"
O Ritual no Subsolo
IA
Descida à Escuridão
O ar à entrada da mina cheirava a enxofre e a terra húmida. A noite envolvia Alpedreza como uma mortalha, e a lua escondia-se atrás de nuvens pesadas. João Martins avançou pelo túnel estreito, com Maria do Carmo logo atrás. Atrás deles, um punhado de aldeões segurava archotes que lançavam sombras trémulas nas paredes rochosas. O som de uma litania distante ecoava das profundezas, palavras arcaicas que pareciam fazer a pedra vibrar.
João apertou o punho. A raiva fervia-lhe no peito. Adriano estava lá em baixo, a fazer o seu ritual. E Teresa, de certeza, estava nas mãos dele. Prometera a Maria que não se deixaria levar pelo ódio, mas o eco da voz de Adriano, o mesmo homem que destruíra o seu pai, acendia-lhe um fogo difícil de controlar.
— Não é só raiva o que sentes — sussurrou Maria, pousando-lhe a mão no braço. — É medo. Medo de seres como ele.
João não respondeu. Continuou a descer, os pés a escorregarem no chão irregular. Os archotes dos aldeões mal iluminavam o caminho, mas ele não precisava deles. Dentro da sua mente, a imagem da criança apareceu. Desta vez, não o acusava. Apontava para a frente, para a escuridão, com um sorriso triste.
— Vai — murmurou João, mais para si do que para a aparição. — Vou seguir-te.
O túnel alargou-se, transformando-se numa caverna ampla. Estalactites pendiam do tecto como presas de um animal adormecido. No centro, um círculo de velas negras tremeluzia. Figuras toscas esculpidas na rocha rodeavam o altar improvisado: uma laje de pedra onde Teresa estava amarrada.
Ela estava consciente. Os olhos arregalados de terror encontraram os de João. Um pano sujo tapava-lhe a boca, mas os seus gritos abafados encheram o ar.
Adriano Saragoça erguia-se junto ao altar, de costas para a entrada. Trajava uma túnica escura, e na mão direita segurava a pedra negra, a mesma que polira vezes sem conta. O seu corpo oscilava, como se dançasse ao ritmo da própria voz.
— ...et invoco te, umbra antiqua, exaudi vocem meam... — as palavras latinas fluíam-lhe da boca como veneno. As sombras na parede ganharam vida própria. Dançavam, contorciam-se, alongavam-se até formarem uma nuvem espessa que pairava sobre a laje.
João fez menção de avançar, mas Maria segurou-lhe o braço com força.
— Espera — disse ela, a voz carregada de tensão. — Não é ele que temos de enfrentar. É o que está a chamar.
A litania de Adriano tornou-se mais intensa. As velas bruxulearam e, por um momento, todas se apagaram. A escuridão foi absoluta. Depois, uma luz baça, como a de um sol moribundo, acendeu-se no centro do círculo. Não vinha de archote algum. Vinha das sombras.
Adriano voltou-se. Os seus olhos cinzentos, normalmente frios, ardiam agora com um brilho sobrenatural.
— Chegaste, João. Sempre soube que virias. Estava escrito.
João deu um passo em frente, os punhos cerrados.
— Larga-a, Adriano. Isto acaba aqui.
O ourives riu, um som ecoante que se misturou com a litania ainda audível.
— Acabar? Achas que podes acabar com o que nunca começou? O eco do mal não tem princípio nem fim. É eterno. E tu, filho do teu pai, estás prestes a tornar-te parte dele.
A nuvem de sombra deslocou-se, aproximando-se de Teresa. Ela debateu-se, tentando gritar. João sentiu o impulso de se atirar a Adriano, de lhe esmagar aquele sorriso de desprezo. Mas lembrou-se da promessa. Da conversa com Maria. Da mão que ela lhe estendera quando tudo parecia perdido.
A criança apareceu de novo, agora mesmo ao lado do altar. Apontou para Adriano, depois para o peito de João. A mensagem era clara: ali é o campo de batalha.
João respirou fundo. Olhou para Maria, que acenou com a cabeça. Depois, virou-se para os aldeões que aguardavam, hesitantes, à entrada da caverna.
