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O Sorriso do Ourives
IA
O Rasto de Helena
O quarto da pensão tresandava a mofo e a desespero. João Martins abriu a pasta dos desaparecidos com a lentidão de quem receia o que vai encontrar. As fotografias estavam desbotadas, mas os olhares fixos de Helena, Mariana e Tomás prendiam-se-lhe à memória como lodo seco. Concentrou-se em Helena. A primeira. A que o chamara.
Os dedos percorreram as linhas do relatório. Helena Santos, vinte e três anos. Natural de Alpedreza. Empregada de balcão. Morava com a mãe, uma viúva que cosia para fora. O último registo: desapareceu a 17 de Março, ao fim da tarde, depois de sair do trabalho.
Trabalho.
João passou a mão pelos cabelos desgrenhados, um gesto repetitivo que lhe acalmava os nervos. Onde trabalhava Helena? Havia uma referência. Ourivesaria Saragoça.
Ourivesaria Saragoça.
O nome martelou-lhe o crânio. Adriano Saragoça. O homem do sorriso frio, dos olhos de mármore. Aquele que aparecera no poço, como se tivesse sido convocado. João rangeu os dentes inconscientemente, um ruído seco no silêncio do quarto.
Levantou-se, foi até à janela. A luz da manhã coava-se pelas cortinas finas, mas não aquecia. Alpedreza estendia-se lá fora, com as suas casas caiadas e ruas estreitas, como uma teia de pedra. No largo, a taberna de Maria do Carmo já fumegava. Mas ele não queria companhia. Não queria testemunhas.
Pegou no casaco de tweed puído e saiu. O soalho do corredor gemeu sob os seus passos. Na rua, o ar cheirava a terra seca e a segredo. Os poucos habitantes que cruzavam com ele desviavam o olhar, apressando o passo. Forasteiro. Vinha trazer azar, como dizia a dona da taberna.
João caminhou até à ourivesaria, mas não entrou logo. Encostou-se à parede da barbearia em frente, fingindo acender um cigarro. Observou a montra. O vidro estava baço, mas permitia entrever o interior: um balcão de madeira escura, vitrinas com pratas e relógios, e ao fundo, uma porta entreaberta que dava para a oficina. Nenhum sinal de Adriano.
Helena trabalhava ali. Ali, entre as jóias e o tilintar do metal, passara os seus últimos dias. O que vira? O que ouvira? João sentiu um arrepio na nuca, como se dedos invisíveis lhe roçassem a pele. As visões não tardariam. Tentou concentrar-se, forçar os olhos a ver o passado. Mas só lhe veio a imagem do corpo no poço, a boca aberta num grito silencioso.
Apagou o cigarro com a ponta do sapato e atravessou a rua. O coração batia-lhe com força. Não sabia se era coragem ou a pura necessidade de encontrar respostas. Empurrou a porta da ourivesaria. Um carrilhão de latão anunciou a sua chegada.
O cheiro a incenso e metal frio envolveu-o. O interior estava mergulhado numa penumbra que as lâmpadas amareladas mal combatiam. Ao centro, uma mesa com cadeiras de veludo gasto. Na parede, um crucifixo de ébano e, por baixo, uma vitrina com pedras negras e irregulares. A mesma pedra que Adriano polia no poço.
— Inspector Martins. — A voz veio de trás do balcão, untuosa e calma. Adriano Saragoça emergiu da penumbra como uma sombra a ganhar forma. Vestia o seu eterno colete escuro e, nos dedos, girava a pequena pedra negra. Os olhos cinzentos fixaram-se nos de João, com um brilho que parecia divertir-se. — Esperava-o. Embora não tão cedo.
João não respondeu de imediato. Deixou que o silêncio pesasse.
— Trabalhamos cedo em Alpedreza. — Inclinou a cabeça, estudando o ourives. — Precisava de lhe fazer umas perguntas.
Adriano sorriu. O sorriso não chegava aos olhos; ficava apenas nos lábios finos, revelando uma fiada de dentes perfeitos e arrepiantes.
— Para isso cá estou. — Fez um gesto lento, convidando-o a sentar-se. — Ofereço-lhe aguardente? É uma velha receita da terra. Aquece o estômago e solta a língua.
— Não, obrigado.
Adriano ignorou a recusa. Serviu dois copos e pousou um à frente de João. O líquido era dourado e denso. A mão do ourives não tremia; pousara a pedra ao lado do copo, como se fosse um animal de estimação adormecido.
— O senhor empregava Helena Santos. — João foi direto, sem tocar no copo.
Adriano bebeu um gole e estalou a língua.
— Sim. Uma rapariga trabalhadora. Educada. Sabia estar com os clientes. — Os olhos cinzentos vaguearam pelo teto, como se puxassem uma memória. — Uma pena. A mãe ficou inconsolável.
— Disse-me ontem que não a conhecia bem. — A voz de João saiu mais áspera do que pretendia.
Adriano arqueou uma sobrancelha. O sorriso não vacilou.
— E não conhecia. Conhecer uma pessoa é mais do que dar-lhe ordens e pagar-lhe ao fim do mês. Ela era reservada. Tinha os seus segredos, como todos nós. — Levou o copo aos lábios outra vez. — Mas isso não responde à sua pergunta, pois não?
