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O Corpo no Poço
IA
A Descida ao Poço
Ainda o céu era negro como tinta quando João saiu da pensão. Não dormira. A visão da rapariga de cabelo escuro a ser arrastada repetia-se na sua mente, como um disco riscado. O nome 'Poço da Azinheira' queimava-lhe os pensamentos. Tinha de ir, mesmo que fosse loucura. Saiu às escondidas, evitando as tábuas rangentes do soalho, e mergulhou no ar frio de Alpedreza. A aldeia estava silenciosa, como se sustivesse a respiração. As casas caiadas eram manchas pálidas na escuridão. Nem um cão ladrava. Era um silêncio opressivo, daqueles que se colam aos ossos.
Pôs-se a caminho. A lanterna na mão esquerda, a direita a passar pelos cabelos desgrenhados, num gesto ansioso que repetia sem pensar. Os passos ecoavam na calçada irregular até se perderem na terra. Conhecia o caminho? Tinha visto o mapa na noite anterior, mas agora apenas seguia uma intuição. Depois da última casa, um carreiro ladeado por oliveiras. O ar cheirava a terra seca e a esteva. O campo era uma solidão imensa, apenas o restolho do trigo e, ao longe, o vulto de um sobreiro. O coração batia acelerado. E se a visão fosse apenas um sonho? E se estivesse a fazer figura de tolo? Mas a imagem da rapariga era tão nítida, tão real. As suas visões nunca tinham falhado. Sempre lhe mostraram crimes, mesmo que ele não quisesse ver.
Lembrou-se do pai. O velho Martins também via coisas. Diziam que andava a perder a cabeça. João sempre rejeitara essa ideia. As visões eram apenas fruto de um stress acumulado, dizia a si próprio. Mas agora, no silêncio da madrugada, a dúvida mordia. E se fosse hereditário? E se ele, como o pai, estivesse condenado à loucura? Passou a mão pelos cabelos, rangeu os dentes. Concentra-te, ordenou a si mesmo.
Avistou a azinheira. Era uma árvore imensa, retorcida, o tronco grosso e rugoso. Parecia um monumento ancestral. O poço estava ao lado, uma abertura circular de pedra, meio comida pelas silvas. Um muro baixo de xisto rodeava-o. A boca do poço era escura como a garganta de um animal. João aproximou-se, o mato a roçar-lhe as pernas. Inclinou-se e apontou a lanterna para baixo. O feixe perdia-se nas trevas, revelando apenas as paredes de pedra cobertas de musgo e humidade. O cheiro subia: terra molhada e algo mais, adocicado, enjoativo. O cheiro da morte.
Engoliu em seco. Tinha de descer. Procurou uma ancoragem e encontrou uma argola de ferro enferrujada na pedra. Atou a corda com firmeza, puxou para testar. Depois, com a lanterna presa ao cinto, começou a descer. As mãos agarraram a corda áspera, os pés a procurar apoio nas saliências da pedra. O poço era fundo, muito fundo. A luz da manhã foi diminuindo até se tornar um pequeno disco cinzento acima da sua cabeça. A cada metro, o cheiro intensificava-se. A humidade colava-se à pele, fria e viscosa. O silêncio era tão profundo que os seus próprios movimentos pareciam profaná-lo. Rangeu os dentes, um ruído que o acalmava.
Por fim, os pés tocaram o fundo. O solo era irregular, coberto de lama e pedras. João soltou-se da corda e acendeu novamente a lanterna. O espaço era apertado, circular, com dois ou três metros de diâmetro. As paredes verticais desapareciam na escuridão acima. Voltou o foco para o chão e o coração quase lhe parou.
Lá estava ela.
O corpo de uma rapariga, caído de lado, as pernas encolhidas, os braços cruzados sobre o peito, como se tentasse em vão proteger-se. O cabelo comprido e escuro, sujo de terra e sangue seco. Vestia um vestido simples, de pano claro, agora manchado e rasgado no ombro. João aproximou-se, os pés a enterrar-se na lama. A respiração tornou-se curta. Ajoelhou-se ao lado do corpo, as mãos trémulas. A pele da rapariga era baça, com um tom azulado. No pescoço, as marcas de dedos eram nódoas negras que subiam até à mandíbula. Fora estrangulada, sem dúvida. Não havia sinais de luta no poço; o crime ocorrera noutro local.
