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Por O Contador de Histórias

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 15 Assistido por IA
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A Última Ceia

IA
A Ceia e o Perdão

A taberna estava mergulhada numa penumbra quente. As velas no centro da mesa lançavam sombras trémulas nas paredes caiadas. Em cima da toalha de linho, um pão de centeio, azeitonas pretas, queijo de ovelha e um jarro de vinho tinto. Lá fora, a noite alentejana abafava os sons da vila, como se o próprio ar segurasse a respiração. João Martins sentara-se num dos lados da mesa, as costas apoiadas na parede. As olheiras cavadas e o cabelo desgrenhado denunciavam o cansaço, mas os olhos cinzentos mantinham-se atentos. Passou a mão pelos cabelos, num gesto rápido, e rangeu os dentes antes de falar. — Comamos, então. Amanhã não sei se teremos tempo. Maria do Carmo, do outro lado, já servia o vinho. O seu xale de lã caía-lhe pelos ombros, e as mãos calejadas não hesitavam. Teresa Melo, sentada à cabeceira, mantinha as mãos cruzadas no colo, o olhar fixo no prato vazio. Tinha o cabelo louro apanhado num carrapito apertado, e as feições tensas pareciam feitas de cera. O silêncio prolongou-se, apenas quebrado pelo estalar da lenha na lareira. Finalmente, Teresa levantou a cabeça. Os olhos verdes brilhavam com lágrimas contidas. — João... Quero pedir-te desculpa. Pela traição. Sei que não mereço o teu perdão. A voz saiu-lhe mais firme do que esperava, embora no final lhe tremesse os lábios. João pousou o copo e encarou-a, sem ironia. — Teresa, já te perdoei. O que fizeste foi por medo, e o medo torna-nos estúpidos. Mas ainda aqui estás. E isso é o que conta. Ela abanou a cabeça. — Não é assim tão simples. Eu... eu matei o meu pai. Achei que estava a impedir que ele se transformasse numa coisa maligna, mas... carrego esse peso desde os quinze anos. E o Adriano sabia. Usou-me. Um soluço escapou-lhe. Maria do Carmo, que até ali estivera calada, estendeu a mão por cima da mesa e tocou-lhe no braço. — Miúda, o passado é uma corrente que muitos arrastam. Mas tu não estás sozinha. A vergonha é uma prisão que só se abre quando se fala. E agora falaste. Teresa limpou as lágrimas com as costas da mão e aceitou o lenço que João lhe ofereceu. — Então e agora? Que faço com isto? — sussurrou ela. João inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Amanhã, quando entrarmos na mina, podes enfrentar o mal de frente. Não para o matares, que isso não se mata assim. Mas para lhe mostrares que há coisas mais fortes do que o medo. Coisas como a confiança. Ou a amizade. Maria do Carmo serviu-se de azeitonas e murmurou: — Lá isso é verdade. A minha avó dizia: 'Coração sem medo é coração que já morreu.' A coragem não é não ter medo. É agir apesar dele. — Era sábia a sua avó — comentou João. Maria sorriu, um sorriso triste que lhe vincou as rugas. — Sábia e teimosa. Denunciou o mal que via, e a vila queimou-a como herege. Eu era pequena, mas lembro-me do cheiro. Do silêncio depois. Cresci a pensar que o melhor era calar. Mas agora... já não posso. A conversa deslizou para memórias antigas. Maria falou da avó, das visões que herdara, dos objectos que lhe contavam histórias. João ouviu, e pela primeira vez sentiu que compreendia o peso da herança. Teresa parecia absorta, mas de quando em vez os seus olhos endureciam com uma nova resolução. Comeram devagar. O pão foi partilhado, o vinho diminuiu. Lá fora, o vento começou a soprar, fazendo ranger as portadas da taberna. João levantou-se e foi espreitar pela janela, mas a rua estava deserta. — O Adriano sabe que vamos tentar — disse ele, voltando-se para as duas mulheres. — Mas também sabe que estamos juntos. E isso é o medo dele. — Como é que tens a certeza? — perguntou Teresa. — Porque ele sempre agiu isolando as pessoas. Era o que fazia com o meu pai. E contigo. E com tantos outros. Mas a solidão é a arma dele. Se a quebrarmos... Maria do Carmo interrompeu, esfregando os dedos como se desfiasse um rosário invisível. — Quebrar a solidão não é só estar junto. É confiar. E isso demora tempo. — Pois demora — concordou João. — Mas amanhã é a prova. Se formos capazes de confiar uns nos outros lá dentro, ele perde força. É nessa teia que quero apostar. Teresa apertou os lábios. — Eu confio em vocês. Mas duvido de mim. João regressou à mesa e pousou a mão no ombro dela. — Não duvides. Lembra-te do que a Maria disse: o medo não é fraqueza. É o que fazemos com ele que conta. Um trovão longínquo ribombou. As velas tremeram. Maria fez o sinal da cruz. — Deus nos valha, mas esta noite está carregada. O jantar terminou em silêncio. Cada um parecia mergulhado nos seus pensamentos, mas havia um fio invisível que os ligava. A chama das velas reflectia-se nos copos vazios e nas facas de ponta romba. Teresa ajudou Maria a arrumar os pratos, enquanto João ficou sentado, o olhar perdido no vazio. O cansaço pesava-lhe nos ombros, mas uma determinação fria mantinha-o desperto. Amanhã seria o dia. Aquele pensamento repetia-se-lhe na mente como uma reza. Maria regressou da cozinha e sentou-se outra vez, o rosário de contas escuras a deslizar entre os dedos. — É melhor dormirmos um pouco — sugeriu, a voz cansada mas calma. — Amanhã precisamos de forças. Teresa olhou para João e assentiu. — Sim. Mas não sei se conseguirei dormir. — O medo não nos deixa descansar — respondeu ele. — Mas temos de tentar. Fiquem aqui. Eu fico de sentinela. Maria protestou, mas João insistiu. As duas mulheres acomodaram-se nos bancos corridos, encostando-se à parede. João apagou todas as velas menos uma, que deixou tremeluzir no centro da mesa. A escuridão envolveu a taberna, e só o respirar lento das mulheres e o uivar distante do vento quebravam o silêncio. João ficou a olhar para a chama, a mente a fervilhar de imagens do que poderia encontrar na mina. Mas, por entre o medo, havia uma ponta de esperança que nunca antes sentira. Não estava sozinho.