João rangeu os dentes. Aquele jogo irritava-o.
— Sabe se alguém lhe queria mal? Se tinha inimigos?
— Numa terra destas, todos têm inimigos. — Adriano inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. O cheiro a incenso intensificou-se. — Mas a querer mal? Talvez os forasteiros que por aqui passam. Gente que vem e não volta.
João não respondeu à provocação. Observou as mãos do ourives. Dedos compridos, de unhas bem tratadas. As mãos de quem molda metais preciosos. Ou de quem aperta gargantas.
— O senhor também é forasteiro, inspector. — A voz de Adriano tornou-se ainda mais suave. — Mas o seu nome não me é estranho. Martins... de Évora, não?
O coração de João deu um salto. Tentou manter o rosto impassível.
— Sim.
Adriano recostou-se na cadeira, o sorriso a alargar-se. Pegou novamente na pedra negra, polindo-a com o polegar.
— Conheci um Martins, há muitos anos. Um homem alto, de olhos cansados. Andava a fazer perguntas. Era polícia, como o senhor. — Fez uma pausa, saboreando o momento. — Seria seu pai?
João sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. As perguntas queimavam-lhe a garganta, mas as palavras não saíam.
— Vejo que sim. — Adriano continuou, sem esperar resposta. — O seu pai esteve em Alpedreza. Não foi muito tempo. Mas deixou uma impressão. — Os olhos cinzentos cintilaram. — Diziam que ele via coisas. Coisas que os outros não viam.
— O meu pai morreu. — A voz de João saiu um fio.
— Eu sei. — Adriano inclinou a cabeça, a fingir condolência. — Ouvi dizer que se matou. Uma tragédia. Um homem bom, pelos vistos, mas atormentado. — Bateu com a unha no copo, produzindo um som agudo. — A loucura é assim. Às vezes, herda-se.
João levantou-se de repente. A cadeira arrastou-se no chão de madeira com um estrépito.
— O que é que quer insinuar?
Adriano não se moveu. Continuou a polir a pedra, os olhos fixos nos de João.
— Nada, inspector. Apenas constato factos. O seu pai veio a Alpedreza, viu coisas que o levaram ao desespero. O senhor está aqui, vê coisas também. É uma coincidência curiosa, não acha? — Levantou-se lentamente, ajeitando o colete. — A vida é um eco. O que aconteceu antes, repete-se. Mas talvez eu esteja a ser indelicado. Perdoe-me. Não queria abrir feridas.
João lutou contra a vertigem. O quarto parecia rodar. As palavras de Adriano eram como agulhas, precisas e venenosas. O eco do pai, o suicídio, as visões. Tudo se misturava.
— Se não tem mais perguntas, terei muito gosto em continuar esta conversa noutra altura. — Adriano fez um gesto em direção à porta. O sorriso ainda lá estava, mas agora parecia mais largo, quase carinhoso.
João saiu sem dizer mais nada. A porta bateu atrás de si, abafando o tilintar do carrilhão.
Na rua, o sol já ia alto, mas ele sentia frio. A dúvida instalara-se, como uma peçonha. O pai. Alpedreza. As visões. Adriano sabia. Sabia e esmagava-o com aquela calma de serpente.
Encostou-se à parede e respirou fundo. As têmporas latejavam. Passou a mão pelos cabelos, uma e outra vez. Precisava de um sítio escuro. Precisava de pensar. Caminhou às cegas, tropeçando nas pedras da calçada, em direção à pensão.
O Veneno do Ourives
O quarto da pensão pareceu-lhe um caixão. João atirou-se para cima da cama, ainda vestido, e ficou a olhar para o tecto rachado. As palavras de Adriano ecoavam-lhe na mente, como uma ladainha infernal. O seu pai. O seu pai estivera em Alpedreza. Vira coisas. Suicidara-se.
Ninguém lhe contara essa história. A mãe, antes de morrer, apenas dissera que o pai era um homem bom, mas frágil. Que um dia não aguentara o peso do mundo. João crescera a acreditar que a depressão o levara. Mas agora... Adriano insinuara algo mais. As visões. A loucura que se herda.
Rangeu os dentes com tanta força que doeu. Sentou-se na cama e agarrou a cabeça com as duas mãos. As visões. Sempre as visões. A rapariga no poço, a voz que sussurrava "É o eco do mal". Seria aquilo real ou o princípio da demência? Adriano plantara a semente, e ela já germinava.
Levantou-se e foi até à janela. Lá fora, a vila ardia sob o sol alentejano, mas ele só sentia o frio interior. Precisava de respostas. Precisava de encontrar provas de que não estava a enlouquecer. Mas como provar o que só ele via?
De repente, lembrou-se da pasta. Pegou nela e abriu-a outra vez. Focou-se na fotografia de Helena. Os olhos dela pareciam fitá-lo, acusadores. Onde estaria a verdade? A ourivesaria era a única pista. E Adriano, o único que falara do pai.
— Ele quer que eu duvide de mim. — Murmurou para si mesmo, passando a mão pelos cabelos. — Quer que eu me perca.
