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A Armadilha na Mina
IA
A Semente da Revolta
A taberna cheirava a borra de café e a suor. João despejou o resto da aguardente no copo e entornou-a de um trago. A garganta ardeu-lhe. Maria do Carmo, do outro lado do balcão, esfregava os dedos uns nos outros, como se desfiasse um rosário invisível.
— Precisamos de ajuda — murmurou ela. — Sozinhos não lhe chegamos.
João passou a mão pelos cabelos desgrenhados. Rangeu os dentes.
— Desta vez vou buscá-los. Seja onde for.
— Ainda tens o diabo no corpo. Mas o ódio não chega. O Adriano tem homens. Tem... outras coisas.
A porta rangeu. Era Amadeu, o sapateiro, de boné enfiado até às orelhas. Trazia o sobrolho carregado.
— Ouvi dizer que andam a tramar qualquer coisa.
Maria olhou para João. Ele acenou.
— Anda cá, Amadeu. Precisamos de ti.
O velho aproximou-se, desconfiado. Maria serviu-lhe um bagaço.
— O ourives — disse João. — É ele o culpado. Dos desaparecidos. De tudo.
Amadeu largou uma baforada.
— Todos sabemos que ele não é trigo limpo. Mas provas?
— As nossas visões — atirou Maria. — Eu e o inspector vemos coisas. E vimos o Adriano a mandar matar.
Amadeu coçou o queixo.
— Visões... A tua avó também via. E queimaram-na por isso.
— Pois queimaram. E eu não vou ficar calada como fiquei na altura.
O sapateiro virou o copo. Os olhos cansados cravaram-se nos de João.
— Eu conheci o teu pai. Ele também veio cá, há muitos anos. Andava a farejar o mesmo. E depois... bem, todos sabemos como acabou.
João sentiu um nó na garganta.
— Por isso mesmo tenho de acabar o que ele começou.
Lá fora, a noite caía sobre Alpedreza. Um vento seco levantava redemoinhos de pó na praça. Amadeu suspirou.
— Eu conheço uns quantos que não gostam do ourives. Gente que perdeu familiares. Mas têm medo.
— O medo é o que ele quer — disse Maria. — Se nos unirmos, ele enfraquece.
Durante uma hora, a taberna encheu-se de sombras. Chegaram o Pai José, de batina surrada, e mais dois aldeões de rosto grave: o Manuel da horta e o Tiago, o ferreiro. Todos traziam o mesmo olhar de quem enterrou mortos sem explicação.
João desenrolou um mapa rudimentar da mina.
— O Adriano usa este sítio para os rituais. É aqui que temos de o cercar.
— E se ele tiver os tais poderes? — perguntou Tiago.
— Temos de ser mais espertos. Apanhá-lo desprevenido.
Maria pousou a mão no mapa e fechou os olhos. Os dedos tremeram.
— A escuridão está lá. Mas a luz também pode entrar.
Amadeu persignou-se.
— Se formos, vamos todos. E rezemos para que Deus nos ajude.
João olhou para cada um.
— Ao nascer do sol, cercamos a entrada principal da mina. Ele costuma chegar antes do amanhecer.
— E se ele fugir? — perguntou Manuel.
— Há uma saída secundária, a nordeste. É preciso tapar os dois lados.
Maria apontou para o mapa.
— Eu vou com o inspector pela frente. Amadeu, leva o Tiago e o Manuel para a saída de trás. Pai José, fica cá a rezar por nós.
O padre abanou a cabeça.
— Eu vou convosco. A minha alma já está condenada de qualquer maneira.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Lá fora, o vento uivava como um animal ferido.
Entretanto, na penumbra do seu quarto, Teresa Melo segurava o telemóvel com mãos trémulas. A mensagem de Adriano ainda brilhava no ecrã: «Eles preparam uma armadilha. Diz-me o que sabes ou revelo o teu segredo.»
