido?
Ele abanou a cabeça. O peito arfava. Os olhos estavam vidrados.
— Ele... ele matou o meu pai. — A voz saiu-lhe embargada. — E eu não posso fazer nada.
Maria segurou-lhe o rosto com as duas mãos. As calejadas palmas transmitiam um calor inesperado.
— Podes. Podes e vais. Mas não sozinho. — As suas palavras eram firmes. — Aquela coisa no celeiro... não era só o Adriano. Era o eco. O mal de que falas. Mas não é invencível.
João fitou-a. As lágrimas misturavam-se com a chuva.
— Como sabes?
— Porque a minha avó também o enfrentou. E perdeu porque estava sozinha. — Maria ergueu-o. — Nós não estamos.
Levantaram-se. João sentiu uma força nova nos membros. A raiva dera lugar a uma determinação fria.
— Ele quer que fujamos. Que desistamos. — João limpou o rosto com as costas da mão. — Mas eu vou voltar.
— Juntos. — Maria apertou-lhe a mão.
Caminharam em silêncio até à vila. A luz cinzenta da madrugada começava a despontar por entre as nuvens. Ao entrarem na rua principal, algumas janelas já se iluminavam. Na taberna, Maria acendeu o candeeiro. As suas mãos ainda tremiam.
— Precisas de um médico.
— Não. — João sentou-se pesadamente numa cadeira. — Preciso de respostas. O corpo do Tomás estava lá. A tua visão provou que não estamos loucos.
— Mas as provas desapareceram. O Adriano levou-as. — Maria serviu-lhe um copo de aguardente. — E ninguém na vila vai acreditar em nós.
João bebeu de um trago. O líquido queimou-lhe a garganta.
— Então temos de arranjar provas irrefutáveis. — Passou a mão pelos cabelos desgrenhados. — A Zulmira enganou-nos. Mas e se houver outras pistas? O nosso amigo ourives tem um passado. O meu pai investigou-o. Deve haver documentos.
— A casa do teu pai? Em Évora? — Maria sentou-se à sua frente. Os polegares esfregavam os dedos.
— Sim. Os pertences dele estão guardados. Preciso de lá ir. Mas não posso deixar a vila agora.
— Vou eu — disse Maria. A sua voz era calma. — Conheço Évora. E posso trazer o que for preciso.
João hesitou.
— Pode ser perigoso. O Adriano tem olhos em toda a parte.
— Não tenho medo. — Maria endireitou o xaile. — Depois do que vi hoje, o medo é um luxo.
João olhou-a longamente. As rugas profundas no rosto dela, a firmeza nos olhos. Assentiu.
— Está bem. Mas vai com cuidado. E volta antes do anoitecer.
Maria levantou-se. Pegou numa saca de pano e enfiou lá dentro um naco de pão e uma navalha.
— Volto com as respostas. — A sua mão tocou no ombro de João. — Aguenta.
Ela saiu. A porta rangeu. João ficou sozinho na taberna, a luz do candeeiro a dançar nas paredes. A mão esquerda passou pelos cabelos. A cicatriz no lábio latejava. Lá fora, a chuva cessara. O silêncio da madrugada era cortado apenas pelo pingar das goteiras. João fechou os olhos. Atrás das pálpebras, viu o corpo de Tomás, os olhos de Adriano, a força invisível. E ouviu a voz do ourives: «O mal está a acordar.» Rangeu os dentes. A luta estava longe de acabar.
O Último eco na escuridão
Adriano ficara no celeiro, imóvel. Os capangas arrastavam o corpo de Tomás para uma carroça coberta, estacionada atrás das colinas. A chuva cessara por completo. Uma névoa baixa começava a subir da terra molhada.
O ourives olhou para o interior do celeiro. O escuro parecia palpitar. Uma presença antiga mexia-se entre as traves. Adriano sorriu.
— Estás inquieto — murmurou, como se falasse com um velho amigo. — Eles são persistentes. Mas tu és eterno.
Um sussurro percorreu o ar. As tábuas estremeceram. Uma voz gutural, quase imperceptível, formou palavras:
«O sangue chama...»
