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A Pista Falsa de Zulmira
IA
O Convite de Zulmira
O sol ainda não rompera o véu de nuvens que cobria Alpedreza, mas o calor já se aninhava nos cantos das ruas, como um presságio abafado. João Martins saíra do quarto da pensão com a roupa do dia anterior e o cheiro a tabaco velho colado à pele. A noite fora curta e atormentada: visões fragmentadas de mãos que se fechavam em torno de gargantas invisíveis, de olhos que o fitavam do fundo de um poço. Não, não um poço – o montado. A visão de Maria do Carmo ainda lhe ecoava na mente como uma promessa de respostas, mas o cansaço toldava-lhe o raciocínio. Precisava de café e de um plano, mas a vila parecia engoli-lo com a sua lentidão calculada. Cada passo nas lajes irregulares da praça soava como um intruso. Das janelas entreabertas, olhos furtivos seguiam-no, e João sabia que, naquele lugar, a desconfiança era tão densa como o pó que cobria as oliveiras.
A taberna de Maria do Carmo ainda estava fechada. A porta de madeira gasta mostrava as primeiras fendas de sol por baixo, mas o silêncio era total. João hesitou. Bater àquela hora seria inútil – Maria não era mulher de madrugar para quem lhe batia à porta sem aviso. Talvez fosse melhor andar, sentir o pulso da vila. Mas a vila não tinha pulso. Alpedreza parecia suspensa num tempo que não avançava, e as pessoas moviam-se como sombras, sempre a esgueirar-se pelas esquinas quando ele se aproximava. A única exceção, talvez, fosse a curandeira. Zulmira Valentim vivia nos arredores, e João ouvira falar dela em murmúrios: uns diziam que via coisas, outros que era uma feiticeira inofensiva. Maria do Carmo, porém, evitara comentários. Quando João a questionara, ela apenas franzira os lábios e mudara de assunto – um sinal claro de que a curandeira não era bem-vinda na taberna.
Foi então, como se o pensamento a tivesse invocado, que uma figura escura se destacou ao fundo da praça. Zulmira avançava devagar, apoiada num cajado retorcido, as saias farrapentas arrastando-se no empedrado. O cabelo grisalho caía-lhe em madeixas hirtas sobre o rosto, mas os olhos negros, esses, brilhavam como carvão aceso. João sentiu um arrepio frio, mas firmou os pés. Não ia recuar. A mulher vinha ao seu encontro, e algo lhe dizia que não era por acaso.
— Inspector Martins? – A voz rouca saiu como um sussurro, mas atravessou o ar sem esforço. Cheirava a terra molhada e a qualquer coisa doce, como incenso queimado. – Precisamos de falar.
João endireitou-se. O cansaço fê-lo ranger os dentes, um hábito que sempre o denunciava.
— Como sabe o meu nome? – perguntou, tentando manter a voz neutra.
Zulmira esboçou um sorriso que não chegou aos olhos.
— Toda a Alpedreza sabe quem é o homem que desce aos poços e fala com os mortos. – Inclinou a cabeça, estudando-o. – E eu sei mais do que isso.
Ele não respondeu logo. A mão esquerda moveu-se para alisar o cabelo, um gesto de ansiedade que a mulher acompanhou com um olhar penetrante.
— O que quer? – disse, por fim.
Zulmira apoiou-se mais no cajado e aproximou-se um passo.
— Quero ajudar. – Fez uma pausa, como se saboreasse as palavras. – Vi coisas, inspector. Coisas que os seus olhos não alcançam. E sei onde encontrar uma pista que lhe escapou.
A desconfiança foi imediata, mas João conteve-a. Maria do Carmo também via coisas, e ele aprendera a não descartar o impossível. Contudo, havia algo na postura de Zulmira que o punha em guarda: uma segurança serena, uma certeza de quem já sabia o efeito que causava.
— Que pista? – atirou, seco.
Ela hesitou, os dedos a apertarem o cajado com uma força desproporcional à idade aparente.
— Siga-me. É longe daqui, no montado. Mostro-lhe o sítio.
João cruzou os braços.
— Porquê agora? Porque não falou antes?
Zulmira encolheu os ombros, mas o movimento teve qualquer coisa de ensaiado.
— Porque estava com medo, senhor inspector. O mal que ronda esta terra tem dentes, e eu sou uma velha. Mas ontem à noite... – Levou a mão ao peito, num gesto que queria ser dramático. – Sonhei com uma rapariga. Pediu-me que o ajudasse. Disse que o senhor é o único que pode parar isto.
O coração de João acelerou. A rapariga do poço? Helena? Ou outra?
— Quem era a rapariga?
— Não sei o nome. Mas vi-lhe o rosto. – Zulmira fixou-o, e os olhos dela pareceram ganhar uma profundidade nova. – E vi também um xale. Um xale sujo, abandonado numa cabana.
João sentiu a garganta secar. Um xale. Objectos pessoais sempre tinham força nas visões de Maria do Carmo. Se Zulmira também os usava...
— Onde é a cabana?
Ela sorriu outra vez, desta vez com uma satisfação que o perturbou.
— Vamos?
O caminho até ao montado fez-se em silêncio. Zulmira guiava com passos curtos mas firmes, e João era obrigado a abrandar para a acompanhar. O sol já se desfizera do véu de nuvens e batia-lhes na cabeça com uma insistência cruel. O cheiro a erva seca e a caruma misturava-se com o perfume doce da mulher, e por mais que João tentasse, não conseguia decifrar se era um truque ou se a curandeira era genuinamente perturbadora. A certa altura, ela apontou para uma vereda estreita, quase escondida por giestas bravas.
— É ali.
A cabana surgiu como uma ferida no meio do mato. Tábuas carcomidas, telhado meio desabado, uma porta que pendia de uma só dobradiça. João encostou-se a um tronco e observou em silêncio. Havia pegadas na terra solta – recentes, mas de botas pequenas. Mulher, talvez. Ou um rapaz.
— Entrou aqui? – perguntou.
— Não. – A voz de Zulmira tremelicou, mas João não sabia se era velhice ou fingimento. – Senti que não devia.