Lágrimas silenciosas escorreram-lhe pelo rosto. O pai... o maldito dia em que enfiara a faca no peito dele para o impedir de se tornar um monstro. Adriano sabia. Usara aquele conhecimento para a esmagar, para a transformar num trapo.
Os dedos digitaram a resposta: «Amanhã de madrugada. Vão cercar a mina.»
Carregou no enviar. Depois atirou o telemóvel para a cama e soluçou até o peito lhe doer.
Na taberna, o grupo dispersou-se. João e Maria ficaram a sós, arrumando os copos.
— Vais ver que corre tudo bem — disse ela, sem convicção.
— Duvido. Mas já não podemos recuar.
Maria tocou-lhe no braço.
— Seja o que Deus quiser.
Lá fora, a lua escondia-se atrás de nuvens negras. Alpedreza adormecia, mas nos corações daqueles que se preparavam, a revolta já não dormia.
O Troar da Traição
A madrugada ainda não rompera quando o grupo se reuniu à entrada da mina. Um cheiro a enxofre e terra húmida pairava no ar. As lanternas projectavam sombras trémulas nas paredes rochosas. João, Maria, Amadeu, Tiago, Manuel e o Pai José formavam uma linha ténue de coragem.
— Ninguém acende nada até eu dar sinal — sussurrou João. — O Adriano pode ter armadilhas.
O padre persignou-se.
— Deus nos proteja.
João fez sinal a Maria e começaram a avançar pelo túnel principal. A escuridão engolia os feixes de luz. Gotas de água caíam do tecto, ritmadas como um relógio.
De repente, um riso ecoou das profundezas.
— Achavam mesmo que me iam surpreender?
A voz de Adriano reverberou na pedra. João estacou.
— Mostra-te, cobarde!
Um clarão cortou a escuridão. Uma explosão ensurdecedora rebentou a poucos metros, lançando uma onda de calor e fumo acre. Gritos. Corpos projectados contra as paredes.
João sentiu o peito comprimido. O zumbido nos ouvidos toldava-lhe os sentidos. Tateou o chão, encontrou Maria, tossindo.
— Estás ferida?
— Não sei... o Manuel...
Mais adiante, o corpo do Manuel jazia imóvel, a perna retorcida num ângulo impossível. Amadeu e Tiago tentavam arrastá-lo para longe das chamas.
— Foi uma armadilha! — gritou Amadeu. — O desgraçado sabia que vínhamos!
João cambaleou, levantou-se. A mente, turva, procurava respostas.
— Como é que ele sabia?
— Alguém lhe disse...
No meio do fumo, uma figura feminina surgiu, trémula. Teresa. Os olhos inchados de choro.
— Fui eu... — soluçou. — Eu avisei-o.
João agarrou-a pelos ombros.
— Tu?! Porquê?
Ela desabou nos joelhos.
— Ele sabe... sabe o que eu fiz...
— O que fizeste?
Teresa ergueu o rosto, a voz embargada.
— Matei o meu pai. Há dez anos. Ele estava possuído... pelo eco do mal. Ia tornar-se um receptáculo. Eu não tive escolha...
As palavras caíram como pedras. João recuou.
— Mataste o teu pai?
— Para salvar a vila... Para o impedir de ser usado. Mas o Adriano descobriu. Desde então, faz de mim o que quer. Ameaça revelar tudo.
Maria, ainda a tossir, aproximou-se.
— E agora? Avisaste-o da armadilha.
— Sim... — confessou Teresa, baixando a cabeça. — Mas não queria que ninguém morresse. Pensei que ele só fugisse...
Amadeu cuspiu no chão.
— Peste! Por tua causa o Manuel está aleijado!
João respirou fundo. A raiva fervia-lhe nas veias, mas a visão de Teresa, desfeita em lágrimas, acendeu uma réstia de compaixão.
— Ainda estás a tempo de escolher o lado certo.
Ela ergueu os olhos.
— Como? Depois do que fiz?
— Ajuda-nos a pará-lo. O teu segredo... enfrentaremos isso depois.