— Deem-me as mãos — pediu, a voz firme apesar do turbilhão interior. — Todos. Formem um círculo. E não larguem, aconteça o que acontecer.
O Perdão que Desfaz as Sombras
Os aldeões obedeceram. Homens e mulheres que dias antes o olhavam com desconfiança uniram-se. As mãos calejadas de Amadeu Cruz e as trémulas de Dona Adelaide entrelaçaram-se, formando uma corrente humana à volta do altar. Maria do Carmo ficou à direita de João, apertando-lhe os dedos com uma força que contradizia a sua idade.
— Juntos — sussurrou ela. — Só assim.
Adriano observou-os com um escárnio que lhe torcia os lábios.
— Palermas! Pensam que as mãos dadas podem travar as forças que invoquei? Isto é mais antigo do que a vossa aldeia, mais antigo do que a vossa fé. Olhem para mim! Eu sou o guardião.
João avançou mais um passo, até ficar a poucos metros de Adriano. A raiva ainda lhe latejava nas têmporas, mas já não o cegava.
— Não és guardião, Adriano. És um prisioneiro. Tal como o meu pai foi. Mas eu não vou ser.
O rosto de Adriano contraiu-se. Por um instante, por baixo da arrogância, João viu medo.
— O teu pai era fraco. Como tu. Recusou o dom que lhe ofereci. Preferiu a morte.
— Ele escolheu não se tornar em ti — respondeu João, a voz embargada mas segura. — E eu faço a mesma escolha. Mas não fugindo. Ficando. E perdoando.
Adriano deu um passo atrás, como se tivesse levado um golpe.
— Perdoar? A mim? Tu não sabes o que eu fiz...
— Sei. Sei que corrompeste o meu pai. Que tiraste vidas. Que espalhaste medo. Mas também sei que estás tão acorrentado ao mal como qualquer uma das tuas vítimas. Não venho combater-te. Venho libertar-te.
As palavras de João ecoaram na caverna. As sombras que dançavam estremeceram. A nuvem sobre Teresa ficou mais fina.
Adriano levou a mão ao peito, onde guardava a pedra negra. Os seus olhos brilharam com uma luz vacilante.
— Não... não podes. O eco escolheu-me. Deu-me poder.
— Deu-te solidão — contrapôs João. — Olha à tua volta, Adriano. Estás sozinho. E eu, mesmo no fundo deste poço, estou acompanhado. Olha para eles.
O ourives desviou o olhar para o círculo de aldeões. Homens e mulheres que conhecia, que temera, que desprezara. Estavam ali, de mãos dadas, a enfrentar o escuro. E nos seus rostos, em vez de ódio, havia compaixão.
— O mal que te consome alimenta-se do teu medo e da tua raiva — continuou João. — Mas eu não te ofereço nenhum. Ofereço-te o meu perdão. Mesmo que não o mereças. Mesmo que não o queiras. Porque o mal nunca se vence com mais mal. Só com o contrário.
A mão de Maria apertou a de João com mais força. Um calor começou a irradiar do ponto de contacto, percorrendo o braço dele e espalhando-se pelo corpo. Era uma sensação estranha, como se uma luz interior quisesse sair.
Adriano cambaleou. A litania cessou abruptamente. As sombras recuaram, sibilando como serpentes feridas.
— Não... Eu sou o escolhido... — A voz do ourives tornou-se um lamento. — Não me tires isto...
— Não te tiro nada. Só te mostro o que já perdeste.
João estendeu a mão livre para Adriano. Não como ameaça, mas como convite.
— Larga a pedra. Vem connosco. Ainda há tempo.
Por um momento, Adriano hesitou. Os dedos tremeram sobre a pedra negra. Os seus olhos encontraram os de João, e pela primeira vez, o brilho sobrenatural pareceu esmorecer.
Mas então, a nuvem de sombra retorceu-se com violência. Um uivo encheu a caverna, um som que não era humano, que fazia tremer os ossos.
— Tarde demais... — sussurrou Adriano, e a sua expressão passou da dúvida ao pânico. O mal que invocara já não lhe obedecia.
A escuridão envolveu-o como um manto vivo. Ele gritou, um grito que se afogou no redemoinho de sombras. A pedra negra brilhou com uma luz púrpura e, de repente, sugou-o para dentro de si. Adriano Saragoça foi arrastado para o abismo que se abriu no chão da caverna — um poço que ninguém notara até então, negro como a noite eterna.
