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A Teia da Curandeira
IA
A Visita da Curandeira
João sentou-se na beira da cama, os olhos pousados nas páginas do diário do pai. A letra tremida, as palavras que falavam de um medo antigo—um ourives de olhos frios que observava tudo. As mãos do inspector apertaram os joelhos. O cansaço toldava-lhe a vista. Sentia o peso do quarto da pensão, as paredes caiadas a fecharem-se sobre ele. O eco das vozes na taberna ainda lhe zumbia nos ouvidos. Maria do Carmo dissera-lhe que Zulmira não era de fiar, mas ele não conseguia largar a ideia de que a curandeira talvez tivesse respostas.
Três pancadas secas na porta arrancaram-no do torpor.
— Quem é?
— Sou eu, Zulmira. Abra, inspector.
A voz rouca e arrastada trouxe um arrepio. João levantou-se, passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados—um gesto repetitivo que lhe traiu a ansiedade. Abriu a porta. Zulmira Valentim entrou sem esperar convite, o seu cajado de madeira retorcida a bater no soalho. O cheiro a ládano e incenso invadiu o quarto. As unhas sujas de terra agarraram o xaile preto que lhe cobria os ombros ossudos.
— Precisava de o ver, inspector. Algo não me deixa dormir.
João cerrou os dentes, rangendo-os de forma involuntária. Fechou a porta.
— Diga.
Zulmira sentou-se na única cadeira, os olhos negros como carvão fitaram-no.
— Desde que o senhor chegou, as sombras falam mais alto. Eu sei que o senhor tem o mesmo dom que eu. Vê o que os outros não veem.
João rangeu os dentes novamente. Não confirmou.
— O que quer?
— Ajudar. Mas preciso que confie em mim. Eu sei que se fala de mim na vila. Dizem que engano, que faço mal. Mas a verdade é que eu só quero proteger Alpedreza. O mal que aqui vive... eu conheço-o bem.
A mão de Zulmira estendeu-se, os dedos escuros a tocarem na manga do casaco puído de João.
— Há quem diga que a sua amiga, a Maria do Carmo, também sabe coisas. Mas ela não lhe conta tudo.
João recuou o braço.
— Maria do Carmo tem-me ajudado.
Um sorriso fino desenhou-se nos lábios de Zulmira.
— Pois ajuda. Mas sabe porquê? Porque ela também tem medo. Medo do que vê, medo do que toca. E às vezes, o medo faz-nos esconder segredos. Coisas que, se viessem ao de cima, machucavam muita gente.
— Que segredos?
— Eu não gosto de acusar ninguém. Mas diga-me uma coisa: alguma vez ela lhe falou do ourives? De Adriano Saragoça? Alguma vez lhe contou o que ela viu quando tocou naquela chávena?
João sentiu um nó na garganta. Lembrava-se da visão de Maria, do celeiro, do corpo de Tomás.
— Ela contou-me.
— Contou-lhe uma parte. Mas não lhe disse que viu o rosto de Adriano. Que o viu a sorrir, a carregar o corpo. Que soube, desde o primeiro dia, que o ourives está metido nisto até ao pescoço. E que preferiu calar-se.
A cabeça de João começou a latejar.
— Isso não faz sentido. Ela odeia Adriano. Vi-lhe a raiva.
— A raiva também serve para esconder o medo. E a Maria tem muito medo. A avó dela foi queimada por denunciar coisas destas. Ela não quer o mesmo destino. Por isso, segura a língua. E usa-o a si para fazer o trabalho sujo, enquanto se mantém na sombra.
João passou a mão pelos cabelos, desgrenhando-os ainda mais.
— Isso é grave. Se for verdade...
— Eu posso provar-lhe. Venha comigo à minha cabana. Tenho lá um objecto que encontrei. Algo que prova que ela anda em conluio com o Adriano.
O inspector fitou-a, os olhos cinzentos cansados a sondarem o olhar negro.
— Porque me ajuda?
— Porque o seu pai também tentou travar este mal. E porque o senhor, inspector, parece um homem bom. Não quero que a vila o devore.
Zulmira levantou-se.
— Pense nisso. Mas não demore. O tempo escasseia.
Saiu, o som do cajado a ecoar escada abaixo. João ficou imóvel, o coração a martelar. A semente da dúvida germinara. Olhou para o diário do pai, para a letra que falava de um ourives. Adriano. E agora Zulmira apontava para Maria do Carmo. Em quem confiar? Sentou-se de novo, a cabeça enterrada nas mãos, enquanto a tarde alentejana se arrastava lá fora, pesada como chumbo.
