"
O Ataque no Celeiro
IA
A Caminho do Celeiro
O sol ainda não rompera a linha do horizonte quando João e Maria se encontraram no largo da igreja. O sino ainda não tocara, mas o ar já carregava o peso daquilo que vinha. João esfregava as mãos, mais por hábito que por frio. Maria vestira o seu xale escuro e trazia uma lanterna, apesar de saberem que o dia não tarda.
"Tens a certeza do que viste?" — perguntou João, passando a mão pelos cabelos desgrenhados.
Maria fitou-o com aqueles olhos castanhos que pareciam ver para lá da carne. "Vi. Vi o celeiro, vi um homem pendurado. Vi a escuridão à volta."
João rangeu os dentes. "É o celeiro velho do montado, não é? O que fica depois da ribeira."
Ela confirmou com um aceno. "Sim. É lá. Mas não sei o que vamos encontrar, inspector. Aviso-o: aquilo não é um lugar bom."
"Já nada nesta vila é bom", respondeu João, com um tom seco. "Vamos antes que alguém nos veja."
Caminharam em silêncio pelas ruas de pedra irregular. Alpedreza dormia ainda, mas as janelas pareciam espreitá-los como órbitas vazias. Maria benzeu-se quando passaram pela casa de Zulmira. João reparou no gesto, mas não comentou.
O caminho para o montado era de terra batida, ladeado por sobreiros de troncos retorcidos. O cheiro a esteva e a terra seca impregnava a brisa matinal. Nenhum pássaro cantava.
"A avó da senhora..." — começou João, mas calou-se.
Maria suspirou. "A minha avó via coisas, inspector. E pagou por isso. Mas não fugiu. Enfrentou o que viu."
"E eu? O meu pai também via. E suicidou-se."
"O seu pai estava sozinho. Você não está."
João parou por um instante, olhando-a. Havia uma dureza terna naquela mulher. Prosseguiram.
A vegetação tornou-se mais densa. Os ramos baixos roçavam-lhes as roupas. Ao longe, viam já a silhueta escura do celeiro, um esqueleto de madeira e telha a despontar entre os arbustos. O edifício estava torto, como se o tempo o tivesse vergado.
"É ali" — murmurou Maria.
Aproximaram-se com cautela. O celeiro tinha uma porta larga, entreaberta, por onde se escapava um cheiro a bolor e algo mais, algo doce e podre. João acendeu a lanterna que trouxera e entrou primeiro.
Lá dentro, a escuridão era densa. O feixe de luz revelava vigas de madeira carcomida e montes de feno apodrecido. O chão de terra batida estava coberto de pegadas recentes.
"Cheira a morte" — disse Maria, levando o xale ao nariz.
João avançou, o coração a bater forte. A luz da lanterna percorreu as paredes até encontrar algo que o fez estacar.
Pendurado numa viga, com uma corda grossa à volta do pescoço, estava o corpo de um homem.
A luz trémula iluminava os pormenores macabros: o rosto inchado, já azulado, os olhos esbugalhados como se ainda implorassem, a boca entreaberta num esgar de puro terror. Vestia roupas de trabalho, uma camisa aos quadrados manchada de terra e humidade. As mãos, atadas atrás das costas com um cordel fino, estavam roxas. O corpo balouçava ligeiramente, como se uma mão invisível o tivesse empurrado.
"Tomás" — sussurrou Maria, num fio de voz. "É o Tomás, o que desapareceu há duas semanas."
João sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. A visão de Maria era real. O corpo confirmava-o. Mas aquilo não era um suicídio. Era uma encenação, uma mensagem. O cordel nas mãos, a corda no pescoço, a ausência de qualquer banco ou apoio para saltar. Tomás fora assassinado.
"Temos de chamar as autoridades" — disse João, recuando um passo. "Precisamos de preservar a cena. Não podemos mexer em nada."
Mas antes que pudesse dar mais um passo, um som metálico ecoou atrás deles. A porta do celeiro, aquela que estava entreaberta, bateu com um estrondo seco, como se mãos invisíveis a tivessem fechado. O barulho reverberou nas vigas, e ambos se viraram, alarmados.
A Força Invisível e o Ourives
João correu para a porta, mas ao tentar abri-la deparou-se com uma resistência que parecia sobre-humana. Forçou o ombro contra a madeira. Nada. Maria segurava a lanterna, o feixe oscilando pelo espaço.
