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O Preço da Protecção
IA
O Encontro na Ourivesaria
O calor da tarde pousava sobre Alpedreza como uma mão pesada. A ourivesaria de Adriano Saragoça cheirava a cobre velho e a incenso seco. Teresa Melo entrou e a campainha tilintou. Sentiu o coração apertar-se.
Adriano estava atrás do balcão. Polia a pequena pedra negra que nunca largava. Os seus olhos cinzentos ergueram-se lentamente.
– Sente-se.
Ela obedeceu. As mãos pousadas no colo, os dedos a tremer. Adriano pousou a pedra e inclinou-se.
– Sabe porque a chamei?
Teresa negou com a cabeça. A voz saiu-lhe baixa.
– Não sei, senhor Adriano.
Ele sorriu. Um sorriso fino, sem calor.
– Há muitos anos, o seu pai veio a esta ourivesaria. Pediu-me ajuda para um... problema. Lembra-se?
Teresa empalideceu. As palavras seguintes de Adriano caíram como lâminas.
– Eu sei o que aconteceu naquela noite, Teresa. Sei o que fez.
Ela tentou levantar-se. As pernas não responderam. A voz de Adriano continuava, suave e venenosa.
– Matou o seu pai. Espancou-o até à morte com um ferro da lareira. E depois enterrou-o no quintal, debaixo da figueira.
Teresa levou a mão à boca. Os olhos encheram-se de lágrimas.
– Não... não foi...
– Foi. E eu posso prová-lo. Guardei o ferro. E tenho testemunhas.
Ele contornou o balcão. Aproximou-se dela. Teresa sentiu o cheiro a metal frio e a qualquer coisa antiga.
– O que quer de mim?
Adriano parou a um palmo do seu rosto.
– O inspector João Martins está a investigar os desaparecimentos. Quero saber tudo o que ele descobre. Cada passo, cada suspeita. Você trabalha na câmara. Tem acesso a arquivos, a boatos. Vai ser os meus olhos e ouvidos.
Teresa sacudiu a cabeça.
– Não posso traí-lo. Ele é...
– Ele é um forasteiro. Um homem amaldiçoado. E vai destruir esta vila se não for controlado. Você quer proteger Alpedreza, não quer?
Ela ficou em silêncio. Adriano recuou um passo e retomou a pedra negra.
– Se não me ajudar, amanhã de manhã o agente Lopes recebe uma carta anónima. Com detalhes do que aconteceu ao seu pai. Pense bem.
Teresa ergueu-se. As pernas tremiam-lhe. Dirigiu-se para a porta.
– Eu... eu preciso de pensar.
– Não há muito em que pensar. Amanhã espero notícias suas.
Ela saiu. O calor da rua bateu-lhe no rosto. As casas caiadas pareciam observá-la. Teresa encostou-se a uma parede e fechou os olhos. O passado regressava como um vómito escuro. Viu o pai, bêbedo, a avançar para ela com o cinto. Viu o ferro na sua mão. O sangue.
Abriu os olhos. Alpedreza continuava igual. Mas agora as paredes tinham ouvidos. E Adriano Saragoça sabia o seu segredo.
O Interrogatório na Taberna
O sol começava a baixar quando João Martins e Maria do Carmo se sentaram na taberna vazia. As cadeiras de madeira rangiam. Maria pousou dois copos de água fresca na mesa.
– Ela costuma aparecer por volta desta hora – disse Maria, limpando as mãos ao avental. – A Teresa Melo. Trabalha na câmara. Conhecia a Helena.
João acenou. Tinha passado a manhã a rever os arquivos dos desaparecidos. O nome de Teresa surgira várias vezes como testemunha de interrogatórios anteriores. Sempre respostas vagas, sempre olhos no chão.
A porta da taberna rangeu. Teresa entrou. Parou ao vê-los. Os ombros encolheram-se ligeiramente.
– Boa tarde – murmurou.
– Sente-se connosco, Teresa – pediu João, indicando uma cadeira.