O Confronto na Cabana
Uma hora depois, a porta do quarto abriu-se sem aviso. Maria do Carmo entrou de rompante, o rosto corado e o xaile a cair-lhe dos ombros. João ergueu a cabeça.
— Então, ó pá? Bate-se sempre antes de entrar.
— Estive à tua procura. A Zulmira esteve aqui.
— Esteve.
— E tu acreditaste no que ela disse.
João levantou-se, o maxilar tenso.
— Como sabes?
— Porque te conheço. Tens os olhos iguais aos do teu pai, quando a dúvida lhe mordia a alma.
A mão de Maria do Carmo esfregou o polegar contra os dedos indicador e médio, um rosário invisível que denunciava a sua própria inquietação.
— Que te disse ela?
— Disse que escondes coisas. Que viste o Adriano na visão da chávena e que não me contaste.
Maria soltou uma gargalhada seca.
— Isso é mentira. Eu vi uma cabana, vi o corpo, mas não vi o rosto de quem o levou. Essa bruxa quer envenenar-te os ouvidos.
— Porque havia ela de mentir?
— Porque ela é a mão direita de Adriano! A mim nunca me enganou. Desde o primeiro dia que a vigio. Ela anda a desviar-nos, a fazer-nos perder tempo. E tu, cego, dás-lhe ouvidos?
João passou a mão pelos cabelos.
— Ela ofereceu-me provas. Disse que tens um objecto que te liga ao ourives.
— Um objecto? E onde está essa prova?
— Disse que está na cabana dela.
Os olhos castanhos de Maria faiscaram.
— Então vamos lá. Vamos os dois. Quero ver essa prova.
Antes que João pudesse responder, Maria já saía, o xaile a voar. Ele seguiu-a, descendo as escadas da pensão com passadas largas. A rua da vila estava deserta, o sol a pique a desenhar sombras curtas nas fachadas caiadas. As cigarras cantavam nos sobreiros distantes. Passaram pela taberna fechada e tomaram o carreiro de terra batida que levava à cabana de Zulmira, nos arredores, entre azinheiras velhas e silvados.
A cabana surgiu num cotovelo do caminho, uma construção tosca de pedra e colmo. A fumarada saía pela chaminé. Maria não hesitou. Empurrou a porta de madeira, que rangeu nos gonzos.
Lá dentro, Zulmira estava debruçada sobre uma panela de barro, a mexer um líquido escuro. O cheiro a ervas amargas misturava-se com o incenso. À entrada abrupta, a curandeira endireitou-se.
— Que é isto? Quem vos deu licença?
— Eu não preciso de licença para entrar na casa de uma mentirosa — rosnou Maria. — Que provas são essas que tens contra mim?
Zulmira sorriu, um sorriso lento e gelado.
— Ah, já sei. O inspector não aguentou a dúvida e veio a correr contar-te. Sempre foste fraca, Maria. Sempre tiveste medo.
— Cala-te. Que objecto tens?
— Não tenho nada. Foi um ardil para ver se ele te contava. E contou. Isso só prova que não confiam um no outro.
João, atrás de Maria, sentiu a raiva subir.
— Mentiu-me.
— Claro que menti. Mas a semente está plantada. Agora, cada um vai olhar para o outro de lado. E isso é o que Adriano quer.
Maria avançou, as mãos calejadas a agarrarem as roupas escuras de Zulmira.
— Tu serves o nosso inimigo. És uma traidora.
— Larga-me, velha!
Zulmira empurrou Maria, que cambaleou contra uma mesa tosca. Frascos tombaram, ervas espalharam-se. Naquele movimento, uma pequena caixa de madeira caiu ao chão e abriu-se. De dentro, rolou um medalhão de prata. Maria e João viram-no ao mesmo tempo. Gravada na prata, a insígnia da ourivesaria de Adriano: uma letra "A" entrelaçada com uma serpente.
— É a marca dele — murmurou João.
Zulmira lançou-se para apanhar o medalhão, mas Maria foi mais rápida. Segurou-o com a ponta dos dedos, como se queimasse.
— Sempre soube que tu e o Adriano tinham negócios. Agora tenho a prova.