Ele passou a mão esquerda pelo cabelo, rangeu os dentes, e avançou. A porta gemeu quando a empurrou. Lá dentro, o cheiro a bolor e a excrementos de animal era quase sólido. Restos de palha no chão, uma mó partida, e, no canto oposto, um volume escuro. João aproximou-se devagar, o coração a martelar. Quando se agachou, viu o xale.
Era de lã grosseira, cor de vinho, com uma barra de croché desfiada. Estava sujo de terra e de manchas escuras – sangue? Ergueu-o com cuidado, sentindo a aspereza do tecido nos dedos. Voltou-se para a entrada, onde Zulmira permanecia, recortada contra a luz.
— Conhece este xale? – perguntou, mostrando-o.
A curandeira deu um passo atrás, como se o objecto a queimasse.
— É dela. Da rapariga do meu sonho. De uma das desaparecidas.
João apertou o pano entre as mãos. Se fosse verdade, era a primeira pista palpável desde que encontrara o corpo de Helena.
— Sabe quem o deixou aqui?
Zulmira passou a língua pelos lábios secos.
— Há um homem que percorre estas terras. Um vendedor ambulante, chama-se António. Forasteiro, como o senhor. Vi-o rondar a vila nos dias em que as raparigas sumiram.
O nome bateu-lhe na memória como uma pedrada. Forasteiro. Vendedor ambulante. João forçou-se a manter a calma.
— Onde o encontro?
— Ele acampa perto do rio, quando está por cá. Mas cuidado, inspector. – Zulmira agarrou-lhe o braço com uma força surpreendente, as unhas sujas cravando-se na pele. – Ele tem olhos que mentem. E o mal está com ele.
João soltou o braço com um gesto lento, mas firme.
— Agradeço a ajuda. Mas agora preciso de verificar esta informação. – Embora as palavras tenham saído polidas, o seu tom era gelado. A mão que segurava o xale tremia ligeiramente, mas ele recusava-se a acreditar que fosse medo.
Zulmira recuou, o cajado a raspar na terra.
— Vá, então. Mas lembre-se: nem todos os que ajudam o fazem por bem. – E, sem mais uma palavra, virou costas e desapareceu entre as giestas, como se a vegetação a engolisse.
João ficou parado à porta da cabana, o xale apertado contra o peito. O calor do sol já não o aquecia. Olhou para o tecido, para as manchas escuras, e uma visão lampejou-lhe na mente: uma mulher de costas, a correr entre as árvores, o mesmo xale a voar. O eco de um grito. Depois, nada.
Rangeu os dentes com força. A ansiedade voltava, e com ela a dúvida. Zulmira ajudara ou distraíra-o? E António? Seria mesmo o culpado, ou mais uma sombra no labirinto que Alpedreza se tornara?
Guardou o xale no bolso do casaco e pôs-se a caminho da vila. Precisava de falar com Maria do Carmo. Só ela poderia ajudá-lo a distinguir a verdade da mentira.
A Teia Desfeita
Encontrou Maria do Carmo na taberna, a esfregar o balcão com uma energia que denunciava nervosismo. O avental sobre o vestido escuro estava manchado de café, e o xale de lã, eternamente pendurado nos ombros, parecia mais pesado do que nunca. Quando João entrou, a sineta da porta tilintou, e ela levantou a cabeça. Os olhos castanhos estreitaram-se.
— Essa cara não me agrada, inspector. – Passou o pano uma última vez e atirou-o para um balde. – Aconteceu alguma coisa?
João fechou a porta com cuidado. A taberna estava vazia, o que era estranho para a hora, mas não se queixou. Precisava de privacidade.
— Zulmira Valentim falou comigo. – Tirou o xale do bolso e pousou-o no balcão. – Levou-me a uma cabana no montado, onde estava isto. Diz que é de uma das desaparecidas.
Maria do Carmo ficou imóvel. Depois, lentamente, estendeu a mão. Os dedos calejados tocaram no tecido com a delicadeza de quem segura uma brasa. Fechou os olhos e respirou fundo. João observava-a, atento aos mais pequenos sinais. O polegar dela começou a rodar contra os outros dedos, um esfregar silencioso, como se desfiasse um rosário invisível. Era o seu maneirismo, e João já o conhecia bem.
— Vê alguma coisa? – perguntou, a voz mais tensa do que queria.
Maria abriu os olhos, mas não o fitou. Olhava o vazio, como se visse através das paredes.
— Este xale... – murmurou. – Não é de nenhuma das raparigas que sumiram.
João sentiu o estômago revirar.
— Tem a certeza?
Ela largou o pano, como se ele a queimasse.
— Absoluta. Conheço-o. Pertenceu à minha prima Adélia, que mora em Beja. Dei-lho eu, há anos. Ela nunca desapareceu na vida. – Cruzou os braços, apertando o xale contra o peito com um gesto protector. – A Zulmira mentiu.
Um silêncio pesado caiu entre os dois. João passou a mão pelo cabelo, repetindo o gesto até o couro cabeludo doer.
— Ela também falou de um tal António, vendedor ambulante. Disse que ele rondava a vila nos dias dos desaparecimentos.
Maria bufou, um som que vinha de um desprezo antigo.
— António? – Abanou a cabeça. – Conheço-o. É um homem simples, vende agulhas e linhas. E não estava cá. Nessa altura, foi levar encomendas a Portalegre. Qualquer pessoa na vila lhe diz isso.
João encostou-se ao balcão, o cansaço a pesar-lhe nos ombros como chumbo.
— Então ela armou uma cilada. Mas porquê?
— Essa é a pergunta que vale um conto de réis. – Maria tamborilou os dedos na madeira. – Zulmira nunca fez nada de graça. Se o mandou a si e a esse António, é porque tinha algo a ganhar. Ou a esconder.
— Mas o xale... – João fitou o objecto, como se ele pudesse revelar mais. – Ela parecia tão certa. E eu... eu acreditei.
Maria deu a volta ao balcão e pousou a mão no braço dele, um gesto que a surpreendeu tanto a ela como a ele.
— Não se culpe, inspector. A mulher tem uma língua de mel e olhos de serpente. Já enganou muitos. Mas desta vez, cometeu um erro. Talvez estivesse a pensar que o senhor, sendo de fora, não iria verificar.
João rangeu os dentes, o som audível no silêncio.
— Ou talvez quisesse ganhar tempo. Afastar-nos do rasto verdadeiro.