Teresa soluçou, acenou que sim.
Um ruído metálico interrompeu-os. No chão, entre os escombros, um pequeno altifalante emitia estática. Depois, uma voz distorcida, irreconhecível e ao mesmo tempo inconfundível:
— Parabéns, inspector. Mais um corpo para a tua colecção. Mas não te preocupes... o corpo do pai da Teresa será a minha âncora. E depois, ela será a minha sucessora.
Teresa levou as mãos à boca, um grito abafado.
— Não... o meu pai...
João esmagou o aparelho com o tacão da bota.
— Ele está a brincar connosco.
— Mas o que disse sobre o corpo... — soluçou Teresa. — Ele vai usar o meu pai como âncora para o mal.
Maria agarrou-a pelo braço.
— Onde é que o teu pai está enterrado?
— Na campa da família, atrás da igreja...
— Temos de ir lá. Depressa!
João deteve-as.
— Não. Isso é o que ele quer. Dispersar-nos. O corpo já deve ter sido levado. A única maneira de o travar é enfrentá-lo na fonte.
— Na mina — resmungou Amadeu. — Lá no fundo.
— Exactamente. É ali que ele faz os rituais. E é ali que temos de o encontrar.
Tiago, que amparava o Manuel ferido, abanou a cabeça.
— Eu levo o Manuel à vila. Vocês vão?
— Vamos — disse João, com uma determinação que não admitia réplica.
O ferreiro acenou e, com a ajuda do Pai José, carregou o corpo do companheiro para fora da mina.
João, Maria e Teresa ficaram na penumbra. O fumo dissipava-se lentamente.
— Eu vou convosco — murmurou Teresa, enxugando as lágrimas. — Preciso de acabar com isto.
João fez-lhe um aceno seco.
— Então vamos. Mas desta vez, sem avisos.
Ela baixou a cabeça, envergonhada.
— Juro que não.
Maria puxou o xale sobre os ombros.
— Se é para irmos, vamos já. Antes que o covil se feche.
João acendeu uma lanterna e apontou-a para o corredor que se afundava na escuridão.
— Adriano está à nossa espera. Mas não lhe vamos dar o que ele quer.
Nas Entranhas da Escuridão
O ar na mina era denso, impregnado de um cheiro a mofo e metal oxidado. As paredes, escorregadias de humidade, reflectiam a luz das lanternas em fragmentos de quartzo. João avançava à frente, o feixe de luz a dançar sobre pedras soltas. Maria seguia-o de perto, o rosário de dedos a tricotar preces silenciosas. Atrás, Teresa arrastava os pés, os olhos fixos na escuridão, como se procurasse redenção.
— Por aqui — sussurrou João, apontando para uma galeria descendente.
O túnel estreitava-se. Tiveram de se curvar para passar. O som dos seus passos ecoava como um coração irregular.
— Ele está perto — murmurou Maria. — Sinto-o.
De súbito, uma corrente de ar gelado fê-los estremecer. À frente, uma câmara maior abria-se, iluminada por velas negras dispostas em círculo. No centro, um altar de pedra bruta. Sobre ele, uma forma alongada coberta por um pano escuro.
— O corpo do meu pai... — soluçou Teresa.
João estendeu o braço para a deter.
— Cuidado. É uma armadilha.
Mas o silêncio era total. Apenas o crepitar das velas.
— Ele não está aqui — constatou Maria.
— Fugiu — rosnou João. — Deixou-nos este mimo.
Aproximaram-se do altar. Teresa, com mãos trémulas, puxou o pano. Debaixo, apenas pedras e um gravador antigo.
Premiu o botão. A voz distorcida de Adriano encheu a câmara:
— Ingenuidade comovente. Pensaram que eu ia esperar? O corpo do teu pai já está onde deve estar. E tu, Teresa, quando estiveres pronta, serás a minha herdeira. O eco do mal não se apaga. Apenas muda de hospedeiro.
A gravação terminou com uma gargalhada metálica.
