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O Corpo no Poço
IA
A Descida ao Poço
Saiu da pensão com os primeiros alvores do dia. O ar frio da madrugada colava-se-lhe à pele. A rua principal estava deserta. Os cães ainda dormiam nos portais.
Caminhou até ao limite da vila onde as casas caiadas se dispersavam em quintais e hortas. O Poço da Azinheira ficava para lá dos montados, a sul, numa clareira que ninguém cultivava.
Lembrava-se da visão. O cheiro a terra podre. O baque do corpo. A voz gelada. Os passos apressavam-se contra a vontade. O suor arrefecia-lhe as costas. Não havia vento. O silêncio era uma presença.
O poço apareceu de repente, após uma curva do caminho. Era uma estrutura antiga, de pedras escuras e musgosas. A boca circular tinha um rebordo baixo, sem proteção. Uma roldana de ferro enferrujado pendia de uma trave de madeira, com um resto de corda apodrecida. Um balde esburacado jazia no chão, esquecido. A terra ao redor estava calcinada. Nenhuma erva. Nenhum inseto.
João aproximou-se. O coração batia-lhe na garganta. Inclinou-se sobre o buraco. Um odor a terra húmida e podridão subiu do fundo. A escuridão era densa. As mãos humedeceram-se.
A pistola no coldre não servia de nada. Precisava de luz. Pegou na lanterna da mochila e acendeu-a. O facho cortou as trevas. As paredes do poço eram irregulares, com saliências de pedra solta. A água não corria. O fundo estava seco. A uma profundidade de talvez seis metros, um vulto.
João prendeu a respiração. Ajustou o foco. Um braço estendido. Dedos crispados. Um vestido escuro. Cabelo negro que mais parecia uma mancha de tinta.
Um arrepio percorreu-lhe a nuca. Recuou um passo. A visão confirmava-se. Helena.
Não havia tempo para hesitações. Procurou à volta do poço um ponto de ancoragem. A trave de madeira ainda resistia. A corda da roldana era curta e frágil. Precisava de algo sólido. Abriu a mochila e tirou a corda. Prendeu-a à base da trave com um nó de oito. Deu três puxões secos. A madeira gemeu, mas aguentou. Atou a outra ponta ao cinto. Tirou o casaco. O camiseiro branco colou-se ao corpo molhado.
Sentou-se na borda. As pernas balançaram no abismo. A luz da lanterna dançava nas pedras. Desceu lentamente, os braços a suportarem o peso, os pés a tatearem as saliências. A cada metro, o ar ficava mais espesso. O cheiro a decomposição apertava-lhe a garganta. Uma mosca zumbiu-lhe ao ouvido.
Os pés tocaram o fundo. Terra solta e lama seca. O corpo estava a dois metros. João soltou a corda. A lanterna iluminou o rosto da rapariga.
Tinha os olhos abertos. As pupilas dilatadas fixavam o nada. A boca escancarava-se num grito mudo. A pele tinha uma cor pálida, quase azulada. As marcas no pescoço eram escuras, profundas. Dedos. Não corda. Estrangulada.
João ajoelhou-se. As pedras desapareceram-lhe sob os joelhos. A sua mão direita procurou o pulso da rapariga. Frio. Rígido. Os dedos da mão esquerda ainda estavam crispados, como se tentassem agarrar-se à vida. Unhas partidas. Terra e sangue seco.
O tempo parou. O coração martelava-lhe o peito. A visão tinha sido exata. Cada detalhe. Até o cheiro a terra molhada. Até a voz. O eco.
Levantou-se. As pernas tremiam. Apoiou-se à parede do poço. O lodo frio escorreu-lhe pelos dedos. Olhou para cima. O céu era um círculo leitoso, distante. Precisava de ajuda. Encheu o peito de ar. Gritou.
— Aqui em baixo! Alguém! — A voz ecoou nas pedras. Silêncio. — Há um corpo! Tragam uma corda!