Maria retirou a mão e alisou o avental, num gesto brusco.
— E conseguiu. Perdemos a manhã toda nisto. – Respirou fundo. – Mas agora sabemos que ela mente. E isso é uma arma.
Ele virou-se para ela, os olhos cinzentos a brilhar com uma determinação exausta.
— Temos de descobrir para quem ela trabalha. Quem beneficiaria com esta pista falsa.
— Adriano Saragoça. – A voz de Maria saiu como um sopro, mas carregada de convicção. – Sempre foi ele. Zulmira faz-lhe as vontades. E ele quer que andemos a correr atrás de sombras.
João recordou a conversa na ourivesaria. O tom meloso de Adriano, as perguntas sobre o pai, o prazer mal disfarçado em vê-lo perturbado. Tudo se encaixava, e, no entanto, a prova faltava.
— Precisamos de mais do que suspeitas. – Passou a mão pelo cabelo outra vez. – Amanhã, vou falar com o tio Amadeu. O sineiro. Ele conhece esta terra como ninguém. Talvez saiba alguma coisa sobre a Zulmira.
— Amadeu Cruz? – Maria abanou a cabeça com veemência. – Esse nunca vai contra ninguém. Tem medo. Todos temos, mas ele... – Calou-se, os olhos a perderem-se num canto escuro da taberna. – Enfim, é melhor não contar com ele.
João franziu o sobrolho.
— Então, o que sugere?
Maria foi até à porta e espreitou pela frincha, como se temesse ouvidos nas paredes.
— Sugiro que não faça nada por enquanto. Deixe-a pensar que caiu na armadilha. Se ela se sentir segura, talvez nos mostre as cartas.
— Esperar? – A frustração de João transbordou. – Não posso esperar. Cada hora que passa, o mal que ronda isto fica mais forte. – A voz tremeu-lhe, e ele desviou o olhar. – O meu pai...
Maria aproximou-se outra vez. O seu rosto endureceu-se, mas havia um carinho maternal nos olhos.
— O seu pai sofria do mesmo, não era? Das visões?
Um nó apertou-se na garganta de João, e ele apenas acenou. Falar do pai era mexer em feridas que nunca saravam.
— Ela sabe. A Zulmira. Sabe que somos parecidos. E está a usar isso contra si.
A lucidez das palavras atingiu-o em cheio. Sim, Zulmira mencionara o dom de “ver”. Adriano falara do pai. Tudo era um jogo de espelhos para o confundir.
— Então não vou dar-lhe esse gosto. – Endireitou os ombros. – Fico à espreita. Mas você, Maria, precisa de ter cuidado. Se ela mente para mim, não hesitará em atacar quem a desmascare.
Ela riu, um riso seco e amargo.
— A mim? Essa velha tem medo de mim desde que eu era miúda. Sabe porque? Porque eu sinto o que ela esconde. E um dia destes, vou descobrir o que é.
O tom era de desafio, mas João via-lhe o tremor nas mãos. Maria era forte, mas não imune ao medo. Ninguém o era em Alpedreza.
Decidiram separar-se. João iria ao encontro de António, o vendedor, não para o acusar, mas para lhe perguntar se tinha visto Zulmira ou Adriano nos dias do crime. Maria ficaria na taberna, atenta aos murmúrios. Quem sabe algum cliente soltasse uma palavra que a ajudasse a perceber o jogo da curandeira.
Quando João saiu, o sol já declinava, tingindo as paredes caiadas de um dourado triste. Apertou o casaco contra o vento que começava a soprar e pôs-se a caminho da velha ponte romana, onde António costumava acampar. Cada passo era uma luta contra o cansaço e contra as imagens que lhe invadiam a mente: o poço, Helena, o sorriso frio de Adriano, e agora Zulmira, com os seus olhos de carvão e mentiras na ponta da língua.
Encontrou António sentado numa pedra, a remendar uma mochila de lona. Era um homem magro, de barba grisalha e mãos calmas. Levantou os olhos claros quando João se aproximou, e neles não havia medo, apenas cansaço.
— Boa tarde, senhor. É o inspector, não é? Já me disseram.
João assentiu.
— Sabe por que o procuro?
António encolheu os ombros.
— Deve ser por causa dos desaparecimentos. Mas eu não tenho nada a ver com isso. Estive em Portalegre, tenho como provar.
— Quem lhe disse que estava desconfiado de si?
O homem hesitou, depois apontou vagamente para a vila.
— Veio uma velha, a Zulmira. Falou-me de um xale e disse que o senhor ia acusar-me. Disse para eu fugir. – Pousou a agulha e fitou João com seriedade. – Mas eu não devo nada. Se fugisse, é que ia parecer culpado.
João sentiu uma onda de raiva fria. Zulmira tentara incriminar um inocente e, ao mesmo tempo, empurrá-lo para a fuga, o que criaria uma prova falsa ainda maior. Tudo meticulosamente planeado.
— Fique descansado, António. Ninguém o acusa. Mas, diga-me: viu alguma coisa estranha nos dias dos sumiços? Alguém que não fosse da vila?
O vendedor pensou, os dedos a alisar a barba.
— Vi a velha, essa Zulmira. Ela andava pelo montado, de noite, com um daqueles archotes. E uma vez, pareceu-me que levava uma trouxa, mas não posso jurar.
Uma trouxa. Talvez um xale. Talvez outra coisa.
— Obrigado, António. Se precisar de mais informações, volto a falar consigo.
O homem acenou e voltou à sua costura, alheio ao turbilhão que ajudara a desencadear.
João regressou à pensão com a mente aos pulos. Zulmira era mais perigosa do que parecia. E estava ligada a Adriano, ele sentia-o nos ossos. Mas Maria do Carmo tinha razão: era preciso esperar, deixar que a teia se desfiasse sozinha. Haveria de haver mais erros, mais pontas soltas.
Ao passar pela taberna, viu luz por baixo da porta. Maria ainda estava lá dentro. Mas preferiu não entrar. Precisava de pensar, de dominar as visões que o assaltavam a cada esquina. O fantasma da criança não lhe dera sossego, e agora juntava-se o rosto de Helena e as palavras do pai, a ecoarem-lhe na memória: “Se eu desaparecer, filho, foge.”
