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A Sombra do Ourives
IA
A Vigília no Largo
O largo da igreja dormia sob um manto de estrelas frias. A calçada de pedra irregular reflectia a luz pálida da lua, desenhando sombras que dançavam quando a brisa agitava as folhas das oliveiras centenárias. No banco de granito, João e Maria do Carmo partilhavam o silêncio como se fosse um cálice de vinho velho — com lentidão e respeito.
João passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados, um gesto que já não denunciava ansiedade, mas apenas cansaço. Os fios prateados nas têmporas brilhavam à luz das estrelas.
— Ainda as vês? — perguntou Maria, sem o olhar. As mãos calejadas repousavam no regaço, esfregando o polegar contra os dedos indicador e médio, como se desfiasse um rosário invisível.
João rangeu os dentes, um ruído subtil que ela já conhecia.
— Vejo. Mas já não me assustam.
Maria virou o rosto redondo, os olhos castanhos escuros a sondarem-no.
— E o que vês agora?
— Fragmentos. Imagens soltas. Uma mulher ao longe, um vulto no poço. Às vezes, a criança. Mas já não me acusa. Sorri e desaparece.
— Isso é bom.
— É. Aprendi a viver com elas. Já não me fazem duvidar de mim.
Maria soltou um suspiro que pareceu trazer consigo o peso de muitas noites de vigília.
— O mal está adormecido. Mas a vigilância é eterna. A minha avó dizia que o diabo nunca dorme; apenas finge.
João concordou com um aceno de cabeça. Tirou do bolso do casaco de tweed um cigarro e acendeu-o. A ponta incandescente desenhou um pequeno arco no escuro quando levou a mão à boca.
— Vais ficar? — perguntou ela.
— Vou. Pedi transferência para a esquadra. O Lopes precisa de ajuda. E eu... preciso de um sítio onde possa vigiar.
— Não tens medo de que a loucura regresse?
— A loucura nunca me deixou. Só aprendi a domá-la. E tu?
Maria puxou o xale de lã sobre os ombros, mesmo que a noite não fosse fria.
— Eu não tenho para onde ir. Esta é a minha terra. A taberna reabriu. As pessoas voltam a falar comigo. Até me pedem conselhos sobre as suas próprias visões. Parece que, afinal, não sou a única.
— Sempre houve mais pessoas com o dom. Só tinham medo de falar.
— Pois. O medo é uma prisão. Mas tu abriste a porta, inspector.
João riu-se, um som seco e breve.
— Agora sou só João. Deixei o título em Évora.
Ficaram em silêncio por um momento. O relógio da torre da igreja bateu uma hora. O som ecoou pelas paredes caiadas e perdeu-se no montado.
— O que vai acontecer agora? — perguntou Maria, olhando para as estrelas.
— Vamos viver. Um dia de cada vez. Vamos ouvir os sussurros da terra e não ter medo deles. O Adriano deixou marcas. Mas não ganhou.
— O Adriano era apenas um homem. O mal é maior.
— Mas está adormecido. E nós estamos acordados.
Um som distante rompeu a quietude. Um murmúrio, um eco abafado que parecia vir de baixo da terra. João inclinou a cabeça. Maria crispou os dedos.
— Ouviste?
— Ouvi.
— É da mina.
— Sim. Mas é só o vento nas galerias. Ou as pedras a assentarem.
Maria olhou para ele. Os olhos castanhos não brilhavam com medo, mas com uma cautela antiga.
— Temos a certeza?
— Nunca temos a certeza. Mas não podemos entrar em pânico a cada sombra. Aprendi que o medo é o que o mal quer. Se ignorarmos, ele enfraquece.
— E se não for só o vento?
— Então vigiaremos. Mas hoje, não. Hoje, olhemos para as estrelas.
Maria levantou a cabeça. O céu estava limpo, salpicado de luz. A Via Láctea estendia-se como um véu sobre a planície alentejana.
— A minha avó dizia que cada estrela era uma alma que já partiu. Olha, ali está ela.
— Qual?