Teresa caiu de joelhos, os punhos cerrados contra o peito.
— Ele profanou a campa... Meu Deus, o que é que eu fiz?
Maria ajoelhou-se ao lado dela.
— Erguer a cabeça. A culpa não te serve de nada.
João desligou o gravador e guardou-o no bolso.
— Ele quer que nos sintamos derrotados. Mas enquanto tivermos a mina, temos uma pista. Ele não pode andar longe.
— Por onde? — perguntou Maria.
João iluminou as paredes. Numa delas, marcas recentes de escavação.
— Há túneis que não estão nos mapas. O nosso ourives gosta de segredos.
— E se formos atrás dele? — insistiu Teresa, agora de pé, o rosto molhado mas os olhos secos. — Eu sei coisas... sobre os rituais. Ele mostrou-me, para me atormentar. Se o corpo do meu pai serve de âncora, o ritual tem de ser feito num lugar específico: a câmara central, onde as correntes de energia convergem.
— E onde é isso? — perguntou João.
— No fundo da mina. Onde a rocha é mais negra. É ali que ele vai tentar invocar o mal.
Maria benzeu-se.
— Então é para lá que vamos.
João acenou.
— Não temos outra escolha.
Olhou para trás. A galeria que tinham percorrido parecia engolir a luz. Mas à frente, a escuridão era ainda mais profunda.
— Vamos — disse. — E desta vez, ninguém fica para trás.
Teresa pegou numa lanterna de reserva e juntou-se a eles. O trio avançou, os passos abafados pela terra húmida. As velas tremeluziram e apagaram-se, uma a uma, como se a própria mina prendesse a respiração.
À medida que desciam, o ar arrefecia. Um murmúrio indefinido subia das profundezas, como um cântico antigo.
— Sente-se o eco — sussurrou Maria.
João não respondeu. Apenas apertou o punho em volta da lanterna e continuou a andar.
A escuridão fechava-se atrás deles como uma porta de pedra.
João, Maria e Teresa, com os aldeões, avançam para dentro da mina às escuras.
A taberna cheirava a borra de café e a suor. João despejou o resto da aguardente no copo e entornou-a de um trago. A garganta ardeu-lhe. Maria do Carmo, do outro lado do balcão, esfregava os dedos uns nos outros, como se desfiasse um rosário invisível.
— Precisamos de ajuda — murmurou ela. — Sozinhos não lhe chegamos.
João passou a mão pelos cabelos desgrenhados. Rangeu os dentes.
— Desta vez vou buscá-los. Seja onde for.
— Ainda tens o diabo no corpo. Mas o ódio não chega. O Adriano tem homens. Tem... outras coisas.
A porta rangeu. Era Amadeu, o sapateiro, de boné enfiado até às orelhas. Trazia o sobrolho carregado.
— Ouvi dizer que andam a tramar qualquer coisa.
Maria olhou para João. Ele acenou.
— Anda cá, Amadeu. Precisamos de ti.
O velho aproximou-se, desconfiado. Maria serviu-lhe um bagaço.
— O ourives — disse João. — É ele o culpado. Dos desaparecidos. De tudo.
Amadeu largou uma baforada.
— Todos sabemos que ele não é trigo limpo. Mas provas?
— As nossas visões — atirou Maria. — Eu e o inspector vemos coisas. E vimos o Adriano a mandar matar.
Amadeu coçou o queixo.
— Visões... A tua avó também via. E queimaram-na por isso.
— Pois queimaram. E eu não vou ficar calada como fiquei na altura.
O sapateiro virou o copo. Os olhos cansados cravaram-se nos de João.
— Eu conheci o teu pai. Ele também veio cá, há muitos anos. Andava a farejar o mesmo. E depois... bem, todos sabemos como acabou.
João sentiu um nó na garganta.
— Por isso mesmo tenho de acabar o que ele começou.
Lá fora, a noite caía sobre Alpedreza. Um vento seco levantava redemoinhos de pó na praça. Amadeu suspirou.