Mas a dúvida já estava lá. A fragilidade que o seu próprio pai sentira talvez estivesse também nele. João fechou a pasta com força. Não podia ceder. Precisava de se agarrar à razão, aos factos. Mas os factos eram poucos: Helena desaparecera depois do trabalho. Trabalhava para Adriano. O ourives conhecia o seu pai. E o seu pai matara-se depois de estar em Alpedreza.
Saiu do quarto e desceu as escadas da pensão. A dona, uma mulher de cabelo grisalho e olhar desconfiado, estava atrás do balcão.
— Senhora, sabe se há por aqui alguém que se lembre de um homem chamado Martins? Um polícia de Évora, que cá esteve há muitos anos?
A mulher franziu o sobrolho.
— Cá esteve muita gente, senhor inspector. — Mas depois coçou o queixo. — Martins... Espere. Havia um inspector de Évora que andava a fazer perguntas. Chegou a ficar aqui na pensão. Mas já foi há mais de vinte anos.
João sentiu o coração acelerar.
— Lembra-se dele? Como era?
— Um homem sério. Calado. Passava as noites a escrever. E uma vez... — A mulher baixou a voz. — Uma vez, acordou aos gritos, a dizer que via uma criança morta. Tive de lhe dar um chá de cidreira para se acalmar.
João recuou um passo. Uma criança morta. Como a que lhe aparecera a ele no trauma do rapto. As mesmas visões. O pai também as tivera.
— Obrigado. — Disse, com a voz rouca, e saiu para a rua.
Caminhou sem rumo, mas os pés levaram-no de novo à ourivesaria. A loja estava agora fechada. A persiana de metal cobria a montra. Mas junto à porta, havia uma abertura para o correio. João ajoelhou-se e espreitou. Lá dentro, a penumbra era total. Apenas o brilho ténue de uma pedra negra, pousada no balcão, lhe chamou a atenção.
Um ruído atrás de si fê-lo levantar-se de repente. Era um velho, apoiado numa bengala, que o observava com desconfiança.
— O ourives não está. Foi a Évora. — Disse o velho, com um sorriso desdentado.
— A Évora?
— Negócios. — E afastou-se, arrastando os pés.
João ficou parado. Adriano fora a Évora? Porquê? Seria coincidência ou mais uma peça do jogo? A cabeça latejava-lhe. Precisava de ar fresco. Caminhou até ao poço da Azinheira, onde tudo começara. O local estava isolado, o cordão da polícia ainda no lugar, mas ninguém por perto.
Encostou-se à pedra e fechou os olhos. Tentou invocar a visão, forçar a mente a mostrar-lhe algo útil. Mas só lhe veio a imagem do pai, sentado à beira de uma cama, a chorar. Uma memória que não era sua.
— O que é que ele te fez, pai? — Sussurrou.
O vento respondeu com um murmúrio. "É o eco do mal."
João abriu os olhos, assustado. Olhou à volta, mas estava sozinho. A voz ecoava-lhe dentro do crânio. Cada vez mais forte. As visões não lhe davam tréguas. Sentia-se a afundar, como o pai. A loucura hereditária, a maldição que Adriano insinuara, parecia cada vez mais real.
Voltou para a pensão. O quarto estava abafado. Abriu a janela, mas não entrou frescura. Despiu o casaco e foi à casa de banho. Encheu o lavatório de água fria e mergulhou o rosto. A água escorreu-lhe pelo peito, mas não aliviou o calor da dúvida.
Ao levantar a cabeça, viu-se no espelho. Os olhos estavam encovados, o cabelo mais grisalho do que se lembrava. A cicatriz no lábio superior parecia mais funda. E por trás de si, no reflexo, pareceu-lhe ver uma sombra.
Voltou-se com um safanão, mas não havia nada. O coração martelava-lhe no peito. Olhou de novo para o espelho. Apenas o seu rosto desfeito.
— Estou a perder a cabeça. — Murmurou.
As palavras de Adriano voltaram. "A loucura é assim. Às vezes, herda-se."
João recuou até à cama e deixou-se cair. As mãos tremiam. O pai vira coisas. O pai matara-se. E ele estava a seguir o mesmo caminho. As visões não eram um dom; eram uma sentença. E Adriano, com a sua calma de réptil, sabia-o. Deliciava-se com isso.
— Tenho de provar que estou lúcido. — Disse, para si mesmo. — Encontrar o culpado. Resolver o caso. É só isso.
Mas a semente da dúvida já criara raízes. E João sentia-as a apertar, como silvas à volta da garganta.
Olhou para o tecto, onde uma mancha de humidade formava uma mancha escura, como um poço. E no fundo desse poço, viu o rosto de Helena, a boca a abrir-se num grito sem som.
Fechou os olhos com força. Quando os abriu, a mancha era só humidade.
A Sombra no Espelho
A noite caía sobre Alpedreza quando João se levantou da cama. O quarto estava mergulhado numa penumbra azulada, com a única luz a vir do candeeiro da rua. A cabeça doía-lhe, e o estômago dava voltas. Não jantara. Não conseguira sair do quarto.
Acendeu o candeeiro da mesinha e foi à janela. A vila dormia, mas ele sabia que os segredos velavam. A casa de Adriano, ali ao fundo, tinha uma luz acesa na janela do sótão. O ourives regressara? Ou nunca saíra? João cerrou os punhos. Precisava de saber mais. Mas sentia-se fraco, à deriva.