O Fantasma e o Lamento

O silêncio foi quebrado por um arrepio que percorreu o ar. João sentiu-o na nuca, como um sopro gelado. A chama da vela oscilou e, por um instante, pareceu que a sala mergulhava numa escuridão mais densa. Depois, uma luz ténue começou a formar-se perto da porta. Não vinha de lado nenhum; era uma claridade difusa, um brilho suave que contrastava com as sombras. João pestanejou, incrédulo. A luz foi tomando forma. Primeiro, um contorno vago; depois, os traços de um rapazito de olhos grandes. A criança que o perseguira durante anos. Mas agora não havia acusação nos seus olhos. Em vez disso, um sorriso tranquilo iluminava-lhe o rosto translúcido. A criança ergueu a mão direita, num aceno lento. João sentiu um nó na garganta. Quis falar, mas as palavras não saíam. A criança ficou ali, suspensa, como se esperasse algo. Depois, num movimento suave, desvaneceu-se, e a luz apagou-se, deixando apenas a vela acesa. João ficou imóvel, os olhos húmidos. Maria, que dormitava a seu lado, mexeu-se. — João? Viste alguma coisa? — a voz dela era um sussurro rouco. — Vi... o fantasma da criança. Mas não me acusou. Sorriu-me. Maria endireitou-se no banco e olhou para a porta. — Então talvez seja um sinal. A minha avó dizia que os espíritos sorriem quando encontram paz. Se essa criança te perdoou, é porque fizeste as pazes com ela. Teresa, despertada pela conversa, esfregou os olhos. — De que criança falam? — perguntou, a voz ainda enrolada no sono. — É uma história antiga — explicou João. — Um caso que correu mal, há muitos anos. Uma criança que não salvei. Desde então, aparecia-me nas visões, a acusar-me. Mas agora... parece que me perdoei a mim mesmo. Teresa fitou-o com uma expressão séria. — Às vezes, o perdão mais difícil é o nosso. Mas se já o conseguiste, então talvez amanhã consigas enfrentar o Adriano de outra maneira. João acenou com a cabeça, sentindo uma leveza que não conhecia há muito. — Talvez. Mas ainda temos de planear. Amanhã de madrugada, vamos à mina. Já falei com alguns aldeões. O Amadeu garantiu que vai connosco, e mais uns poucos. Não somos um exército, mas somos os que restam. — E se o Adriano nos atacar antes de entrarmos? — perguntou Teresa. — Ele está lá dentro. Senti-o quando passámos pela mina hoje. Está a preparar qualquer coisa. Mas a mina é o lar dele, o lugar onde se sente mais forte. Lá, teremos de enfrentar o pior. Maria pousou as mãos na mesa e ergueu-se, subitamente decidida. — Pois então iremos. A minha avó dizia: 'Quem tem medo do lobo não vai ao monte.' Não seremos nós a faltar. Teresa levantou-se também, o rosto pálido mas os olhos firmes. — Eu vou. Preciso de enfrentar o que fiz. Se o meu pai está naquela mina, de alguma forma... quero libertá-lo. — E nós ajudamos — disse João. — Mas lembrem-se: o Adriano vai tentar separar-nos. Vai usar os nossos medos. É assim que ele age. Temos de confiar uns nos outros, mesmo quando tudo parecer perdido. Maria pegou no rosário e passou-o a Teresa. — Toma. Reza o que souberes. Não sei se serve de algo, mas a avó dizia que a fé move montanhas. Teresa aceitou o rosário, as contas escuras a escorregar-lhe entre os dedos. — Obrigada. A partir de agora, estamos juntos. João olhou para as duas mulheres, sentindo uma onda de gratidão. Não eram apenas aliadas. Eram amigas. Naquele momento, a solidão que o acompanhara durante anos pareceu dissipar-se. Terminaram os preparativos em silêncio. João verificou a lanterna e a navalha no bolso. Teresa alisou a saia, os ombros mais direitos. Maria cobriu-se com o xale e fez o sinal da cruz. Foi então que o som veio. Não foi um grito, nem um estrondo. Foi um lamento, um gemido profundo e distante, como se a terra se queixasse. O som veio da direcção da mina e fez estremecer o chão da taberna. Os copos tilintaram, e a chama da vela oscilou. João levantou-se de repente, o coração a bater com força. — Ouviram? Maria fez o sinal da cruz e Teresa levou a mão ao peito. — Ouvi. É como se a terra chorasse. — Não é choro — murmurou João. — É um lamento. O eco do mal a despertar. Ficaram os três em silêncio, as respirações suspensas, enquanto o som desvanecia lentamente, deixando apenas um zumbido nos ouvidos. Lá fora, o vento parou e tudo ficou quieto. Um som vindo da mina interrompe a ceia: um lamento distante que todos ouvem.
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