Enquanto esperava, iluminou as paredes do poço. Durante um segundo, a pedra pareceu mais escura do que devia. Como se absorvesse o facho. Depois, as marcas apareceram — não só arranhões, mas padrões repetidos, demasiado regulares para serem acidentais. O rosto de Helena parecia mexer-se nas sombras. Mas eram só as sombras.
Examinou o corpo sem o tocar. O vestido era simples, de algodão, manchado de terra. Nenhuma jóia. Nenhuns sapatos. Os pés descalços tinham arranhões. Sinais de arrastamento. No chão, marcas de luta. Sulcos no lodo. Pedras salpicadas de algo mais escuro.
Um ruído veio de cima. Vozes. Passos. O agente Lopes.
— Inspector Martins? Está aí em baixo?
— Estou! — gritou João. — Mande uma corda!
— Já vai, espere.
Um minuto depois, uma corda grossa desceu. João atou-a ao peito, por baixo dos braços. Puxaram-no à superfície. Ao chegar à borda, as mãos ásperas de Lopes agarraram-lhe o antebraço. João caiu de joelhos na terra seca. A luz do sol já doía nos olhos.
Os Habitantes Acorrem
— Quem está aí em baixo? — A voz de Lopes era grave.
— Uma mulher. Jovem. Morta. — João respirou fundo. — É a Helena. A desaparecida.
O agente Lopes benzeu-se. As suas feições ficaram cinzentas. Por trás dele, um grupo de cinco ou seis aldeões aglomerava-se. Alguns seguravam lanternas e cordas. Outros tinham apenas os olhos arregalados. João reconheceu o rosto de Adriano Saragoça, o ourives, que vira no dia anterior na esquadra, embora não trocassem palavra. Vinha de camisa branca e colete escuro, apesar da hora. O cabelo grisalho e ralo estava penteado para trás.
— Bom dia, inspector. — Adriano inclinou a cabeça. A voz era macia, quase untuosa. — Parece que as suas... intuições estavam corretas. É uma desolação. Ofereço a minha ajuda. A comunidade está ao seu dispor.
João ergueu-se. O corpo ainda lhe tremia. Olhou para Adriano. Os olhos cinzentos do ourives não pestanejaram. Não havia ali pena nem surpresa. Apenas uma frieza calculada.
— Obrigado. — A resposta de João foi seca. Virou-se para Lopes. — Preciso que isole o local. Chame a brigada de Évora. Ninguém desce sem a minha autorização.
Lopes assentiu, mas um murmúrio correu pelo grupo. Uma mulher baixa e robusta, de xaile de lã, avançou um passo. João reconheceu-a imediatamente: Maria do Carmo, a dona da taberna. Tinha as faces vermelhas e os punhos cerrados.
— Forasteiros trazem azar. — A frase saiu-lhe entre dentes, alta o suficiente para ser ouvida. Vários aldeões concordaram com a cabeça. Adriano não se moveu.
João fitou-a. Os olhos de Maria do Carmo desviaram-se. O xaile subiu até ao queixo. O olhar da mulher ficou suspenso nele como uma pedra. Ele não respondeu. Em vez disso, desatou a corda do peito e entregou-a a Lopes.
— Vamos tirar o corpo de lá. Com cuidado.
Os minutos seguintes foram de caos contido. Dois homens robustos desceram ao poço com a ajuda de um guincho improvisado. Içaram o corpo de Helena num lençol. Quando ela emergiu à luz do sol, um silêncio absoluto caiu sobre a clareira. A mão de alguém tapou a boca de uma velha que gemia. O rosto da rapariga mantinha a expressão de terror. As marcas roxas no pescoço eram ainda mais visíveis.
João ajoelhou-se junto ao corpo. Com a manga da camisa, limpou um pouco da terra do rosto. Depois, pousou o lençol sobre ela.
— Alguém sabe o que ela fazia aqui? — perguntou, sem olhar para ninguém.