— Aquela que brilha mais, perto do horizonte.
João seguiu o seu dedo. Viu um ponto luminoso, mais intenso que os outros.
— Bonito.
— É. A paz é frágil, João. Como uma estrela. Basta uma nuvem para a esconder.
— Mas depois a nuvem passa.
— Sim. Mas a escuridão regressa sempre.
— E nós estamos aqui para acender a luz.
Maria sorriu. Foi um sorriso cansado, mas genuíno. Pousou a mão sobre o joelho dele e apertou levemente.
— Obrigada.
— Porquê?
— Por teres ficado. Por não teres fugido.
— Fugir nunca foi opção. O meu pai fugiu e perdeu-se. Eu escolhi ficar e encontrar-me.
— E encontraste?
— Ainda estou a procurar. Mas já não estou sozinho.
O som da mina repetiu-se, desta vez mais longo, como um lamento. João levantou-se do banco e caminhou até à borda do largo, onde a rua descia em direcção ao poço. Maria seguiu-o.
— Vamos lá ver?
— Não. Não esta noite.
— Porquê?
— Porque não preciso de provar nada. Sei que o mal está lá. Mas também sei que não está a despertar. É só um eco.
— Um eco?
— Sim. O eco do mal. O que ficou do ritual. Os resquícios do que o Adriano fez. Não é uma ameaça nova. É apenas... uma memória.
Maria cruzou os braços. O xale escorregou-lhe dos ombros e ela voltou a ajustá-lo.
— E se essa memória um dia se levantar?
— Estaremos prontos. Mas não hoje.
João voltou a sentar-se. Maria fez o mesmo. O silêncio regressou, agora mais leve. As estrelas continuavam a brilhar. A noite cheirava a esteva e a terra seca.
— Vamos ter de contar ao povo — disse ela.
— Contar o quê?
— Que o mal não se foi. Só adormeceu.
— Eles já sabem. Só não querem falar disso.
— Mas deviam. A verdade é o melhor exorcismo.
— Também pode gerar pânico.
— Ou coragem.
João passou a mão pelos cabelos.
— Talvez tenhas razão. Mas com calma. Vamos deixar que as feridas sarem primeiro. Depois, falaremos.
— E quando for altura?
— Saberemos.
Maria suspirou. As rugas do seu rosto pareciam mais profundas à luz da lua, mas havia uma serenidade nelas que antes não existia.
— A minha avó foi queimada por falar a verdade. Mas a verdade dela não morreu. Está aqui. Em mim. Em ti. Em todos os que viram a escuridão e não fecharam os olhos.
— Então honramo-la. Fazendo o que ela fez, mas com prudência.
— Sim. E com amor.
— Amor?
— Foi o que nos salvou, João. Não foi o medo. Foi o amor. O amor que tu tens por esta terra. O amor que eu tenho por estas gentes. O amor que nos uniu.
João olhou para ela. Os olhos cinzentos brilhavam com uma humidade que não era tristeza.
— Nunca pensei ouvir-te falar de amor.
— Pois. Às vezes também me surpreendo.
Ele estendeu a mão e tocou-lhe na face. Ela não recuou.
— Obrigado, Maria.
— Já disseste.
— Mas é verdade. Sem ti...
— Sem mim, terias enlouquecido. Mas sem ti, eu teria morrido.
— Foi uma parceria.
— Foi mais do que isso. Foi família.
João sorriu. Um sorriso cansado, mas que lhe iluminou o rosto anguloso.
— Então, família, que fazemos agora?
— Agora? Olhamos para as estrelas. E esperamos o amanhecer.
O Resquício
O relógio da torre bateu as duas horas. A noite avançava lenta, como um rio de breu. João e Maria continuavam no banco, num silêncio cúmplice. Lá longe, um cão ladrou. Depois, o silêncio voltou.
— Vamos? — perguntou ela.
— Vamos.
Levantaram-se. João esticou as pernas, sentindo os músculos doridos. Maria aconchegou o xale. Deram alguns passos em direcção à rua que levava à taberna.