E caiu.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. As velas reacenderam-se, mas agora com uma chama dourada e quente. A nuvem de sombras dissipou-se. Teresa, libertada das cordas invisíveis, desmorrou-se nos braços de uma aldeã que acorrera.
João ficou imóvel, a mão ainda estendida no vazio. Sentiu o toque gelado de algo a roçar-lhe os dedos. Era a mão da criança. Agora sorria abertamente, um sorriso de paz. Fez-lhe uma festa nos dedos, e depois, como fumo ao vento, desapareceu.
Lágrimas correram pelo rosto de João. Não de tristeza, mas de alívio. Anos de culpa desfizeram-se naquele instante. A criança não o acusava mais. Estava em paz.
A luz que surgira do círculo de mãos dadas expandiu-se, banhando toda a caverna. Não era uma luz ofuscante, mas suave, como a do amanhecer. Afastou as últimas sombras e aqueceu os rostos cansados das pessoas.
— Conseguimos — murmurou Maria, a voz trémula. — Conseguimos.
João olhou para o poço onde Adriano desaparecera. A escuridão lá em baixo parecia diferente. Menos ameaçadora, mas ainda assim... profunda.
O Eco Permanece
O silêncio na mina foi quebrado por um soluço. Teresa, ainda abalada, agarrava-se a um dos aldeões, o rosto banhado em lágrimas.
— Perdoem-me — balbuciou ela. — Perdoem-me por tudo.
João aproximou-se e ajoelhou-se ao seu lado.
— Já não há nada que perdoar, Teresa. Fizeste o que tinhas de fazer. O teu pai... ele estava perdido. Tu salvaste-o daquilo.
Ela fitou-o, os olhos incrédulos.
— Mas eu matei-o...
— E levaste esse peso sozinha durante demasiado tempo. Agora, partilha-o connosco. Vais ver que fica mais leve.
Maria do Carmo ajudou Teresa a levantar-se, e juntos reuniram-se ao resto do grupo. Os aldeões, ainda de mãos dadas, olhavam para o poço com uma mistura de medo e esperança.
— O que aconteceu ao Adriano? — perguntou Amadeu, a voz rouca.
João aproximou-se da borda do poço. A escuridão lá em baixo era impenetrável. Não se ouvia um som. Pegou num archote e deixou-o cair. A chama sumiu-se sem revelar nada.
— Não sei — respondeu João. — Mas acho que o mal que o consumiu levou-o para o seu próprio abismo.
Dona Adelaide benzeu-se.
— Isso significa que está acabado? Que o eco do mal se calou?
João hesitou. Não sabia o que responder. Olhou para Maria, que mantinha os olhos fixos no poço.
— Ainda oiço qualquer coisa — sussurrou ela. — Não palavras. Só... um eco.
João também ouviu. Um sussurro quase imperceptível, como uma brisa que roça as folhas secas. Vinha das profundezas.
— O mal nunca dorme — disse ele, repetindo o que o pai escrevera no diário. — Apenas espera.
Os aldeões entreolharam-se, inquietos. Mas João ergueu a voz, firme.
— E nós também esperaremos. Juntos. Não é preciso ter medo do que aí vem. O que for, enfrentaremos da mesma forma.
Hesitantes, alguns anuíram. Maria apertou-lhe a mão.
— E agora? — perguntou Teresa.
— Agora voltamos — disse João. — Mostramos à vila que a escuridão pode recuar. Que não estamos sós.
Saíram da mina em grupo, amparando-se uns aos outros. O ar da noite, outrora sufocante, parecia agora fresco e limpo. As nuvens abriram-se, revelando um céu estrelado. No caminho de volta, ninguém falou. Mas o silêncio não era pesado. Era abençoado.
João ficou para trás, junto à entrada da mina. Maria esperou por ele.
— Viste a criança? — perguntou ela.
— Vi. Sorriu. Desapareceu em paz.
— Então o teu fardo aliviou.
João olhou para as próprias mãos.
— Sim. Mas há outro. O poço... está vazio. O Adriano não está lá.
Maria franziu o sobrolho.