Os olhos de Zulmira transformaram-se. A máscara de curandeira benévola desfez-se. O rosto encarquilhado tornou-se duro como pedra. A voz rouca ganhou um timbre venenoso.
— Tu não sabes com quem te metes, Maria do Carmo. Se abrires a boca, o Adriano vai calar-te para sempre. E desta vez, não vai ser só a tua avó a arder.
A ameaça paralisou Maria por um segundo. O trauma antigo—o linchamento da avó, as chamas, os gritos—assaltou-lhe a mente. Mas a raiva falou mais alto.
— Pois que venha. Já não tenho medo.
Avançou de novo, mas Zulmira agarrou numa faca que estava sobre a mesa e apontou-a.
— Saiam da minha casa. Agora.
João interveio. Pôs-se entre as duas mulheres, a mão estendida para Maria.
— Basta. Vamos embora.
— Mas a prova...
— Leva-a. Mas não vale a pena correres riscos agora. Já sabemos quem ela é.
Puxou Maria pelo braço, afastando-a da curandeira. Zulmira manteve a faca erguida, o peito a arfar. Os olhos injectados de ódio.
— Levem a prova. O Adriano vai saber disto. E quando ele souber, vocês vão desejar nunca ter vindo a Alpedreza.
João recuou, arrastando Maria consigo. Passaram a soleira da porta. Lá fora, o sol parecia lavar a tensão, mas o coração de ambos batia acelerado. João olhou para o medalhão que Maria apertava.
— Sempre desconfiei dela. E agora o Adriano vai saber que descobrimos a ligação.
— Ele já sabe — murmurou Maria. — Zulmira vai contar-lhe antes que possamos agir.
Caminharam de volta para a vila em silêncio. A descoberta unira-os outra vez, mas a ameaça pairava mais densa do que nunca. João rangeu os dentes.
— Temos de parar o Adriano antes que ele nos pare a nós.
Maria apertou-lhe o braço, num gesto cúmplice, mas não disse nada. Ambos sabiam que o cerco se fechava.
A Fotografia
Sozinha na cabana, Zulmira fechou a porta com força. O som ecoou nas paredes de pedra. Encostou a cabeça à madeira, a respiração ainda ofegante. A faca caiu-lhe das mãos. Passou as palmas suadas pelo xaile.
— Maldita Maria. Sempre a mesma teimosa.
Aproximou-se da mesa, endireitando os frascos que tinham tombado. Recolheu as ervas pisadas, mas os seus gestos eram mecânicos, enquanto a mente fervilhava. Adriano precisava de saber imediatamente. Por outro lado, o confronto servira os seus propósitos: João e Maria tinham agora uma prova válida contra ela, mas ao mesmo tempo, a semente da dúvida estava lançada. A dúvida sobre a lealdade de Maria. A dúvida sobre a fiabilidade das visões. Ela sabia que João era um homem atormentado—a traição do pai, a loucura que herdara—e uma pequena fenda podia alargar-se num abismo.
Os lábios finos curvaram-se num sorriso.
Do bolso do xaile, retirou uma pequena chave de ferro. Dirigiu-se a um canto da cabana, onde um baú de couro gasto jazia sob uma pilha de trapos. Afastou os panos, introduziu a chave na fechadura e abriu-o. Lá dentro, entre pacotes de ervas e saquinhos de sal, estava uma moldura de prata. Tirou-a com cuidado reverente.
Na fotografia, um homem de meia-idade fitava-a com olhos cinzentos e frios como mármore. O cabelo grisalho penteado para trás. O fato escuro, o colete. Adriano Saragoça. A imagem parecia absorver a pouca luz da cabana.
Zulmira sentou-se num banco, a moldura pousada no colo. Passou os dedos nodosos pelo vidro.
— Eles não fazem ideia, não é, meu senhor? Pensam que podem lutar contra nós. Mas o medo vai desfazê-los. Tal como desfez o pai dele.
Os seus olhos perderam-se numa memória distante. Lembrava-se do dia em que Adriano lhe aparecera pela primeira vez, há décadas. Uma jovem curandeira perdida, com um dom que mais parecia uma maldição. Ele dera-lhe um propósito. Ensinara-lhe que o mal antigo, o eco que vibrava na terra alentejana, podia ser moldado. E ela servira-o desde então, de boa vontade, porque acreditava que o caos era a única forma de manter a vila a salvo dos forasteiros.