Foi então que João tropeçou. Não num desnível da calçada, mas em algo solto. O pé bateu num objecto pequeno e duro, que rolou pelo empedrado com um som seco.
— O que foi? — perguntou Maria.
João baixou-se. Os olhos, já habituados à escuridão, distinguiram uma forma escura no chão. Era uma pedra. Pequena, irregular, do tamanho de uma noz. Negra como carvão.
— Uma pedra.
— Deixa lá isso.
Mas João não se moveu. A pedra pareceu absorver a luz da lua, como se fosse um buraco na realidade. Depois, brilhou. Um brilho ténue, esverdeado, pulsante.
— João...
— Estou a ver.
Era idêntica às pedras que Adriano polia na ourivesaria. Aquelas que guardava no bolso do colete e acariciava com os dedos. Mas esta estava no chão, como se tivesse sido esquecida ou caído de algum bolso durante o confronto na mina.
— Não lhe toques — disse Maria, a voz tensa.
— É só uma pedra.
— Não é só uma pedra. É um resquício.
— Um resquício de quê?
— Do ritual. Do mal. Daquilo que o Adriano invocou. Lembras-te do que ele dizia? Que o mal se herdava, que nunca morria.
João ajoelhou-se. A pedra brilhava com mais intensidade, como se reagisse à sua presença. Sentiu um impulso de a agarrar, de a guardar, de a analisar. Mas conteve-se.
— Não a recolhas — repetiu Maria. — Já viste o que essas pedras fazem. Corrompem. Manipulam. Foi com uma dessas que o teu pai...
João levantou a mão, detendo-a.
— Eu sei. Não vou tocar-lhe.
— Então afasta-te.
— Não.
— Porquê?
— Porque quero perceber. Quero olhar para ela e não ter medo.
Maria aproximou-se. O seu vulto recortou-se contra o céu estrelado.
— Não é medo. É prudência.
— É a mesma coisa.
— Não. O medo paralisa. A prudência salva.
João olhou para a pedra. O brilho esverdeado pulsava num ritmo lento, quase imperceptível. Parecia um coração em miniatura, batendo contra as pedras da calçada.
— O que achas que é?
— Uma âncora. Uma semente. Um eco. O Adriano deixou muitas destas espalhadas pela mina. Viste quando o poço o engoliu. Ficaram lá em baixo. Mas esta... talvez tenha vindo até aqui.
— Como?
— O mal tem os seus caminhos. Ou talvez alguém a tenha trazido.
— Quem?
— Não sei. Mas não importa. O que importa é que não a devemos guardar.
— Nem destruir?
— Destruir como? Se partires a pedra, o pó espalha-se. Se a enterrares, envenena a terra. Se a atirares ao poço, contamina a água.
— Então o que fazemos?
— Deixamo-la estar. O brilho vai desaparecer. O mal está adormecido, lembras-te? Só precisa de ser ignorado.
— E se alguém a encontrar?
— Encontrou. Tu encontraste. E estás a resistir.
João ergueu-se. A pedra continuava no chão, brilhando. Ele olhou para a sua mão esquerda, a mesma que segurara a arma, a mesma que tocara no fantasma da criança. Os dedos estavam imóveis.
— Ela chama-me.
— Não. É o teu medo que a ouve. Mas tu já não és o homem que chegou aqui.
João respirou fundo. Sentiu o cheiro a esteva e a terra seca. O ar da noite estava parado.
— Tens razão. Já não sou. Mas a tentação está lá.
— A tentação vai estar sempre. O que define um homem não é o que sente, é o que faz.
— Frase de avó?
— Frase minha.
João sorriu, apesar de tudo. Desviou o olhar da pedra e fitou Maria.
— Obrigado.
— De nada.
Ficaram ali, de pé, a olhar para a pedra que brilhava no chão. A lua escondeu-se atrás de uma nuvem fina, e a escuridão adensou-se. O brilho esverdeado tornou-se mais nítido, como uma brasa minúscula.
— Vês? — murmurou Maria. — A escuridão alimenta-a. Mas não dura.