Ela hesitou. Depois obedeceu. As mãos apertaram a carteira contra o peito. Maria observava-a com os seus olhos escuros e velhos.
– A Teresa sabe que estamos a investigar os desaparecimentos – começou João. – Precisávamos de fazer umas perguntas.
– Já contei tudo o que sei ao agente Lopes.
– Mesmo assim.
João inclinou-se. As olheiras profundas tornavam o seu olhar mais intenso.
– A Helena trabalhava na ourivesaria do senhor Adriano. A Teresa era amiga dela?
Teresa desviou o olhar.
– Conhecia-a. Ela às vezes ia à câmara tratar de papéis.
– E reparou em alguma coisa estranha nos dias antes de desaparecer?
– Não. Parecia normal.
– Não falou de ninguém? De alguma ameaça?
– Não.
A voz de Teresa tornara-se monocórdica. As mãos tremiam-lhe sobre a carteira. Maria do Carmo interveio.
– A rapariga tinha medo, não tinha? – A voz de Maria soou áspera. – Eu via-a aqui. Bebia um cálice de aguardente e olhava sempre para a porta.
Teresa encolheu os ombros.
– Não sei.
João trocou um olhar com Maria. Algo não batia certo. Teresa conhecia mais do que dizia. Ele sentia-o na forma como ela evitava o contacto visual, no modo como os seus dedos se crispavam no tecido da carteira.
– Teresa, olhe para mim.
Ela levantou os olhos devagar. Eram olhos castanhos, húmidos, assustados.
– Se souber de alguma coisa que nos possa ajudar, é melhor falar agora. As pessoas estão a desaparecer. Alguém as está a levar. E essa pessoa pode atacar de novo.
Teresa mordeu o lábio. Uma lágrima soltou-se e rolou pela face. Ela limpou-a rapidamente com as costas da mão.
– Não sei de nada. Desculpem.
Levantou-se. A carteira caiu ao chão. Papéis espalharam-se. João baixou-se para ajudar. Viu um formulário da câmara com o timbre do arquivo. Um nome saltou-lhe à vista: "Melo, António – Certidão de Óbito – 1993".
Teresa arrancou-lhe o papel das mãos.
– Isso não é nada.
Enfiou os papéis na carteira e saiu quase a correr. A porta bateu.
Maria do Carmo levantou-se.
– Aquela mulher esconde alguma coisa. Viste-lhe as mãos? Tremiam como varas verdes.
João ficou sentado. A data na certidão ecoava-lhe na mente. 1993. O pai de Teresa morrera há trinta anos. Mas o olhar dela... não era de luto antigo. Era culpa fresca.
– Vou descobrir o que ela esconde – murmurou.
Lá fora, o calor da tarde cedia lugar a uma brisa morna. Alpedreza continuava silenciosa. Mas João sentia que as rachaduras nas paredes caiadas se estavam a aprofundar. E no meio delas, Teresa Melo sangrava em segredo.
Lágrimas e Traição
Teresa fechou a porta de casa com força. Encostou-se à madeira e deixou-se escorregar até ao chão. As lágrimas vieram aos soluços, sacudindo-lhe o corpo magro.
A casa estava escura. O cheiro a mofo e a ausência enchiam as divisões. No quintal, a figueira erguia-se como uma sentinela. Debaixo dela, a terra continuava revolvida, apesar de já terem passado trinta anos. Teresa sabia. Às vezes ainda sonhava com o pai a subir do solo, os olhos vazios, as mãos estendidas.
E agora Adriano Saragoça tinha o ferro. O maldito ferro com que ela lhe esmagara o crânio. Como o conseguira? Porque o guardara?
Ela ergueu-se e cambaleou até à cozinha. Acendeu uma vela. A luz bruxuleante dançou nas paredes descascadas. Sobre a mesa, o telemóvel. A ameaça de Adriano latejava-lhe na cabeça: "Amanhã de manhã, o agente Lopes recebe uma carta."
O que podia fazer? Confessar? Entregar-se? Perder tudo?
Pensou em João Martins. No modo como a olhara na taberna. Não era um olhar de acusação. Era um olhar que procurava a verdade. E isso doía ainda mais.