— E agora este inspector, este João Martins, vem com as suas visões e a sua justiça. Mas ele não sabe que o pai dele escolheu a morte. Escolheu, porque viu o que nós somos capazes de fazer.
Acariciou a fotografia.
— E a Maria do Carmo... aquela velha bruxa. Sempre a intrometer-se. Mas já não vai intrometer-se mais. O senhor vai tratar dela.
Levantou-se. Colocou a moldura em cima da mesa, junto a uma vela. A luz tremeluzente dançava sobre o vidro, dando vida aos olhos cinzentos de Adriano.
— Vou mandar-lhe um recado. Contar-lhe que descobriram o medalhão. Mas também lhe vou dizer que o inspector está dividido. Que a confiança entre os dois está abalada. E isso, meu senhor, é a nossa maior vantagem.
Pegou num pedaço de pano escuro e embrulhou o medalhão de prata que João e Maria tinham deixado cair. Colocou-o no baú e tornou a fechá-lo.
— Eles ainda vão perceber que a única forma de sobreviver aqui é renderem-se ao eco. Ou então, vão destruir-se um ao outro.
Olhou em volta. A cabana estava imersa na penumbra da tarde que se alongava. Lá fora, o sol começava a tingir o céu de tons alaranjados. As cigarras tinham emudecido. Zulmira sentou-se outra vez, a fotografia à sua frente. Pela primeira vez naquele dia, um sorriso genuíno aflorou-lhe aos lábios. Um sorriso de satisfação cruel.
— O inspector vai duvidar. A Maria vai sentir-se traída. E quando estiverem demasiado ocupados a guerrear entre si, o Adriano terá tempo de fazer o que tem a fazer. A vila será nossa para sempre.
Aproximou-se da fotografia, beijou-a com devoção.
— Obrigada, meu senhor. Por me dar forças.
Depois, endireitou o xaile, compôs a postura. Tornou a guardar a moldura no baú, desta vez sob uma camada de roupa. Fechou-o à chave.
A luz da vela bruxuleou. No silêncio, Zulmira murmurou, com os olhos fixos num ponto vazio, como se falasse com o próprio Adriano ali presente:
— Vais ver como eles se afastam.
E o eco da sua voz perdeu-se na escuridão que se adensava.
João sentou-se na beira da cama, os olhos pousados nas páginas do diário do pai. A letra tremida, as palavras que falavam de um medo antigo—um ourives de olhos frios que observava tudo. As mãos do inspector apertaram os joelhos. O cansaço toldava-lhe a vista. Sentia o peso do quarto da pensão, as paredes caiadas a fecharem-se sobre ele. O eco das vozes na taberna ainda lhe zumbia nos ouvidos. Maria do Carmo dissera-lhe que Zulmira não era de fiar, mas ele não conseguia largar a ideia de que a curandeira talvez tivesse respostas.
Três pancadas secas na porta arrancaram-no do torpor.
— Quem é?
— Sou eu, Zulmira. Abra, inspector.
A voz rouca e arrastada trouxe um arrepio. João levantou-se, passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados—um gesto repetitivo que lhe traiu a ansiedade. Abriu a porta. Zulmira Valentim entrou sem esperar convite, o seu cajado de madeira retorcida a bater no soalho. O cheiro a ládano e incenso invadiu o quarto. As unhas sujas de terra agarraram o xaile preto que lhe cobria os ombros ossudos.
— Precisava de o ver, inspector. Algo não me deixa dormir.
João cerrou os dentes, rangendo-os de forma involuntária. Fechou a porta.
— Diga.
Zulmira sentou-se na única cadeira, os olhos negros como carvão fitaram-no.
— Desde que o senhor chegou, as sombras falam mais alto. Eu sei que o senhor tem o mesmo dom que eu. Vê o que os outros não veem.
João rangeu os dentes novamente. Não confirmou.
— O que quer?
— Ajudar. Mas preciso que confie em mim. Eu sei que se fala de mim na vila. Dizem que engano, que faço mal. Mas a verdade é que eu só quero proteger Alpedreza. O mal que aqui vive... eu conheço-o bem.
A mão de Zulmira estendeu-se, os dedos escuros a tocarem na manga do casaco puído de João.
— Há quem diga que a sua amiga, a Maria do Carmo, também sabe coisas. Mas ela não lhe conta tudo.
João recuou o braço.
— Maria do Carmo tem-me ajudado.
