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Por O Contador de Histórias

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 14 Assistido por IA
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O Peso da Herança

IA
A Visão no Xale

A taberna estava vazia àquela hora. As cadeiras ainda estavam em cima das mesas. Maria do Carmo não se importava. Precisava de silêncio. João estava encostado ao balcão. Tinha o rosto fechado. Ainda sentia o peso da conversa com Teresa na mina. A traição, o medo, a culpa. Tudo se misturava.
- Trouxe uma coisa. - disse ele, pousando um embrulho de pano no balcão.
Maria olhou-o. Os olhos cansados do inspector tinham um brilho novo. Não era esperança. Era determinação.
- O que é?
- Pertencia a uma das raparigas. A Helena. A primeira que encontrei. Estava na esquadra. O Lopes guardou os pertences.
Maria respirou fundo. As mãos tremeram-lhe ligeiramente. Já tinha tocado em coisas assim. Mas nunca se habituava. O dom era uma ferida aberta.
- Queres que eu...?
João assentiu.
- Já não podemos perder tempo. A Zulmira enganou-nos. A Teresa quase nos destruiu. Precisamos de uma pista. De uma verdade.
Ela estendeu a mão. O embrulho era gasto. O cheiro a naftalina e a um perfume doce, já quase desvanecido. Desdobrou o pano com cuidado. Era um xale. De lã fina, azul-escuro, com uma pequena nódoa na ponta.
- Era dela. - murmurou Maria. - Tão nova.
Fechou os olhos. Deixou os dedos pousarem no tecido. A princípio não sentiu nada. Apenas o calor da lã. Depois, o mundo estilhaçou-se.
As imagens vieram em catadupa. Brutais. Uma rapariga de cabelo escuro, a mesma que João vira no poço, corria num caminho de terra. Estava descalça. O vestido rasgado. Atrás dela, uma sombra. Zulmira. A curandeira movia-se depressa para uma velha. Os olhos negros brilhavam na noite. Não era medo. Era prazer.
A rapariga tropeçou. Zulmira agarrou-a. Cravou-lhe as mãos ossudas nos ombros. A rapariga gritou, mas o som foi abafado por uma gargalhada. Adriano Saragoça saiu da escuridão. Tinha o sorriso calmo de sempre. Não disse nada. Limitou-se a estender a mão. A rapariga debateu-se, mas Zulmira empurrou-a para ele. Adriano pegou-lhe no queixo. Os dedos finos apertaram-lhe a carne. Depois arrastou-a para um vulto escuro. Uma mina. A entrada da mina engoliu-os.
Maria sentiu o cheiro a terra podre. Sentiu o desespero da rapariga. O pavor a apertar-lhe a garganta. A visão mudou. Viu outras caras. Outras vítimas. Todas entregues por Zulmira. Todas recebidas por Adriano. E uma voz, a voz de Adriano, a sussurrar: "O eco precisa de almas. E tu, Zulmira, serás a minha mão."
A mão de Maria afastou-se do xale com um repelão. Caiu para trás. João amparou-a antes de bater no chão.
- Maria! O que viste?
Ela arfava. O suor escorria-lhe pela testa. Os olhos estavam muito abertos, cheios de uma certeza terrível.
- Foi ela. A Zulmira. Foi ela que lhes entregou. Ela e o Adriano. Juntos.
João apertou-lhe o braço.
- Tens a certeza?
- Vi. Como se estivesse lá. A rapariga, a Helena, correu e a Zulmira agarrou-a. O Adriano esperava na mina. Há mais. Muitas mais.
O inspector deixou-se cair num banco. O rosto ficou pálido.
- A cabana... aquela pista falsa... era tudo um plano.
- Ela não é só cúmplice. É a captora. - disse Maria, já de pé. - Temos de ir.
- Agora?
- Agora. Antes que ela fuja. Antes que o Adriano saiba.
João levantou-se. Atrás do cansaço, a fúria começava a acordar.
- Vamos.