Teresa sentou-se à mesa. As mãos apertaram o telemóvel. A vela crepitava. As sombras alongavam-se pelas paredes como dedos acusadores.
Lembrou-se da noite do crime. O pai chegara bêbedo, como sempre. Gritara com a mãe, que já não estava lá para se defender. Depois virara-se para ela. "És igual à tua mãe. Uma inútil." O cinto zunira no ar. Ela agarrara o ferro da lareira. Um golpe. Dois. Depois o silêncio.
Enterrá-lo debaixo da figueira fora a única saída. A mãe nunca perguntara. A vila murmurara que António Melo fugira com outra mulher. E Teresa guardara o segredo durante três décadas.
Agora Adriano sabia. E ela estava encurralada.
Pegou no telemóvel. Abriu a lista de contactos. O nome de Adriano parecia queimar-lhe os dedos.
"Não posso trair o inspector. Ele não me fez mal nenhum."
Mas a voz do ourives ecoava-lhe na mente: "Ele é um forasteiro. Um homem amaldiçoado. Vai destruir a vila."
Teresa pensou em Alpedreza. Nas ruas onde crescera. Nas pessoas que a cumprimentavam todas as manhãs. Se o segredo viesse a público, tudo isso desapareceria. Tornar-se-ia uma pária. Talvez fosse presa.
O medo apertou-lhe a garganta.
Digitou a mensagem. Os dedos tremiam tanto que teve de apagar três vezes.
"Está tudo a postos."
Quatro palavras. O preço da sua protecção.
Premiu enviar.
O telemóvel emitiu um som abafado. Depois silêncio.
Teresa largou-o como se queimasse. As lágrimas voltaram, silenciosas desta vez. A vela apagou-se com uma brisa que entrou pela janela entreaberta. Na escuridão, só se ouvia a respiração ofegante de Teresa.
Lá fora, a noite engolia Alpedreza. E debaixo da figueira, a terra parecia agitar-se, como se o pai se estivesse a revolver no sono.
O calor da tarde pousava sobre Alpedreza como uma mão pesada. A ourivesaria de Adriano Saragoça cheirava a cobre velho e a incenso seco. Teresa Melo entrou e a campainha tilintou. Sentiu o coração apertar-se.
Adriano estava atrás do balcão. Polia a pequena pedra negra que nunca largava. Os seus olhos cinzentos ergueram-se lentamente.
– Sente-se.
Ela obedeceu. As mãos pousadas no colo, os dedos a tremer. Adriano pousou a pedra e inclinou-se.
– Sabe porque a chamei?
Teresa negou com a cabeça. A voz saiu-lhe baixa.
– Não sei, senhor Adriano.
Ele sorriu. Um sorriso fino, sem calor.
– Há muitos anos, o seu pai veio a esta ourivesaria. Pediu-me ajuda para um... problema. Lembra-se?
Teresa empalideceu. As palavras seguintes de Adriano caíram como lâminas.
– Eu sei o que aconteceu naquela noite, Teresa. Sei o que fez.
Ela tentou levantar-se. As pernas não responderam. A voz de Adriano continuava, suave e venenosa.
– Matou o seu pai. Espancou-o até à morte com um ferro da lareira. E depois enterrou-o no quintal, debaixo da figueira.
Teresa levou a mão à boca. Os olhos encheram-se de lágrimas.
– Não... não foi...
– Foi. E eu posso prová-lo. Guardei o ferro. E tenho testemunhas.
Ele contornou o balcão. Aproximou-se dela. Teresa sentiu o cheiro a metal frio e a qualquer coisa antiga.
– O que quer de mim?
Adriano parou a um palmo do seu rosto.
– O inspector João Martins está a investigar os desaparecimentos. Quero saber tudo o que ele descobre. Cada passo, cada suspeita. Você trabalha na câmara. Tem acesso a arquivos, a boatos. Vai ser os meus olhos e ouvidos.
Teresa sacudiu a cabeça.
– Não posso traí-lo. Ele é...