"Está trancada por fora" — disse ele, com a voz a denunciar o medo.
Um ranger de madeira soou do fundo do celeiro, como se algo rastejasse. Depois, um riso. Um riso sinistro, gutural, que parecia vir de dentro das paredes, das próprias trevas. Não era humano.
"Quem está aí?" — gritou João, apontando a lanterna na direcção do som.
O riso intensificou-se e, de repente, uma onda de choque invisível projectou-o para trás. João bateu com as costas numa pilha de feno, o ar a escapar-se-lhe dos pulmões. A lanterna caiu e rolou pelo chão, lançando sombras dançantes. Maria gritou e tentou correr para ele, mas uma segunda onda atingiu-a de lado, atirando-a contra uma parede de madeira. Ela caiu de joelhos, com um gemido.
"O que é isto?" — balbuciou, apalpando o chão.
João tentou levantar-se. Sentia o gosto a sangue na boca. Uma terceira rajada invisível varreu o celeiro, derrubando-o outra vez. Desta vez, rodopiou e foi bater contra uma viga, sentindo uma dor aguda no ombro. À sua volta, o feno e a palha voavam em remoinhos, como se um vento sobrenatural os agitasse.
"Parem!" — bradou, sem saber a quem.
O riso continuava, agora mais próximo. Passos soaram sobre a madeira. O feixe da lanterna, caído de lado, iluminou um vulto que se aproximava com uma lentidão calculada.
Era Adriano Saragoça.
O ourives caminhava com as mãos atrás das costas, o seu fato escuro impecável. Atrás dele, dois homens robustos, de expressão vazia, entraram e posicionaram-se junto à porta. Um deles tinha uma cicatriz que lhe sulcava a bochecha.
"Inspector Martins... Dona Maria do Carmo..." — saudou Adriano, com um sorriso que não chegava aos olhos. "Parece que encontraram o nosso amigo Tomás."
João conseguiu pôr-se de pé, apoiando-se numa viga. "Você... Adriano... O que é esta força?"
Adriano soltou uma gargalhada seca. "Força? Não há força nenhuma, inspector. Apenas o eco daquilo que vocês insistem em ignorar. O mal que habita este lugar."
Maria também se ergueu, as pernas trémulas. "Você está por trás disto! Foi você que matou o Tomás e os outros!"
Adriano encolheu os ombros. "Eu não matei ninguém. Apenas... recolho o que o mal reclama. O Tomás era fraco, como os outros. Cedeu ao medo."
"Você é um monstro!" — gritou Maria.
"Talvez. Mas não fui eu que o pendurei. Foi o desespero. O mal alimenta-se disso. E agora, meus caros, peço-lhes que se retirem. O corpo do Tomás vai... desaparecer, como os outros. Não haverá provas, inspector. Apenas mais um mistério para a sua mente frágil."
João avançou um passo, mas os dois capangas bloquearam-lhe o caminho. O da cicatriz cruzou os braços, olhando-o com desprezo.
"Não se metam nisto" — ameaçou João, cerrando os punhos.
Adriano riu-se, e o som ecoou de forma anormal, como se várias vozes se sobrepusessem. "Bravo, inspector. Mas está a brincar com forças que não compreende. Vá para casa. Leve a velha consigo. E não tente interferir no que está a acordar."
Maria agarrou no braço de João. "Vamos. Não podemos lutar contra ele agora."
João sabia que ela tinha razão. Estavam em desvantagem. Mas olhou para o corpo de Tomás, pendurado, e sentiu uma raiva impotente. Aquela era a prova de que precisava, mas sabia que, se ali ficasse, poderia acabar como o Tomás. Ou pior.
"Vamos" — cedeu, relutante.
Adriano fez um gesto com a mão, e os capangas abriram a porta. O luar entrava agora, desenhando um rectângulo de luz prateada no chão de terra.
João e Maria saíram, apressados, sem olhar para trás. Atravessaram a clareira, os ramos dos sobreiros a arranharem-lhes a roupa.
Já se afastavam quando ouviram a voz de Adriano, num murmúrio que pareceu ecoar pela planície, carregado de uma satisfação maligna:
"O mal está a acordar."
A porta do celeiro fechou-se com um golpe seco, engolindo o riso do ourives e a escuridão.