— O que queres dizer?
— Vou ver uma última vez. Sozinho. Espera aqui.
Ela ia protestar, mas a expressão de João convenceu-a. Ele acendeu um archote novo e entrou de novo na mina. Percorreu o túnel até à caverna. O altar ainda estava lá. As velas, agora apagadas, jaziam num círculo de cera derretida. E o poço.
João espreitou. O archote iluminou a verticalidade da queda, mas não mostrou fundo. Era um abismo.
— Adriano? — chamou, a voz ecoando.
Nada. Só o silêncio.
Baixou-se e pegou numa pedra solta. Lançou-a ao poço. Esperou. Não se ouviu nenhum baque.
Então, do fundo, emergiu um sussurro. Não era a voz de Adriano. Era algo mais antigo, mais profundo. Uma frase arrastada, como se a própria escuridão falasse.
— O mal nunca morre...
João recuou. O archote tremelicou. O poço estava vazio. Adriano desaparecera por completo. Mas aquele sussurro... ficou no ar.
Aguentou-se firme. Não havia medo agora. Apenas a certeza de que a vigília continuaria.
Deu as costas ao poço e saiu da mina. Lá fora, Maria esperava, o olhar ansioso.
— Ouviste? — perguntou João.
— Ouvi. Toda a gente ouviu.
Ele olhou para os aldeões. Estavam pálidos, mas não fugiam. Algo mudara neles.
— O Adriano? — insistiu Maria.
— O poço está vazio. Só ficou a palavra.
João respirou fundo e repetiu em voz alta:
— O poço onde Adriano caiu está vazio. E um sussurro ecoou: 'O mal nunca morre...'
Maria fez o sinal da cruz. Os outros imitaram-na. Mas ninguém desatou a correr. Ficaram ali, juntos, sob as estrelas.
João olhou para o caminho de regresso à vila. Sabia que não havia fim definitivo. O eco permaneceria. Mas enquanto houvesse mãos para se unirem, a luz não se apagaria.
A aurora começou a tingir o horizonte de laranja e rosa. Um novo dia despontava sobre Alpedreza. E, pela primeira vez em muito tempo, João sentiu-se em casa.
O ar à entrada da mina cheirava a enxofre e a terra húmida. A noite envolvia Alpedreza como uma mortalha, e a lua escondia-se atrás de nuvens pesadas. João Martins avançou pelo túnel estreito, com Maria do Carmo logo atrás. Atrás deles, um punhado de aldeões segurava archotes que lançavam sombras trémulas nas paredes rochosas. O som de uma litania distante ecoava das profundezas, palavras arcaicas que pareciam fazer a pedra vibrar.
João apertou o punho. A raiva fervia-lhe no peito. Adriano estava lá em baixo, a fazer o seu ritual. E Teresa, de certeza, estava nas mãos dele. Prometera a Maria que não se deixaria levar pelo ódio, mas o eco da voz de Adriano, o mesmo homem que destruíra o seu pai, acendia-lhe um fogo difícil de controlar.
— Não é só raiva o que sentes — sussurrou Maria, pousando-lhe a mão no braço. — É medo. Medo de seres como ele.
João não respondeu. Continuou a descer, os pés a escorregarem no chão irregular. Os archotes dos aldeões mal iluminavam o caminho, mas ele não precisava deles. Dentro da sua mente, a imagem da criança apareceu. Desta vez, não o acusava. Apontava para a frente, para a escuridão, com um sorriso triste.
— Vai — murmurou João, mais para si do que para a aparição. — Vou seguir-te.
O túnel alargou-se, transformando-se numa caverna ampla. Estalactites pendiam do tecto como presas de um animal adormecido. No centro, um círculo de velas negras tremeluzia. Figuras toscas esculpidas na rocha rodeavam o altar improvisado: uma laje de pedra onde Teresa estava amarrada.
Ela estava consciente. Os olhos arregalados de terror encontraram os de João. Um pano sujo tapava-lhe a boca, mas os seus gritos abafados encheram o ar.
Adriano Saragoça erguia-se junto ao altar, de costas para a entrada. Trajava uma túnica escura, e na mão direita segurava a pedra negra, a mesma que polira vezes sem conta. O seu corpo oscilava, como se dançasse ao ritmo da própria voz.