A Cabana da Curandeira

A noite caía sobre Alpedreza. As ruas estavam desertas. Apenas um cão ladrava ao longe. João e Maria caminharam depressa. A cabana de Zulmira ficava no limite da vila. Um casebre meio escondido por azinheiras. O cheiro a ervas queimadas guiava-os.
- Odeio este sítio. - murmurou Maria.
João não respondeu. A mão direita apertava o coldre da pistola. Não queria usá-la. Mas já não confiava em ninguém.
A porta estava entreaberta. Uma luz fraca tremia lá dentro.
- Zulmira? - chamou João.
Silêncio.
Empurraram a porta. O interior era um caos. Prateleiras cheias de frascos, ervas penduradas, velas derretidas. No centro, uma mesa de madeira gasta. Em cima dela, um amontoado de objectos. Um lenço, um brinco, uma madeixa de cabelo. Pertences das desaparecidas.
- Meu Deus... - sussurrou Maria.
João revirou os objectos. As mãos tremiam-lhe.
- Ela guardava troféus.
Um ruído atrás deles. Zulmira surgiu da penumbra. Tinha uma faca na mão. Os olhos negros faiscavam.
- Vieram bisbilhotar?
- Acabou, Zulmira. Sabemos tudo. - disse João.
Ela riu. Um riso agudo, doentio.
- Não sabem nada. O senhor Adriano avisou-me que viriam. Mas não importa. Já fiz o que tinha a fazer.
Maria avançou um passo.
- Tu entregaste aquelas raparigas. Vi-te. Vi o teu sorriso enquanto as arrastavas.
Zulmira cuspiu no chão.
- Fiz o que era preciso. O eco precisava delas. A aldeia precisa do eco. Sem ele, nada somos.
- Estás louca! - gritou Maria.
- Louca? - Zulmira ergueu a faca. - A loucura é pensares que podes lutar contra algo maior do que tu.
Atirou-se a Maria. João foi mais rápido. Agarrou-lhe o pulso. A faca voou. Zulmira debateu-se com uma força que não parecia ter. Arranhou-lhe a cara. Gritou palavras embrulhadas, talvez uma praga antiga. João empurrou-a contra a mesa. Os frascos caíram. Um líquido escuro escorreu pelo chão.
Maria apanhou a faca. Apontou-a à curandeira.
- Quieta!
Zulmira parou. O peito arfava. O cabelo desgrenhado colava-se ao suor da testa.
- Agora vais falar. - disse João. - Vais contar tudo.
Ela encolheu os ombros.
- Para quê? Já não há nada a fazer. O senhor Adriano vai continuar. Ele é eterno.
- Nós vamos detê-lo. - afirmou Maria.
Zulmira olhou-a com desprezo.
- Tu? Uma velha com visões? Ele vai esmagar-te como esmagou o pai dele.
João apertou-lhe o braço com força.
- O meu pai não foi esmagado. Foi assassinado.
- Escolheu a morte. Foi fraco. Tu és igual. Todos são fracos. Menos o senhor Adriano.
- Vamos levá-la para a esquadra. - disse João, com a voz fria. - O Lopes que trate dela.
Amarraram-lhe as mãos com uma corda que encontraram num canto. Zulmira não resistiu mais. Deixou-se levar, murmurando coisas incompreensíveis. Antes de sair, Maria olhou para os objectos em cima da mesa. Pegou no lenço, no brinco, na madeixa. Eram as provas. Os ecos de vidas roubadas.
- Temos de as devolver às famílias. - disse ela.
João assentiu. Empurraram Zulmira para fora. A noite estava mais escura. Mas havia um fio de luar a iluminar o caminho de volta.


A Confissão

A esquadra era um cubículo frio. Uma secretária, duas cadeiras, um candeeiro meio fundido. O agente Lopes esfregava os olhos. Não estava à espera de uma visita àquela hora.
- O que se passa, inspector?
- Trouxemos a Zulmira. - disse João, atirando a curandeira para uma das cadeiras. - Ela vai confessar.
Lopes arregalou os olhos.
- A Zulmira? Mas o que é que ela fez?
- Ela que conte.
Zulmira mantinha a cabeça baixa. As mãos ainda atadas pousavam no colo. Não parecia a mesma mulher. Toda a arrogância se fora. Restava uma velha enrugada, com o olhar perdido.
- Diz-lhes. - ordenou Maria.
A curandeira levantou os olhos. Tinham um brilho estranho. Não era medo. Era uma espécie de alívio.
- Fiz o que o senhor Adriano mandou. - murmurou ela. - Sempre fiz.
Lopes sentou-se devagar. Tirou um bloco de notas da gaveta.
- Vai ter de explicar melhor.
- Ele apareceu-me há muitos anos. Disse que a aldeia corria perigo. Que havia um mal antigo a despertar. E que precisava de ser alimentado. Senão, engolia-nos a todos.
- E acreditou nisso? - perguntou João.
- Acreditei. E vi. Vi o que ele fazia. O eco respondia-lhe. Dava-lhe poder. E ele repartia comigo. Eu podia ver coisas. Saber coisas. Curar... ou fazer adoecer.
- E os desaparecimentos?
- Ele precisava de almas. Almas puras. Jovens, com medo. O medo alimenta o eco. Eu atraía-os. Com promessas, com ervas, com mentiras. E entregava-os. O senhor Adriano levava-os para a mina. Lá, o eco bebia-lhes a essência.
Maria fechou os olhos. A repulsa apertava-lhe o estômago.
- Quantos?
Zulmira encolheu os ombros.
- Perdi a conta. O primeiro foi um rapaz. Há trinta anos. Depois vieram outros. O senhor Adriano dizia que era necessário. Que a aldeia sobrevivia graças a isso.
- E tu acreditaste? - gritou Maria.
- Acreditei. E agora já não sei. Talvez tenha sido uma desculpa. Talvez eu gostasse do poder. De ver o medo nos olhos deles.
João bateu com o punho na mesa.
- Chega!
O silêncio pesou. Lopes escrevia a custo. A mão tremia-lhe.
- Vou ter de chamar os colegas de Évora. - murmurou ele.
- Chame. - disse João. - Mas antes, ela vai dizer-nos onde está o Adriano.
Zulmira riu. Um riso seco.
- Ele está em todo o lado. E em lado nenhum. Mas o coração dele é a mina. É lá que o eco dorme. E é lá que ele vos espera.
- Vamos buscá-lo. - disse João.
- Não adianta. Ele é mais forte do que vocês. O eco protege-o.
- Isso vamos ver.
Lopes levantou-se.
- Vou trancá-la. Depois venho buscar-vos.
Levou Zulmira para uma cela nos fundos. A velha não resistiu. Deixou-se arrastar. Antes de desaparecer, olhou para Maria.
- Tu também tens o dom. Mas é uma maldição. Vais ver.
A porta fechou-se. Maria sentiu um arrepio. João pousou a mão no ombro dela.
- Não lhe dês ouvidos. Nós vamos acabar com isto.
- E a aldeia? O que vai acontecer quando souberem?
- Vão ter de saber. Já chega de segredos.
Nessa noite, a notícia correu como fogo. Os vizinhos saíram à rua. Gritos, choros. Alguns queriam linchar Zulmira. Outros não acreditavam. Mas as provas estavam lá. Os objectos das desaparecidas. A confissão. A máscara caiu. A teia da curandeira desfez-se. E o nome de Adriano Saragoça foi cuspido com ódio.