— Sim — concordou Adriano. — E terás o sangue que precisas. O inspector é um vaso perfeito. Herdou a marca do pai. E a taberneira... a linhagem dela é antiga. — Acariciou a pedra negra que trazia no bolso do colete. — Mas tudo a seu tempo.
Os capangas regressaram. Um deles tossiu.
— O corpo está na mina, patrão. Juntamente com os outros.
— Bem. — Adriano virou-se. — Agora vão à vila. Espalhem o boato de que o inspector e a Maria do Carmo estão a conspirar contra a comunidade. Que são eles os responsáveis pelos desaparecimentos.
Os homens acenaram e desapareceram na névoa. Adriano ficou sozinho. A primeira luz do dia começava a filtrar-se pelas frinchas do telhado. Olhou para o lugar onde o corpo estivera pendurado. A terra ainda estava manchada.
— O mal está a acordar — repetiu, desta vez num sussurro. — E quando acordar de todo, nada o deterá.
O seu riso ecoou pelo celeiro vazio, e a névoa lá fora engoliu o som.
O grito morreu na chuva. João e Maria correram pela rua deserta. As pedras brilhavam sob a luz amarelada do candeeiro da esquina. Lá ao fundo, um vulto escuro sumiu-se num beco. A chuva batia-lhes no rosto, o frio colava-lhes a roupa ao corpo.
— Viste quem foi? — A voz de João saiu ofegante.
Maria abanou a cabeça. O xaile pesava-lhe nos ombros, encharcado. Os olhos castanhos percorreram as sombras.
— Nada. Mas o grito... não era humano.
João apertou-lhe o braço. A mão tremia-lhe.
— Vamos sair daqui.
Regressaram à taberna. O soalho de madeira gemia sob os seus passos. Maria fechou a porta e encostou-se a ela. O seu peito arfava. João atirou o casaco molhado para uma cadeira e sentou-se, a cabeça entre as mãos. A chuva tamborilava nas vidraças.
— Precisamos de voltar ao montado — disse ele, sem levantar a cabeça. — Aquela cabana que a Zulmira nos mostrou era uma armadilha. Mas a tua visão apontou para algo real. Tem de haver um celeiro.
Maria endireitou-se. O polegar esfregou os dedos indicador e médio, num gesto rápido.
— O celeiro... — A sua voz saiu num fio. — Vi uma estrutura de madeira escura, com um telhado de zinco. Portas altas. E um cheiro a palha podre e a sangue.
João ergueu os olhos. As pupilas cinzentas faiscavam.
— Consegues lembrar-te de mais? Onde fica?
Ela fechou os olhos. As pálpebras tremeram. O corpo estremeceu.
— Para lá do poço... depois dos sobreiros. Há um trilho de pedras soltas que desce para um vale. O celeiro está escondido entre duas colinas. Ninguém lá vai há anos.
— Conheço esse sítio. — João levantou-se. — Fica perto da mina abandonada. — Pegou na lanterna e na pistola. — Vamos.
Maria hesitou. As mãos apertaram o xaile contra o peito.
— É noite. E a chuva ainda não parou.
— Melhor. Ninguém nos vê. — João fitou-a. — Ficas aqui se quiseres. Mas eu vou.
Ela rangeu os dentes. Os olhos endureceram.
— Não me deixes sozinha. — A voz saiu-lhe mais firme do que sentia.
João abriu a porta. A chuva entrou de rajada. Maria pegou num xaile seco e seguiu-o.
O Celeiro Abandonado
Saíram da vila por um carreiro de pedras soltas. A chuva amainara, mas o vento ainda fustigava as copas dos sobreiros. A lanterna de João abria um cone de luz trémula no escuro. Maria seguia-o de perto, os sapatos a chapinhar na lama. O cheiro a terra molhada e a esteva invadia-lhes as narinas.
Caminharam em silêncio durante quase uma hora. As árvores rarearam. O trilho descia agora para um vale estreito, ladeado por duas colinas baixas. A luz da lanterna revelou uma estrutura escura, ao fundo.
— É ali — sussurrou Maria. A mão agarrou o braço de João.