Esperaram. A nuvem passou. A lua regressou. O brilho da pedra desvaneceu-se, engolido pelo luar.
— Está a morrer — disse João.
— Não. Está a dormir. Como o mal. Como todas as coisas más que um dia acordam.
— Mas enquanto dorme, nós vigiamos.
— Sim.
João deu um passo atrás. Depois outro. Maria imitou-o.
— Vamos?
— Vamos.
Deram meia-volta. A rua deserta estendia-se à sua frente, ladeada por casas caiadas de portadas fechadas. Caminharam em silêncio, lado a lado. O som dos seus passos ecoava nas paredes.
Ao chegarem à esquina, João parou. Voltou-se para trás. A pedra ainda estava lá, no mesmo sítio. Já não brilhava. Era apenas uma mancha escura na calçada, indistinta, anónima.
— Vais buscá-la? — perguntou Maria.
— Não. Só queria vê-la uma última vez.
— E o que vês?
— Vejo uma pedra. Só uma pedra.
— É o que ela é. Nada mais.
— Mas também é um aviso.
— Um aviso de quê?
— De que o mal está sempre à espreita. Basta uma distração. Basta um momento de fraqueza.
— Então não nos distraímos.
— Não. Mas também não vivemos com medo. É uma linha ténue.
— É a linha que separa os vivos dos mortos.
João acenou com a cabeça. Olhou uma última vez para a pedra. Depois virou costas e continuou a andar.
Maria seguiu-o. A noite engoliu-os.
No largo, a pedra permaneceu. Nenhum brilho. Nenhuma pulsação. Apenas uma forma mineral, esquecida no empedrado. O vento levantou uma folha seca, que rodopiou sobre ela e depois voou para longe.
No dia seguinte, as crianças brincariam ali. Algum cão passaria e cheiraria a pedra, sem lhe dar importância. A vida continuaria.
Mas naquela noite, naquela hora silenciosa, a pedra foi um lembrete. Um eco do que fora e do que poderia voltar a ser.
E João olhou para ela, mas não a recolheu.
O brilho esvaiu-se.
O largo da igreja dormia sob um manto de estrelas frias. A calçada de pedra irregular reflectia a luz pálida da lua, desenhando sombras que dançavam quando a brisa agitava as folhas das oliveiras centenárias. No banco de granito, João e Maria do Carmo partilhavam o silêncio como se fosse um cálice de vinho velho — com lentidão e respeito.
João passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados, um gesto que já não denunciava ansiedade, mas apenas cansaço. Os fios prateados nas têmporas brilhavam à luz das estrelas.
— Ainda as vês? — perguntou Maria, sem o olhar. As mãos calejadas repousavam no regaço, esfregando o polegar contra os dedos indicador e médio, como se desfiasse um rosário invisível.
João rangeu os dentes, um ruído subtil que ela já conhecia.
— Vejo. Mas já não me assustam.
Maria virou o rosto redondo, os olhos castanhos escuros a sondarem-no.
— E o que vês agora?
— Fragmentos. Imagens soltas. Uma mulher ao longe, um vulto no poço. Às vezes, a criança. Mas já não me acusa. Sorri e desaparece.
— Isso é bom.
— É. Aprendi a viver com elas. Já não me fazem duvidar de mim.
Maria soltou um suspiro que pareceu trazer consigo o peso de muitas noites de vigília.
— O mal está adormecido. Mas a vigilância é eterna. A minha avó dizia que o diabo nunca dorme; apenas finge.
João concordou com um aceno de cabeça. Tirou do bolso do casaco de tweed um cigarro e acendeu-o. A ponta incandescente desenhou um pequeno arco no escuro quando levou a mão à boca.
— Vais ficar? — perguntou ela.
— Vou. Pedi transferência para a esquadra. O Lopes precisa de ajuda. E eu... preciso de um sítio onde possa vigiar.
— Não tens medo de que a loucura regresse?
— A loucura nunca me deixou. Só aprendi a domá-la. E tu?
Maria puxou o xale de lã sobre os ombros, mesmo que a noite não fosse fria.