Lembrou-se da última coisa que Adriano dissera, antes de ele sair: "Se não tem mais perguntas, terei muito gosto em continuar esta conversa noutra altura." Era um convite. Um desafio. Ou uma ameaça.
Voltou ao lavatório e lavou o rosto outra vez. A água fria trouxe alguma lucidez. Encarou o espelho. As olheiras estavam mais fundas. Os olhos tinham um brilho febril. E de novo, aquela impressão de uma presença atrás de si. Mas desta vez, não se voltou. Encarou o reflexo, desafiando a sombra.
— Tu não és real. — Disse, com a voz a tremer ligeiramente. — Não és.
A sombra não respondeu. Mas também não desapareceu. Era como uma névoa ao canto do olho, uma mancha na visão periférica.
João respirou fundo. "É o eco do mal." As palavras sussurradas no poço voltaram-lhe à mente. O eco. Algo que se repete. As mesmas visões do pai. O mesmo destino. Se ele não travasse aquilo, acabaria como ele.
Sentou-se na cama e pegou na caneta e no bloco de notas que trazia sempre consigo. Escreveu: "Factos: 1. Helena trabalhava na ourivesaria. 2. Adriano conheceu o meu pai. 3. O meu pai esteve em Alpedreza, viu coisas e matou-se. 4. Eu vejo coisas. 5. Adriano quer fazer-me duvidar da minha sanidade."
Olhou para a lista. Era curta, mas era concreta. Agarrar-se aos factos era a única forma de não se perder. Mas os factos levavam todos a Adriano. E Adriano era intocável. Pelo menos por enquanto.
Precisava de uma testemunha. Alguém que soubesse o que o pai fizera em Alpedreza. O agente Lopes? Talvez. Mas Lopes era um homem da vila, provavelmente leal ao conselho, ao ourives. Maria do Carmo? A dona da taberna parecia saber mais do que dizia, mas também desconfiava dele.
João pousou o bloco e escondeu o rosto nas mãos. Sentia-se cansado. Exausto ao ponto de os ossos lhe doerem. As visões sugavam-lhe as forças. E a dúvida corroía-o como ácido.
Levantou-se e foi ao espelho outra vez. Desta vez, fitou-se nos olhos. Procurou em si um sinal de loucura. Mas o que era a loucura, senão a incapacidade de distinguir o real do imaginado? E se o que ele via fosse real? E se o pai também tivesse visto a verdade, e a verdade o tivesse matado?
— O que vis-te, pai? — Perguntou ao reflexo. — O que te fez saltar?
O espelho não respondeu. Mas João sentiu um arrepio. Por um instante, pareceu-lhe ver no seu próprio rosto o rosto do pai. Um homem de quarenta e tal anos, cabelo escuro com fios prateados, olhos cinzentos e uma tristeza sem fundo. Tão igual a ele.
João soltou um gemido. Não era uma visão. Era apenas o reflexo do seu próprio medo. Mas o medo era tão real como o vidro.
Adriano plantara a semente. E agora a árvore da dúvida crescia dentro dele, retorcendo-lhe as entranhas. A pergunta do ourives martelava-lhe o crânio: "Seria seu pai?"
Sim. E o filho seguia-lhe as pisadas. As mesmas visões, a mesma dor. Seria também o mesmo fim?
João rangeu os dentes. Não. Não podia. Ele não ia acabar como o pai. Ele ia descobrir a verdade. Ia provar que as visões não eram loucura. E ia fazer Adriano pagar.
Mas, por enquanto, estava sozinho. Sozinho num quarto de pensão, com uma pasta de desaparecidos e uma cabeça cheia de sombras.
Foi até ao espelho e apoiou as mãos no lavatório. Inclinou-se para a frente, até quase tocar com a testa no vidro. E encarou o seu reflexo. Os olhos cinzentos estavam vidrados, mas por detrás do cansaço, havia uma fagulha de determinação.
— Vou descobrir a verdade. — Sussurrou.
Mas assim que disse as palavras, uma dúvida gelada subiu-lhe pela espinha. E se a verdade for que estou louco?
Fechou os olhos. Imagens acudiram-lhe: a rapariga arrastada para o poço, o corpo de Helena com a expressão terror, a voz que ecoava "É o eco do mal". E por cima de tudo, o sorriso de Adriano. Aquele sorriso calmo, cortês, que sabia.
João abriu os olhos e, no espelho, viu-se. Sozinho. Encarou o seu reflexo e, num gesto de desespero, levou as mãos à cabeça. Agarrou os cabelos desgrenhados, como se quisesse arrancar as visões de dentro de si. Segurou a cabeça com força, até sentir a dor física sobrepor-se à dor psíquica.
— Saiam! — Gemeu. — Saiam da minha cabeça!
Mas as visões não saíam. Porque faziam parte dele. Porque eram a herança do pai. Porque eram o eco do mal.
E no silêncio do quarto, apenas o seu reflexo o fitou, com os olhos arregalados e a boca entreaberta. João, sozinho no quarto, encara o espelho e segura a cabeça, como se quisesse arrancar as visões de dentro de si.