Um sorriso fino desenhou-se nos lábios de Zulmira.
— Pois ajuda. Mas sabe porquê? Porque ela também tem medo. Medo do que vê, medo do que toca. E às vezes, o medo faz-nos esconder segredos. Coisas que, se viessem ao de cima, machucavam muita gente.
— Que segredos?
— Eu não gosto de acusar ninguém. Mas diga-me uma coisa: alguma vez ela lhe falou do ourives? De Adriano Saragoça? Alguma vez lhe contou o que ela viu quando tocou naquela chávena?
João sentiu um nó na garganta. Lembrava-se da visão de Maria, do celeiro, do corpo de Tomás.
— Ela contou-me.
— Contou-lhe uma parte. Mas não lhe disse que viu o rosto de Adriano. Que o viu a sorrir, a carregar o corpo. Que soube, desde o primeiro dia, que o ourives está metido nisto até ao pescoço. E que preferiu calar-se.
A cabeça de João começou a latejar.
— Isso não faz sentido. Ela odeia Adriano. Vi-lhe a raiva.
— A raiva também serve para esconder o medo. E a Maria tem muito medo. A avó dela foi queimada por denunciar coisas destas. Ela não quer o mesmo destino. Por isso, segura a língua. E usa-o a si para fazer o trabalho sujo, enquanto se mantém na sombra.
João passou a mão pelos cabelos, desgrenhando-os ainda mais.
— Isso é grave. Se for verdade...
— Eu posso provar-lhe. Venha comigo à minha cabana. Tenho lá um objecto que encontrei. Algo que prova que ela anda em conluio com o Adriano.
O inspector fitou-a, os olhos cinzentos cansados a sondarem o olhar negro.
— Porque me ajuda?
— Porque o seu pai também tentou travar este mal. E porque o senhor, inspector, parece um homem bom. Não quero que a vila o devore.
Zulmira levantou-se.
— Pense nisso. Mas não demore. O tempo escasseia.
Saiu, o som do cajado a ecoar escada abaixo. João ficou imóvel, o coração a martelar. A semente da dúvida germinara. Olhou para o diário do pai, para a letra que falava de um ourives. Adriano. E agora Zulmira apontava para Maria do Carmo. Em quem confiar? Sentou-se de novo, a cabeça enterrada nas mãos, enquanto a tarde alentejana se arrastava lá fora, pesada como chumbo.
O Confronto na Cabana
Uma hora depois, a porta do quarto abriu-se sem aviso. Maria do Carmo entrou de rompante, o rosto corado e o xaile a cair-lhe dos ombros. João ergueu a cabeça.
— Então, ó pá? Bate-se sempre antes de entrar.
— Estive à tua procura. A Zulmira esteve aqui.
— Esteve.
— E tu acreditaste no que ela disse.
João levantou-se, o maxilar tenso.
— Como sabes?
— Porque te conheço. Tens os olhos iguais aos do teu pai, quando a dúvida lhe mordia a alma.
A mão de Maria do Carmo esfregou o polegar contra os dedos indicador e médio, um rosário invisível que denunciava a sua própria inquietação.
— Que te disse ela?
— Disse que escondes coisas. Que viste o Adriano na visão da chávena e que não me contaste.
Maria soltou uma gargalhada seca.
— Isso é mentira. Eu vi uma cabana, vi o corpo, mas não vi o rosto de quem o levou. Essa bruxa quer envenenar-te os ouvidos.
— Porque havia ela de mentir?
— Porque ela é a mão direita de Adriano! A mim nunca me enganou. Desde o primeiro dia que a vigio. Ela anda a desviar-nos, a fazer-nos perder tempo. E tu, cego, dás-lhe ouvidos?
João passou a mão pelos cabelos.
— Ela ofereceu-me provas. Disse que tens um objecto que te liga ao ourives.
— Um objecto? E onde está essa prova?
— Disse que está na cabana dela.
Os olhos castanhos de Maria faiscaram.
— Então vamos lá. Vamos os dois. Quero ver essa prova.
Antes que João pudesse responder, Maria já saía, o xaile a voar. Ele seguiu-a, descendo as escadas da pensão com passadas largas. A rua da vila estava deserta, o sol a pique a desenhar sombras curtas nas fachadas caiadas. As cigarras cantavam nos sobreiros distantes. Passaram pela taberna fechada e tomaram o carreiro de terra batida que levava à cabana de Zulmira, nos arredores, entre azinheiras velhas e silvados.