— Eu não tenho para onde ir. Esta é a minha terra. A taberna reabriu. As pessoas voltam a falar comigo. Até me pedem conselhos sobre as suas próprias visões. Parece que, afinal, não sou a única.
— Sempre houve mais pessoas com o dom. Só tinham medo de falar.
— Pois. O medo é uma prisão. Mas tu abriste a porta, inspector.
João riu-se, um som seco e breve.
— Agora sou só João. Deixei o título em Évora.
Ficaram em silêncio por um momento. O relógio da torre da igreja bateu uma hora. O som ecoou pelas paredes caiadas e perdeu-se no montado.
— O que vai acontecer agora? — perguntou Maria, olhando para as estrelas.
— Vamos viver. Um dia de cada vez. Vamos ouvir os sussurros da terra e não ter medo deles. O Adriano deixou marcas. Mas não ganhou.
— O Adriano era apenas um homem. O mal é maior.
— Mas está adormecido. E nós estamos acordados.
Um som distante rompeu a quietude. Um murmúrio, um eco abafado que parecia vir de baixo da terra. João inclinou a cabeça. Maria crispou os dedos.
— Ouviste?
— Ouvi.
— É da mina.
— Sim. Mas é só o vento nas galerias. Ou as pedras a assentarem.
Maria olhou para ele. Os olhos castanhos não brilhavam com medo, mas com uma cautela antiga.
— Temos a certeza?
— Nunca temos a certeza. Mas não podemos entrar em pânico a cada sombra. Aprendi que o medo é o que o mal quer. Se ignorarmos, ele enfraquece.
— E se não for só o vento?
— Então vigiaremos. Mas hoje, não. Hoje, olhemos para as estrelas.
Maria levantou a cabeça. O céu estava limpo, salpicado de luz. A Via Láctea estendia-se como um véu sobre a planície alentejana.
— A minha avó dizia que cada estrela era uma alma que já partiu. Olha, ali está ela.
— Qual?
— Aquela que brilha mais, perto do horizonte.
João seguiu o seu dedo. Viu um ponto luminoso, mais intenso que os outros.
— Bonito.
— É. A paz é frágil, João. Como uma estrela. Basta uma nuvem para a esconder.
— Mas depois a nuvem passa.
— Sim. Mas a escuridão regressa sempre.
— E nós estamos aqui para acender a luz.
Maria sorriu. Foi um sorriso cansado, mas genuíno. Pousou a mão sobre o joelho dele e apertou levemente.
— Obrigada.
— Porquê?
— Por teres ficado. Por não teres fugido.
— Fugir nunca foi opção. O meu pai fugiu e perdeu-se. Eu escolhi ficar e encontrar-me.
— E encontraste?
— Ainda estou a procurar. Mas já não estou sozinho.
O som da mina repetiu-se, desta vez mais longo, como um lamento. João levantou-se do banco e caminhou até à borda do largo, onde a rua descia em direcção ao poço. Maria seguiu-o.
— Vamos lá ver?
— Não. Não esta noite.
— Porquê?
— Porque não preciso de provar nada. Sei que o mal está lá. Mas também sei que não está a despertar. É só um eco.
— Um eco?
— Sim. O eco do mal. O que ficou do ritual. Os resquícios do que o Adriano fez. Não é uma ameaça nova. É apenas... uma memória.
Maria cruzou os braços. O xale escorregou-lhe dos ombros e ela voltou a ajustá-lo.
— E se essa memória um dia se levantar?
— Estaremos prontos. Mas não hoje.
João voltou a sentar-se. Maria fez o mesmo. O silêncio regressou, agora mais leve. As estrelas continuavam a brilhar. A noite cheirava a esteva e a terra seca.
— Vamos ter de contar ao povo — disse ela.
— Contar o quê?
— Que o mal não se foi. Só adormeceu.
— Eles já sabem. Só não querem falar disso.
— Mas deviam. A verdade é o melhor exorcismo.
— Também pode gerar pânico.
— Ou coragem.
João passou a mão pelos cabelos.