O quarto da pensão tresandava a mofo e a desespero. João Martins abriu a pasta dos desaparecidos com a lentidão de quem receia o que vai encontrar. As fotografias estavam desbotadas, mas os olhares fixos de Helena, Mariana e Tomás prendiam-se-lhe à memória como lodo seco. Concentrou-se em Helena. A primeira. A que o chamara.
Os dedos percorreram as linhas do relatório. Helena Santos, vinte e três anos. Natural de Alpedreza. Empregada de balcão. Morava com a mãe, uma viúva que cosia para fora. O último registo: desapareceu a 17 de Março, ao fim da tarde, depois de sair do trabalho.
Trabalho.
João passou a mão pelos cabelos desgrenhados, um gesto repetitivo que lhe acalmava os nervos. Onde trabalhava Helena? Havia uma referência. Ourivesaria Saragoça.
Ourivesaria Saragoça.
O nome martelou-lhe o crânio. Adriano Saragoça. O homem do sorriso frio, dos olhos de mármore. Aquele que aparecera no poço, como se tivesse sido convocado. João rangeu os dentes inconscientemente, um ruído seco no silêncio do quarto.
Levantou-se, foi até à janela. A luz da manhã coava-se pelas cortinas finas, mas não aquecia. Alpedreza estendia-se lá fora, com as suas casas caiadas e ruas estreitas, como uma teia de pedra. No largo, a taberna de Maria do Carmo já fumegava. Mas ele não queria companhia. Não queria testemunhas.
Pegou no casaco de tweed puído e saiu. O soalho do corredor gemeu sob os seus passos. Na rua, o ar cheirava a terra seca e a segredo. Os poucos habitantes que cruzavam com ele desviavam o olhar, apressando o passo. Forasteiro. Vinha trazer azar, como dizia a dona da taberna.
João caminhou até à ourivesaria, mas não entrou logo. Encostou-se à parede da barbearia em frente, fingindo acender um cigarro. Observou a montra. O vidro estava baço, mas permitia entrever o interior: um balcão de madeira escura, vitrinas com pratas e relógios, e ao fundo, uma porta entreaberta que dava para a oficina. Nenhum sinal de Adriano.
Helena trabalhava ali. Ali, entre as jóias e o tilintar do metal, passara os seus últimos dias. O que vira? O que ouvira? João sentiu um arrepio na nuca, como se dedos invisíveis lhe roçassem a pele. As visões não tardariam. Tentou concentrar-se, forçar os olhos a ver o passado. Mas só lhe veio a imagem do corpo no poço, a boca aberta num grito silencioso.
Apagou o cigarro com a ponta do sapato e atravessou a rua. O coração batia-lhe com força. Não sabia se era coragem ou a pura necessidade de encontrar respostas. Empurrou a porta da ourivesaria. Um carrilhão de latão anunciou a sua chegada.
O cheiro a incenso e metal frio envolveu-o. O interior estava mergulhado numa penumbra que as lâmpadas amareladas mal combatiam. Ao centro, uma mesa com cadeiras de veludo gasto. Na parede, um crucifixo de ébano e, por baixo, uma vitrina com pedras negras e irregulares. A mesma pedra que Adriano polia no poço.
— Inspector Martins. — A voz veio de trás do balcão, untuosa e calma. Adriano Saragoça emergiu da penumbra como uma sombra a ganhar forma. Vestia o seu eterno colete escuro e, nos dedos, girava a pequena pedra negra. Os olhos cinzentos fixaram-se nos de João, com um brilho que parecia divertir-se. — Esperava-o. Embora não tão cedo.
João não respondeu de imediato. Deixou que o silêncio pesasse.
— Trabalhamos cedo em Alpedreza. — Inclinou a cabeça, estudando o ourives. — Precisava de lhe fazer umas perguntas.
Adriano sorriu. O sorriso não chegava aos olhos; ficava apenas nos lábios finos, revelando uma fiada de dentes perfeitos e arrepiantes.
— Para isso cá estou. — Fez um gesto lento, convidando-o a sentar-se. — Ofereço-lhe aguardente? É uma velha receita da terra. Aquece o estômago e solta a língua.
— Não, obrigado.
Adriano ignorou a recusa. Serviu dois copos e pousou um à frente de João. O líquido era dourado e denso. A mão do ourives não tremia; pousara a pedra ao lado do copo, como se fosse um animal de estimação adormecido.
— O senhor empregava Helena Santos. — João foi direto, sem tocar no copo.
Adriano bebeu um gole e estalou a língua.
— Sim. Uma rapariga trabalhadora. Educada. Sabia estar com os clientes. — Os olhos cinzentos vaguearam pelo teto, como se puxassem uma memória. — Uma pena. A mãe ficou inconsolável.
— Disse-me ontem que não a conhecia bem. — A voz de João saiu mais áspera do que pretendia.
Adriano arqueou uma sobrancelha. O sorriso não vacilou.
— E não conhecia. Conhecer uma pessoa é mais do que dar-lhe ordens e pagar-lhe ao fim do mês. Ela era reservada. Tinha os seus segredos, como todos nós. — Levou o copo aos lábios outra vez. — Mas isso não responde à sua pergunta, pois não?