— Eu conheço uns quantos que não gostam do ourives. Gente que perdeu familiares. Mas têm medo.
— O medo é o que ele quer — disse Maria. — Se nos unirmos, ele enfraquece.
Durante uma hora, a taberna encheu-se de sombras. Chegaram o Pai José, de batina surrada, e mais dois aldeões de rosto grave: o Manuel da horta e o Tiago, o ferreiro. Todos traziam o mesmo olhar de quem enterrou mortos sem explicação.
João desenrolou um mapa rudimentar da mina.
— O Adriano usa este sítio para os rituais. É aqui que temos de o cercar.
— E se ele tiver os tais poderes? — perguntou Tiago.
— Temos de ser mais espertos. Apanhá-lo desprevenido.
Maria pousou a mão no mapa e fechou os olhos. Os dedos tremeram.
— A escuridão está lá. Mas a luz também pode entrar.
Amadeu persignou-se.
— Se formos, vamos todos. E rezemos para que Deus nos ajude.
João olhou para cada um.
— Ao nascer do sol, cercamos a entrada principal da mina. Ele costuma chegar antes do amanhecer.
— E se ele fugir? — perguntou Manuel.
— Há uma saída secundária, a nordeste. É preciso tapar os dois lados.
Maria apontou para o mapa.
— Eu vou com o inspector pela frente. Amadeu, leva o Tiago e o Manuel para a saída de trás. Pai José, fica cá a rezar por nós.
O padre abanou a cabeça.
— Eu vou convosco. A minha alma já está condenada de qualquer maneira.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Lá fora, o vento uivava como um animal ferido.
Entretanto, na penumbra do seu quarto, Teresa Melo segurava o telemóvel com mãos trémulas. A mensagem de Adriano ainda brilhava no ecrã: «Eles preparam uma armadilha. Diz-me o que sabes ou revelo o teu segredo.»
Lágrimas silenciosas escorreram-lhe pelo rosto. O pai... o maldito dia em que enfiara a faca no peito dele para o impedir de se tornar um monstro. Adriano sabia. Usara aquele conhecimento para a esmagar, para a transformar num trapo.
Os dedos digitaram a resposta: «Amanhã de madrugada. Vão cercar a mina.»
Carregou no enviar. Depois atirou o telemóvel para a cama e soluçou até o peito lhe doer.
Na taberna, o grupo dispersou-se. João e Maria ficaram a sós, arrumando os copos.
— Vais ver que corre tudo bem — disse ela, sem convicção.
— Duvido. Mas já não podemos recuar.
Maria tocou-lhe no braço.
— Seja o que Deus quiser.
Lá fora, a lua escondia-se atrás de nuvens negras. Alpedreza adormecia, mas nos corações daqueles que se preparavam, a revolta já não dormia.
O Troar da Traição
A madrugada ainda não rompera quando o grupo se reuniu à entrada da mina. Um cheiro a enxofre e terra húmida pairava no ar. As lanternas projectavam sombras trémulas nas paredes rochosas. João, Maria, Amadeu, Tiago, Manuel e o Pai José formavam uma linha ténue de coragem.
— Ninguém acende nada até eu dar sinal — sussurrou João. — O Adriano pode ter armadilhas.
O padre persignou-se.
— Deus nos proteja.
João fez sinal a Maria e começaram a avançar pelo túnel principal. A escuridão engolia os feixes de luz. Gotas de água caíam do tecto, ritmadas como um relógio.
De repente, um riso ecoou das profundezas.
— Achavam mesmo que me iam surpreender?
A voz de Adriano reverberou na pedra. João estacou.
— Mostra-te, cobarde!
Um clarão cortou a escuridão. Uma explosão ensurdecedora rebentou a poucos metros, lançando uma onda de calor e fumo acre. Gritos. Corpos projectados contra as paredes.
João sentiu o peito comprimido. O zumbido nos ouvidos toldava-lhe os sentidos. Tateou o chão, encontrou Maria, tossindo.