Com todo o cuidado, virou-a ligeiramente. O rosto, agora visível, confirmou o pior. Era a jovem que vira na visão – Helena, a primeira desaparecida. Os olhos castanhos estavam abertos, arregalados, a expressão congelada num horror indescritível. Os lábios entreabertos, como se ainda tentasse gritar. Um pequeno crucifixo de metal pendia-lhe do pescoço, manchado de terra. João sentiu um aperto no peito. Fechou os olhos por um instante e a imagem da visão voltou: a rapariga a ser arrastada, os gritos abafados, e aquela presença negra, informe, a envolvê-la. 'É o eco do mal', sussurrara a voz.
Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Olhou para as paredes do poço, como se esperasse ver algo. Nada. Apenas pedra e silêncio. Mas o silêncio era opressivo, pesado, como se algo espreitasse. Apurou o ouvido e pareceu-lhe ouvir, ao longe, um murmúrio, um eco de palavras que não entendia. Ou seria a sua mente a pregar-lhe partidas? Desviou o olhar do corpo e concentrou-se no que tinha de fazer. Precisava de sair. Precisava de alertar as autoridades.
Levantou-se, as pernas fraquejaram. Agarrou a lanterna e dirigiu-se à corda. Foi então que ouviu, bem nítido, um sussurro: 'Agora sabes...' A voz parecia vir das próprias pedras. João gelou. Sentiu um arrepio na nuca e virou-se bruscamente. Nada. O corpo continuava imóvel, a lanterna tremia-lhe na mão. O pânico subiu-lhe à garganta. Sem pensar duas vezes, agarrou a corda e começou a subir, com toda a força que tinha. Os músculos dos braços gritavam, mas ele não parou. Subiu, subiu, até ver a luz do dia a aumentar, até sentir o ar fresco da manhã no rosto.
Saiu para fora do poço, caindo de joelhos na terra, arquejante. A luz do sol, agora mais forte, feria-lhe os olhos. Apoiou-se no muro de pedra, tentando recuperar o fôlego. O coração batia descontrolado. Olhou para o céu já azul e para o campo em redor, ainda vazio. Depois, enchendo os pulmões de ar, gritou com toda a força: 'Está aqui! Encontrei uma morta! Alguém me ouça! Ajuda!' A sua voz ecoou pelos campos e foi-se perdendo ao longe. E então, entre os sobreiros, viu um vulto mover-se. Alguém o ouvira. A notícia ia espalhar-se. A vila estava prestes a acordar para o pesadelo.
O Corpo e a Vila
O grito ecoou pelos campos e quebrou o silêncio da madrugada. António, um lavrador que estava nas suas terras desde antes do sol nascer, ouviu. Conhecia os gritos de animal, os lamentos do vento, mas aquilo era diferente. Um grito humano, aflito. Vinha da direcção do Poço da Azinheira. António largou a enxada e pôs-se a correr, o coração aos saltos. Conhecia João de vista, vira-o sair da pensão ainda escuro. Desconfiara logo. Forasteiros traziam sempre problemas.
Quando chegou ao poço, encontrou João caído de joelhos, a respiração ofegante, o rosto pálido. 'O que aconteceu, homem?' perguntou, agarrando-lhe o braço. João apontou para o poço. 'Lá em baixo... uma rapariga... morta. É a Helena, a desaparecida.' António espreitou para a escuridão e sentiu um aperto no estômago. 'Tem a certeza? Como é que sabe que é ela?' João não respondeu; apenas repetiu: 'Precisamos de ajuda. Chame os outros.' António não hesitou. Correu de volta à aldeia, gritando por socorro.
Em poucos minutos, a notícia espalhou-se. Alpedreza acordou em sobressalto. Homens e mulheres saíram das casas, ainda a abotoar as camisas, a puxar os xailes pelos ombros. O agente Lopes foi dos primeiros a ser alertado. Calçou as botas e seguiu a multidão que se formava em direcção ao poço. No caminho, juntaram-se outros: o velho Amadeu Cruz, a senhora Adelaide, e, com passo mais lento e medido, Adriano Saraçoça. Maria do Carmo fechou a porta da taberna e, apertando o xale, seguiu atrás, o rosto fechado.
Quando chegaram, João já se levantara. Lopes aproximou-se, o rosto descomposto. 'Inspector, o que é que se passa? Disseram que encontrou...' João confirmou com um aceno de cabeça. 'Está lá em baixo. A Helena. Foi estrangulada.' Lopes empalideceu. 'Como pode saber? Talvez seja outro animal...' 'Não é animal,' cortou João, a voz mais firme. 'Eu vi.' A palavra ficou suspensa no ar. Adriano Saraçoça deu um passo em frente, o sobretudo escuro a ondular. 'O senhor inspector tem a certeza? Este poço é fundo. A luz engana.' A sua voz era calma, quase sedosa, mas os olhos cinzentos fixavam João com uma intensidade fria.