O sol ainda não rompera a linha do horizonte quando João e Maria se encontraram no largo da igreja. O sino ainda não tocara, mas o ar já carregava o peso daquilo que vinha. João esfregava as mãos, mais por hábito que por frio. Maria vestira o seu xale escuro e trazia uma lanterna, apesar de saberem que o dia não tarda.
"Tens a certeza do que viste?" — perguntou João, passando a mão pelos cabelos desgrenhados.
Maria fitou-o com aqueles olhos castanhos que pareciam ver para lá da carne. "Vi. Vi o celeiro, vi um homem pendurado. Vi a escuridão à volta."
João rangeu os dentes. "É o celeiro velho do montado, não é? O que fica depois da ribeira."
Ela confirmou com um aceno. "Sim. É lá. Mas não sei o que vamos encontrar, inspector. Aviso-o: aquilo não é um lugar bom."
"Já nada nesta vila é bom", respondeu João, com um tom seco. "Vamos antes que alguém nos veja."
Caminharam em silêncio pelas ruas de pedra irregular. Alpedreza dormia ainda, mas as janelas pareciam espreitá-los como órbitas vazias. Maria benzeu-se quando passaram pela casa de Zulmira. João reparou no gesto, mas não comentou.
O caminho para o montado era de terra batida, ladeado por sobreiros de troncos retorcidos. O cheiro a esteva e a terra seca impregnava a brisa matinal. Nenhum pássaro cantava.
"A avó da senhora..." — começou João, mas calou-se.
Maria suspirou. "A minha avó via coisas, inspector. E pagou por isso. Mas não fugiu. Enfrentou o que viu."
"E eu? O meu pai também via. E suicidou-se."
"O seu pai estava sozinho. Você não está."
João parou por um instante, olhando-a. Havia uma dureza terna naquela mulher. Prosseguiram.
A vegetação tornou-se mais densa. Os ramos baixos roçavam-lhes as roupas. Ao longe, viam já a silhueta escura do celeiro, um esqueleto de madeira e telha a despontar entre os arbustos. O edifício estava torto, como se o tempo o tivesse vergado.
"É ali" — murmurou Maria.
Aproximaram-se com cautela. O celeiro tinha uma porta larga, entreaberta, por onde se escapava um cheiro a bolor e algo mais, algo doce e podre. João acendeu a lanterna que trouxera e entrou primeiro.
Lá dentro, a escuridão era densa. O feixe de luz revelava vigas de madeira carcomida e montes de feno apodrecido. O chão de terra batida estava coberto de pegadas recentes.
"Cheira a morte" — disse Maria, levando o xale ao nariz.
João avançou, o coração a bater forte. A luz da lanterna percorreu as paredes até encontrar algo que o fez estacar.
Pendurado numa viga, com uma corda grossa à volta do pescoço, estava o corpo de um homem.
A luz trémula iluminava os pormenores macabros: o rosto inchado, já azulado, os olhos esbugalhados como se ainda implorassem, a boca entreaberta num esgar de puro terror. Vestia roupas de trabalho, uma camisa aos quadrados manchada de terra e humidade. As mãos, atadas atrás das costas com um cordel fino, estavam roxas. O corpo balouçava ligeiramente, como se uma mão invisível o tivesse empurrado.
"Tomás" — sussurrou Maria, num fio de voz. "É o Tomás, o que desapareceu há duas semanas."
João sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. A visão de Maria era real. O corpo confirmava-o. Mas aquilo não era um suicídio. Era uma encenação, uma mensagem. O cordel nas mãos, a corda no pescoço, a ausência de qualquer banco ou apoio para saltar. Tomás fora assassinado.
"Temos de chamar as autoridades" — disse João, recuando um passo. "Precisamos de preservar a cena. Não podemos mexer em nada."
Mas antes que pudesse dar mais um passo, um som metálico ecoou atrás deles. A porta do celeiro, aquela que estava entreaberta, bateu com um estrondo seco, como se mãos invisíveis a tivessem fechado. O barulho reverberou nas vigas, e ambos se viraram, alarmados.
A Força Invisível e o Ourives
João correu para a porta, mas ao tentar abri-la deparou-se com uma resistência que parecia sobre-humana. Forçou o ombro contra a madeira. Nada. Maria segurava a lanterna, o feixe oscilando pelo espaço.