Ninguém respondeu. O vento levantou uma nuvem de pó. Adriano pigarreou.
— O inspector há de compreender. As pessoas têm medo. Desaparecimentos assim... ninguém quer pensar no pior.
— O pior já está aqui. — João levantou-se. — E vou descobrir quem fez isto.
Um cheiro a ládano atravessou a clareira. João ergueu a cabeça. Atrás de uma azinheira, uma mulher de farrapos negros observava. Os olhos escuros fixavam a cena sem pestanejar. Zulmira Valentim. Um sorriso fino, imperceptível, desenhou-se-lhe nos lábios. Ninguém pareceu notá-la, exceto João, que a viu por um instante. Depois, ela recuou para as sombras dos sobreiros e desapareceu.
Adriano aproximou-se de João. Um odor subtil a incenso e metal frio acompanhou-o. A sua mão pousou no ombro do inspector.
— Se precisar de alguma coisa, a minha ourivesaria está à sua disposição. Conheço esta vila como ninguém. E sei que, sozinho, será difícil.
João desviou o ombro. Não respondeu. Adriano sorriu, um esgar que não atingiu os olhos. Afastou-se lentamente, acenando aos aldeões. Dois deles seguiram-no.
Lopes aproximou-se de João, coçando o bigode.
— Isto vai dar problemas. A vila já está a ferver. Viram-no sair de madrugada. A dona Alice disse que o senhor inspector parecia possesso. Agora encontrámos um corpo... As pessoas vão desconfiar.
— Que desconfiem. — João limpou as mãos às calças. — Mas alguém aqui sabe mais do que diz. E eu vou descobrir.
Lopes suspirou. Olhou para o corpo coberto.
— Ela era uma rapariga alegre. Trabalhava na casa do ourives. Limpezas, acho eu. A mãe morreu há dois anos. O pai bebe. Vai ser duro.
— Mande avisar a família. — A voz de João saiu mais áspera do que pretendia. — E quero uma lista de todas as pessoas que estiveram com ela nos últimos dias.
Os aldeões dispersavam-se em silêncio. Maria do Carmo foi a última a sair. Antes de virar costas, olhou para João uma vez mais. Os seus olhos castanhos carregavam algo mais que desconfiança. João sustentou-lhe o olhar. Ela baixou a cabeça e partiu.
Olhares na Taberna
O resto da manhã passou-se entre averiguações e frustrações. A equipa forense de Évora chegou às dez horas e isolou a área do poço. João passou o comando ao delegado, mas recusou-se a abandonar o local. Observou a recolha de vestígios, os relâmpagos das câmaras, os dedos enluvados que vasculhavam a terra. O corpo de Helena foi levado numa maca coberta. A notícia já corria pela vila como fogo em palha.
Quando o sol ia alto e o calor apertava, João regressou a Alpedreza. A fome e a sede martelavam-lhe o corpo, mas a mente estava demasiado desperta para descansar. Precisava de respostas. Lopes sugerira a taberna como o centro da vida social. Era ali que as palavras escapavam entre copos de tinto.
A Taberna do Carmo ocupava o rés-do-chão de uma casa comprida, com portas de madeira abertas e mesas de tampo grosso. Cheirava a vinho, a sopa e a tabaco. A esta hora, o salão estava vazio. Apenas uma nora remexia os tachos na cozinha. João sentou-se ao balcão. As mãos pousaram no tampo gasto.
Maria do Carmo apareceu de rompante, vinda das traseiras. Trazia um avental encardido e um pano de prato ao ombro. Ao vê-lo, travou o passo. Os seus olhos examinaram-no de alto a baixo, mas não disseram nada.
— Bom dia. Um café, se faz favor. — A voz de João era neutra.
Ela assentiu e virou-se para a máquina. Os seus movimentos eram mecânicos. O café saiu curto e espesso, como era uso. Pousou a chávena à frente dele. O vapor subiu. João levou-a aos lábios sem açúcar. O amargo confortou-o.