— ...et invoco te, umbra antiqua, exaudi vocem meam... — as palavras latinas fluíam-lhe da boca como veneno. As sombras na parede ganharam vida própria. Dançavam, contorciam-se, alongavam-se até formarem uma nuvem espessa que pairava sobre a laje.
João fez menção de avançar, mas Maria segurou-lhe o braço com força.
— Espera — disse ela, a voz carregada de tensão. — Não é ele que temos de enfrentar. É o que está a chamar.
A litania de Adriano tornou-se mais intensa. As velas bruxulearam e, por um momento, todas se apagaram. A escuridão foi absoluta. Depois, uma luz baça, como a de um sol moribundo, acendeu-se no centro do círculo. Não vinha de archote algum. Vinha das sombras.
Adriano voltou-se. Os seus olhos cinzentos, normalmente frios, ardiam agora com um brilho sobrenatural.
— Chegaste, João. Sempre soube que virias. Estava escrito.
João deu um passo em frente, os punhos cerrados.
— Larga-a, Adriano. Isto acaba aqui.
O ourives riu, um som ecoante que se misturou com a litania ainda audível.
— Acabar? Achas que podes acabar com o que nunca começou? O eco do mal não tem princípio nem fim. É eterno. E tu, filho do teu pai, estás prestes a tornar-te parte dele.
A nuvem de sombra deslocou-se, aproximando-se de Teresa. Ela debateu-se, tentando gritar. João sentiu o impulso de se atirar a Adriano, de lhe esmagar aquele sorriso de desprezo. Mas lembrou-se da promessa. Da conversa com Maria. Da mão que ela lhe estendera quando tudo parecia perdido.
A criança apareceu de novo, agora mesmo ao lado do altar. Apontou para Adriano, depois para o peito de João. A mensagem era clara: ali é o campo de batalha.
João respirou fundo. Olhou para Maria, que acenou com a cabeça. Depois, virou-se para os aldeões que aguardavam, hesitantes, à entrada da caverna.
— Deem-me as mãos — pediu, a voz firme apesar do turbilhão interior. — Todos. Formem um círculo. E não larguem, aconteça o que acontecer.
O Perdão que Desfaz as Sombras
Os aldeões obedeceram. Homens e mulheres que dias antes o olhavam com desconfiança uniram-se. As mãos calejadas de Amadeu Cruz e as trémulas de Dona Adelaide entrelaçaram-se, formando uma corrente humana à volta do altar. Maria do Carmo ficou à direita de João, apertando-lhe os dedos com uma força que contradizia a sua idade.
— Juntos — sussurrou ela. — Só assim.
Adriano observou-os com um escárnio que lhe torcia os lábios.
— Palermas! Pensam que as mãos dadas podem travar as forças que invoquei? Isto é mais antigo do que a vossa aldeia, mais antigo do que a vossa fé. Olhem para mim! Eu sou o guardião.
João avançou mais um passo, até ficar a poucos metros de Adriano. A raiva ainda lhe latejava nas têmporas, mas já não o cegava.
— Não és guardião, Adriano. És um prisioneiro. Tal como o meu pai foi. Mas eu não vou ser.
O rosto de Adriano contraiu-se. Por um instante, por baixo da arrogância, João viu medo.
— O teu pai era fraco. Como tu. Recusou o dom que lhe ofereci. Preferiu a morte.
— Ele escolheu não se tornar em ti — respondeu João, a voz embargada mas segura. — E eu faço a mesma escolha. Mas não fugindo. Ficando. E perdoando.
Adriano deu um passo atrás, como se tivesse levado um golpe.
— Perdoar? A mim? Tu não sabes o que eu fiz...
— Sei. Sei que corrompeste o meu pai. Que tiraste vidas. Que espalhaste medo. Mas também sei que estás tão acorrentado ao mal como qualquer uma das tuas vítimas. Não venho combater-te. Venho libertar-te.
As palavras de João ecoaram na caverna. As sombras que dançavam estremeceram. A nuvem sobre Teresa ficou mais fina.
Adriano levou a mão ao peito, onde guardava a pedra negra. Os seus olhos brilharam com uma luz vacilante.
— Não... não podes. O eco escolheu-me. Deu-me poder.