Rangeu os dentes. Não ia fugir. Fosse qual fosse a verdade, enfrentá-la-ia. Mas primeiro, era preciso desmascarar a curandeira.
A Semente da Dúvida
A noite caíra sobre Alpedreza como um manto espesso, e o silêncio era quase absoluto. Dentro da taberna, Maria do Carmo limpava as mesas devagar, o pano a arrastar-se sobre a madeira num ritmo monótono. Apenas uma lamparina de azeite iluminava o balcão, e as sombras dançavam nas paredes como figuras inquietas. Os últimos fregueses tinham saído havia horas, e ela saboreava a solidão, embora o coração lhe pesasse. As palavras de João ficaram-lhe gravadas: "Cada hora que passa, o mal fica mais forte". E ela sentia-o. Sentia-o no ar, na terra, nas visões que a atormentavam quando tocava nos objectos errados. O xale queimara-lhe a pele sem deixar marca, e a imagem da prima Adélia, tão viva e distante, fez-lhe um nó na garganta. Zulmira usara-a. Usara o seu passado para enganar João.
Enfiou o pano no balde e foi até à janela. As ruas estavam desertas, mas um vulto moveu-se ao fundo, perto da ourivesaria. Adriano. Sabia que ele andava a observá-los, mas agora a suspeita transformara-se em certeza. Zulmira era o seu braço direito, a aranha que tecia as teias enquanto o ourives ficava na sombra. E ela, Maria, era a única que parecia ver para além das máscaras. Porque o seu dom era também uma maldição: obrigava-a a conhecer a verdade, mesmo quando desejava ignorá-la.
Passou os dedos pelo rosário invisível, o polegar a rodar contra os outros dedos. Precisava de um plano. João era teimoso e estava cansado, mas era um homem bom. Não podia deixar que o consumissem. Mas como lutar contra alguém que mentia com tanta naturalidade? A curandeira tinha a vila na mão. Muitos acreditavam nas suas mezinhas, outros temiam-na. E o medo era o melhor escudo.
Ouviu passos na rua e voltou-se rapidamente. A porta rangeu, e João entrou, trazendo consigo uma lufada de ar fresco e o cheiro a terra noturna. Os olhos estavam mais fundos do que nunca, mas havia uma centelha de fúria contida que ela reconheceu.
— Falei com António. – Tirou o casaco e pendurou-o na cadeira. – É inocente. E a Zulmira tentou que ele fugisse, para piorar as coisas.
Maria assentiu, como se já esperasse.
— É o que ela faz. Cria confusão. Quanto mais nos perdemos, mais espaço ganha.
João sentou-se pesadamente, os cotovelos nos joelhos, a cabeça curvada.
— Mas porquê? Que ganha ela com isto? – A voz soou abafada, como se falasse para o chão.
— Ganha poder. – Maria aproximou-se e sentou-se à sua frente. – O Adriano domina a vila através do medo, e ela é a boca que espalha os boatos. Se o senhor inspector falhar, ninguém vai procurar mais fora. Fica tudo como está.
— E os desaparecidos?
— Esses já não voltam. – A voz dela embargou-se um instante, mas logo recuperou. – Mas podemos impedir que haja outros.
João levantou a cabeça e fitou-a. Os olhos cinzentos pareciam ver através dela, mas não com desconfiança. Com um pedido mudo de ajuda.
— Então, o que fazemos?
Maria respirou fundo. O que estava prestes a dizer doía-lhe, mas era a única saída.
— Amanhã, você vai ter com Zulmira outra vez. Diga que seguiu a pista de António, mas que ela se enganou. Que precisa de mais ajuda. Finja que confia nela. – Fez uma pausa, vendo a hesitação nos olhos dele. – Eu farei o mesmo, à minha maneira. Vou perguntar-lhe por este xale. – Tocou no tecido que ainda estava sobre o balcão. – Vou dizer que o encontrei na cabana, mas que não sei de quem é. Vou fingir que também acredito na história dela.
— E depois?
— Depois, esperamos. Ela vai sentir-se segura. E quando se sentir segura, vai cometer um erro. – Os olhos castanhos endureceram. – E eu vou estar lá para ver.
João esfregou o queixo, a barba curta arranhando-lhe a palma.
— É arriscado. Se ela perceber...
— Não vai perceber. – Maria inclinou-se para a frente, o seu rosto a poucos centímetros do dele. – Eu conheço-a desde miúda. Ela subestima toda a gente, e é essa a sua fraqueza. Vai pensar que somos duas ovelhas tontas, e é aí que nós a apanharemos.
Um brilho de entendimento passou pelos olhos de João. Lentamente, assentiu.
— Está bem. Mas prometa-me que tem cuidado. Não quero que lhe aconteça nada.
Ela sorriu, um sorriso triste mas terno.
— Já me aconteceu tanta coisa, inspector. Não tenho medo de mais uma. – Levantou-se e foi até à janela, espreitando novamente. – Vá descansar. Amanhã é outro dia.
João levantou-se também, pegou no casaco e dirigiu-se à porta. Antes de sair, virou-se.
— Maria? – Ela olhou-o. – Obrigado. Por tudo.
Ela não respondeu. Apenas acenou com a cabeça, e a porta fechou-se outra vez.
Ficou a sós. O silêncio regressou, mais denso agora. Maria aproximou-se do balcão e tocou no xale com a ponta dos dedos. Fechou os olhos e deixou que as imagens viessem. Dessa vez, não foram violentas. Apenas o rosto da prima Adélia, jovem, a sorrir numa tarde de Verão. Depois, sobrepôs-se-lhe o rosto de Zulmira, os olhos negros a brilhar de malícia. Maria estremeceu e largou o tecido.
"Ela está a enganar-nos." – murmurou para si mesma, a voz um fio de som no escuro. – "Temos de descobrir o quê."
As palavras ficaram suspensas no ar, e Maria sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Lá fora, o vento uivava entre as oliveiras, e a noite parecia mais escura do que nunca. Mas dentro dela, uma certeza começava a formar-se, tão sólida como a pedra. Zulmira ia cair. E quando caísse, arrastaria Adriano consigo. Só era preciso paciência.
Apagou a lamparina e ficou no escuro, a alma em vigília. O eco do mal sussurrava nos cantos, mas ela já não tinha medo. Tinha um propósito.