– Ele é um forasteiro. Um homem amaldiçoado. E vai destruir esta vila se não for controlado. Você quer proteger Alpedreza, não quer?
Ela ficou em silêncio. Adriano recuou um passo e retomou a pedra negra.
– Se não me ajudar, amanhã de manhã o agente Lopes recebe uma carta anónima. Com detalhes do que aconteceu ao seu pai. Pense bem.
Teresa ergueu-se. As pernas tremiam-lhe. Dirigiu-se para a porta.
– Eu... eu preciso de pensar.
– Não há muito em que pensar. Amanhã espero notícias suas.
Ela saiu. O calor da rua bateu-lhe no rosto. As casas caiadas pareciam observá-la. Teresa encostou-se a uma parede e fechou os olhos. O passado regressava como um vómito escuro. Viu o pai, bêbedo, a avançar para ela com o cinto. Viu o ferro na sua mão. O sangue.
Abriu os olhos. Alpedreza continuava igual. Mas agora as paredes tinham ouvidos. E Adriano Saragoça sabia o seu segredo.
O Interrogatório na Taberna
O sol começava a baixar quando João Martins e Maria do Carmo se sentaram na taberna vazia. As cadeiras de madeira rangiam. Maria pousou dois copos de água fresca na mesa.
– Ela costuma aparecer por volta desta hora – disse Maria, limpando as mãos ao avental. – A Teresa Melo. Trabalha na câmara. Conhecia a Helena.
João acenou. Tinha passado a manhã a rever os arquivos dos desaparecidos. O nome de Teresa surgira várias vezes como testemunha de interrogatórios anteriores. Sempre respostas vagas, sempre olhos no chão.
A porta da taberna rangeu. Teresa entrou. Parou ao vê-los. Os ombros encolheram-se ligeiramente.
– Boa tarde – murmurou.
– Sente-se connosco, Teresa – pediu João, indicando uma cadeira.
Ela hesitou. Depois obedeceu. As mãos apertaram a carteira contra o peito. Maria observava-a com os seus olhos escuros e velhos.
– A Teresa sabe que estamos a investigar os desaparecimentos – começou João. – Precisávamos de fazer umas perguntas.
– Já contei tudo o que sei ao agente Lopes.
– Mesmo assim.
João inclinou-se. As olheiras profundas tornavam o seu olhar mais intenso.
– A Helena trabalhava na ourivesaria do senhor Adriano. A Teresa era amiga dela?
Teresa desviou o olhar.
– Conhecia-a. Ela às vezes ia à câmara tratar de papéis.
– E reparou em alguma coisa estranha nos dias antes de desaparecer?
– Não. Parecia normal.
– Não falou de ninguém? De alguma ameaça?
– Não.
A voz de Teresa tornara-se monocórdica. As mãos tremiam-lhe sobre a carteira. Maria do Carmo interveio.
– A rapariga tinha medo, não tinha? – A voz de Maria soou áspera. – Eu via-a aqui. Bebia um cálice de aguardente e olhava sempre para a porta.
Teresa encolheu os ombros.
– Não sei.
João trocou um olhar com Maria. Algo não batia certo. Teresa conhecia mais do que dizia. Ele sentia-o na forma como ela evitava o contacto visual, no modo como os seus dedos se crispavam no tecido da carteira.
– Teresa, olhe para mim.
Ela levantou os olhos devagar. Eram olhos castanhos, húmidos, assustados.
– Se souber de alguma coisa que nos possa ajudar, é melhor falar agora. As pessoas estão a desaparecer. Alguém as está a levar. E essa pessoa pode atacar de novo.
Teresa mordeu o lábio. Uma lágrima soltou-se e rolou pela face. Ela limpou-a rapidamente com as costas da mão.
– Não sei de nada. Desculpem.
Levantou-se. A carteira caiu ao chão. Papéis espalharam-se. João baixou-se para ajudar. Viu um formulário da câmara com o timbre do arquivo. Um nome saltou-lhe à vista: "Melo, António – Certidão de Óbito – 1993".