João rangeu os dentes. Aquele jogo irritava-o.
— Sabe se alguém lhe queria mal? Se tinha inimigos?
— Numa terra destas, todos têm inimigos. — Adriano inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. O cheiro a incenso intensificou-se. — Mas a querer mal? Talvez os forasteiros que por aqui passam. Gente que vem e não volta.
João não respondeu à provocação. Observou as mãos do ourives. Dedos compridos, de unhas bem tratadas. As mãos de quem molda metais preciosos. Ou de quem aperta gargantas.
— O senhor também é forasteiro, inspector. — A voz de Adriano tornou-se ainda mais suave. — Mas o seu nome não me é estranho. Martins... de Évora, não?
O coração de João deu um salto. Tentou manter o rosto impassível.
— Sim.
Adriano recostou-se na cadeira, o sorriso a alargar-se. Pegou novamente na pedra negra, polindo-a com o polegar.
— Conheci um Martins, há muitos anos. Um homem alto, de olhos cansados. Andava a fazer perguntas. Era polícia, como o senhor. — Fez uma pausa, saboreando o momento. — Seria seu pai?
João sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. As perguntas queimavam-lhe a garganta, mas as palavras não saíam.
— Vejo que sim. — Adriano continuou, sem esperar resposta. — O seu pai esteve em Alpedreza. Não foi muito tempo. Mas deixou uma impressão. — Os olhos cinzentos cintilaram. — Diziam que ele via coisas. Coisas que os outros não viam.
— O meu pai morreu. — A voz de João saiu um fio.
— Eu sei. — Adriano inclinou a cabeça, a fingir condolência. — Ouvi dizer que se matou. Uma tragédia. Um homem bom, pelos vistos, mas atormentado. — Bateu com a unha no copo, produzindo um som agudo. — A loucura é assim. Às vezes, herda-se.
João levantou-se de repente. A cadeira arrastou-se no chão de madeira com um estrépito.
— O que é que quer insinuar?
Adriano não se moveu. Continuou a polir a pedra, os olhos fixos nos de João.
— Nada, inspector. Apenas constato factos. O seu pai veio a Alpedreza, viu coisas que o levaram ao desespero. O senhor está aqui, vê coisas também. É uma coincidência curiosa, não acha? — Levantou-se lentamente, ajeitando o colete. — A vida é um eco. O que aconteceu antes, repete-se. Mas talvez eu esteja a ser indelicado. Perdoe-me. Não queria abrir feridas.
João lutou contra a vertigem. O quarto parecia rodar. As palavras de Adriano eram como agulhas, precisas e venenosas. O eco do pai, o suicídio, as visões. Tudo se misturava.
— Se não tem mais perguntas, terei muito gosto em continuar esta conversa noutra altura. — Adriano fez um gesto em direção à porta. O sorriso ainda lá estava, mas agora parecia mais largo, quase carinhoso.
João saiu sem dizer mais nada. A porta bateu atrás de si, abafando o tilintar do carrilhão.
Na rua, o sol já ia alto, mas ele sentia frio. A dúvida instalara-se, como uma peçonha. O pai. Alpedreza. As visões. Adriano sabia. Sabia e esmagava-o com aquela calma de serpente.
Encostou-se à parede e respirou fundo. As têmporas latejavam. Passou a mão pelos cabelos, uma e outra vez. Precisava de um sítio escuro. Precisava de pensar. Caminhou às cegas, tropeçando nas pedras da calçada, em direção à pensão.
O Veneno do Ourives
O quarto da pensão pareceu-lhe um caixão. João atirou-se para cima da cama, ainda vestido, e ficou a olhar para o tecto rachado. As palavras de Adriano ecoavam-lhe na mente, como uma ladainha infernal. O seu pai. O seu pai estivera em Alpedreza. Vira coisas. Suicidara-se.
Ninguém lhe contara essa história. A mãe, antes de morrer, apenas dissera que o pai era um homem bom, mas frágil. Que um dia não aguentara o peso do mundo. João crescera a acreditar que a depressão o levara. Mas agora... Adriano insinuara algo mais. As visões. A loucura que se herda.
Rangeu os dentes com tanta força que doeu. Sentou-se na cama e agarrou a cabeça com as duas mãos. As visões. Sempre as visões. A rapariga no poço, a voz que sussurrava "É o eco do mal". Seria aquilo real ou o princípio da demência? Adriano plantara a semente, e ela já germinava.
Levantou-se e foi até à janela. Lá fora, a vila ardia sob o sol alentejano, mas ele só sentia o frio interior. Precisava de respostas. Precisava de encontrar provas de que não estava a enlouquecer. Mas como provar o que só ele via?
De repente, lembrou-se da pasta. Pegou nela e abriu-a outra vez. Focou-se na fotografia de Helena. Os olhos dela pareciam fitá-lo, acusadores. Onde estaria a verdade? A ourivesaria era a única pista. E Adriano, o único que falara do pai.
— Ele quer que eu duvide de mim. — Murmurou para si mesmo, passando a mão pelos cabelos. — Quer que eu me perca.