— Movimentado, este dia. — A frase foi uma isca. Maria do Carmo não mordeu. Pegou num pano e começou a polir copos. As mãos tremiam ligeiramente.
— É o que é. — murmurou.
João fixou-a. O rosto redondo da mulher estava mais enrugado do que na véspera. As olheiras aparentavam insónia.
— A senhora conhecia a Helena?
O pano parou. Maria do Carmo encolheu os ombros.
— Conhecia. Toda a gente conhecia.
— E... — João fez uma pausa. — O seu instinto diz-lhe alguma coisa sobre o que aconteceu?
Ela largou o pano. Os dedos agarraram-se à borda do balcão. As costas das mãos tinham veias grossas, como raízes.
— O meu instinto, inspector, diz-me que devia ficar calada. Já há muitos anos que aprendi a não me meter.
— Mas eu sou um forasteiro. Devo-me meter?
Ela não respondeu. O silêncio estendeu-se. Uma moca bateu ao longe. João terminou o café e pousou a chávena com força.
— Alguém matou aquela rapariga. E há mais três desaparecidos. Se souber de alguma coisa, é seu dever falar.
Maria do Carmo finalmente levantou os olhos. Mas não olhou para ele. Os seus olhos vaguearam até à janela, onde a luz entrava esbranquiçada.
— Dever... — A palavra saiu-lhe com desprezo. — O dever é o que nos enterra.
João rangeu os dentes. Preparava-se para insistir quando a porta da taberna rangeu e um velho entrou, apoiado numa bengala. Maria do Carmo virou-lhe as costas. Na cozinha, os tachos tilintaram uns contra os outros.
Levantou-se e dirigiu-se à porta. Antes de sair, virou-se. Maria do Carmo estava de costas, a encher um copo de vinho. As suas costas largas pareciam um muro. João esperou um segundo, dois. Ela não se virou.
Sabia alguma coisa. Disso já não tinha dúvidas.
Saiu da pensão com os primeiros alvores do dia. O ar frio da madrugada colava-se-lhe à pele. A rua principal estava deserta. Os cães ainda dormiam nos portais.
Caminhou até ao limite da vila onde as casas caiadas se dispersavam em quintais e hortas. O Poço da Azinheira ficava para lá dos montados, a sul, numa clareira que ninguém cultivava.
Lembrava-se da visão. O cheiro a terra podre. O baque do corpo. A voz gelada. Os passos apressavam-se contra a vontade. O suor arrefecia-lhe as costas. Não havia vento. O silêncio era uma presença.
O poço apareceu de repente, após uma curva do caminho. Era uma estrutura antiga, de pedras escuras e musgosas. A boca circular tinha um rebordo baixo, sem proteção. Uma roldana de ferro enferrujado pendia de uma trave de madeira, com um resto de corda apodrecida. Um balde esburacado jazia no chão, esquecido. A terra ao redor estava calcinada. Nenhuma erva. Nenhum inseto.
João aproximou-se. O coração batia-lhe na garganta. Inclinou-se sobre o buraco. Um odor a terra húmida e podridão subiu do fundo. A escuridão era densa. As mãos humedeceram-se.
A pistola no coldre não servia de nada. Precisava de luz. Pegou na lanterna da mochila e acendeu-a. O facho cortou as trevas. As paredes do poço eram irregulares, com saliências de pedra solta. A água não corria. O fundo estava seco. A uma profundidade de talvez seis metros, um vulto.
João prendeu a respiração. Ajustou o foco. Um braço estendido. Dedos crispados. Um vestido escuro. Cabelo negro que mais parecia uma mancha de tinta.
Um arrepio percorreu-lhe a nuca. Recuou um passo. A visão confirmava-se. Helena.