— Deu-te solidão — contrapôs João. — Olha à tua volta, Adriano. Estás sozinho. E eu, mesmo no fundo deste poço, estou acompanhado. Olha para eles.
O ourives desviou o olhar para o círculo de aldeões. Homens e mulheres que conhecia, que temera, que desprezara. Estavam ali, de mãos dadas, a enfrentar o escuro. E nos seus rostos, em vez de ódio, havia compaixão.
— O mal que te consome alimenta-se do teu medo e da tua raiva — continuou João. — Mas eu não te ofereço nenhum. Ofereço-te o meu perdão. Mesmo que não o mereças. Mesmo que não o queiras. Porque o mal nunca se vence com mais mal. Só com o contrário.
A mão de Maria apertou a de João com mais força. Um calor começou a irradiar do ponto de contacto, percorrendo o braço dele e espalhando-se pelo corpo. Era uma sensação estranha, como se uma luz interior quisesse sair.
Adriano cambaleou. A litania cessou abruptamente. As sombras recuaram, sibilando como serpentes feridas.
— Não... Eu sou o escolhido... — A voz do ourives tornou-se um lamento. — Não me tires isto...
— Não te tiro nada. Só te mostro o que já perdeste.
João estendeu a mão livre para Adriano. Não como ameaça, mas como convite.
— Larga a pedra. Vem connosco. Ainda há tempo.
Por um momento, Adriano hesitou. Os dedos tremeram sobre a pedra negra. Os seus olhos encontraram os de João, e pela primeira vez, o brilho sobrenatural pareceu esmorecer.
Mas então, a nuvem de sombra retorceu-se com violência. Um uivo encheu a caverna, um som que não era humano, que fazia tremer os ossos.
— Tarde demais... — sussurrou Adriano, e a sua expressão passou da dúvida ao pânico. O mal que invocara já não lhe obedecia.
A escuridão envolveu-o como um manto vivo. Ele gritou, um grito que se afogou no redemoinho de sombras. A pedra negra brilhou com uma luz púrpura e, de repente, sugou-o para dentro de si. Adriano Saragoça foi arrastado para o abismo que se abriu no chão da caverna — um poço que ninguém notara até então, negro como a noite eterna.
E caiu.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. As velas reacenderam-se, mas agora com uma chama dourada e quente. A nuvem de sombras dissipou-se. Teresa, libertada das cordas invisíveis, desmorrou-se nos braços de uma aldeã que acorrera.
João ficou imóvel, a mão ainda estendida no vazio. Sentiu o toque gelado de algo a roçar-lhe os dedos. Era a mão da criança. Agora sorria abertamente, um sorriso de paz. Fez-lhe uma festa nos dedos, e depois, como fumo ao vento, desapareceu.
Lágrimas correram pelo rosto de João. Não de tristeza, mas de alívio. Anos de culpa desfizeram-se naquele instante. A criança não o acusava mais. Estava em paz.
A luz que surgira do círculo de mãos dadas expandiu-se, banhando toda a caverna. Não era uma luz ofuscante, mas suave, como a do amanhecer. Afastou as últimas sombras e aqueceu os rostos cansados das pessoas.
— Conseguimos — murmurou Maria, a voz trémula. — Conseguimos.
João olhou para o poço onde Adriano desaparecera. A escuridão lá em baixo parecia diferente. Menos ameaçadora, mas ainda assim... profunda.
O Eco Permanece
O silêncio na mina foi quebrado por um soluço. Teresa, ainda abalada, agarrava-se a um dos aldeões, o rosto banhado em lágrimas.
— Perdoem-me — balbuciou ela. — Perdoem-me por tudo.
João aproximou-se e ajoelhou-se ao seu lado.
— Já não há nada que perdoar, Teresa. Fizeste o que tinhas de fazer. O teu pai... ele estava perdido. Tu salvaste-o daquilo.
Ela fitou-o, os olhos incrédulos.
— Mas eu matei-o...
— E levaste esse peso sozinha durante demasiado tempo. Agora, partilha-o connosco. Vais ver que fica mais leve.
Maria do Carmo ajudou Teresa a levantar-se, e juntos reuniram-se ao resto do grupo. Os aldeões, ainda de mãos dadas, olhavam para o poço com uma mistura de medo e esperança.
