"
Uma Nova Aurora
IA
A Reabertura da Taberna
O sino da igreja badalou ao longe, um som grave que se derramou sobre os telhados de Alpedreza. O largo enchera-se de mesas de madeira, toalhas de linho branco e jarras de barro com flores silvestres. As mulheres traziam pães de centeio e azeitonas temperadas, e os homens arrastavam pipas de vinho tinto, rindo de piadas que só eles entendiam. O ar cheirava a alecrim queimado e a terra molhada, porque na véspera caíra a primeira chuva de outono.
João Martins estava encostado à parede da taberna, um cigarro apagado entre os dedos. As mãos já não tremiam tanto. Ouvia as vozes dos aldeões, o riso das crianças que corriam atrás de um cão rafeiro, e sentia uma quietude que não conhecia há anos. Não era felicidade, mas uma trégua.
— Então, inspector? Não vai ajudar? — A voz de Maria do Carmo chegou-lhe de dentro da taberna, áspera e familiar.
João sorriu, um esgar quase impercetível. Tinha deixado de a corrigir. Ela insistia em chamar-lhe 'inspector', mesmo que agora trabalhasse na esquadra local, a arquivar processos e a atender ocorrências de galinhas desaparecidas. Empurrou-se da parede e entrou.
O cheiro a boroa quente e a chouriço assado fê-lo salivar. A taberna estava irreconhecível. As mesas tinham sido enceradas, as paredes caiadas de novo e a lareira crepitava com uma fogueira pequena, apesar do calor da manhã. Maria do Carmo comandava a cozinha com a sua autoridade natural, o coque grisalho apertado, as mangas do vestido arregaçadas.
— Já puseste as canecas na prateleira? — perguntou ela, sem se virar.
— Pus. — João coçou a nuca. — E varri o soalho.
— Pois varreste mal. Olha ali. — Apontou para um canto com a colher de pau.
Ele obedeceu, pegou na vassoura e limpou as migalhas. As mãos calejadas de Maria do Carmo não o deixavam enganar-se: ela não estava zangada. Nos últimos tempos, tinha aprendido a ler-lhe as entrelinhas. A aspereza era o seu afeto.
A porta rangeu e o agente Lopes entrou, de boné na mão e botas enlameadas. Era um homem baixo, de rosto redondo e olhos claros, que suava sempre um pouco e tossia antes de falar.
— Bons dias, Dona Maria. Bons dias, inspector.
— Já não sou inspector, Lopes. — João pousou a vassoura.
— Para mim, é sempre. — Lopes sentou-se pesadamente e limpou a testa com um lenço. — Trouxe os papéis que pediu. Os registos antigos.
João aproximou-se e pegou na pasta. Papéis pardos com caligrafia miúda. Dossiers de há décadas, desaparecimentos, relatos que nunca tinham sido encerrados.
— Ainda a remexer nisso? — Maria do Carmo colocou uma caneca de café em frente a Lopes, e outra para João. O líquido negro fumegava.
— Quero perceber. — João baixou os olhos. — O que aconteceu. O que ficou por fazer.
Maria do Carmo fungou, mas não disse nada. Tirou um pão do forno e começou a parti-lo com gestos bruscos.
Lopes bebeu um gole e limpou a boca com as costas da mão. — A vila mudou. Depois de tudo... as pessoas estão mais juntas. Até a Dona Zulmira já não mete medo a ninguém.
Zulmira estava detida em Évora, a aguardar julgamento. O processo arrastava-se, mas ninguém falava muito nela. Era como se a tivessem riscado da memória.
— É bom que mudem. — João fechou a pasta e suspirou. — Mas o mal não se apaga só com festas.
Lopes olhou para ele com uma ponta de inquietação. Mas Maria do Carmo interrompeu:
— Olha que não há mal que resista a uma boa festa. E ao perdão.
João levantou a cabeça. Ela não o fitava, mas havia uma firmeza nas suas palavras que o acalmou. O perdão. Tinha custado tanto a aprender.
A taberna encheu-se depressa. Os homens entravam com passadas pesadas, as mulheres com sorrisos cansados. Os mais velhos ocuparam as mesas do fundo e começaram a jogar dominó. Um rapaz tirou uma viola e dedilhou uma moda alentejana, uma melodia triste que falava de amores perdidos. João ouvia e sentia uma pontada no peito. Não de dor, mas de pertença.
Maria do Carmo passou por ele e tocou-lhe no ombro. O gesto era simples, mas João percebeu. Ela estava a agradecer-lhe. Por ter ficado. Por ter acreditado.
— Preciso de ajuda para trazer mais vinho — disse ela, em voz baixa. — Vens?
João seguiu-a para a adega. Era um espaço fresco, com cheiro a terra e a bolor. As prateleiras abarrotavam de garrafas e frascos de conserva. Ela fechou a porta atrás de si e encostou-se à parede, fechando os olhos.
— Estou cansada.
— Senta-te.
— Não é cansaço do corpo. — Abriu os olhos. — É cansaço de ver.
João esperou.