O Eco na Mina

A confusão tomou conta do largo da igreja. Homens seguravam archotes. Mulheres rezavam. O agente Lopes tentava acalmar os ânimos. João e Maria estavam no meio da multidão. A voz de Maria elevou-se:
- Temos de ir atrás do Adriano. Ele está na mina.
- A mina? - perguntou um lavrador. - Mas aquilo está abandonado há anos.
- É onde ele se esconde. Onde fez todo o mal.
A multidão agitou-se. O medo misturava-se com a raiva. Mas um por um, os aldeões foram recuando. A mina era um lugar amaldiçoado. Ninguém queria lá entrar.
- Vão deixá-lo fugir? - gritou João.
- Nós vamos contigo, inspector. - disse Lopes, com a voz trémula. - Mas precisamos de um plano.
- Não há tempo para planos. Cada minuto que passa, ele escapa-se.
Maria apertou-lhe o braço.
- Temos de ir. Nós dois. Como sempre.
João olhou para ela. Havia determinação no rosto envelhecido. E uma coragem que lhe enchia o peito.
- Vamos.
Deram as costas à multidão. Caminharam pela rua escura. O luar desenhava sombras retorcidas nas paredes caiadas. Atrás deles, os aldeões ficaram a murmurar. Mas ninguém os seguiu.
A mina ficava a meia légua. Um caminho de terra batida, ladeado por sobreiros. O cheiro a terra molhada e a vegetação podre. No alto de um outeiro, uma silhueta escura. A entrada da mina. Um buraco negro na rocha.
Pararam a poucos metros. O coração de João batia com força.
- Ele está lá dentro. Sinto-o. - sussurrou Maria.
- Eu também.
De repente, um vulto mexeu-se. Não na mina. Mais perto. Junto a uma azinheira. Era Adriano. Estava ali. Quieto. Observava-os.
- Adriano! - gritou João.
O ourives não respondeu. O luar iluminava-lhe o rosto pálido. As rugas pareciam mais fundas. Os olhos cinzentos brilhavam como a pedra que guardava no bolso. Tinha um sorriso estranho. Não de desafio. De quem sabe algo que os outros ignoram.
- Acabou, Adriano. A Zulmira confessou. A aldeia sabe de tudo.
Adriano inclinou a cabeça.
- A Zulmira era fraca. A confissão dela não muda nada.
- Vamos levar-te.
Ele riu.
- Levar-me? Aonde? Para a prisão? Vocês não percebem. Eu não estou preso a lado nenhum. Eu sou o eco. O eco sou eu.
- Chega de palavras. - disse Maria. - Vem connosco.
Adriano ergueu a mão. Um gesto lento. A pedra negra brilhou entre os dedos.
- Ainda não acabou, inspector. O eco vai continuar. Porque o mal nunca morre. Apenas adormece. E quando acordar, tu estarás aqui para o servir. Como o teu pai ia servir.
João avançou. Mas Adriano deu meia-volta. Com uma agilidade que a idade não justificava, entrou na mina. A escuridão engoliu-o.
- Não! - gritou João.
Correu para a entrada. Mas Maria agarrou-o.
- Espera! Está escuro. Pode ser uma armadilha.
João parou. O peito arfava. A raiva consumia-o. Lá dentro, a voz de Adriano ecoou, já distante, mas ainda audível:
- Ainda não acabou.
E o silêncio caiu. Só o vento entre as rochas. E o cheiro a enxofre que subia da mina.
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