'Desci e vi com os meus próprios olhos,' respondeu João, sem se deixar intimidar. 'Ela está ali, com marcas de estrangulamento. Precisamos de a trazer para cima.' Adriano arqueou uma sobrancelha. 'Desceu sozinho? Isso é muito corajoso... ou muito temerário.' O tom insinuava que João escondia algo. João ignorou a provocação e voltou-se para Lopes. 'Arranje cordas e homens. Vamos buscar o corpo.'
Enquanto Lopes organizava o resgate, João sentiu um olhar cravado em si. Voltou-se e viu Maria do Carmo, afastada do grupo, o xale preto a emoldurar o rosto. Os olhos castanhos escuros pareciam faiscar de medo e reprovação. Quando os seus olhares se cruzaram, ela murmurou algo. João aproximou-se o suficiente para ouvir: 'Forasteiros trazem azar.' A voz era baixa, mas carregada de convicção. João fitou-a, mas ela baixou a cabeça e afastou-se.
Os homens trabalharam em silêncio. Com cordas e uma maca improvisada, desceram dois voluntários ao poço. O tempo parecia arrastar-se. A multidão aguardava, os murmúrios crescendo e diminuindo como ondas. Finalmente, o corpo foi içado. Envolveram-no num cobertor e depositaram-no na terra, ao lado do poço. Um silêncio caiu sobre todos. Lopes afastou o cobertor do rosto e uma onda de consternação percorreu os presentes. Era Helena, sem dúvida. A pele pálida, os olhos arregalados, as marcas no pescoço. Maria do Carmo soltou um soluço e voltou o rosto, cobrindo a boca com o xale. Algumas mulheres choraram. Os homens tiraram os chapéus.
Adriano Saraçoça aproximou-se do corpo e persignou-se lentamente. Depois, ergueu a voz: 'Que Deus tenha a sua alma. Esta pobre criança...' Olhou para João. 'O senhor inspector fez uma descoberta terrível. Mas devemos agradecer-lhe. Trouxe-a à luz.' Havia uma falsa solenidade nas suas palavras. João não respondeu. Adriano prosseguiu, agora para a multidão: 'Isto é uma tragédia para Alpedreza. Mas não devemos deixar que o medo nos divida. Confiemos na justiça.' As suas palavras tinham o efeito de acalmar alguns, mas João via a manipulação. Aquele homem sabia mais do que aparentava.
Foi então que João viu Zulmira Valentim. A curandeira estava um pouco afastada, encostada ao tronco retorcido da azinheira. Não falava, não chorava. Limitava-se a observar, os olhos negros como carvão, fixos no corpo. Um sorriso imperceptível bailava-lhe nos lábios. João sentiu um calafrio. Aquela mulher trazia algo de maligno consigo. Quando os seus olhares se cruzaram, Zulmira não desviou o olhar. Apenas inclinou ligeiramente a cabeça, como quem saúda um velho conhecido. Depois, afastou-se silenciosamente, desaparecendo entre os sobreiros.
Lopes pediu silêncio. 'Vamos levar o corpo para a câmara fria de Beja. A Judiciária vai assumir o caso. Peço a todos que regressem às vossas casas e não perturbem a cena.' A multidão começou a dispersar, os comentários em voz baixa. Maria do Carmo foi das primeiras a afastar-se, os passos pesados, o olhar no chão. Antes de se ir, olhou para João e, de novo, murmurou: 'Forasteiros...' e nada mais.
Adriano Saraçoça despediu-se com um aperto de mão firme e gelado. 'Se precisar de alguma coisa, inspector, a minha porta está aberta.' João agradeceu com um aceno. Ficou a ver o ourives afastar-se, o sobretudo escuro a perder-se na paisagem. Algo naquele homem o punha de sobreaviso. Mas agora, o mais importante era o corpo de Helena. A verdade começava a emergir, e João sentia que a vila guardava muitos segredos.
O Olhar Esquivo
Horas mais tarde, quando o sol já ia alto e o calor alentejano se fazia sentir, João entrou na taberna de Maria do Carmo. O corpo de Helena já seguia para a morgue, e ele precisava de comer qualquer coisa. O estabelecimento era modesto: mesas de madeira gasta, um balcão com garrafas e um odor a café e pão fresco. A esta hora, estava quase vazio. Apenas dois velhos jogavam dominó a um canto, as vozes um murmúrio.
