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Por O Contador de Histórias

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 12 Assistido por IA
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A Armadilha na Mina

IA
A Semente da Revolta

A taberna cheirava a borra de café e a suor. João despejou o resto da aguardente no copo e entornou-a de um trago. A garganta ardeu-lhe. Maria do Carmo, do outro lado do balcão, esfregava os dedos uns nos outros, como se desfiasse um rosário invisível.

— Precisamos de ajuda — murmurou ela. — Sozinhos não lhe chegamos.

João passou a mão pelos cabelos desgrenhados. Rangeu os dentes.

— Desta vez vou buscá-los. Seja onde for.

— Ainda tens o diabo no corpo. Mas o ódio não chega. O Adriano tem homens. Tem... outras coisas.

A porta rangeu. Era Amadeu, o sapateiro, de boné enfiado até às orelhas. Trazia o sobrolho carregado.

— Ouvi dizer que andam a tramar qualquer coisa.

Maria olhou para João. Ele acenou.

— Anda cá, Amadeu. Precisamos de ti.

O velho aproximou-se, desconfiado. Maria serviu-lhe um bagaço.

— O ourives — disse João. — É ele o culpado. Dos desaparecidos. De tudo.

Amadeu largou uma baforada.

— Todos sabemos que ele não é trigo limpo. Mas provas?

— As nossas visões — atirou Maria. — Eu e o inspector vemos coisas. E vimos o Adriano a mandar matar.

Amadeu coçou o queixo.

— Visões... A tua avó também via. E queimaram-na por isso.

— Pois queimaram. E eu não vou ficar calada como fiquei na altura.

O sapateiro virou o copo. Os olhos cansados cravaram-se nos de João.

— Eu conheci o teu pai. Ele também veio cá, há muitos anos. Andava a farejar o mesmo. E depois... bem, todos sabemos como acabou.

João sentiu um nó na garganta.

— Por isso mesmo tenho de acabar o que ele começou.

Lá fora, a noite caía sobre Alpedreza. Um vento seco levantava redemoinhos de pó na praça. Amadeu suspirou.

— Eu conheço uns quantos que não gostam do ourives. Gente que perdeu familiares. Mas têm medo.

— O medo é o que ele quer — disse Maria. — Se nos unirmos, ele enfraquece.

Durante uma hora, a taberna encheu-se de sombras. Chegaram o Pai José, de batina surrada, e mais dois aldeões de rosto grave: o Manuel da horta e o Tiago, o ferreiro. Todos traziam o mesmo olhar de quem enterrou mortos sem explicação.

João desenrolou um mapa rudimentar da mina.

— O Adriano usa este sítio para os rituais. É aqui que temos de o cercar.

— E se ele tiver os tais poderes? — perguntou Tiago.

— Temos de ser mais espertos. Apanhá-lo desprevenido.

Maria pousou a mão no mapa e fechou os olhos. Os dedos tremeram.

— A escuridão está lá. Mas a luz também pode entrar.

Amadeu persignou-se.

— Se formos, vamos todos. E rezemos para que Deus nos ajude.

João olhou para cada um.

— Ao nascer do sol, cercamos a entrada principal da mina. Ele costuma chegar antes do amanhecer.

— E se ele fugir? — perguntou Manuel.

— Há uma saída secundária, a nordeste. É preciso tapar os dois lados.

Maria apontou para o mapa.

— Eu vou com o inspector pela frente. Amadeu, leva o Tiago e o Manuel para a saída de trás. Pai José, fica cá a rezar por nós.

O padre abanou a cabeça.

— Eu vou convosco. A minha alma já está condenada de qualquer maneira.

Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Lá fora, o vento uivava como um animal ferido.

Entretanto, na penumbra do seu quarto, Teresa Melo segurava o telemóvel com mãos trémulas. A mensagem de Adriano ainda brilhava no ecrã: «Eles preparam uma armadilha. Diz-me o que sabes ou revelo o teu segredo.»

Lágrimas silenciosas escorreram-lhe pelo rosto. O pai... o maldito dia em que enfiara a faca no peito dele para o impedir de se tornar um monstro. Adriano sabia. Usara aquele conhecimento para a esmagar, para a transformar num trapo.

Os dedos digitaram a resposta: «Amanhã de madrugada. Vão cercar a mina.»

Carregou no enviar. Depois atirou o telemóvel para a cama e soluçou até o peito lhe doer.

Na taberna, o grupo dispersou-se. João e Maria ficaram a sós, arrumando os copos.

— Vais ver que corre tudo bem — disse ela, sem convicção.

— Duvido. Mas já não podemos recuar.

Maria tocou-lhe no braço.