O celeiro surgiu da escuridão como uma carcaça de madeira apodrecida. As tábuas das paredes estavam negras de humidade e fungos. O telhado de zinco, meio arrancado, pendia sobre uma das empenas. As portas altas estavam fechadas, mas uma delas cedia ligeiramente, deixando uma fresta de escuridão.
João fez sinal para Maria parar. Acendeu a lanterna com mais força e aproximou-se. O cheiro a palha velha e a algo mais — um odor adocicado e podre — atingiu-o. O coração acelerou. Encostou o ombro à porta e empurrou. A madeira rangeu.
Lá dentro, a escuridão era densa. A lanterna varreu o interior: fardos de palha apodrecidos, traves de madeira carcomida, uma forquilha enferrujada caída no chão de terra batida. E ao fundo, um vulto suspenso.
Maria soltou um grito abafado. João avançou. O foco iluminou o corpo de um homem pendurado por cordas presas a uma trave. Os braços caídos, as pernas inertes. O rosto virado para baixo.
— Tomás — murmurou João. A voz saiu rouca.
As mãos do cadáver estavam amarradas atrás das costas. A corda grosseira cravava-se na pele roxa. O corpo balançava levemente, impelido por uma corrente de ar invisível. O cheiro a decomposição era insuportável. Moscas zumbiam no escuro.
Maria benzeu-se. As pernas tremiam-lhe.
— Ele está morto há dias...
— Precisamos de provas. — João tirou uma pequena máquina fotográfica da mochila. O flash iluminou o celeiro três vezes. Depois, baixou a câmara e olhou em redor. — Onde estão os outros corpos? A visão mostrava um lugar de cativeiro.
— Não sei. — Maria fechou os olhos. As suas mãos tocaram numa trave próxima. — Sinto... dor. Muito medo. Mas também uma presença. Algo nos observa.
João endireitou-se. O instinto alertava-o. A sua mão pousou na pistola. O silêncio tornou-se opressivo. Nem o zumbido das moscas. Apenas o rangido das traves.
Foi então que as portas do celeiro se fecharam com um estrondo.
A Força Invisível
O som ribombou como um trovão seco. João e Maria viraram-se. As portas estavam firmemente fechadas. Não havia tranca, mas a madeira parecia colada. A lanterna de João tremeu na sua mão.
— O que foi isto? — A voz de Maria saiu trémula.
João não respondeu. A sua mão apertou a pistola. O ar tornou-se pesado. Um zumbido grave encheu o celeiro. As traves estremeceram. O corpo de Tomás oscilou violentamente.
De repente, uma onda de choque invisível arremessou João contra a parede. O seu corpo bateu nas tábuas com um baque oco. A lanterna caiu e rolou pelo chão. Maria foi projectada para o lado oposto, os pés a perderem o contacto com a terra. Caíu de joelhos, o xaile a rasgar-se nos pregos do chão.
— João! — gritou ela.
Outra onda atingiu-os. Desta vez, mais forte. O celeiro todo rangeu. A forquilha de ferro voou pelos ares e cravou-se numa trave. João tentou levantar-se, mas uma força esmagava-lhe o peito. A boca encheu-se de um gosto metálico.
O ar arrefeceu. Um riso ecoou. Não vinha de um ponto fixo, mas de toda a parte. Um riso grave, arrastado, que gelava a medula.
— Estão a brincar com forças que não compreendem.
A voz de Adriano. João rangeu os dentes. A cicatriz no lábio ardia. Ergueu-se, apoiando-se à parede. A pistola apontou para a escuridão, mas a mão bailava.
— Mostra-te, cobarde.
Uma gargalhada. As portas abriram-se de rompante. Adriano Saragoça estava de pé à entrada, as mãos nos bolsos do colete. Dois homens encorpados ladeavam-no, as caras escondidas por capuzes. Atrás deles, a chuva miudinha caía.
— Inspector Martins. — O sorriso de Adriano era uma fenda. — E a senhora Maria do Carmo. Que bela surpresa.
Maria levantou-se. As mãos esfregavam os braços doridos. Os seus olhos cravaram-se nos do ourives.
— Você... foi você.
— Fui eu o quê? — Adriano inclinou a cabeça. — Apenas guardo o que me pertence. Esta vila, estas almas... são minhas. E vocês estão a perturbar o equilíbrio.