"Está trancada por fora" — disse ele, com a voz a denunciar o medo.
Um ranger de madeira soou do fundo do celeiro, como se algo rastejasse. Depois, um riso. Um riso sinistro, gutural, que parecia vir de dentro das paredes, das próprias trevas. Não era humano.
"Quem está aí?" — gritou João, apontando a lanterna na direcção do som.
O riso intensificou-se e, de repente, uma onda de choque invisível projectou-o para trás. João bateu com as costas numa pilha de feno, o ar a escapar-se-lhe dos pulmões. A lanterna caiu e rolou pelo chão, lançando sombras dançantes. Maria gritou e tentou correr para ele, mas uma segunda onda atingiu-a de lado, atirando-a contra uma parede de madeira. Ela caiu de joelhos, com um gemido.
"O que é isto?" — balbuciou, apalpando o chão.
João tentou levantar-se. Sentia o gosto a sangue na boca. Uma terceira rajada invisível varreu o celeiro, derrubando-o outra vez. Desta vez, rodopiou e foi bater contra uma viga, sentindo uma dor aguda no ombro. À sua volta, o feno e a palha voavam em remoinhos, como se um vento sobrenatural os agitasse.
"Parem!" — bradou, sem saber a quem.
O riso continuava, agora mais próximo. Passos soaram sobre a madeira. O feixe da lanterna, caído de lado, iluminou um vulto que se aproximava com uma lentidão calculada.
Era Adriano Saragoça.
O ourives caminhava com as mãos atrás das costas, o seu fato escuro impecável. Atrás dele, dois homens robustos, de expressão vazia, entraram e posicionaram-se junto à porta. Um deles tinha uma cicatriz que lhe sulcava a bochecha.
"Inspector Martins... Dona Maria do Carmo..." — saudou Adriano, com um sorriso que não chegava aos olhos. "Parece que encontraram o nosso amigo Tomás."
João conseguiu pôr-se de pé, apoiando-se numa viga. "Você... Adriano... O que é esta força?"
Adriano soltou uma gargalhada seca. "Força? Não há força nenhuma, inspector. Apenas o eco daquilo que vocês insistem em ignorar. O mal que habita este lugar."
Maria também se ergueu, as pernas trémulas. "Você está por trás disto! Foi você que matou o Tomás e os outros!"
Adriano encolheu os ombros. "Eu não matei ninguém. Apenas... recolho o que o mal reclama. O Tomás era fraco, como os outros. Cedeu ao medo."
"Você é um monstro!" — gritou Maria.
"Talvez. Mas não fui eu que o pendurei. Foi o desespero. O mal alimenta-se disso. E agora, meus caros, peço-lhes que se retirem. O corpo do Tomás vai... desaparecer, como os outros. Não haverá provas, inspector. Apenas mais um mistério para a sua mente frágil."
João avançou um passo, mas os dois capangas bloquearam-lhe o caminho. O da cicatriz cruzou os braços, olhando-o com desprezo.
"Não se metam nisto" — ameaçou João, cerrando os punhos.
Adriano riu-se, e o som ecoou de forma anormal, como se várias vozes se sobrepusessem. "Bravo, inspector. Mas está a brincar com forças que não compreende. Vá para casa. Leve a velha consigo. E não tente interferir no que está a acordar."
Maria agarrou no braço de João. "Vamos. Não podemos lutar contra ele agora."
João sabia que ela tinha razão. Estavam em desvantagem. Mas olhou para o corpo de Tomás, pendurado, e sentiu uma raiva impotente. Aquela era a prova de que precisava, mas sabia que, se ali ficasse, poderia acabar como o Tomás. Ou pior.
"Vamos" — cedeu, relutante.
Adriano fez um gesto com a mão, e os capangas abriram a porta. O luar entrava agora, desenhando um rectângulo de luz prateada no chão de terra.
João e Maria saíram, apressados, sem olhar para trás. Atravessaram a clareira, os ramos dos sobreiros a arranharem-lhes a roupa.
Já se afastavam quando ouviram a voz de Adriano, num murmúrio que pareceu ecoar pela planície, carregado de uma satisfação maligna:
"O mal está a acordar."
A porta do celeiro fechou-se com um golpe seco, engolindo o riso do ourives e a escuridão.