— Talvez tenhas razão. Mas com calma. Vamos deixar que as feridas sarem primeiro. Depois, falaremos.
— E quando for altura?
— Saberemos.
Maria suspirou. As rugas do seu rosto pareciam mais profundas à luz da lua, mas havia uma serenidade nelas que antes não existia.
— A minha avó foi queimada por falar a verdade. Mas a verdade dela não morreu. Está aqui. Em mim. Em ti. Em todos os que viram a escuridão e não fecharam os olhos.
— Então honramo-la. Fazendo o que ela fez, mas com prudência.
— Sim. E com amor.
— Amor?
— Foi o que nos salvou, João. Não foi o medo. Foi o amor. O amor que tu tens por esta terra. O amor que eu tenho por estas gentes. O amor que nos uniu.
João olhou para ela. Os olhos cinzentos brilhavam com uma humidade que não era tristeza.
— Nunca pensei ouvir-te falar de amor.
— Pois. Às vezes também me surpreendo.
Ele estendeu a mão e tocou-lhe na face. Ela não recuou.
— Obrigado, Maria.
— Já disseste.
— Mas é verdade. Sem ti...
— Sem mim, terias enlouquecido. Mas sem ti, eu teria morrido.
— Foi uma parceria.
— Foi mais do que isso. Foi família.
João sorriu. Um sorriso cansado, mas que lhe iluminou o rosto anguloso.
— Então, família, que fazemos agora?
— Agora? Olhamos para as estrelas. E esperamos o amanhecer.
O Resquício
O relógio da torre bateu as duas horas. A noite avançava lenta, como um rio de breu. João e Maria continuavam no banco, num silêncio cúmplice. Lá longe, um cão ladrou. Depois, o silêncio voltou.
— Vamos? — perguntou ela.
— Vamos.
Levantaram-se. João esticou as pernas, sentindo os músculos doridos. Maria aconchegou o xale. Deram alguns passos em direcção à rua que levava à taberna.
Foi então que João tropeçou. Não num desnível da calçada, mas em algo solto. O pé bateu num objecto pequeno e duro, que rolou pelo empedrado com um som seco.
— O que foi? — perguntou Maria.
João baixou-se. Os olhos, já habituados à escuridão, distinguiram uma forma escura no chão. Era uma pedra. Pequena, irregular, do tamanho de uma noz. Negra como carvão.
— Uma pedra.
— Deixa lá isso.
Mas João não se moveu. A pedra pareceu absorver a luz da lua, como se fosse um buraco na realidade. Depois, brilhou. Um brilho ténue, esverdeado, pulsante.
— João...
— Estou a ver.
Era idêntica às pedras que Adriano polia na ourivesaria. Aquelas que guardava no bolso do colete e acariciava com os dedos. Mas esta estava no chão, como se tivesse sido esquecida ou caído de algum bolso durante o confronto na mina.
— Não lhe toques — disse Maria, a voz tensa.
— É só uma pedra.
— Não é só uma pedra. É um resquício.
— Um resquício de quê?
— Do ritual. Do mal. Daquilo que o Adriano invocou. Lembras-te do que ele dizia? Que o mal se herdava, que nunca morria.
João ajoelhou-se. A pedra brilhava com mais intensidade, como se reagisse à sua presença. Sentiu um impulso de a agarrar, de a guardar, de a analisar. Mas conteve-se.
— Não a recolhas — repetiu Maria. — Já viste o que essas pedras fazem. Corrompem. Manipulam. Foi com uma dessas que o teu pai...
João levantou a mão, detendo-a.
— Eu sei. Não vou tocar-lhe.
— Então afasta-te.
— Não.
— Porquê?
— Porque quero perceber. Quero olhar para ela e não ter medo.
Maria aproximou-se. O seu vulto recortou-se contra o céu estrelado.
— Não é medo. É prudência.
— É a mesma coisa.
— Não. O medo paralisa. A prudência salva.
João olhou para a pedra. O brilho esverdeado pulsava num ritmo lento, quase imperceptível. Parecia um coração em miniatura, batendo contra as pedras da calçada.