— Desde que aquilo aconteceu... as visões tornaram-se mais claras. Vejo coisas sem querer. Vejo pessoas que ainda estão vivas, mas que vão morrer. Não sei o que fazer.
— Falaste com a Dona Adelaide?
— Ela receitou-me tisanas. Mas as tisanas não apagam o que ficou.
João passou a mão pelos cabelos, num gesto automático. — Eu também vejo. Não como tu. Mas sinto.
— O que sentes?
— Sinto que o poço ainda não está vazio. Que há mais qualquer coisa à espera.
Maria do Carmo olhou-o com dureza. — Não digas isso hoje. Hoje é dia de festa.
João acenou com a cabeça. Mas ambos sabiam que era verdade.
Voltaram para a taberna. O som da viola encheu-lhes os ouvidos. Uma mulher cantava agora, uma voz aguda que falava de um pastor que perdera o rebanho. João sentou-se ao lado de Lopes, que já ia na terceira cerveja.
— Sabe, inspector... eu nunca pensei que ia gostar de o ter cá.
— Eu também não.
Riram-se. Foi um riso curto, quase abafado. Mas foi o primeiro riso genuíno que João soltava em muito tempo.
Lá fora, o sol começava a subir. A luz dourada entrava pelas janelas e pintava as mesas. João viu a poeira dançar nos raios. Era um pormenor simples, mas encheu-o de uma estranha serenidade. Como se o mundo, afinal, pudesse ser bonito.
Maria do Carmo subiu para um banco e bateu as palmas.
— Atenção, gente!
A taberna calou-se.
— Hoje é um dia novo. Esta taberna renasceu. E eu quero agradecer a todos vós, que nunca me viraram as costas. — A voz tremia-lhe um pouco, mas não de medo. — E quero agradecer a este forasteiro. — Apontou para João. — Que pode ser forasteiro, mas já é dos nossos.
Ouviram-se palmas e alguns vivas. João corou. Levantou-se e fez uma vénia desajeitada.
— Não fiz nada de especial. Só o que qualquer um faria.
— Qualquer um não — interrompeu Lopes. — A maior parte fugia a sete pés.
E todos riram.
A festa prolongou-se pela tarde. João comeu torresmos, bebeu vinho e dançou uma moda lenta com Maria do Carmo. As mãos calejadas dela seguravam as dele com firmeza. Não falaram, mas a música disse tudo.
Quando o sol começou a descer, João saiu da taberna e sentou-se num banco do largo. A pedra estava morna. Olhou para a torre da igreja e para os campos secos que se estendiam até ao horizonte. Ao longe, a silhueta de um montado escurecia contra o céu alaranjado.
O agente Lopes juntou-se-lhe, um copo na mão.
— Então, inspector? Vai ficar?
João não respondeu logo. Olhou para o chão, depois para o céu.
— Vou. Ainda tenho muito que aprender.
Lopes sorriu e deu-lhe uma palmada nas costas. — Assim é que se fala.
E ficaram ali, em silêncio, a ver o dia acabar.
Café com Lopes
Na manhã seguinte, João acordou cedo. O quarto da pensão era simples: uma cama de ferro, uma mesa de madeira gasta, um lavatório com jarro e bacia. Mas já não o sentia como um lugar de passagem. A fronha tinha o cheiro a alfazema de Dona Adelaide, e a janela emoldurava o largo, ainda vazio àquela hora.
Vestiu-se com calma. As calças escuras, a camisa branca, o casaco de tweed puído. Olhou-se ao espelho e reparou que as olheiras estavam menos fundas. Os olhos cinzentos, porém, mantinham aquele brilho cansado de quem viu demasiado.
Saiu para a rua e sentiu o ar fresco da manhã. A vila despertava aos poucos. As persianas subiam, os cães ladravam nos quintais. Passos arrastados anunciavam os primeiros aldeões a caminho dos campos.
João dirigiu-se à esquadra. Era um edifício baixo, com a tinta descascada e o brasão gasto. Lá dentro, o cheiro a tabaco e a papel velho era o mesmo de sempre. O agente Lopes já estava à secretária, de óculos na ponta do nariz, a preencher formulários.
— Bons dias, inspector. — Lopes levantou a cabeça e sorriu. — O café está fresco.
João serviu-se de uma caneca de loiça grossa. O café era forte, quase amargo, mas soube-lhe bem. Sentou-se na cadeira em frente a Lopes e pegou num dos maços de folhas.
— Que é isto?
— Relatos de avistamentos. De sombras, vultos, coisas assim. Desde o princípio do século. — Lopes coçou o queixo. — Há quem diga que são lendas. Eu acho que são avisos.
João folheou as páginas amarelecidas. Caligrafias miúdas, palavras quase apagadas. 'Vulto escuro no poço', 'sussurros no montado ao luar', 'menina que chora na fonte'. Eram os ecos do passado, a matéria de que eram feitas as suas visões.
— Isto não devia existir.
— Pois não. — Lopes suspirou. — Mas existe.
Beberam café em silêncio. O relógio de parede marcava oito horas. Lá fora, o sol começava a aquecer.