João sentou-se perto da janela. A luz coava-se pelas vidraças empoeiradas, desenhando sombras no soalho. Tirou o casaco e passou a mão pelos cabelos. Estava exausto, mas a mente não parava. As imagens do corpo de Helena, o olhar frio de Adriano, o sorriso de Zulmira, as palavras de Maria do Carmo – tudo dançava num rodopio.
Maria do Carmo saiu da traseira, o avental manchado de farinha. Ao ver João, os seus olhos desviaram-se imediatamente. Aproximou-se, o rosto fechado. 'Deseja alguma coisa?' perguntou, o tom mais brusco do que o habitual. 'Um café, por favor. E qualquer coisa para comer, se houver.' Ela assentiu e virou costas sem mais palavras.
João observou-a enquanto preparava o café. Os seus movimentos eram apressados, as mãos trémulas. Ele notou que ela evitava olhar na sua direcção. Algo mudara desde a manhã. Quando ela trouxe a chávena e um prato com pão e queijo, pousou-os na mesa sem erguer os olhos. 'Obrigado,' disse João. Ela apenas resmungou e afastou-se.
Comeu devagar, o estômago apertado. O silêncio na taberna era quase tangível. Os velhos terminaram o jogo e saíram, deixando João e Maria a sós. O relógio de parede tiquetaqueava. Quando acabou, João levantou-se e dirigiu-se ao balcão. 'Senhora Maria do Carmo, posso perguntar-lhe uma coisa?'
Ela estava a limpar um copo com um pano, as costas para ele. 'Pergunte, mas não sei se lhe posso responder.' A voz saía tensa.
'Esta manhã, no poço, a senhora disse que forasteiros trazem azar. Porquê? Houve outros forasteiros que trouxeram azar a esta terra?' Ela parou de limpar e pousou o copo com força. 'Não se lembra? É apenas um dizer do povo. Não há mal nenhum.' Ainda de costas, continuou: 'Já tivemos gente de fora que veio fazer perguntas. E depois... coisas más aconteceram.'
'Coisas más como estas desaparecimentos?' João aproximou-se. 'A senhora sabe de alguma coisa que eu deva saber?' Ela girou o corpo, o olhar faiscando. 'Não sei nada! O senhor inspector está a imaginar coisas.' Mas a sua voz tremeu. 'Aqui toda a gente se conhece. Guardamos os nossos segredos. E os forasteiros só trazem o mal à tona.'
João fitou-a. 'Eu não quero trazer mal. Quero ajudar. Alguém matou a Helena. E se a senhora souber algo...' Ela interrompeu-o: 'Não sei quem a matou. Nem quero saber.' Cobriu o rosto com as mãos por um instante. 'Ela era nova... tão nova.' A voz embargou-se.
Houve um momento de silêncio. João arriscou: 'A senhora tem medo, não tem?' Ela descobriu o rosto, os olhos húmidos. 'Tenho. E o senhor devia ter também. Esta terra não é o que parece. Há coisas que é melhor não mexer.' Voltou-lhe as costas e começou a arrumar garrafas na prateleira. 'Agora, se me dá licença, tenho que fechar. Já é tarde.'
João percebeu que não ia tirar mais nada dela. Meteu a mão ao bolso e pousou as moedas no balcão. 'Obrigado pelo café. E pela companhia.' Ela não respondeu. Ele vestiu o casaco e caminhou para a porta.
Antes de sair, olhou para trás. Maria do Carmo apertava o pano de limpeza com força, os ombros tensos, o olhar fixo no chão. Evitava olhar para ele. João sentiu que ela sabia mais do que dizia. Talvez muito mais.
Na taberna, Maria do Carmo evita o olhar de João. Ele sente que ela sabe mais do que diz.
Ainda o céu era negro como tinta quando João saiu da pensão. Não dormira. A visão da rapariga de cabelo escuro a ser arrastada repetia-se na sua mente, como um disco riscado. O nome 'Poço da Azinheira' queimava-lhe os pensamentos. Tinha de ir, mesmo que fosse loucura. Saiu às escondidas, evitando as tábuas rangentes do soalho, e mergulhou no ar frio de Alpedreza. A aldeia estava silenciosa, como se sustivesse a respiração. As casas caiadas eram manchas pálidas na escuridão. Nem um cão ladrava. Era um silêncio opressivo, daqueles que se colam aos ossos.