— O que achas que é?
— Uma âncora. Uma semente. Um eco. O Adriano deixou muitas destas espalhadas pela mina. Viste quando o poço o engoliu. Ficaram lá em baixo. Mas esta... talvez tenha vindo até aqui.
— Como?
— O mal tem os seus caminhos. Ou talvez alguém a tenha trazido.
— Quem?
— Não sei. Mas não importa. O que importa é que não a devemos guardar.
— Nem destruir?
— Destruir como? Se partires a pedra, o pó espalha-se. Se a enterrares, envenena a terra. Se a atirares ao poço, contamina a água.
— Então o que fazemos?
— Deixamo-la estar. O brilho vai desaparecer. O mal está adormecido, lembras-te? Só precisa de ser ignorado.
— E se alguém a encontrar?
— Encontrou. Tu encontraste. E estás a resistir.
João ergueu-se. A pedra continuava no chão, brilhando. Ele olhou para a sua mão esquerda, a mesma que segurara a arma, a mesma que tocara no fantasma da criança. Os dedos estavam imóveis.
— Ela chama-me.
— Não. É o teu medo que a ouve. Mas tu já não és o homem que chegou aqui.
João respirou fundo. Sentiu o cheiro a esteva e a terra seca. O ar da noite estava parado.
— Tens razão. Já não sou. Mas a tentação está lá.
— A tentação vai estar sempre. O que define um homem não é o que sente, é o que faz.
— Frase de avó?
— Frase minha.
João sorriu, apesar de tudo. Desviou o olhar da pedra e fitou Maria.
— Obrigado.
— De nada.
Ficaram ali, de pé, a olhar para a pedra que brilhava no chão. A lua escondeu-se atrás de uma nuvem fina, e a escuridão adensou-se. O brilho esverdeado tornou-se mais nítido, como uma brasa minúscula.
— Vês? — murmurou Maria. — A escuridão alimenta-a. Mas não dura.
Esperaram. A nuvem passou. A lua regressou. O brilho da pedra desvaneceu-se, engolido pelo luar.
— Está a morrer — disse João.
— Não. Está a dormir. Como o mal. Como todas as coisas más que um dia acordam.
— Mas enquanto dorme, nós vigiamos.
— Sim.
João deu um passo atrás. Depois outro. Maria imitou-o.
— Vamos?
— Vamos.
Deram meia-volta. A rua deserta estendia-se à sua frente, ladeada por casas caiadas de portadas fechadas. Caminharam em silêncio, lado a lado. O som dos seus passos ecoava nas paredes.
Ao chegarem à esquina, João parou. Voltou-se para trás. A pedra ainda estava lá, no mesmo sítio. Já não brilhava. Era apenas uma mancha escura na calçada, indistinta, anónima.
— Vais buscá-la? — perguntou Maria.
— Não. Só queria vê-la uma última vez.
— E o que vês?
— Vejo uma pedra. Só uma pedra.
— É o que ela é. Nada mais.
— Mas também é um aviso.
— Um aviso de quê?
— De que o mal está sempre à espreita. Basta uma distração. Basta um momento de fraqueza.
— Então não nos distraímos.
— Não. Mas também não vivemos com medo. É uma linha ténue.
— É a linha que separa os vivos dos mortos.
João acenou com a cabeça. Olhou uma última vez para a pedra. Depois virou costas e continuou a andar.
Maria seguiu-o. A noite engoliu-os.
No largo, a pedra permaneceu. Nenhum brilho. Nenhuma pulsação. Apenas uma forma mineral, esquecida no empedrado. O vento levantou uma folha seca, que rodopiou sobre ela e depois voou para longe.
No dia seguinte, as crianças brincariam ali. Algum cão passaria e cheiraria a pedra, sem lhe dar importância. A vida continuaria.
Mas naquela noite, naquela hora silenciosa, a pedra foi um lembrete. Um eco do que fora e do que poderia voltar a ser.
E João olhou para ela, mas não a recolheu.
O brilho esvaiu-se.