— Seja o que Deus quiser.

Lá fora, a lua escondia-se atrás de nuvens negras. Alpedreza adormecia, mas nos corações daqueles que se preparavam, a revolta já não dormia.


O Troar da Traição

A madrugada ainda não rompera quando o grupo se reuniu à entrada da mina. Um cheiro a enxofre e terra húmida pairava no ar. As lanternas projectavam sombras trémulas nas paredes rochosas. João, Maria, Amadeu, Tiago, Manuel e o Pai José formavam uma linha ténue de coragem.

— Ninguém acende nada até eu dar sinal — sussurrou João. — O Adriano pode ter armadilhas.

O padre persignou-se.

— Deus nos proteja.

João fez sinal a Maria e começaram a avançar pelo túnel principal. A escuridão engolia os feixes de luz. Gotas de água caíam do tecto, ritmadas como um relógio.

De repente, um riso ecoou das profundezas.

— Achavam mesmo que me iam surpreender?

A voz de Adriano reverberou na pedra. João estacou.

— Mostra-te, cobarde!

Um clarão cortou a escuridão. Uma explosão ensurdecedora rebentou a poucos metros, lançando uma onda de calor e fumo acre. Gritos. Corpos projectados contra as paredes.

João sentiu o peito comprimido. O zumbido nos ouvidos toldava-lhe os sentidos. Tateou o chão, encontrou Maria, tossindo.

— Estás ferida?

— Não sei... o Manuel...

Mais adiante, o corpo do Manuel jazia imóvel, a perna retorcida num ângulo impossível. Amadeu e Tiago tentavam arrastá-lo para longe das chamas.

— Foi uma armadilha! — gritou Amadeu. — O desgraçado sabia que vínhamos!

João cambaleou, levantou-se. A mente, turva, procurava respostas.

— Como é que ele sabia?

— Alguém lhe disse...

No meio do fumo, uma figura feminina surgiu, trémula. Teresa. Os olhos inchados de choro.

— Fui eu... — soluçou. — Eu avisei-o.

João agarrou-a pelos ombros.

— Tu?! Porquê?

Ela desabou nos joelhos.

— Ele sabe... sabe o que eu fiz...

— O que fizeste?

Teresa ergueu o rosto, a voz embargada.

— Matei o meu pai. Há dez anos. Ele estava possuído... pelo eco do mal. Ia tornar-se um receptáculo. Eu não tive escolha...

As palavras caíram como pedras. João recuou.

— Mataste o teu pai?

— Para salvar a vila... Para o impedir de ser usado. Mas o Adriano descobriu. Desde então, faz de mim o que quer. Ameaça revelar tudo.

Maria, ainda a tossir, aproximou-se.

— E agora? Avisaste-o da armadilha.

— Sim... — confessou Teresa, baixando a cabeça. — Mas não queria que ninguém morresse. Pensei que ele só fugisse...

Amadeu cuspiu no chão.

— Peste! Por tua causa o Manuel está aleijado!

João respirou fundo. A raiva fervia-lhe nas veias, mas a visão de Teresa, desfeita em lágrimas, acendeu uma réstia de compaixão.

— Ainda estás a tempo de escolher o lado certo.

Ela ergueu os olhos.

— Como? Depois do que fiz?

— Ajuda-nos a pará-lo. O teu segredo... enfrentaremos isso depois.

Teresa soluçou, acenou que sim.

Um ruído metálico interrompeu-os. No chão, entre os escombros, um pequeno altifalante emitia estática. Depois, uma voz distorcida, irreconhecível e ao mesmo tempo inconfundível:

— Parabéns, inspector. Mais um corpo para a tua colecção. Mas não te preocupes... o corpo do pai da Teresa será a minha âncora. E depois, ela será a minha sucessora.

Teresa levou as mãos à boca, um grito abafado.

— Não... o meu pai...

João esmagou o aparelho com o tacão da bota.

— Ele está a brincar connosco.

— Mas o que disse sobre o corpo... — soluçou Teresa. — Ele vai usar o meu pai como âncora para o mal.

Maria agarrou-a pelo braço.

— Onde é que o teu pai está enterrado?

— Na campa da família, atrás da igreja...

— Temos de ir lá. Depressa!

João deteve-as.

— Não. Isso é o que ele quer. Dispersar-nos. O corpo já deve ter sido levado. A única maneira de o travar é enfrentá-lo na fonte.

— Na mina — resmungou Amadeu. — Lá no fundo.

— Exactamente. É ali que ele faz os rituais. E é ali que temos de o encontrar.

Tiago, que amparava o Manuel ferido, abanou a cabeça.

— Eu levo o Manuel à vila. Vocês vão?