Não havia tempo para hesitações. Procurou à volta do poço um ponto de ancoragem. A trave de madeira ainda resistia. A corda da roldana era curta e frágil. Precisava de algo sólido. Abriu a mochila e tirou a corda. Prendeu-a à base da trave com um nó de oito. Deu três puxões secos. A madeira gemeu, mas aguentou. Atou a outra ponta ao cinto. Tirou o casaco. O camiseiro branco colou-se ao corpo molhado.
Sentou-se na borda. As pernas balançaram no abismo. A luz da lanterna dançava nas pedras. Desceu lentamente, os braços a suportarem o peso, os pés a tatearem as saliências. A cada metro, o ar ficava mais espesso. O cheiro a decomposição apertava-lhe a garganta. Uma mosca zumbiu-lhe ao ouvido.
Os pés tocaram o fundo. Terra solta e lama seca. O corpo estava a dois metros. João soltou a corda. A lanterna iluminou o rosto da rapariga.
Tinha os olhos abertos. As pupilas dilatadas fixavam o nada. A boca escancarava-se num grito mudo. A pele tinha uma cor pálida, quase azulada. As marcas no pescoço eram escuras, profundas. Dedos. Não corda. Estrangulada.
João ajoelhou-se. As pedras desapareceram-lhe sob os joelhos. A sua mão direita procurou o pulso da rapariga. Frio. Rígido. Os dedos da mão esquerda ainda estavam crispados, como se tentassem agarrar-se à vida. Unhas partidas. Terra e sangue seco.
O tempo parou. O coração martelava-lhe o peito. A visão tinha sido exata. Cada detalhe. Até o cheiro a terra molhada. Até a voz. O eco.
Levantou-se. As pernas tremiam. Apoiou-se à parede do poço. O lodo frio escorreu-lhe pelos dedos. Olhou para cima. O céu era um círculo leitoso, distante. Precisava de ajuda. Encheu o peito de ar. Gritou.
— Aqui em baixo! Alguém! — A voz ecoou nas pedras. Silêncio. — Há um corpo! Tragam uma corda!
Enquanto esperava, iluminou as paredes do poço. Durante um segundo, a pedra pareceu mais escura do que devia. Como se absorvesse o facho. Depois, as marcas apareceram — não só arranhões, mas padrões repetidos, demasiado regulares para serem acidentais. O rosto de Helena parecia mexer-se nas sombras. Mas eram só as sombras.
Examinou o corpo sem o tocar. O vestido era simples, de algodão, manchado de terra. Nenhuma jóia. Nenhuns sapatos. Os pés descalços tinham arranhões. Sinais de arrastamento. No chão, marcas de luta. Sulcos no lodo. Pedras salpicadas de algo mais escuro.
Um ruído veio de cima. Vozes. Passos. O agente Lopes.
— Inspector Martins? Está aí em baixo?
— Estou! — gritou João. — Mande uma corda!
— Já vai, espere.
Um minuto depois, uma corda grossa desceu. João atou-a ao peito, por baixo dos braços. Puxaram-no à superfície. Ao chegar à borda, as mãos ásperas de Lopes agarraram-lhe o antebraço. João caiu de joelhos na terra seca. A luz do sol já doía nos olhos.
Os Habitantes Acorrem
— Quem está aí em baixo? — A voz de Lopes era grave.
— Uma mulher. Jovem. Morta. — João respirou fundo. — É a Helena. A desaparecida.
O agente Lopes benzeu-se. As suas feições ficaram cinzentas. Por trás dele, um grupo de cinco ou seis aldeões aglomerava-se. Alguns seguravam lanternas e cordas. Outros tinham apenas os olhos arregalados. João reconheceu o rosto de Adriano Saragoça, o ourives, que vira no dia anterior na esquadra, embora não trocassem palavra. Vinha de camisa branca e colete escuro, apesar da hora. O cabelo grisalho e ralo estava penteado para trás.
— Bom dia, inspector. — Adriano inclinou a cabeça. A voz era macia, quase untuosa. — Parece que as suas... intuições estavam corretas. É uma desolação. Ofereço a minha ajuda. A comunidade está ao seu dispor.