— Estás ferida?
— Não sei... o Manuel...
Mais adiante, o corpo do Manuel jazia imóvel, a perna retorcida num ângulo impossível. Amadeu e Tiago tentavam arrastá-lo para longe das chamas.
— Foi uma armadilha! — gritou Amadeu. — O desgraçado sabia que vínhamos!
João cambaleou, levantou-se. A mente, turva, procurava respostas.
— Como é que ele sabia?
— Alguém lhe disse...
No meio do fumo, uma figura feminina surgiu, trémula. Teresa. Os olhos inchados de choro.
— Fui eu... — soluçou. — Eu avisei-o.
João agarrou-a pelos ombros.
— Tu?! Porquê?
Ela desabou nos joelhos.
— Ele sabe... sabe o que eu fiz...
— O que fizeste?
Teresa ergueu o rosto, a voz embargada.
— Matei o meu pai. Há dez anos. Ele estava possuído... pelo eco do mal. Ia tornar-se um receptáculo. Eu não tive escolha...
As palavras caíram como pedras. João recuou.
— Mataste o teu pai?
— Para salvar a vila... Para o impedir de ser usado. Mas o Adriano descobriu. Desde então, faz de mim o que quer. Ameaça revelar tudo.
Maria, ainda a tossir, aproximou-se.
— E agora? Avisaste-o da armadilha.
— Sim... — confessou Teresa, baixando a cabeça. — Mas não queria que ninguém morresse. Pensei que ele só fugisse...
Amadeu cuspiu no chão.
— Peste! Por tua causa o Manuel está aleijado!
João respirou fundo. A raiva fervia-lhe nas veias, mas a visão de Teresa, desfeita em lágrimas, acendeu uma réstia de compaixão.
— Ainda estás a tempo de escolher o lado certo.
Ela ergueu os olhos.
— Como? Depois do que fiz?
— Ajuda-nos a pará-lo. O teu segredo... enfrentaremos isso depois.
Teresa soluçou, acenou que sim.
Um ruído metálico interrompeu-os. No chão, entre os escombros, um pequeno altifalante emitia estática. Depois, uma voz distorcida, irreconhecível e ao mesmo tempo inconfundível:
— Parabéns, inspector. Mais um corpo para a tua colecção. Mas não te preocupes... o corpo do pai da Teresa será a minha âncora. E depois, ela será a minha sucessora.
Teresa levou as mãos à boca, um grito abafado.
— Não... o meu pai...
João esmagou o aparelho com o tacão da bota.
— Ele está a brincar connosco.
— Mas o que disse sobre o corpo... — soluçou Teresa. — Ele vai usar o meu pai como âncora para o mal.
Maria agarrou-a pelo braço.
— Onde é que o teu pai está enterrado?
— Na campa da família, atrás da igreja...
— Temos de ir lá. Depressa!
João deteve-as.
— Não. Isso é o que ele quer. Dispersar-nos. O corpo já deve ter sido levado. A única maneira de o travar é enfrentá-lo na fonte.
— Na mina — resmungou Amadeu. — Lá no fundo.
— Exactamente. É ali que ele faz os rituais. E é ali que temos de o encontrar.
Tiago, que amparava o Manuel ferido, abanou a cabeça.
— Eu levo o Manuel à vila. Vocês vão?
— Vamos — disse João, com uma determinação que não admitia réplica.
O ferreiro acenou e, com a ajuda do Pai José, carregou o corpo do companheiro para fora da mina.
João, Maria e Teresa ficaram na penumbra. O fumo dissipava-se lentamente.
— Eu vou convosco — murmurou Teresa, enxugando as lágrimas. — Preciso de acabar com isto.
João fez-lhe um aceno seco.
— Então vamos. Mas desta vez, sem avisos.
Ela baixou a cabeça, envergonhada.
— Juro que não.
Maria puxou o xale sobre os ombros.
— Se é para irmos, vamos já. Antes que o covil se feche.