Mas a dúvida já estava lá. A fragilidade que o seu próprio pai sentira talvez estivesse também nele. João fechou a pasta com força. Não podia ceder. Precisava de se agarrar à razão, aos factos. Mas os factos eram poucos: Helena desaparecera depois do trabalho. Trabalhava para Adriano. O ourives conhecia o seu pai. E o seu pai matara-se depois de estar em Alpedreza.
Saiu do quarto e desceu as escadas da pensão. A dona, uma mulher de cabelo grisalho e olhar desconfiado, estava atrás do balcão.
— Senhora, sabe se há por aqui alguém que se lembre de um homem chamado Martins? Um polícia de Évora, que cá esteve há muitos anos?
A mulher franziu o sobrolho.
— Cá esteve muita gente, senhor inspector. — Mas depois coçou o queixo. — Martins... Espere. Havia um inspector de Évora que andava a fazer perguntas. Chegou a ficar aqui na pensão. Mas já foi há mais de vinte anos.
João sentiu o coração acelerar.
— Lembra-se dele? Como era?
— Um homem sério. Calado. Passava as noites a escrever. E uma vez... — A mulher baixou a voz. — Uma vez, acordou aos gritos, a dizer que via uma criança morta. Tive de lhe dar um chá de cidreira para se acalmar.
João recuou um passo. Uma criança morta. Como a que lhe aparecera a ele no trauma do rapto. As mesmas visões. O pai também as tivera.
— Obrigado. — Disse, com a voz rouca, e saiu para a rua.
Caminhou sem rumo, mas os pés levaram-no de novo à ourivesaria. A loja estava agora fechada. A persiana de metal cobria a montra. Mas junto à porta, havia uma abertura para o correio. João ajoelhou-se e espreitou. Lá dentro, a penumbra era total. Apenas o brilho ténue de uma pedra negra, pousada no balcão, lhe chamou a atenção.
Um ruído atrás de si fê-lo levantar-se de repente. Era um velho, apoiado numa bengala, que o observava com desconfiança.
— O ourives não está. Foi a Évora. — Disse o velho, com um sorriso desdentado.
— A Évora?
— Negócios. — E afastou-se, arrastando os pés.
João ficou parado. Adriano fora a Évora? Porquê? Seria coincidência ou mais uma peça do jogo? A cabeça latejava-lhe. Precisava de ar fresco. Caminhou até ao poço da Azinheira, onde tudo começara. O local estava isolado, o cordão da polícia ainda no lugar, mas ninguém por perto.
Encostou-se à pedra e fechou os olhos. Tentou invocar a visão, forçar a mente a mostrar-lhe algo útil. Mas só lhe veio a imagem do pai, sentado à beira de uma cama, a chorar. Uma memória que não era sua.
— O que é que ele te fez, pai? — Sussurrou.
O vento respondeu com um murmúrio. "É o eco do mal."
João abriu os olhos, assustado. Olhou à volta, mas estava sozinho. A voz ecoava-lhe dentro do crânio. Cada vez mais forte. As visões não lhe davam tréguas. Sentia-se a afundar, como o pai. A loucura hereditária, a maldição que Adriano insinuara, parecia cada vez mais real.
Voltou para a pensão. O quarto estava abafado. Abriu a janela, mas não entrou frescura. Despiu o casaco e foi à casa de banho. Encheu o lavatório de água fria e mergulhou o rosto. A água escorreu-lhe pelo peito, mas não aliviou o calor da dúvida.
Ao levantar a cabeça, viu-se no espelho. Os olhos estavam encovados, o cabelo mais grisalho do que se lembrava. A cicatriz no lábio superior parecia mais funda. E por trás de si, no reflexo, pareceu-lhe ver uma sombra.
Voltou-se com um safanão, mas não havia nada. O coração martelava-lhe no peito. Olhou de novo para o espelho. Apenas o seu rosto desfeito.
— Estou a perder a cabeça. — Murmurou.
As palavras de Adriano voltaram. "A loucura é assim. Às vezes, herda-se."
João recuou até à cama e deixou-se cair. As mãos tremiam. O pai vira coisas. O pai matara-se. E ele estava a seguir o mesmo caminho. As visões não eram um dom; eram uma sentença. E Adriano, com a sua calma de réptil, sabia-o. Deliciava-se com isso.
— Tenho de provar que estou lúcido. — Disse, para si mesmo. — Encontrar o culpado. Resolver o caso. É só isso.
Mas a semente da dúvida já criara raízes. E João sentia-as a apertar, como silvas à volta da garganta.
Olhou para o tecto, onde uma mancha de humidade formava uma mancha escura, como um poço. E no fundo desse poço, viu o rosto de Helena, a boca a abrir-se num grito sem som.
Fechou os olhos com força. Quando os abriu, a mancha era só humidade.
A Sombra no Espelho
A noite caía sobre Alpedreza quando João se levantou da cama. O quarto estava mergulhado numa penumbra azulada, com a única luz a vir do candeeiro da rua. A cabeça doía-lhe, e o estômago dava voltas. Não jantara. Não conseguira sair do quarto.
Acendeu o candeeiro da mesinha e foi à janela. A vila dormia, mas ele sabia que os segredos velavam. A casa de Adriano, ali ao fundo, tinha uma luz acesa na janela do sótão. O ourives regressara? Ou nunca saíra? João cerrou os punhos. Precisava de saber mais. Mas sentia-se fraco, à deriva.