João avançou um passo. Os capangas moveram-se, mas Adriano ergueu a mão.
— Não se aproxime, inspector. A força que aqui habita não aprecia intrusos. — Fez um gesto para o corpo de Tomás. — Levem-no.
Os dois homens dirigiram-se ao centro do celeiro. Com uma destreza mecânica, desamarraram as cordas e puxaram o corpo para baixo. Tomás caiu no chão com um baque surdo. Arrastaram-no para a porta.
— Vão apagar as provas — rugiu João. — Não vou deixar.
Levantou a pistola. Mas uma terceira onda de choque atingiu-o em cheio. A arma voou-lhe da mão. O corpo foi de novo atirado contra a madeira. Maria gritou e tentou correr para ele, mas uma força invisível reteve-a, os pés colados ao chão.
Adriano observava, o sorriso intacto.
— Vejam só. A vossa própria teimosia atrai o mal. É como um íman. — Deu um passo em frente. Os seus olhos cinzentos brilhavam na penumbra. — O eco do passado não se cala com balas. É preciso outra coisa. Algo que vocês não têm.
João cuspiu sangue. As costelas doíam. Mas a raiva era maior.
— O meu pai... tu mataste-o.
Adriano parou. A sua expressão mudou, tornou-se sombria.
— O teu pai escolheu a morte. Eu apenas lhe mostrei o reflexo do seu medo. — Aproximou-se mais. — E tu, João, és igual a ele. Herdaste a mesma escuridão. Só ainda não a aceitaste.
— Cala-te! — Maria libertou-se da força invisível e colocou-se entre os dois. — Não lhe toques.
Adriano olhou para ela com desprezo.
— A taberneira que vê visões. Sabes porque é que a tua avó ardeu? Porque ousou desafiar o que não entendia. Tu segues o mesmo caminho.
As lágrimas correram pelo rosto de Maria. Mas não recuou.
— Prefiro arder do que servir-te.
Adriano riu. Um riso seco, sem alegria.
— Muito bem. Hoje não vão arder. Mas vão sair daqui com uma lição. — Fez um sinal aos capangas. — Larguem o corpo. Deixem-nos ir.
Os homens hesitaram, mas obedeceram. Largaram Tomás perto da porta. Adriano apontou para a saída.
— Fujam. Voltem para a vila e digam a todos o que viram. Ninguém acreditará em vocês. E lembrem-se: o mal está a acordar.
João agarrou Maria pelo braço. Tropeçaram para fora do celeiro. A chuva caía agora mansa. Atrás deles, Adriano permaneceu de pé, observando-os. O seu vulto escuro recortava-se contra a entrada. Antes que desaparecessem na noite, a sua voz soou uma última vez, fria como aço:
— O mal está a acordar.
A Fuga e o Terror
João e Maria cambalearam pelo trilho de pedras. A chuva colava-se-lhes ao rosto. Atrás, o celeiro desapareceu na escuridão. Nenhum som os perseguia. Apenas o vento e o ladrar distante de um cão.
As pernas de João cederam. Caiu de joelhos na lama. Maria ajoelhou-se ao seu lado.
— João! Estás ferido?
Ele abanou a cabeça. O peito arfava. Os olhos estavam vidrados.
— Ele... ele matou o meu pai. — A voz saiu-lhe embargada. — E eu não posso fazer nada.
Maria segurou-lhe o rosto com as duas mãos. As calejadas palmas transmitiam um calor inesperado.
— Podes. Podes e vais. Mas não sozinho. — As suas palavras eram firmes. — Aquela coisa no celeiro... não era só o Adriano. Era o eco. O mal de que falas. Mas não é invencível.
João fitou-a. As lágrimas misturavam-se com a chuva.
— Como sabes?
— Porque a minha avó também o enfrentou. E perdeu porque estava sozinha. — Maria ergueu-o. — Nós não estamos.
Levantaram-se. João sentiu uma força nova nos membros. A raiva dera lugar a uma determinação fria.
— Ele quer que fujamos. Que desistamos. — João limpou o rosto com as costas da mão. — Mas eu vou voltar.
— Juntos. — Maria apertou-lhe a mão.