João ergueu-se. O corpo ainda lhe tremia. Olhou para Adriano. Os olhos cinzentos do ourives não pestanejaram. Não havia ali pena nem surpresa. Apenas uma frieza calculada.
— Obrigado. — A resposta de João foi seca. Virou-se para Lopes. — Preciso que isole o local. Chame a brigada de Évora. Ninguém desce sem a minha autorização.
Lopes assentiu, mas um murmúrio correu pelo grupo. Uma mulher baixa e robusta, de xaile de lã, avançou um passo. João reconheceu-a imediatamente: Maria do Carmo, a dona da taberna. Tinha as faces vermelhas e os punhos cerrados.
— Forasteiros trazem azar. — A frase saiu-lhe entre dentes, alta o suficiente para ser ouvida. Vários aldeões concordaram com a cabeça. Adriano não se moveu.
João fitou-a. Os olhos de Maria do Carmo desviaram-se. O xaile subiu até ao queixo. O olhar da mulher ficou suspenso nele como uma pedra. Ele não respondeu. Em vez disso, desatou a corda do peito e entregou-a a Lopes.
— Vamos tirar o corpo de lá. Com cuidado.
Os minutos seguintes foram de caos contido. Dois homens robustos desceram ao poço com a ajuda de um guincho improvisado. Içaram o corpo de Helena num lençol. Quando ela emergiu à luz do sol, um silêncio absoluto caiu sobre a clareira. A mão de alguém tapou a boca de uma velha que gemia. O rosto da rapariga mantinha a expressão de terror. As marcas roxas no pescoço eram ainda mais visíveis.
João ajoelhou-se junto ao corpo. Com a manga da camisa, limpou um pouco da terra do rosto. Depois, pousou o lençol sobre ela.
— Alguém sabe o que ela fazia aqui? — perguntou, sem olhar para ninguém.
Ninguém respondeu. O vento levantou uma nuvem de pó. Adriano pigarreou.
— O inspector há de compreender. As pessoas têm medo. Desaparecimentos assim... ninguém quer pensar no pior.
— O pior já está aqui. — João levantou-se. — E vou descobrir quem fez isto.
Um cheiro a ládano atravessou a clareira. João ergueu a cabeça. Atrás de uma azinheira, uma mulher de farrapos negros observava. Os olhos escuros fixavam a cena sem pestanejar. Zulmira Valentim. Um sorriso fino, imperceptível, desenhou-se-lhe nos lábios. Ninguém pareceu notá-la, exceto João, que a viu por um instante. Depois, ela recuou para as sombras dos sobreiros e desapareceu.
Adriano aproximou-se de João. Um odor subtil a incenso e metal frio acompanhou-o. A sua mão pousou no ombro do inspector.
— Se precisar de alguma coisa, a minha ourivesaria está à sua disposição. Conheço esta vila como ninguém. E sei que, sozinho, será difícil.
João desviou o ombro. Não respondeu. Adriano sorriu, um esgar que não atingiu os olhos. Afastou-se lentamente, acenando aos aldeões. Dois deles seguiram-no.
Lopes aproximou-se de João, coçando o bigode.
— Isto vai dar problemas. A vila já está a ferver. Viram-no sair de madrugada. A dona Alice disse que o senhor inspector parecia possesso. Agora encontrámos um corpo... As pessoas vão desconfiar.
— Que desconfiem. — João limpou as mãos às calças. — Mas alguém aqui sabe mais do que diz. E eu vou descobrir.
Lopes suspirou. Olhou para o corpo coberto.
— Ela era uma rapariga alegre. Trabalhava na casa do ourives. Limpezas, acho eu. A mãe morreu há dois anos. O pai bebe. Vai ser duro.
— Mande avisar a família. — A voz de João saiu mais áspera do que pretendia. — E quero uma lista de todas as pessoas que estiveram com ela nos últimos dias.