— O que aconteceu ao Adriano? — perguntou Amadeu, a voz rouca.
João aproximou-se da borda do poço. A escuridão lá em baixo era impenetrável. Não se ouvia um som. Pegou num archote e deixou-o cair. A chama sumiu-se sem revelar nada.
— Não sei — respondeu João. — Mas acho que o mal que o consumiu levou-o para o seu próprio abismo.
Dona Adelaide benzeu-se.
— Isso significa que está acabado? Que o eco do mal se calou?
João hesitou. Não sabia o que responder. Olhou para Maria, que mantinha os olhos fixos no poço.
— Ainda oiço qualquer coisa — sussurrou ela. — Não palavras. Só... um eco.
João também ouviu. Um sussurro quase imperceptível, como uma brisa que roça as folhas secas. Vinha das profundezas.
— O mal nunca dorme — disse ele, repetindo o que o pai escrevera no diário. — Apenas espera.
Os aldeões entreolharam-se, inquietos. Mas João ergueu a voz, firme.
— E nós também esperaremos. Juntos. Não é preciso ter medo do que aí vem. O que for, enfrentaremos da mesma forma.
Hesitantes, alguns anuíram. Maria apertou-lhe a mão.
— E agora? — perguntou Teresa.
— Agora voltamos — disse João. — Mostramos à vila que a escuridão pode recuar. Que não estamos sós.
Saíram da mina em grupo, amparando-se uns aos outros. O ar da noite, outrora sufocante, parecia agora fresco e limpo. As nuvens abriram-se, revelando um céu estrelado. No caminho de volta, ninguém falou. Mas o silêncio não era pesado. Era abençoado.
João ficou para trás, junto à entrada da mina. Maria esperou por ele.
— Viste a criança? — perguntou ela.
— Vi. Sorriu. Desapareceu em paz.
— Então o teu fardo aliviou.
João olhou para as próprias mãos.
— Sim. Mas há outro. O poço... está vazio. O Adriano não está lá.
Maria franziu o sobrolho.
— O que queres dizer?
— Vou ver uma última vez. Sozinho. Espera aqui.
Ela ia protestar, mas a expressão de João convenceu-a. Ele acendeu um archote novo e entrou de novo na mina. Percorreu o túnel até à caverna. O altar ainda estava lá. As velas, agora apagadas, jaziam num círculo de cera derretida. E o poço.
João espreitou. O archote iluminou a verticalidade da queda, mas não mostrou fundo. Era um abismo.
— Adriano? — chamou, a voz ecoando.
Nada. Só o silêncio.
Baixou-se e pegou numa pedra solta. Lançou-a ao poço. Esperou. Não se ouviu nenhum baque.
Então, do fundo, emergiu um sussurro. Não era a voz de Adriano. Era algo mais antigo, mais profundo. Uma frase arrastada, como se a própria escuridão falasse.
— O mal nunca morre...
João recuou. O archote tremelicou. O poço estava vazio. Adriano desaparecera por completo. Mas aquele sussurro... ficou no ar.
Aguentou-se firme. Não havia medo agora. Apenas a certeza de que a vigília continuaria.
Deu as costas ao poço e saiu da mina. Lá fora, Maria esperava, o olhar ansioso.
— Ouviste? — perguntou João.
— Ouvi. Toda a gente ouviu.
Ele olhou para os aldeões. Estavam pálidos, mas não fugiam. Algo mudara neles.
— O Adriano? — insistiu Maria.
— O poço está vazio. Só ficou a palavra.
João respirou fundo e repetiu em voz alta:
— O poço onde Adriano caiu está vazio. E um sussurro ecoou: 'O mal nunca morre...'
Maria fez o sinal da cruz. Os outros imitaram-na. Mas ninguém desatou a correr. Ficaram ali, juntos, sob as estrelas.
João olhou para o caminho de regresso à vila. Sabia que não havia fim definitivo. O eco permaneceria. Mas enquanto houvesse mãos para se unirem, a luz não se apagaria.
A aurora começou a tingir o horizonte de laranja e rosa. Um novo dia despontava sobre Alpedreza. E, pela primeira vez em muito tempo, João sentiu-se em casa.