— Sabe, inspector... — Lopes hesitou. — Toda a minha vida ouvi histórias de maldições. Mas nunca acreditei. Era demasiado... irreal. Até ver o que vi.
João pousou a caneca. — O que viu?
— Vi a Dona Maria do Carmo a ter uma visão, há dois dias. Estávamos na adega, ela tocou numa foice velha e começou a tremer. Depois descreveu um acidente que ia acontecer na estrada. Eu fui ver. No próprio dia, uma camioneta despistou-se no exato sítio que ela disse.
— Houve mortos?
— Não, felizmente. Mas ela previu.
João assentiu devagar. — É o dom dela. E é um fardo.
— Eu sei. — Lopes baixou a voz. — Por isso é que eu queria perguntar... o senhor também tem esses... dons?
João fitou-o. Lopes era um homem simples, de bom coração. Não merecia ser enganado.
— Tenho. Mas não como a Maria. Eu vejo o que já aconteceu. Às vezes o que está a acontecer. Mas não controlo.
— E isso ajuda-o?
— Agora ajuda. Antes... antes quase me destruiu.
Lopes ficou calado por um momento. Depois levantou-se e foi buscar uma garrafa de aguardente velha, que guardava no armário. Encheu dois copos.
— À nossa saúde, inspector. E à saúde desta terra.
João ergueu o copo e bebeu. A aguardente queimou-lhe a garganta, mas aqueceu-lhe o peito.
— Vou ficar por cá, Lopes. Pedi transferência.
— A sério?
— A sério. Não posso voltar para Évora como se nada tivesse acontecido. Aqui... aqui sinto que posso fazer alguma coisa.
Lopes sorriu abertamente. — Isso é uma boa notícia. — Bebeu mais um gole. — Sabe, eu vou reformar-me para o ano. A esquadra precisa de alguém que saiba o que faz.
— Eu não sei o que faço.
— Isso é o que todos dizem. Mas depois vê-se que sabem.
João riu. Foi um riso curto, mas genuíno. A vida em Alpedreza ia ser lenta, mas talvez fosse isso de que precisava.
O telefone tocou. Lopes atendeu e anotou qualquer coisa. Depois desligou.
— É a Teresa Melo. Chega hoje para visitar a vila.
João sentiu um aperto no peito. Teresa. A mulher que traíra e que depois escolhera ajudar. A mulher que confessara o parricídio e que a comunidade perdoara. Ainda cumpria pena, mas com autorização para saídas esporádicas.
— Ela vem cá?
— Acho que sim. Quer falar com a Dona Maria.
João assentiu. Não sabia o que sentir. Teresa era uma parte da história que ainda não cicatrizara.
Lopes pareceu adivinhar-lhe os pensamentos. — Ela não é má pessoa, inspector. Fez o que fez por desespero. E pagou.
— Eu sei.
— Mas o senhor tem de lidar com isso à sua maneira.
João levantou-se e foi até à janela. O largo estava cheio de vida agora. As crianças corriam, as mulheres varriam as soleiras. Tudo parecia normal. Mas João sabia que a normalidade era uma fina camada sobre um abismo.
— Vou dar uma volta — disse.
— Esteja descansado, inspector. — Lopes levantou-se também. — Se precisar de alguma coisa...
— Obrigado.
João saiu. O sol bateu-lhe no rosto e fechou os olhos por um instante. O calor era bom. Ouviu o sino da igreja, o riso de uma criança. Tudo tão normal. Mas havia uma sombra no canto do seu olho, uma forma que se movia lentamente junto ao poço.
Abriu os olhos e olhou para o largo. A sombra ainda lá estava. Indefinida, mas real. Uma figura feminina, talvez, parada na boca do poço.
O coração de João acelerou. Mas não de medo. De reconhecimento.
A mulher ergueu a mão devagar. Acenou.
João não se moveu. A sua respiração acalmou-se. Lá ao fundo, o largo continuava indiferente, como se ninguém visse o que ele via.
A sombra acenou de novo, e depois desvaneceu-se, como névoa ao sol.
João ficou a olhar para o poço, para as pedras gastas, para a água escura que se adivinhava lá no fundo. E sentiu uma paz imensa. Não era o fim. Era apenas o princípio de outra coisa.
Voltou a cabeça e viu Maria do Carmo à porta da taberna, de avental, a observá-lo.
— Viste? — perguntou ela.
— Vi.
— Elas estão em paz. Agora.
— Eu sei.
Maria do Carmo sorriu, um sorriso cansado mas leve, e voltou a entrar na taberna. João permaneceu no largo, a respirar o ar da manhã, enquanto o sino badalava e a vida continuava, frágil e teimosa, como sempre.
A Sombra no Poço
Os dias seguintes trouxeram uma rotina mansa a João Martins. De manhã, ajudava na esquadra: arquivos, patrulhas, conversas com os aldeões que se queixavam de cães vadios ou de ervas daninhas nos terrenos. À tarde, passava pela taberna e bebia uma cerveja fresca enquanto ouvia as histórias de Maria do Carmo. À noite, lia os velhos dossiers e tentava decifrar os padrões que ligavam o passado ao presente.