A cabana surgiu num cotovelo do caminho, uma construção tosca de pedra e colmo. A fumarada saía pela chaminé. Maria não hesitou. Empurrou a porta de madeira, que rangeu nos gonzos.
Lá dentro, Zulmira estava debruçada sobre uma panela de barro, a mexer um líquido escuro. O cheiro a ervas amargas misturava-se com o incenso. À entrada abrupta, a curandeira endireitou-se.
— Que é isto? Quem vos deu licença?
— Eu não preciso de licença para entrar na casa de uma mentirosa — rosnou Maria. — Que provas são essas que tens contra mim?
Zulmira sorriu, um sorriso lento e gelado.
— Ah, já sei. O inspector não aguentou a dúvida e veio a correr contar-te. Sempre foste fraca, Maria. Sempre tiveste medo.
— Cala-te. Que objecto tens?
— Não tenho nada. Foi um ardil para ver se ele te contava. E contou. Isso só prova que não confiam um no outro.
João, atrás de Maria, sentiu a raiva subir.
— Mentiu-me.
— Claro que menti. Mas a semente está plantada. Agora, cada um vai olhar para o outro de lado. E isso é o que Adriano quer.
Maria avançou, as mãos calejadas a agarrarem as roupas escuras de Zulmira.
— Tu serves o nosso inimigo. És uma traidora.
— Larga-me, velha!
Zulmira empurrou Maria, que cambaleou contra uma mesa tosca. Frascos tombaram, ervas espalharam-se. Naquele movimento, uma pequena caixa de madeira caiu ao chão e abriu-se. De dentro, rolou um medalhão de prata. Maria e João viram-no ao mesmo tempo. Gravada na prata, a insígnia da ourivesaria de Adriano: uma letra "A" entrelaçada com uma serpente.
— É a marca dele — murmurou João.
Zulmira lançou-se para apanhar o medalhão, mas Maria foi mais rápida. Segurou-o com a ponta dos dedos, como se queimasse.
— Sempre soube que tu e o Adriano tinham negócios. Agora tenho a prova.
Os olhos de Zulmira transformaram-se. A máscara de curandeira benévola desfez-se. O rosto encarquilhado tornou-se duro como pedra. A voz rouca ganhou um timbre venenoso.
— Tu não sabes com quem te metes, Maria do Carmo. Se abrires a boca, o Adriano vai calar-te para sempre. E desta vez, não vai ser só a tua avó a arder.
A ameaça paralisou Maria por um segundo. O trauma antigo—o linchamento da avó, as chamas, os gritos—assaltou-lhe a mente. Mas a raiva falou mais alto.
— Pois que venha. Já não tenho medo.
Avançou de novo, mas Zulmira agarrou numa faca que estava sobre a mesa e apontou-a.
— Saiam da minha casa. Agora.
João interveio. Pôs-se entre as duas mulheres, a mão estendida para Maria.
— Basta. Vamos embora.
— Mas a prova...
— Leva-a. Mas não vale a pena correres riscos agora. Já sabemos quem ela é.
Puxou Maria pelo braço, afastando-a da curandeira. Zulmira manteve a faca erguida, o peito a arfar. Os olhos injectados de ódio.
— Levem a prova. O Adriano vai saber disto. E quando ele souber, vocês vão desejar nunca ter vindo a Alpedreza.
João recuou, arrastando Maria consigo. Passaram a soleira da porta. Lá fora, o sol parecia lavar a tensão, mas o coração de ambos batia acelerado. João olhou para o medalhão que Maria apertava.
— Sempre desconfiei dela. E agora o Adriano vai saber que descobrimos a ligação.
— Ele já sabe — murmurou Maria. — Zulmira vai contar-lhe antes que possamos agir.
Caminharam de volta para a vila em silêncio. A descoberta unira-os outra vez, mas a ameaça pairava mais densa do que nunca. João rangeu os dentes.
— Temos de parar o Adriano antes que ele nos pare a nós.
Maria apertou-lhe o braço, num gesto cúmplice, mas não disse nada. Ambos sabiam que o cerco se fechava.
A Fotografia
Sozinha na cabana, Zulmira fechou a porta com força. O som ecoou nas paredes de pedra. Encostou a cabeça à madeira, a respiração ainda ofegante. A faca caiu-lhe das mãos. Passou as palmas suadas pelo xaile.