Teresa arrancou-lhe o papel das mãos.
– Isso não é nada.
Enfiou os papéis na carteira e saiu quase a correr. A porta bateu.
Maria do Carmo levantou-se.
– Aquela mulher esconde alguma coisa. Viste-lhe as mãos? Tremiam como varas verdes.
João ficou sentado. A data na certidão ecoava-lhe na mente. 1993. O pai de Teresa morrera há trinta anos. Mas o olhar dela... não era de luto antigo. Era culpa fresca.
– Vou descobrir o que ela esconde – murmurou.
Lá fora, o calor da tarde cedia lugar a uma brisa morna. Alpedreza continuava silenciosa. Mas João sentia que as rachaduras nas paredes caiadas se estavam a aprofundar. E no meio delas, Teresa Melo sangrava em segredo.
Lágrimas e Traição
Teresa fechou a porta de casa com força. Encostou-se à madeira e deixou-se escorregar até ao chão. As lágrimas vieram aos soluços, sacudindo-lhe o corpo magro.
A casa estava escura. O cheiro a mofo e a ausência enchiam as divisões. No quintal, a figueira erguia-se como uma sentinela. Debaixo dela, a terra continuava revolvida, apesar de já terem passado trinta anos. Teresa sabia. Às vezes ainda sonhava com o pai a subir do solo, os olhos vazios, as mãos estendidas.
E agora Adriano Saragoça tinha o ferro. O maldito ferro com que ela lhe esmagara o crânio. Como o conseguira? Porque o guardara?
Ela ergueu-se e cambaleou até à cozinha. Acendeu uma vela. A luz bruxuleante dançou nas paredes descascadas. Sobre a mesa, o telemóvel. A ameaça de Adriano latejava-lhe na cabeça: "Amanhã de manhã, o agente Lopes recebe uma carta."
O que podia fazer? Confessar? Entregar-se? Perder tudo?
Pensou em João Martins. No modo como a olhara na taberna. Não era um olhar de acusação. Era um olhar que procurava a verdade. E isso doía ainda mais.
Teresa sentou-se à mesa. As mãos apertaram o telemóvel. A vela crepitava. As sombras alongavam-se pelas paredes como dedos acusadores.
Lembrou-se da noite do crime. O pai chegara bêbedo, como sempre. Gritara com a mãe, que já não estava lá para se defender. Depois virara-se para ela. "És igual à tua mãe. Uma inútil." O cinto zunira no ar. Ela agarrara o ferro da lareira. Um golpe. Dois. Depois o silêncio.
Enterrá-lo debaixo da figueira fora a única saída. A mãe nunca perguntara. A vila murmurara que António Melo fugira com outra mulher. E Teresa guardara o segredo durante três décadas.
Agora Adriano sabia. E ela estava encurralada.
Pegou no telemóvel. Abriu a lista de contactos. O nome de Adriano parecia queimar-lhe os dedos.
"Não posso trair o inspector. Ele não me fez mal nenhum."
Mas a voz do ourives ecoava-lhe na mente: "Ele é um forasteiro. Um homem amaldiçoado. Vai destruir a vila."
Teresa pensou em Alpedreza. Nas ruas onde crescera. Nas pessoas que a cumprimentavam todas as manhãs. Se o segredo viesse a público, tudo isso desapareceria. Tornar-se-ia uma pária. Talvez fosse presa.
O medo apertou-lhe a garganta.
Digitou a mensagem. Os dedos tremiam tanto que teve de apagar três vezes.
"Está tudo a postos."
Quatro palavras. O preço da sua protecção.
Premiu enviar.
O telemóvel emitiu um som abafado. Depois silêncio.
Teresa largou-o como se queimasse. As lágrimas voltaram, silenciosas desta vez. A vela apagou-se com uma brisa que entrou pela janela entreaberta. Na escuridão, só se ouvia a respiração ofegante de Teresa.
Lá fora, a noite engolia Alpedreza. E debaixo da figueira, a terra parecia agitar-se, como se o pai se estivesse a revolver no sono.