O sol ainda não rompera o véu de nuvens que cobria Alpedreza, mas o calor já se aninhava nos cantos das ruas, como um presságio abafado. João Martins saíra do quarto da pensão com a roupa do dia anterior e o cheiro a tabaco velho colado à pele. A noite fora curta e atormentada: visões fragmentadas de mãos que se fechavam em torno de gargantas invisíveis, de olhos que o fitavam do fundo de um poço. Não, não um poço – o montado. A visão de Maria do Carmo ainda lhe ecoava na mente como uma promessa de respostas, mas o cansaço toldava-lhe o raciocínio. Precisava de café e de um plano, mas a vila parecia engoli-lo com a sua lentidão calculada. Cada passo nas lajes irregulares da praça soava como um intruso. Das janelas entreabertas, olhos furtivos seguiam-no, e João sabia que, naquele lugar, a desconfiança era tão densa como o pó que cobria as oliveiras.
A taberna de Maria do Carmo ainda estava fechada. A porta de madeira gasta mostrava as primeiras fendas de sol por baixo, mas o silêncio era total. João hesitou. Bater àquela hora seria inútil – Maria não era mulher de madrugar para quem lhe batia à porta sem aviso. Talvez fosse melhor andar, sentir o pulso da vila. Mas a vila não tinha pulso. Alpedreza parecia suspensa num tempo que não avançava, e as pessoas moviam-se como sombras, sempre a esgueirar-se pelas esquinas quando ele se aproximava. A única exceção, talvez, fosse a curandeira. Zulmira Valentim vivia nos arredores, e João ouvira falar dela em murmúrios: uns diziam que via coisas, outros que era uma feiticeira inofensiva. Maria do Carmo, porém, evitara comentários. Quando João a questionara, ela apenas franzira os lábios e mudara de assunto – um sinal claro de que a curandeira não era bem-vinda na taberna.
Foi então, como se o pensamento a tivesse invocado, que uma figura escura se destacou ao fundo da praça. Zulmira avançava devagar, apoiada num cajado retorcido, as saias farrapentas arrastando-se no empedrado. O cabelo grisalho caía-lhe em madeixas hirtas sobre o rosto, mas os olhos negros, esses, brilhavam como carvão aceso. João sentiu um arrepio frio, mas firmou os pés. Não ia recuar. A mulher vinha ao seu encontro, e algo lhe dizia que não era por acaso.
— Inspector Martins? – A voz rouca saiu como um sussurro, mas atravessou o ar sem esforço. Cheirava a terra molhada e a qualquer coisa doce, como incenso queimado. – Precisamos de falar.
João endireitou-se. O cansaço fê-lo ranger os dentes, um hábito que sempre o denunciava.
— Como sabe o meu nome? – perguntou, tentando manter a voz neutra.
Zulmira esboçou um sorriso que não chegou aos olhos.
— Toda a Alpedreza sabe quem é o homem que desce aos poços e fala com os mortos. – Inclinou a cabeça, estudando-o. – E eu sei mais do que isso.
Ele não respondeu logo. A mão esquerda moveu-se para alisar o cabelo, um gesto de ansiedade que a mulher acompanhou com um olhar penetrante.
— O que quer? – disse, por fim.
Zulmira apoiou-se mais no cajado e aproximou-se um passo.
— Quero ajudar. – Fez uma pausa, como se saboreasse as palavras. – Vi coisas, inspector. Coisas que os seus olhos não alcançam. E sei onde encontrar uma pista que lhe escapou.
A desconfiança foi imediata, mas João conteve-a. Maria do Carmo também via coisas, e ele aprendera a não descartar o impossível. Contudo, havia algo na postura de Zulmira que o punha em guarda: uma segurança serena, uma certeza de quem já sabia o efeito que causava.
— Que pista? – atirou, seco.
Ela hesitou, os dedos a apertarem o cajado com uma força desproporcional à idade aparente.
— Siga-me. É longe daqui, no montado. Mostro-lhe o sítio.
João cruzou os braços.
— Porquê agora? Porque não falou antes?
Zulmira encolheu os ombros, mas o movimento teve qualquer coisa de ensaiado.
— Porque estava com medo, senhor inspector. O mal que ronda esta terra tem dentes, e eu sou uma velha. Mas ontem à noite... – Levou a mão ao peito, num gesto que queria ser dramático. – Sonhei com uma rapariga. Pediu-me que o ajudasse. Disse que o senhor é o único que pode parar isto.
O coração de João acelerou. A rapariga do poço? Helena? Ou outra?
— Quem era a rapariga?
— Não sei o nome. Mas vi-lhe o rosto. – Zulmira fixou-o, e os olhos dela pareceram ganhar uma profundidade nova. – E vi também um xale. Um xale sujo, abandonado numa cabana.
João sentiu a garganta secar. Um xale. Objectos pessoais sempre tinham força nas visões de Maria do Carmo. Se Zulmira também os usava...
— Onde é a cabana?
Ela sorriu outra vez, desta vez com uma satisfação que o perturbou.
— Vamos?
O caminho até ao montado fez-se em silêncio. Zulmira guiava com passos curtos mas firmes, e João era obrigado a abrandar para a acompanhar. O sol já se desfizera do véu de nuvens e batia-lhes na cabeça com uma insistência cruel. O cheiro a erva seca e a caruma misturava-se com o perfume doce da mulher, e por mais que João tentasse, não conseguia decifrar se era um truque ou se a curandeira era genuinamente perturbadora. A certa altura, ela apontou para uma vereda estreita, quase escondida por giestas bravas.
— É ali.
A cabana surgiu como uma ferida no meio do mato. Tábuas carcomidas, telhado meio desabado, uma porta que pendia de uma só dobradiça. João encostou-se a um tronco e observou em silêncio. Havia pegadas na terra solta – recentes, mas de botas pequenas. Mulher, talvez. Ou um rapaz.
— Entrou aqui? – perguntou.
— Não. – A voz de Zulmira tremelicou, mas João não sabia se era velhice ou fingimento. – Senti que não devia.
Ele passou a mão esquerda pelo cabelo, rangeu os dentes, e avançou. A porta gemeu quando a empurrou. Lá dentro, o cheiro a bolor e a excrementos de animal era quase sólido. Restos de palha no chão, uma mó partida, e, no canto oposto, um volume escuro. João aproximou-se devagar, o coração a martelar. Quando se agachou, viu o xale.