Eram as horas do crepúsculo as que mais o inquietavam. Quando o sol se punha atrás dos montados, o céu tingia-se de púrpura e as sombras cresciam, João sentia um formigueiro na nuca. Não era medo, mas uma expectativa. Sabia que havia mais para ver. E que, mais cedo ou mais tarde, as visões regressariam.
Numa dessas tardes, Teresa Melo chegou à vila. João soube-o porque viu um carro preto parar em frente à igreja e uma mulher magra, de cabelo escuro apanhado num rabo-de-cavalo, sair de lá. Vestia roupas simples, e o seu rosto estava mais magro, mas os olhos tinham uma centelha de determinação.
João não foi ao seu encontro. Preferiu observar de longe, do banco do largo. Viu-a entrar na taberna, e pouco depois Maria do Carmo saiu e abraçou-a. As duas mulheres falaram por muito tempo. Quando Teresa saiu, limpava as lágrimas com um lenço. Olhou na direção de João, e ele assentiu, sem se levantar. Ela respondeu com um sorriso triste e entrou no carro.
Não precisavam de palavras. O que havia entre eles era um entendimento silencioso, uma cicatriz partilhada.
Nessa noite, João demorou-se no largo mais do que o costume. As estrelas já pontilhavam o céu, e o ar arrefecera. Os grilos cantavam nas ervas secas. Ele estava sozinho. A vila dormia.
O poço. Sempre o poço.
João levantou-se e caminhou até à velha estrutura de pedra. A boca circular exalava um cheiro a terra húmida e a água parada. Era ali que tudo começara, com o corpo de Helena. E era ali que, de vez em quando, lhe parecia ver formas indistintas.
Encostou-se à borda e olhou para baixo. A escuridão era total. Mas não sentiu frio. Sentiu uma presença.
— Estás aí? — murmurou.
Ninguém respondeu. Apenas o vento a sussurrar nos ramos das azinheiras.
João fechou os olhos. E então, como se a noite se abrisse, viu-a.
Uma mulher. Jovem, de cabelo comprido e vestido claro. Estava parada junto ao poço, a poucos metros dele. O seu rosto era sereno. Não era a Helena. Era outra. Talvez a terceira desaparecida, cujo corpo nunca fora encontrado.
João abriu os olhos. A figura continuava lá, translúcida, banhada por uma luz que não existia. A mulher levantou uma mão devagar. Não em súplica. Em saudação.
João não se moveu. Não sentiu medo. Pelo contrário, uma onda de calma invadiu-lhe o peito. A mulher sorriu, um sorriso triste mas pleno. Depois, acenou. Um aceno longo, como se dissesse adeus.
João ergueu a mão também. Acenou de volta.
A figura recuou um passo, dois, e depois dissolveu-se na escuridão, como se nunca lá tivesse estado.
O silêncio regressou. Mas não era um silêncio vazio. Era um silêncio preenchido por uma sensação de completude. João olhou para a sua mão, ainda estendida no ar. Baixou-a lentamente.
— Está feito — sussurrou.
Ouviu passos atrás de si. Maria do Carmo aproximou-se, envolta num xale escuro. Trazia uma lanterna, mas não a acendeu.
— Viste-a.
— Vi.
— É a última. Agora estão todas em paz.
João assentiu. — Como soubeste que eu estava aqui?
— Porque eu também senti. O ciclo fechou-se.
Olharam um para o outro. A luz das estrelas refletia-se nos olhos de Maria do Carmo. Ela já não parecia cansada. Parecia mais leve.
— E agora? — perguntou ela.
— Agora... vivemos.
Maria do Carmo sorriu e deu-lhe o braço. Caminharam juntos pelo largo adormecido. O sino da igreja badalou uma vez, um som solitário que ecoou pela planície.
No dia seguinte, Alpedreza acordou diferente. Não havia milagres, mas havia uma sensação de renovação. As pessoas sorriam mais. As conversas eram menos tensas. E João, pela primeira vez, sentiu que fazia parte daquilo. Não como forasteiro. Como alguém que tinha chegado para ficar.
Ao fim da manhã, sentou-se na esquadra e pegou num caderno novo. Abriu na primeira página e escreveu: "O mal não morre. Adormece. Cabe-nos a nós velar para que não acorde."
Lopes entrou e viu-o a escrever.
— Isso é para o relatório?
— Não. É para mim.
Lopes não fez mais perguntas. Foi buscar café e sentou-se em silêncio.
João continuou a escrever. Descreveu o que vira, o que sentira. E no final, acrescentou: "A sombra acenou-me. Eu acenei de volta. E ela desapareceu. Não em agonia. Em paz."
Fechou o caderno e olhou pela janela. O poço estava lá, quieto e antigo. Mas já não lhe metia medo. Era apenas um poço. Um eco do passado, a lembrar-lhe o que podia ter sido e o que, afinal, se tinha tornado.
Ao longe, uma figura feminina passou pelo largo, uma aldeã que ia à fonte. João viu-a e sorriu. Era apenas uma mulher, de carne e osso. Mas por um instante, pareceu-lhe que ela lhe acenava.