Lembrou-se da última coisa que Adriano dissera, antes de ele sair: "Se não tem mais perguntas, terei muito gosto em continuar esta conversa noutra altura." Era um convite. Um desafio. Ou uma ameaça.
Voltou ao lavatório e lavou o rosto outra vez. A água fria trouxe alguma lucidez. Encarou o espelho. As olheiras estavam mais fundas. Os olhos tinham um brilho febril. E de novo, aquela impressão de uma presença atrás de si. Mas desta vez, não se voltou. Encarou o reflexo, desafiando a sombra.
— Tu não és real. — Disse, com a voz a tremer ligeiramente. — Não és.
A sombra não respondeu. Mas também não desapareceu. Era como uma névoa ao canto do olho, uma mancha na visão periférica.
João respirou fundo. "É o eco do mal." As palavras sussurradas no poço voltaram-lhe à mente. O eco. Algo que se repete. As mesmas visões do pai. O mesmo destino. Se ele não travasse aquilo, acabaria como ele.
Sentou-se na cama e pegou na caneta e no bloco de notas que trazia sempre consigo. Escreveu: "Factos: 1. Helena trabalhava na ourivesaria. 2. Adriano conheceu o meu pai. 3. O meu pai esteve em Alpedreza, viu coisas e matou-se. 4. Eu vejo coisas. 5. Adriano quer fazer-me duvidar da minha sanidade."
Olhou para a lista. Era curta, mas era concreta. Agarrar-se aos factos era a única forma de não se perder. Mas os factos levavam todos a Adriano. E Adriano era intocável. Pelo menos por enquanto.
Precisava de uma testemunha. Alguém que soubesse o que o pai fizera em Alpedreza. O agente Lopes? Talvez. Mas Lopes era um homem da vila, provavelmente leal ao conselho, ao ourives. Maria do Carmo? A dona da taberna parecia saber mais do que dizia, mas também desconfiava dele.
João pousou o bloco e escondeu o rosto nas mãos. Sentia-se cansado. Exausto ao ponto de os ossos lhe doerem. As visões sugavam-lhe as forças. E a dúvida corroía-o como ácido.
Levantou-se e foi ao espelho outra vez. Desta vez, fitou-se nos olhos. Procurou em si um sinal de loucura. Mas o que era a loucura, senão a incapacidade de distinguir o real do imaginado? E se o que ele via fosse real? E se o pai também tivesse visto a verdade, e a verdade o tivesse matado?
— O que vis-te, pai? — Perguntou ao reflexo. — O que te fez saltar?
O espelho não respondeu. Mas João sentiu um arrepio. Por um instante, pareceu-lhe ver no seu próprio rosto o rosto do pai. Um homem de quarenta e tal anos, cabelo escuro com fios prateados, olhos cinzentos e uma tristeza sem fundo. Tão igual a ele.
João soltou um gemido. Não era uma visão. Era apenas o reflexo do seu próprio medo. Mas o medo era tão real como o vidro.
Adriano plantara a semente. E agora a árvore da dúvida crescia dentro dele, retorcendo-lhe as entranhas. A pergunta do ourives martelava-lhe o crânio: "Seria seu pai?"
Sim. E o filho seguia-lhe as pisadas. As mesmas visões, a mesma dor. Seria também o mesmo fim?
João rangeu os dentes. Não. Não podia. Ele não ia acabar como o pai. Ele ia descobrir a verdade. Ia provar que as visões não eram loucura. E ia fazer Adriano pagar.
Mas, por enquanto, estava sozinho. Sozinho num quarto de pensão, com uma pasta de desaparecidos e uma cabeça cheia de sombras.
Foi até ao espelho e apoiou as mãos no lavatório. Inclinou-se para a frente, até quase tocar com a testa no vidro. E encarou o seu reflexo. Os olhos cinzentos estavam vidrados, mas por detrás do cansaço, havia uma fagulha de determinação.
— Vou descobrir a verdade. — Sussurrou.
Mas assim que disse as palavras, uma dúvida gelada subiu-lhe pela espinha. E se a verdade for que estou louco?
Fechou os olhos. Imagens acudiram-lhe: a rapariga arrastada para o poço, o corpo de Helena com a expressão terror, a voz que ecoava "É o eco do mal". E por cima de tudo, o sorriso de Adriano. Aquele sorriso calmo, cortês, que sabia.
João abriu os olhos e, no espelho, viu-se. Sozinho. Encarou o seu reflexo e, num gesto de desespero, levou as mãos à cabeça. Agarrou os cabelos desgrenhados, como se quisesse arrancar as visões de dentro de si. Segurou a cabeça com força, até sentir a dor física sobrepor-se à dor psíquica.
— Saiam! — Gemeu. — Saiam da minha cabeça!
Mas as visões não saíam. Porque faziam parte dele. Porque eram a herança do pai. Porque eram o eco do mal.
E no silêncio do quarto, apenas o seu reflexo o fitou, com os olhos arregalados e a boca entreaberta. João, sozinho no quarto, encara o espelho e segura a cabeça, como se quisesse arrancar as visões de dentro de si.