Era de lã grosseira, cor de vinho, com uma barra de croché desfiada. Estava sujo de terra e de manchas escuras – sangue? Ergueu-o com cuidado, sentindo a aspereza do tecido nos dedos. Voltou-se para a entrada, onde Zulmira permanecia, recortada contra a luz.
— Conhece este xale? – perguntou, mostrando-o.
A curandeira deu um passo atrás, como se o objecto a queimasse.
— É dela. Da rapariga do meu sonho. De uma das desaparecidas.
João apertou o pano entre as mãos. Se fosse verdade, era a primeira pista palpável desde que encontrara o corpo de Helena.
— Sabe quem o deixou aqui?
Zulmira passou a língua pelos lábios secos.
— Há um homem que percorre estas terras. Um vendedor ambulante, chama-se António. Forasteiro, como o senhor. Vi-o rondar a vila nos dias em que as raparigas sumiram.
O nome bateu-lhe na memória como uma pedrada. Forasteiro. Vendedor ambulante. João forçou-se a manter a calma.
— Onde o encontro?
— Ele acampa perto do rio, quando está por cá. Mas cuidado, inspector. – Zulmira agarrou-lhe o braço com uma força surpreendente, as unhas sujas cravando-se na pele. – Ele tem olhos que mentem. E o mal está com ele.
João soltou o braço com um gesto lento, mas firme.
— Agradeço a ajuda. Mas agora preciso de verificar esta informação. – Embora as palavras tenham saído polidas, o seu tom era gelado. A mão que segurava o xale tremia ligeiramente, mas ele recusava-se a acreditar que fosse medo.
Zulmira recuou, o cajado a raspar na terra.
— Vá, então. Mas lembre-se: nem todos os que ajudam o fazem por bem. – E, sem mais uma palavra, virou costas e desapareceu entre as giestas, como se a vegetação a engolisse.
João ficou parado à porta da cabana, o xale apertado contra o peito. O calor do sol já não o aquecia. Olhou para o tecido, para as manchas escuras, e uma visão lampejou-lhe na mente: uma mulher de costas, a correr entre as árvores, o mesmo xale a voar. O eco de um grito. Depois, nada.
Rangeu os dentes com força. A ansiedade voltava, e com ela a dúvida. Zulmira ajudara ou distraíra-o? E António? Seria mesmo o culpado, ou mais uma sombra no labirinto que Alpedreza se tornara?
Guardou o xale no bolso do casaco e pôs-se a caminho da vila. Precisava de falar com Maria do Carmo. Só ela poderia ajudá-lo a distinguir a verdade da mentira.
A Teia Desfeita
Encontrou Maria do Carmo na taberna, a esfregar o balcão com uma energia que denunciava nervosismo. O avental sobre o vestido escuro estava manchado de café, e o xale de lã, eternamente pendurado nos ombros, parecia mais pesado do que nunca. Quando João entrou, a sineta da porta tilintou, e ela levantou a cabeça. Os olhos castanhos estreitaram-se.
— Essa cara não me agrada, inspector. – Passou o pano uma última vez e atirou-o para um balde. – Aconteceu alguma coisa?
João fechou a porta com cuidado. A taberna estava vazia, o que era estranho para a hora, mas não se queixou. Precisava de privacidade.
— Zulmira Valentim falou comigo. – Tirou o xale do bolso e pousou-o no balcão. – Levou-me a uma cabana no montado, onde estava isto. Diz que é de uma das desaparecidas.
Maria do Carmo ficou imóvel. Depois, lentamente, estendeu a mão. Os dedos calejados tocaram no tecido com a delicadeza de quem segura uma brasa. Fechou os olhos e respirou fundo. João observava-a, atento aos mais pequenos sinais. O polegar dela começou a rodar contra os outros dedos, um esfregar silencioso, como se desfiasse um rosário invisível. Era o seu maneirismo, e João já o conhecia bem.
— Vê alguma coisa? – perguntou, a voz mais tensa do que queria.
Maria abriu os olhos, mas não o fitou. Olhava o vazio, como se visse através das paredes.
— Este xale... – murmurou. – Não é de nenhuma das raparigas que sumiram.
João sentiu o estômago revirar.
— Tem a certeza?
Ela largou o pano, como se ele a queimasse.
— Absoluta. Conheço-o. Pertenceu à minha prima Adélia, que mora em Beja. Dei-lho eu, há anos. Ela nunca desapareceu na vida. – Cruzou os braços, apertando o xale contra o peito com um gesto protector. – A Zulmira mentiu.
Um silêncio pesado caiu entre os dois. João passou a mão pelo cabelo, repetindo o gesto até o couro cabeludo doer.
— Ela também falou de um tal António, vendedor ambulante. Disse que ele rondava a vila nos dias dos desaparecimentos.
Maria bufou, um som que vinha de um desprezo antigo.
— António? – Abanou a cabeça. – Conheço-o. É um homem simples, vende agulhas e linhas. E não estava cá. Nessa altura, foi levar encomendas a Portalegre. Qualquer pessoa na vila lhe diz isso.
João encostou-se ao balcão, o cansaço a pesar-lhe nos ombros como chumbo.
— Então ela armou uma cilada. Mas porquê?
— Essa é a pergunta que vale um conto de réis. – Maria tamborilou os dedos na madeira. – Zulmira nunca fez nada de graça. Se o mandou a si e a esse António, é porque tinha algo a ganhar. Ou a esconder.
— Mas o xale... – João fitou o objecto, como se ele pudesse revelar mais. – Ela parecia tão certa. E eu... eu acreditei.
Maria deu a volta ao balcão e pousou a mão no braço dele, um gesto que a surpreendeu tanto a ela como a ele.
— Não se culpe, inspector. A mulher tem uma língua de mel e olhos de serpente. Já enganou muitos. Mas desta vez, cometeu um erro. Talvez estivesse a pensar que o senhor, sendo de fora, não iria verificar.
João rangeu os dentes, o som audível no silêncio.
— Ou talvez quisesse ganhar tempo. Afastar-nos do rasto verdadeiro.