Os aldeões dispersavam-se em silêncio. Maria do Carmo foi a última a sair. Antes de virar costas, olhou para João uma vez mais. Os seus olhos castanhos carregavam algo mais que desconfiança. João sustentou-lhe o olhar. Ela baixou a cabeça e partiu.
Olhares na Taberna
O resto da manhã passou-se entre averiguações e frustrações. A equipa forense de Évora chegou às dez horas e isolou a área do poço. João passou o comando ao delegado, mas recusou-se a abandonar o local. Observou a recolha de vestígios, os relâmpagos das câmaras, os dedos enluvados que vasculhavam a terra. O corpo de Helena foi levado numa maca coberta. A notícia já corria pela vila como fogo em palha.
Quando o sol ia alto e o calor apertava, João regressou a Alpedreza. A fome e a sede martelavam-lhe o corpo, mas a mente estava demasiado desperta para descansar. Precisava de respostas. Lopes sugerira a taberna como o centro da vida social. Era ali que as palavras escapavam entre copos de tinto.
A Taberna do Carmo ocupava o rés-do-chão de uma casa comprida, com portas de madeira abertas e mesas de tampo grosso. Cheirava a vinho, a sopa e a tabaco. A esta hora, o salão estava vazio. Apenas uma nora remexia os tachos na cozinha. João sentou-se ao balcão. As mãos pousaram no tampo gasto.
Maria do Carmo apareceu de rompante, vinda das traseiras. Trazia um avental encardido e um pano de prato ao ombro. Ao vê-lo, travou o passo. Os seus olhos examinaram-no de alto a baixo, mas não disseram nada.
— Bom dia. Um café, se faz favor. — A voz de João era neutra.
Ela assentiu e virou-se para a máquina. Os seus movimentos eram mecânicos. O café saiu curto e espesso, como era uso. Pousou a chávena à frente dele. O vapor subiu. João levou-a aos lábios sem açúcar. O amargo confortou-o.
— Movimentado, este dia. — A frase foi uma isca. Maria do Carmo não mordeu. Pegou num pano e começou a polir copos. As mãos tremiam ligeiramente.
— É o que é. — murmurou.
João fixou-a. O rosto redondo da mulher estava mais enrugado do que na véspera. As olheiras aparentavam insónia.
— A senhora conhecia a Helena?
O pano parou. Maria do Carmo encolheu os ombros.
— Conhecia. Toda a gente conhecia.
— E... — João fez uma pausa. — O seu instinto diz-lhe alguma coisa sobre o que aconteceu?
Ela largou o pano. Os dedos agarraram-se à borda do balcão. As costas das mãos tinham veias grossas, como raízes.
— O meu instinto, inspector, diz-me que devia ficar calada. Já há muitos anos que aprendi a não me meter.
— Mas eu sou um forasteiro. Devo-me meter?
Ela não respondeu. O silêncio estendeu-se. Uma moca bateu ao longe. João terminou o café e pousou a chávena com força.
— Alguém matou aquela rapariga. E há mais três desaparecidos. Se souber de alguma coisa, é seu dever falar.
Maria do Carmo finalmente levantou os olhos. Mas não olhou para ele. Os seus olhos vaguearam até à janela, onde a luz entrava esbranquiçada.
— Dever... — A palavra saiu-lhe com desprezo. — O dever é o que nos enterra.
João rangeu os dentes. Preparava-se para insistir quando a porta da taberna rangeu e um velho entrou, apoiado numa bengala. Maria do Carmo virou-lhe as costas. Na cozinha, os tachos tilintaram uns contra os outros.
Levantou-se e dirigiu-se à porta. Antes de sair, virou-se. Maria do Carmo estava de costas, a encher um copo de vinho. As suas costas largas pareciam um muro. João esperou um segundo, dois. Ela não se virou.
Sabia alguma coisa. Disso já não tinha dúvidas.