E ele acenou de volta.
Fim.
O sino da igreja badalou ao longe, um som grave que se derramou sobre os telhados de Alpedreza. O largo enchera-se de mesas de madeira, toalhas de linho branco e jarras de barro com flores silvestres. As mulheres traziam pães de centeio e azeitonas temperadas, e os homens arrastavam pipas de vinho tinto, rindo de piadas que só eles entendiam. O ar cheirava a alecrim queimado e a terra molhada, porque na véspera caíra a primeira chuva de outono.
João Martins estava encostado à parede da taberna, um cigarro apagado entre os dedos. As mãos já não tremiam tanto. Ouvia as vozes dos aldeões, o riso das crianças que corriam atrás de um cão rafeiro, e sentia uma quietude que não conhecia há anos. Não era felicidade, mas uma trégua.
— Então, inspector? Não vai ajudar? — A voz de Maria do Carmo chegou-lhe de dentro da taberna, áspera e familiar.
João sorriu, um esgar quase impercetível. Tinha deixado de a corrigir. Ela insistia em chamar-lhe 'inspector', mesmo que agora trabalhasse na esquadra local, a arquivar processos e a atender ocorrências de galinhas desaparecidas. Empurrou-se da parede e entrou.
O cheiro a boroa quente e a chouriço assado fê-lo salivar. A taberna estava irreconhecível. As mesas tinham sido enceradas, as paredes caiadas de novo e a lareira crepitava com uma fogueira pequena, apesar do calor da manhã. Maria do Carmo comandava a cozinha com a sua autoridade natural, o coque grisalho apertado, as mangas do vestido arregaçadas.
— Já puseste as canecas na prateleira? — perguntou ela, sem se virar.
— Pus. — João coçou a nuca. — E varri o soalho.
— Pois varreste mal. Olha ali. — Apontou para um canto com a colher de pau.
Ele obedeceu, pegou na vassoura e limpou as migalhas. As mãos calejadas de Maria do Carmo não o deixavam enganar-se: ela não estava zangada. Nos últimos tempos, tinha aprendido a ler-lhe as entrelinhas. A aspereza era o seu afeto.
A porta rangeu e o agente Lopes entrou, de boné na mão e botas enlameadas. Era um homem baixo, de rosto redondo e olhos claros, que suava sempre um pouco e tossia antes de falar.
— Bons dias, Dona Maria. Bons dias, inspector.
— Já não sou inspector, Lopes. — João pousou a vassoura.
— Para mim, é sempre. — Lopes sentou-se pesadamente e limpou a testa com um lenço. — Trouxe os papéis que pediu. Os registos antigos.
João aproximou-se e pegou na pasta. Papéis pardos com caligrafia miúda. Dossiers de há décadas, desaparecimentos, relatos que nunca tinham sido encerrados.
— Ainda a remexer nisso? — Maria do Carmo colocou uma caneca de café em frente a Lopes, e outra para João. O líquido negro fumegava.
— Quero perceber. — João baixou os olhos. — O que aconteceu. O que ficou por fazer.
Maria do Carmo fungou, mas não disse nada. Tirou um pão do forno e começou a parti-lo com gestos bruscos.
Lopes bebeu um gole e limpou a boca com as costas da mão. — A vila mudou. Depois de tudo... as pessoas estão mais juntas. Até a Dona Zulmira já não mete medo a ninguém.
Zulmira estava detida em Évora, a aguardar julgamento. O processo arrastava-se, mas ninguém falava muito nela. Era como se a tivessem riscado da memória.
— É bom que mudem. — João fechou a pasta e suspirou. — Mas o mal não se apaga só com festas.
Lopes olhou para ele com uma ponta de inquietação. Mas Maria do Carmo interrompeu:
— Olha que não há mal que resista a uma boa festa. E ao perdão.
João levantou a cabeça. Ela não o fitava, mas havia uma firmeza nas suas palavras que o acalmou. O perdão. Tinha custado tanto a aprender.
A taberna encheu-se depressa. Os homens entravam com passadas pesadas, as mulheres com sorrisos cansados. Os mais velhos ocuparam as mesas do fundo e começaram a jogar dominó. Um rapaz tirou uma viola e dedilhou uma moda alentejana, uma melodia triste que falava de amores perdidos. João ouvia e sentia uma pontada no peito. Não de dor, mas de pertença.
Maria do Carmo passou por ele e tocou-lhe no ombro. O gesto era simples, mas João percebeu. Ela estava a agradecer-lhe. Por ter ficado. Por ter acreditado.
— Preciso de ajuda para trazer mais vinho — disse ela, em voz baixa. — Vens?
João seguiu-a para a adega. Era um espaço fresco, com cheiro a terra e a bolor. As prateleiras abarrotavam de garrafas e frascos de conserva. Ela fechou a porta atrás de si e encostou-se à parede, fechando os olhos.
— Estou cansada.
— Senta-te.
— Não é cansaço do corpo. — Abriu os olhos. — É cansaço de ver.
João esperou.
— Desde que aquilo aconteceu... as visões tornaram-se mais claras. Vejo coisas sem querer. Vejo pessoas que ainda estão vivas, mas que vão morrer. Não sei o que fazer.