Maria retirou a mão e alisou o avental, num gesto brusco.
— E conseguiu. Perdemos a manhã toda nisto. – Respirou fundo. – Mas agora sabemos que ela mente. E isso é uma arma.
Ele virou-se para ela, os olhos cinzentos a brilhar com uma determinação exausta.
— Temos de descobrir para quem ela trabalha. Quem beneficiaria com esta pista falsa.
— Adriano Saragoça. – A voz de Maria saiu como um sopro, mas carregada de convicção. – Sempre foi ele. Zulmira faz-lhe as vontades. E ele quer que andemos a correr atrás de sombras.
João recordou a conversa na ourivesaria. O tom meloso de Adriano, as perguntas sobre o pai, o prazer mal disfarçado em vê-lo perturbado. Tudo se encaixava, e, no entanto, a prova faltava.
— Precisamos de mais do que suspeitas. – Passou a mão pelo cabelo outra vez. – Amanhã, vou falar com o tio Amadeu. O sineiro. Ele conhece esta terra como ninguém. Talvez saiba alguma coisa sobre a Zulmira.
— Amadeu Cruz? – Maria abanou a cabeça com veemência. – Esse nunca vai contra ninguém. Tem medo. Todos temos, mas ele... – Calou-se, os olhos a perderem-se num canto escuro da taberna. – Enfim, é melhor não contar com ele.
João franziu o sobrolho.
— Então, o que sugere?
Maria foi até à porta e espreitou pela frincha, como se temesse ouvidos nas paredes.
— Sugiro que não faça nada por enquanto. Deixe-a pensar que caiu na armadilha. Se ela se sentir segura, talvez nos mostre as cartas.
— Esperar? – A frustração de João transbordou. – Não posso esperar. Cada hora que passa, o mal que ronda isto fica mais forte. – A voz tremeu-lhe, e ele desviou o olhar. – O meu pai...
Maria aproximou-se outra vez. O seu rosto endureceu-se, mas havia um carinho maternal nos olhos.
— O seu pai sofria do mesmo, não era? Das visões?
Um nó apertou-se na garganta de João, e ele apenas acenou. Falar do pai era mexer em feridas que nunca saravam.
— Ela sabe. A Zulmira. Sabe que somos parecidos. E está a usar isso contra si.
A lucidez das palavras atingiu-o em cheio. Sim, Zulmira mencionara o dom de “ver”. Adriano falara do pai. Tudo era um jogo de espelhos para o confundir.
— Então não vou dar-lhe esse gosto. – Endireitou os ombros. – Fico à espreita. Mas você, Maria, precisa de ter cuidado. Se ela mente para mim, não hesitará em atacar quem a desmascare.
Ela riu, um riso seco e amargo.
— A mim? Essa velha tem medo de mim desde que eu era miúda. Sabe porque? Porque eu sinto o que ela esconde. E um dia destes, vou descobrir o que é.
O tom era de desafio, mas João via-lhe o tremor nas mãos. Maria era forte, mas não imune ao medo. Ninguém o era em Alpedreza.
Decidiram separar-se. João iria ao encontro de António, o vendedor, não para o acusar, mas para lhe perguntar se tinha visto Zulmira ou Adriano nos dias do crime. Maria ficaria na taberna, atenta aos murmúrios. Quem sabe algum cliente soltasse uma palavra que a ajudasse a perceber o jogo da curandeira.
Quando João saiu, o sol já declinava, tingindo as paredes caiadas de um dourado triste. Apertou o casaco contra o vento que começava a soprar e pôs-se a caminho da velha ponte romana, onde António costumava acampar. Cada passo era uma luta contra o cansaço e contra as imagens que lhe invadiam a mente: o poço, Helena, o sorriso frio de Adriano, e agora Zulmira, com os seus olhos de carvão e mentiras na ponta da língua.
Encontrou António sentado numa pedra, a remendar uma mochila de lona. Era um homem magro, de barba grisalha e mãos calmas. Levantou os olhos claros quando João se aproximou, e neles não havia medo, apenas cansaço.
— Boa tarde, senhor. É o inspector, não é? Já me disseram.
João assentiu.
— Sabe por que o procuro?
António encolheu os ombros.
— Deve ser por causa dos desaparecimentos. Mas eu não tenho nada a ver com isso. Estive em Portalegre, tenho como provar.
— Quem lhe disse que estava desconfiado de si?
O homem hesitou, depois apontou vagamente para a vila.
— Veio uma velha, a Zulmira. Falou-me de um xale e disse que o senhor ia acusar-me. Disse para eu fugir. – Pousou a agulha e fitou João com seriedade. – Mas eu não devo nada. Se fugisse, é que ia parecer culpado.
João sentiu uma onda de raiva fria. Zulmira tentara incriminar um inocente e, ao mesmo tempo, empurrá-lo para a fuga, o que criaria uma prova falsa ainda maior. Tudo meticulosamente planeado.
— Fique descansado, António. Ninguém o acusa. Mas, diga-me: viu alguma coisa estranha nos dias dos sumiços? Alguém que não fosse da vila?
O vendedor pensou, os dedos a alisar a barba.
— Vi a velha, essa Zulmira. Ela andava pelo montado, de noite, com um daqueles archotes. E uma vez, pareceu-me que levava uma trouxa, mas não posso jurar.
Uma trouxa. Talvez um xale. Talvez outra coisa.
— Obrigado, António. Se precisar de mais informações, volto a falar consigo.
O homem acenou e voltou à sua costura, alheio ao turbilhão que ajudara a desencadear.
João regressou à pensão com a mente aos pulos. Zulmira era mais perigosa do que parecia. E estava ligada a Adriano, ele sentia-o nos ossos. Mas Maria do Carmo tinha razão: era preciso esperar, deixar que a teia se desfiasse sozinha. Haveria de haver mais erros, mais pontas soltas.
Ao passar pela taberna, viu luz por baixo da porta. Maria ainda estava lá dentro. Mas preferiu não entrar. Precisava de pensar, de dominar as visões que o assaltavam a cada esquina. O fantasma da criança não lhe dera sossego, e agora juntava-se o rosto de Helena e as palavras do pai, a ecoarem-lhe na memória: “Se eu desaparecer, filho, foge.”