João acendeu uma lanterna e apontou-a para o corredor que se afundava na escuridão.
— Adriano está à nossa espera. Mas não lhe vamos dar o que ele quer.
Nas Entranhas da Escuridão
O ar na mina era denso, impregnado de um cheiro a mofo e metal oxidado. As paredes, escorregadias de humidade, reflectiam a luz das lanternas em fragmentos de quartzo. João avançava à frente, o feixe de luz a dançar sobre pedras soltas. Maria seguia-o de perto, o rosário de dedos a tricotar preces silenciosas. Atrás, Teresa arrastava os pés, os olhos fixos na escuridão, como se procurasse redenção.
— Por aqui — sussurrou João, apontando para uma galeria descendente.
O túnel estreitava-se. Tiveram de se curvar para passar. O som dos seus passos ecoava como um coração irregular.
— Ele está perto — murmurou Maria. — Sinto-o.
De súbito, uma corrente de ar gelado fê-los estremecer. À frente, uma câmara maior abria-se, iluminada por velas negras dispostas em círculo. No centro, um altar de pedra bruta. Sobre ele, uma forma alongada coberta por um pano escuro.
— O corpo do meu pai... — soluçou Teresa.
João estendeu o braço para a deter.
— Cuidado. É uma armadilha.
Mas o silêncio era total. Apenas o crepitar das velas.
— Ele não está aqui — constatou Maria.
— Fugiu — rosnou João. — Deixou-nos este mimo.
Aproximaram-se do altar. Teresa, com mãos trémulas, puxou o pano. Debaixo, apenas pedras e um gravador antigo.
Premiu o botão. A voz distorcida de Adriano encheu a câmara:
— Ingenuidade comovente. Pensaram que eu ia esperar? O corpo do teu pai já está onde deve estar. E tu, Teresa, quando estiveres pronta, serás a minha herdeira. O eco do mal não se apaga. Apenas muda de hospedeiro.
A gravação terminou com uma gargalhada metálica.
Teresa caiu de joelhos, os punhos cerrados contra o peito.
— Ele profanou a campa... Meu Deus, o que é que eu fiz?
Maria ajoelhou-se ao lado dela.
— Erguer a cabeça. A culpa não te serve de nada.
João desligou o gravador e guardou-o no bolso.
— Ele quer que nos sintamos derrotados. Mas enquanto tivermos a mina, temos uma pista. Ele não pode andar longe.
— Por onde? — perguntou Maria.
João iluminou as paredes. Numa delas, marcas recentes de escavação.
— Há túneis que não estão nos mapas. O nosso ourives gosta de segredos.
— E se formos atrás dele? — insistiu Teresa, agora de pé, o rosto molhado mas os olhos secos. — Eu sei coisas... sobre os rituais. Ele mostrou-me, para me atormentar. Se o corpo do meu pai serve de âncora, o ritual tem de ser feito num lugar específico: a câmara central, onde as correntes de energia convergem.
— E onde é isso? — perguntou João.
— No fundo da mina. Onde a rocha é mais negra. É ali que ele vai tentar invocar o mal.
Maria benzeu-se.
— Então é para lá que vamos.
João acenou.
— Não temos outra escolha.
Olhou para trás. A galeria que tinham percorrido parecia engolir a luz. Mas à frente, a escuridão era ainda mais profunda.
— Vamos — disse. — E desta vez, ninguém fica para trás.
Teresa pegou numa lanterna de reserva e juntou-se a eles. O trio avançou, os passos abafados pela terra húmida. As velas tremeluziram e apagaram-se, uma a uma, como se a própria mina prendesse a respiração.
À medida que desciam, o ar arrefecia. Um murmúrio indefinido subia das profundezas, como um cântico antigo.
— Sente-se o eco — sussurrou Maria.
João não respondeu. Apenas apertou o punho em volta da lanterna e continuou a andar.
A escuridão fechava-se atrás deles como uma porta de pedra.
João, Maria e Teresa, com os aldeões, avançam para dentro da mina às escuras.