— Falaste com a Dona Adelaide?
— Ela receitou-me tisanas. Mas as tisanas não apagam o que ficou.
João passou a mão pelos cabelos, num gesto automático. — Eu também vejo. Não como tu. Mas sinto.
— O que sentes?
— Sinto que o poço ainda não está vazio. Que há mais qualquer coisa à espera.
Maria do Carmo olhou-o com dureza. — Não digas isso hoje. Hoje é dia de festa.
João acenou com a cabeça. Mas ambos sabiam que era verdade.
Voltaram para a taberna. O som da viola encheu-lhes os ouvidos. Uma mulher cantava agora, uma voz aguda que falava de um pastor que perdera o rebanho. João sentou-se ao lado de Lopes, que já ia na terceira cerveja.
— Sabe, inspector... eu nunca pensei que ia gostar de o ter cá.
— Eu também não.
Riram-se. Foi um riso curto, quase abafado. Mas foi o primeiro riso genuíno que João soltava em muito tempo.
Lá fora, o sol começava a subir. A luz dourada entrava pelas janelas e pintava as mesas. João viu a poeira dançar nos raios. Era um pormenor simples, mas encheu-o de uma estranha serenidade. Como se o mundo, afinal, pudesse ser bonito.
Maria do Carmo subiu para um banco e bateu as palmas.
— Atenção, gente!
A taberna calou-se.
— Hoje é um dia novo. Esta taberna renasceu. E eu quero agradecer a todos vós, que nunca me viraram as costas. — A voz tremia-lhe um pouco, mas não de medo. — E quero agradecer a este forasteiro. — Apontou para João. — Que pode ser forasteiro, mas já é dos nossos.
Ouviram-se palmas e alguns vivas. João corou. Levantou-se e fez uma vénia desajeitada.
— Não fiz nada de especial. Só o que qualquer um faria.
— Qualquer um não — interrompeu Lopes. — A maior parte fugia a sete pés.
E todos riram.
A festa prolongou-se pela tarde. João comeu torresmos, bebeu vinho e dançou uma moda lenta com Maria do Carmo. As mãos calejadas dela seguravam as dele com firmeza. Não falaram, mas a música disse tudo.
Quando o sol começou a descer, João saiu da taberna e sentou-se num banco do largo. A pedra estava morna. Olhou para a torre da igreja e para os campos secos que se estendiam até ao horizonte. Ao longe, a silhueta de um montado escurecia contra o céu alaranjado.
O agente Lopes juntou-se-lhe, um copo na mão.
— Então, inspector? Vai ficar?
João não respondeu logo. Olhou para o chão, depois para o céu.
— Vou. Ainda tenho muito que aprender.
Lopes sorriu e deu-lhe uma palmada nas costas. — Assim é que se fala.
E ficaram ali, em silêncio, a ver o dia acabar.
Café com Lopes
Na manhã seguinte, João acordou cedo. O quarto da pensão era simples: uma cama de ferro, uma mesa de madeira gasta, um lavatório com jarro e bacia. Mas já não o sentia como um lugar de passagem. A fronha tinha o cheiro a alfazema de Dona Adelaide, e a janela emoldurava o largo, ainda vazio àquela hora.
Vestiu-se com calma. As calças escuras, a camisa branca, o casaco de tweed puído. Olhou-se ao espelho e reparou que as olheiras estavam menos fundas. Os olhos cinzentos, porém, mantinham aquele brilho cansado de quem viu demasiado.
Saiu para a rua e sentiu o ar fresco da manhã. A vila despertava aos poucos. As persianas subiam, os cães ladravam nos quintais. Passos arrastados anunciavam os primeiros aldeões a caminho dos campos.
João dirigiu-se à esquadra. Era um edifício baixo, com a tinta descascada e o brasão gasto. Lá dentro, o cheiro a tabaco e a papel velho era o mesmo de sempre. O agente Lopes já estava à secretária, de óculos na ponta do nariz, a preencher formulários.
— Bons dias, inspector. — Lopes levantou a cabeça e sorriu. — O café está fresco.
João serviu-se de uma caneca de loiça grossa. O café era forte, quase amargo, mas soube-lhe bem. Sentou-se na cadeira em frente a Lopes e pegou num dos maços de folhas.
— Que é isto?
— Relatos de avistamentos. De sombras, vultos, coisas assim. Desde o princípio do século. — Lopes coçou o queixo. — Há quem diga que são lendas. Eu acho que são avisos.
João folheou as páginas amarelecidas. Caligrafias miúdas, palavras quase apagadas. 'Vulto escuro no poço', 'sussurros no montado ao luar', 'menina que chora na fonte'. Eram os ecos do passado, a matéria de que eram feitas as suas visões.
— Isto não devia existir.
— Pois não. — Lopes suspirou. — Mas existe.
Beberam café em silêncio. O relógio de parede marcava oito horas. Lá fora, o sol começava a aquecer.
— Sabe, inspector... — Lopes hesitou. — Toda a minha vida ouvi histórias de maldições. Mas nunca acreditei. Era demasiado... irreal. Até ver o que vi.