Rangeu os dentes. Não ia fugir. Fosse qual fosse a verdade, enfrentá-la-ia. Mas primeiro, era preciso desmascarar a curandeira.
A Semente da Dúvida
A noite caíra sobre Alpedreza como um manto espesso, e o silêncio era quase absoluto. Dentro da taberna, Maria do Carmo limpava as mesas devagar, o pano a arrastar-se sobre a madeira num ritmo monótono. Apenas uma lamparina de azeite iluminava o balcão, e as sombras dançavam nas paredes como figuras inquietas. Os últimos fregueses tinham saído havia horas, e ela saboreava a solidão, embora o coração lhe pesasse. As palavras de João ficaram-lhe gravadas: "Cada hora que passa, o mal fica mais forte". E ela sentia-o. Sentia-o no ar, na terra, nas visões que a atormentavam quando tocava nos objectos errados. O xale queimara-lhe a pele sem deixar marca, e a imagem da prima Adélia, tão viva e distante, fez-lhe um nó na garganta. Zulmira usara-a. Usara o seu passado para enganar João.
Enfiou o pano no balde e foi até à janela. As ruas estavam desertas, mas um vulto moveu-se ao fundo, perto da ourivesaria. Adriano. Sabia que ele andava a observá-los, mas agora a suspeita transformara-se em certeza. Zulmira era o seu braço direito, a aranha que tecia as teias enquanto o ourives ficava na sombra. E ela, Maria, era a única que parecia ver para além das máscaras. Porque o seu dom era também uma maldição: obrigava-a a conhecer a verdade, mesmo quando desejava ignorá-la.
Passou os dedos pelo rosário invisível, o polegar a rodar contra os outros dedos. Precisava de um plano. João era teimoso e estava cansado, mas era um homem bom. Não podia deixar que o consumissem. Mas como lutar contra alguém que mentia com tanta naturalidade? A curandeira tinha a vila na mão. Muitos acreditavam nas suas mezinhas, outros temiam-na. E o medo era o melhor escudo.
Ouviu passos na rua e voltou-se rapidamente. A porta rangeu, e João entrou, trazendo consigo uma lufada de ar fresco e o cheiro a terra noturna. Os olhos estavam mais fundos do que nunca, mas havia uma centelha de fúria contida que ela reconheceu.
— Falei com António. – Tirou o casaco e pendurou-o na cadeira. – É inocente. E a Zulmira tentou que ele fugisse, para piorar as coisas.
Maria assentiu, como se já esperasse.
— É o que ela faz. Cria confusão. Quanto mais nos perdemos, mais espaço ganha.
João sentou-se pesadamente, os cotovelos nos joelhos, a cabeça curvada.
— Mas porquê? Que ganha ela com isto? – A voz soou abafada, como se falasse para o chão.
— Ganha poder. – Maria aproximou-se e sentou-se à sua frente. – O Adriano domina a vila através do medo, e ela é a boca que espalha os boatos. Se o senhor inspector falhar, ninguém vai procurar mais fora. Fica tudo como está.
— E os desaparecidos?
— Esses já não voltam. – A voz dela embargou-se um instante, mas logo recuperou. – Mas podemos impedir que haja outros.
João levantou a cabeça e fitou-a. Os olhos cinzentos pareciam ver através dela, mas não com desconfiança. Com um pedido mudo de ajuda.
— Então, o que fazemos?
Maria respirou fundo. O que estava prestes a dizer doía-lhe, mas era a única saída.
— Amanhã, você vai ter com Zulmira outra vez. Diga que seguiu a pista de António, mas que ela se enganou. Que precisa de mais ajuda. Finja que confia nela. – Fez uma pausa, vendo a hesitação nos olhos dele. – Eu farei o mesmo, à minha maneira. Vou perguntar-lhe por este xale. – Tocou no tecido que ainda estava sobre o balcão. – Vou dizer que o encontrei na cabana, mas que não sei de quem é. Vou fingir que também acredito na história dela.
— E depois?
— Depois, esperamos. Ela vai sentir-se segura. E quando se sentir segura, vai cometer um erro. – Os olhos castanhos endureceram. – E eu vou estar lá para ver.
João esfregou o queixo, a barba curta arranhando-lhe a palma.
— É arriscado. Se ela perceber...
— Não vai perceber. – Maria inclinou-se para a frente, o seu rosto a poucos centímetros do dele. – Eu conheço-a desde miúda. Ela subestima toda a gente, e é essa a sua fraqueza. Vai pensar que somos duas ovelhas tontas, e é aí que nós a apanharemos.
Um brilho de entendimento passou pelos olhos de João. Lentamente, assentiu.
— Está bem. Mas prometa-me que tem cuidado. Não quero que lhe aconteça nada.
Ela sorriu, um sorriso triste mas terno.
— Já me aconteceu tanta coisa, inspector. Não tenho medo de mais uma. – Levantou-se e foi até à janela, espreitando novamente. – Vá descansar. Amanhã é outro dia.
João levantou-se também, pegou no casaco e dirigiu-se à porta. Antes de sair, virou-se.
— Maria? – Ela olhou-o. – Obrigado. Por tudo.
Ela não respondeu. Apenas acenou com a cabeça, e a porta fechou-se outra vez.
Ficou a sós. O silêncio regressou, mais denso agora. Maria aproximou-se do balcão e tocou no xale com a ponta dos dedos. Fechou os olhos e deixou que as imagens viessem. Dessa vez, não foram violentas. Apenas o rosto da prima Adélia, jovem, a sorrir numa tarde de Verão. Depois, sobrepôs-se-lhe o rosto de Zulmira, os olhos negros a brilhar de malícia. Maria estremeceu e largou o tecido.
"Ela está a enganar-nos." – murmurou para si mesma, a voz um fio de som no escuro. – "Temos de descobrir o quê."
As palavras ficaram suspensas no ar, e Maria sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Lá fora, o vento uivava entre as oliveiras, e a noite parecia mais escura do que nunca. Mas dentro dela, uma certeza começava a formar-se, tão sólida como a pedra. Zulmira ia cair. E quando caísse, arrastaria Adriano consigo. Só era preciso paciência.
Apagou a lamparina e ficou no escuro, a alma em vigília. O eco do mal sussurrava nos cantos, mas ela já não tinha medo. Tinha um propósito.