Caminharam em silêncio até à vila. A luz cinzenta da madrugada começava a despontar por entre as nuvens. Ao entrarem na rua principal, algumas janelas já se iluminavam. Na taberna, Maria acendeu o candeeiro. As suas mãos ainda tremiam.
— Precisas de um médico.
— Não. — João sentou-se pesadamente numa cadeira. — Preciso de respostas. O corpo do Tomás estava lá. A tua visão provou que não estamos loucos.
— Mas as provas desapareceram. O Adriano levou-as. — Maria serviu-lhe um copo de aguardente. — E ninguém na vila vai acreditar em nós.
João bebeu de um trago. O líquido queimou-lhe a garganta.
— Então temos de arranjar provas irrefutáveis. — Passou a mão pelos cabelos desgrenhados. — A Zulmira enganou-nos. Mas e se houver outras pistas? O nosso amigo ourives tem um passado. O meu pai investigou-o. Deve haver documentos.
— A casa do teu pai? Em Évora? — Maria sentou-se à sua frente. Os polegares esfregavam os dedos.
— Sim. Os pertences dele estão guardados. Preciso de lá ir. Mas não posso deixar a vila agora.
— Vou eu — disse Maria. A sua voz era calma. — Conheço Évora. E posso trazer o que for preciso.
João hesitou.
— Pode ser perigoso. O Adriano tem olhos em toda a parte.
— Não tenho medo. — Maria endireitou o xaile. — Depois do que vi hoje, o medo é um luxo.
João olhou-a longamente. As rugas profundas no rosto dela, a firmeza nos olhos. Assentiu.
— Está bem. Mas vai com cuidado. E volta antes do anoitecer.
Maria levantou-se. Pegou numa saca de pano e enfiou lá dentro um naco de pão e uma navalha.
— Volto com as respostas. — A sua mão tocou no ombro de João. — Aguenta.
Ela saiu. A porta rangeu. João ficou sozinho na taberna, a luz do candeeiro a dançar nas paredes. A mão esquerda passou pelos cabelos. A cicatriz no lábio latejava. Lá fora, a chuva cessara. O silêncio da madrugada era cortado apenas pelo pingar das goteiras. João fechou os olhos. Atrás das pálpebras, viu o corpo de Tomás, os olhos de Adriano, a força invisível. E ouviu a voz do ourives: «O mal está a acordar.» Rangeu os dentes. A luta estava longe de acabar.
O Último eco na escuridão
Adriano ficara no celeiro, imóvel. Os capangas arrastavam o corpo de Tomás para uma carroça coberta, estacionada atrás das colinas. A chuva cessara por completo. Uma névoa baixa começava a subir da terra molhada.
O ourives olhou para o interior do celeiro. O escuro parecia palpitar. Uma presença antiga mexia-se entre as traves. Adriano sorriu.
— Estás inquieto — murmurou, como se falasse com um velho amigo. — Eles são persistentes. Mas tu és eterno.
Um sussurro percorreu o ar. As tábuas estremeceram. Uma voz gutural, quase imperceptível, formou palavras:
«O sangue chama...»
— Sim — concordou Adriano. — E terás o sangue que precisas. O inspector é um vaso perfeito. Herdou a marca do pai. E a taberneira... a linhagem dela é antiga. — Acariciou a pedra negra que trazia no bolso do colete. — Mas tudo a seu tempo.
Os capangas regressaram. Um deles tossiu.
— O corpo está na mina, patrão. Juntamente com os outros.
— Bem. — Adriano virou-se. — Agora vão à vila. Espalhem o boato de que o inspector e a Maria do Carmo estão a conspirar contra a comunidade. Que são eles os responsáveis pelos desaparecimentos.
Os homens acenaram e desapareceram na névoa. Adriano ficou sozinho. A primeira luz do dia começava a filtrar-se pelas frinchas do telhado. Olhou para o lugar onde o corpo estivera pendurado. A terra ainda estava manchada.
— O mal está a acordar — repetiu, desta vez num sussurro. — E quando acordar de todo, nada o deterá.
O seu riso ecoou pelo celeiro vazio, e a névoa lá fora engoliu o som.