João pousou a caneca. — O que viu?
— Vi a Dona Maria do Carmo a ter uma visão, há dois dias. Estávamos na adega, ela tocou numa foice velha e começou a tremer. Depois descreveu um acidente que ia acontecer na estrada. Eu fui ver. No próprio dia, uma camioneta despistou-se no exato sítio que ela disse.
— Houve mortos?
— Não, felizmente. Mas ela previu.
João assentiu devagar. — É o dom dela. E é um fardo.
— Eu sei. — Lopes baixou a voz. — Por isso é que eu queria perguntar... o senhor também tem esses... dons?
João fitou-o. Lopes era um homem simples, de bom coração. Não merecia ser enganado.
— Tenho. Mas não como a Maria. Eu vejo o que já aconteceu. Às vezes o que está a acontecer. Mas não controlo.
— E isso ajuda-o?
— Agora ajuda. Antes... antes quase me destruiu.
Lopes ficou calado por um momento. Depois levantou-se e foi buscar uma garrafa de aguardente velha, que guardava no armário. Encheu dois copos.
— À nossa saúde, inspector. E à saúde desta terra.
João ergueu o copo e bebeu. A aguardente queimou-lhe a garganta, mas aqueceu-lhe o peito.
— Vou ficar por cá, Lopes. Pedi transferência.
— A sério?
— A sério. Não posso voltar para Évora como se nada tivesse acontecido. Aqui... aqui sinto que posso fazer alguma coisa.
Lopes sorriu abertamente. — Isso é uma boa notícia. — Bebeu mais um gole. — Sabe, eu vou reformar-me para o ano. A esquadra precisa de alguém que saiba o que faz.
— Eu não sei o que faço.
— Isso é o que todos dizem. Mas depois vê-se que sabem.
João riu. Foi um riso curto, mas genuíno. A vida em Alpedreza ia ser lenta, mas talvez fosse isso de que precisava.
O telefone tocou. Lopes atendeu e anotou qualquer coisa. Depois desligou.
— É a Teresa Melo. Chega hoje para visitar a vila.
João sentiu um aperto no peito. Teresa. A mulher que traíra e que depois escolhera ajudar. A mulher que confessara o parricídio e que a comunidade perdoara. Ainda cumpria pena, mas com autorização para saídas esporádicas.
— Ela vem cá?
— Acho que sim. Quer falar com a Dona Maria.
João assentiu. Não sabia o que sentir. Teresa era uma parte da história que ainda não cicatrizara.
Lopes pareceu adivinhar-lhe os pensamentos. — Ela não é má pessoa, inspector. Fez o que fez por desespero. E pagou.
— Eu sei.
— Mas o senhor tem de lidar com isso à sua maneira.
João levantou-se e foi até à janela. O largo estava cheio de vida agora. As crianças corriam, as mulheres varriam as soleiras. Tudo parecia normal. Mas João sabia que a normalidade era uma fina camada sobre um abismo.
— Vou dar uma volta — disse.
— Esteja descansado, inspector. — Lopes levantou-se também. — Se precisar de alguma coisa...
— Obrigado.
João saiu. O sol bateu-lhe no rosto e fechou os olhos por um instante. O calor era bom. Ouviu o sino da igreja, o riso de uma criança. Tudo tão normal. Mas havia uma sombra no canto do seu olho, uma forma que se movia lentamente junto ao poço.
Abriu os olhos e olhou para o largo. A sombra ainda lá estava. Indefinida, mas real. Uma figura feminina, talvez, parada na boca do poço.
O coração de João acelerou. Mas não de medo. De reconhecimento.
A mulher ergueu a mão devagar. Acenou.
João não se moveu. A sua respiração acalmou-se. Lá ao fundo, o largo continuava indiferente, como se ninguém visse o que ele via.
A sombra acenou de novo, e depois desvaneceu-se, como névoa ao sol.
João ficou a olhar para o poço, para as pedras gastas, para a água escura que se adivinhava lá no fundo. E sentiu uma paz imensa. Não era o fim. Era apenas o princípio de outra coisa.
Voltou a cabeça e viu Maria do Carmo à porta da taberna, de avental, a observá-lo.
— Viste? — perguntou ela.
— Vi.
— Elas estão em paz. Agora.
— Eu sei.
Maria do Carmo sorriu, um sorriso cansado mas leve, e voltou a entrar na taberna. João permaneceu no largo, a respirar o ar da manhã, enquanto o sino badalava e a vida continuava, frágil e teimosa, como sempre.
A Sombra no Poço
Os dias seguintes trouxeram uma rotina mansa a João Martins. De manhã, ajudava na esquadra: arquivos, patrulhas, conversas com os aldeões que se queixavam de cães vadios ou de ervas daninhas nos terrenos. À tarde, passava pela taberna e bebia uma cerveja fresca enquanto ouvia as histórias de Maria do Carmo. À noite, lia os velhos dossiers e tentava decifrar os padrões que ligavam o passado ao presente.