— Maldita Maria. Sempre a mesma teimosa.
Aproximou-se da mesa, endireitando os frascos que tinham tombado. Recolheu as ervas pisadas, mas os seus gestos eram mecânicos, enquanto a mente fervilhava. Adriano precisava de saber imediatamente. Por outro lado, o confronto servira os seus propósitos: João e Maria tinham agora uma prova válida contra ela, mas ao mesmo tempo, a semente da dúvida estava lançada. A dúvida sobre a lealdade de Maria. A dúvida sobre a fiabilidade das visões. Ela sabia que João era um homem atormentado—a traição do pai, a loucura que herdara—e uma pequena fenda podia alargar-se num abismo.
Os lábios finos curvaram-se num sorriso.
Do bolso do xaile, retirou uma pequena chave de ferro. Dirigiu-se a um canto da cabana, onde um baú de couro gasto jazia sob uma pilha de trapos. Afastou os panos, introduziu a chave na fechadura e abriu-o. Lá dentro, entre pacotes de ervas e saquinhos de sal, estava uma moldura de prata. Tirou-a com cuidado reverente.
Na fotografia, um homem de meia-idade fitava-a com olhos cinzentos e frios como mármore. O cabelo grisalho penteado para trás. O fato escuro, o colete. Adriano Saragoça. A imagem parecia absorver a pouca luz da cabana.
Zulmira sentou-se num banco, a moldura pousada no colo. Passou os dedos nodosos pelo vidro.
— Eles não fazem ideia, não é, meu senhor? Pensam que podem lutar contra nós. Mas o medo vai desfazê-los. Tal como desfez o pai dele.
Os seus olhos perderam-se numa memória distante. Lembrava-se do dia em que Adriano lhe aparecera pela primeira vez, há décadas. Uma jovem curandeira perdida, com um dom que mais parecia uma maldição. Ele dera-lhe um propósito. Ensinara-lhe que o mal antigo, o eco que vibrava na terra alentejana, podia ser moldado. E ela servira-o desde então, de boa vontade, porque acreditava que o caos era a única forma de manter a vila a salvo dos forasteiros.
— E agora este inspector, este João Martins, vem com as suas visões e a sua justiça. Mas ele não sabe que o pai dele escolheu a morte. Escolheu, porque viu o que nós somos capazes de fazer.
Acariciou a fotografia.
— E a Maria do Carmo... aquela velha bruxa. Sempre a intrometer-se. Mas já não vai intrometer-se mais. O senhor vai tratar dela.
Levantou-se. Colocou a moldura em cima da mesa, junto a uma vela. A luz tremeluzente dançava sobre o vidro, dando vida aos olhos cinzentos de Adriano.
— Vou mandar-lhe um recado. Contar-lhe que descobriram o medalhão. Mas também lhe vou dizer que o inspector está dividido. Que a confiança entre os dois está abalada. E isso, meu senhor, é a nossa maior vantagem.
Pegou num pedaço de pano escuro e embrulhou o medalhão de prata que João e Maria tinham deixado cair. Colocou-o no baú e tornou a fechá-lo.
— Eles ainda vão perceber que a única forma de sobreviver aqui é renderem-se ao eco. Ou então, vão destruir-se um ao outro.
Olhou em volta. A cabana estava imersa na penumbra da tarde que se alongava. Lá fora, o sol começava a tingir o céu de tons alaranjados. As cigarras tinham emudecido. Zulmira sentou-se outra vez, a fotografia à sua frente. Pela primeira vez naquele dia, um sorriso genuíno aflorou-lhe aos lábios. Um sorriso de satisfação cruel.
— O inspector vai duvidar. A Maria vai sentir-se traída. E quando estiverem demasiado ocupados a guerrear entre si, o Adriano terá tempo de fazer o que tem a fazer. A vila será nossa para sempre.
Aproximou-se da fotografia, beijou-a com devoção.
— Obrigada, meu senhor. Por me dar forças.
Depois, endireitou o xaile, compôs a postura. Tornou a guardar a moldura no baú, desta vez sob uma camada de roupa. Fechou-o à chave.
A luz da vela bruxuleou. No silêncio, Zulmira murmurou, com os olhos fixos num ponto vazio, como se falasse com o próprio Adriano ali presente:
— Vais ver como eles se afastam.
E o eco da sua voz perdeu-se na escuridão que se adensava.