— Vamos — disse João, com uma determinação que não admitia réplica.

O ferreiro acenou e, com a ajuda do Pai José, carregou o corpo do companheiro para fora da mina.

João, Maria e Teresa ficaram na penumbra. O fumo dissipava-se lentamente.

— Eu vou convosco — murmurou Teresa, enxugando as lágrimas. — Preciso de acabar com isto.

João fez-lhe um aceno seco.

— Então vamos. Mas desta vez, sem avisos.

Ela baixou a cabeça, envergonhada.

— Juro que não.

Maria puxou o xale sobre os ombros.

— Se é para irmos, vamos já. Antes que o covil se feche.

João acendeu uma lanterna e apontou-a para o corredor que se afundava na escuridão.

— Adriano está à nossa espera. Mas não lhe vamos dar o que ele quer.


Nas Entranhas da Escuridão

O ar na mina era denso, impregnado de um cheiro a mofo e metal oxidado. As paredes, escorregadias de humidade, reflectiam a luz das lanternas em fragmentos de quartzo. João avançava à frente, o feixe de luz a dançar sobre pedras soltas. Maria seguia-o de perto, o rosário de dedos a tricotar preces silenciosas. Atrás, Teresa arrastava os pés, os olhos fixos na escuridão, como se procurasse redenção.

— Por aqui — sussurrou João, apontando para uma galeria descendente.

O túnel estreitava-se. Tiveram de se curvar para passar. O som dos seus passos ecoava como um coração irregular.

— Ele está perto — murmurou Maria. — Sinto-o.

De súbito, uma corrente de ar gelado fê-los estremecer. À frente, uma câmara maior abria-se, iluminada por velas negras dispostas em círculo. No centro, um altar de pedra bruta. Sobre ele, uma forma alongada coberta por um pano escuro.

— O corpo do meu pai... — soluçou Teresa.

João estendeu o braço para a deter.

— Cuidado. É uma armadilha.

Mas o silêncio era total. Apenas o crepitar das velas.

— Ele não está aqui — constatou Maria.

— Fugiu — rosnou João. — Deixou-nos este mimo.

Aproximaram-se do altar. Teresa, com mãos trémulas, puxou o pano. Debaixo, apenas pedras e um gravador antigo.

Premiu o botão. A voz distorcida de Adriano encheu a câmara:

— Ingenuidade comovente. Pensaram que eu ia esperar? O corpo do teu pai já está onde deve estar. E tu, Teresa, quando estiveres pronta, serás a minha herdeira. O eco do mal não se apaga. Apenas muda de hospedeiro.

A gravação terminou com uma gargalhada metálica.

Teresa caiu de joelhos, os punhos cerrados contra o peito.

— Ele profanou a campa... Meu Deus, o que é que eu fiz?

Maria ajoelhou-se ao lado dela.

— Erguer a cabeça. A culpa não te serve de nada.

João desligou o gravador e guardou-o no bolso.

— Ele quer que nos sintamos derrotados. Mas enquanto tivermos a mina, temos uma pista. Ele não pode andar longe.

— Por onde? — perguntou Maria.

João iluminou as paredes. Numa delas, marcas recentes de escavação.

— Há túneis que não estão nos mapas. O nosso ourives gosta de segredos.

— E se formos atrás dele? — insistiu Teresa, agora de pé, o rosto molhado mas os olhos secos. — Eu sei coisas... sobre os rituais. Ele mostrou-me, para me atormentar. Se o corpo do meu pai serve de âncora, o ritual tem de ser feito num lugar específico: a câmara central, onde as correntes de energia convergem.

— E onde é isso? — perguntou João.

— No fundo da mina. Onde a rocha é mais negra. É ali que ele vai tentar invocar o mal.

Maria benzeu-se.

— Então é para lá que vamos.

João acenou.

— Não temos outra escolha.

Olhou para trás. A galeria que tinham percorrido parecia engolir a luz. Mas à frente, a escuridão era ainda mais profunda.

— Vamos — disse. — E desta vez, ninguém fica para trás.

Teresa pegou numa lanterna de reserva e juntou-se a eles. O trio avançou, os passos abafados pela terra húmida. As velas tremeluziram e apagaram-se, uma a uma, como se a própria mina prendesse a respiração.

À medida que desciam, o ar arrefecia. Um murmúrio indefinido subia das profundezas, como um cântico antigo.

— Sente-se o eco — sussurrou Maria.

João não respondeu. Apenas apertou o punho em volta da lanterna e continuou a andar.

A escuridão fechava-se atrás deles como uma porta de pedra.

João, Maria e Teresa, com os aldeões, avançam para dentro da mina às escuras.
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