Eram as horas do crepúsculo as que mais o inquietavam. Quando o sol se punha atrás dos montados, o céu tingia-se de púrpura e as sombras cresciam, João sentia um formigueiro na nuca. Não era medo, mas uma expectativa. Sabia que havia mais para ver. E que, mais cedo ou mais tarde, as visões regressariam.
Numa dessas tardes, Teresa Melo chegou à vila. João soube-o porque viu um carro preto parar em frente à igreja e uma mulher magra, de cabelo escuro apanhado num rabo-de-cavalo, sair de lá. Vestia roupas simples, e o seu rosto estava mais magro, mas os olhos tinham uma centelha de determinação.
João não foi ao seu encontro. Preferiu observar de longe, do banco do largo. Viu-a entrar na taberna, e pouco depois Maria do Carmo saiu e abraçou-a. As duas mulheres falaram por muito tempo. Quando Teresa saiu, limpava as lágrimas com um lenço. Olhou na direção de João, e ele assentiu, sem se levantar. Ela respondeu com um sorriso triste e entrou no carro.
Não precisavam de palavras. O que havia entre eles era um entendimento silencioso, uma cicatriz partilhada.
Nessa noite, João demorou-se no largo mais do que o costume. As estrelas já pontilhavam o céu, e o ar arrefecera. Os grilos cantavam nas ervas secas. Ele estava sozinho. A vila dormia.
O poço. Sempre o poço.
João levantou-se e caminhou até à velha estrutura de pedra. A boca circular exalava um cheiro a terra húmida e a água parada. Era ali que tudo começara, com o corpo de Helena. E era ali que, de vez em quando, lhe parecia ver formas indistintas.
Encostou-se à borda e olhou para baixo. A escuridão era total. Mas não sentiu frio. Sentiu uma presença.
— Estás aí? — murmurou.
Ninguém respondeu. Apenas o vento a sussurrar nos ramos das azinheiras.
João fechou os olhos. E então, como se a noite se abrisse, viu-a.
Uma mulher. Jovem, de cabelo comprido e vestido claro. Estava parada junto ao poço, a poucos metros dele. O seu rosto era sereno. Não era a Helena. Era outra. Talvez a terceira desaparecida, cujo corpo nunca fora encontrado.
João abriu os olhos. A figura continuava lá, translúcida, banhada por uma luz que não existia. A mulher levantou uma mão devagar. Não em súplica. Em saudação.
João não se moveu. Não sentiu medo. Pelo contrário, uma onda de calma invadiu-lhe o peito. A mulher sorriu, um sorriso triste mas pleno. Depois, acenou. Um aceno longo, como se dissesse adeus.
João ergueu a mão também. Acenou de volta.
A figura recuou um passo, dois, e depois dissolveu-se na escuridão, como se nunca lá tivesse estado.
O silêncio regressou. Mas não era um silêncio vazio. Era um silêncio preenchido por uma sensação de completude. João olhou para a sua mão, ainda estendida no ar. Baixou-a lentamente.
— Está feito — sussurrou.
Ouviu passos atrás de si. Maria do Carmo aproximou-se, envolta num xale escuro. Trazia uma lanterna, mas não a acendeu.
— Viste-a.
— Vi.
— É a última. Agora estão todas em paz.
João assentiu. — Como soubeste que eu estava aqui?
— Porque eu também senti. O ciclo fechou-se.
Olharam um para o outro. A luz das estrelas refletia-se nos olhos de Maria do Carmo. Ela já não parecia cansada. Parecia mais leve.
— E agora? — perguntou ela.
— Agora... vivemos.
Maria do Carmo sorriu e deu-lhe o braço. Caminharam juntos pelo largo adormecido. O sino da igreja badalou uma vez, um som solitário que ecoou pela planície.
No dia seguinte, Alpedreza acordou diferente. Não havia milagres, mas havia uma sensação de renovação. As pessoas sorriam mais. As conversas eram menos tensas. E João, pela primeira vez, sentiu que fazia parte daquilo. Não como forasteiro. Como alguém que tinha chegado para ficar.
Ao fim da manhã, sentou-se na esquadra e pegou num caderno novo. Abriu na primeira página e escreveu: "O mal não morre. Adormece. Cabe-nos a nós velar para que não acorde."
Lopes entrou e viu-o a escrever.
— Isso é para o relatório?
— Não. É para mim.
Lopes não fez mais perguntas. Foi buscar café e sentou-se em silêncio.
João continuou a escrever. Descreveu o que vira, o que sentira. E no final, acrescentou: "A sombra acenou-me. Eu acenei de volta. E ela desapareceu. Não em agonia. Em paz."
Fechou o caderno e olhou pela janela. O poço estava lá, quieto e antigo. Mas já não lhe metia medo. Era apenas um poço. Um eco do passado, a lembrar-lhe o que podia ter sido e o que, afinal, se tinha tornado.
Ao longe, uma figura feminina passou pelo largo, uma aldeã que ia à fonte. João viu-a e sorriu. Era apenas uma mulher, de carne e osso. Mas por um instante, pareceu-lhe que ela lhe acenava.
E ele acenou de volta.
Fim.