Pôs-se a caminho. A lanterna na mão esquerda, a direita a passar pelos cabelos desgrenhados, num gesto ansioso que repetia sem pensar. Os passos ecoavam na calçada irregular até se perderem na terra. Conhecia o caminho? Tinha visto o mapa na noite anterior, mas agora apenas seguia uma intuição. Depois da última casa, um carreiro ladeado por oliveiras. O ar cheirava a terra seca e a esteva. O campo era uma solidão imensa, apenas o restolho do trigo e, ao longe, o vulto de um sobreiro. O coração batia acelerado. E se a visão fosse apenas um sonho? E se estivesse a fazer figura de tolo? Mas a imagem da rapariga era tão nítida, tão real. As suas visões nunca tinham falhado. Sempre lhe mostraram crimes, mesmo que ele não quisesse ver.
Lembrou-se do pai. O velho Martins também via coisas. Diziam que andava a perder a cabeça. João sempre rejeitara essa ideia. As visões eram apenas fruto de um stress acumulado, dizia a si próprio. Mas agora, no silêncio da madrugada, a dúvida mordia. E se fosse hereditário? E se ele, como o pai, estivesse condenado à loucura? Passou a mão pelos cabelos, rangeu os dentes. Concentra-te, ordenou a si mesmo.
Avistou a azinheira. Era uma árvore imensa, retorcida, o tronco grosso e rugoso. Parecia um monumento ancestral. O poço estava ao lado, uma abertura circular de pedra, meio comida pelas silvas. Um muro baixo de xisto rodeava-o. A boca do poço era escura como a garganta de um animal. João aproximou-se, o mato a roçar-lhe as pernas. Inclinou-se e apontou a lanterna para baixo. O feixe perdia-se nas trevas, revelando apenas as paredes de pedra cobertas de musgo e humidade. O cheiro subia: terra molhada e algo mais, adocicado, enjoativo. O cheiro da morte.
Engoliu em seco. Tinha de descer. Procurou uma ancoragem e encontrou uma argola de ferro enferrujada na pedra. Atou a corda com firmeza, puxou para testar. Depois, com a lanterna presa ao cinto, começou a descer. As mãos agarraram a corda áspera, os pés a procurar apoio nas saliências da pedra. O poço era fundo, muito fundo. A luz da manhã foi diminuindo até se tornar um pequeno disco cinzento acima da sua cabeça. A cada metro, o cheiro intensificava-se. A humidade colava-se à pele, fria e viscosa. O silêncio era tão profundo que os seus próprios movimentos pareciam profaná-lo. Rangeu os dentes, um ruído que o acalmava.
Por fim, os pés tocaram o fundo. O solo era irregular, coberto de lama e pedras. João soltou-se da corda e acendeu novamente a lanterna. O espaço era apertado, circular, com dois ou três metros de diâmetro. As paredes verticais desapareciam na escuridão acima. Voltou o foco para o chão e o coração quase lhe parou.
Lá estava ela.
O corpo de uma rapariga, caído de lado, as pernas encolhidas, os braços cruzados sobre o peito, como se tentasse em vão proteger-se. O cabelo comprido e escuro, sujo de terra e sangue seco. Vestia um vestido simples, de pano claro, agora manchado e rasgado no ombro. João aproximou-se, os pés a enterrar-se na lama. A respiração tornou-se curta. Ajoelhou-se ao lado do corpo, as mãos trémulas. A pele da rapariga era baça, com um tom azulado. No pescoço, as marcas de dedos eram nódoas negras que subiam até à mandíbula. Fora estrangulada, sem dúvida. Não havia sinais de luta no poço; o crime ocorrera noutro local.
Com todo o cuidado, virou-a ligeiramente. O rosto, agora visível, confirmou o pior. Era a jovem que vira na visão – Helena, a primeira desaparecida. Os olhos castanhos estavam abertos, arregalados, a expressão congelada num horror indescritível. Os lábios entreabertos, como se ainda tentasse gritar. Um pequeno crucifixo de metal pendia-lhe do pescoço, manchado de terra. João sentiu um aperto no peito. Fechou os olhos por um instante e a imagem da visão voltou: a rapariga a ser arrastada, os gritos abafados, e aquela presença negra, informe, a envolvê-la. 'É o eco do mal', sussurrara a voz.
Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Olhou para as paredes do poço, como se esperasse ver algo. Nada. Apenas pedra e silêncio. Mas o silêncio era opressivo, pesado, como se algo espreitasse. Apurou o ouvido e pareceu-lhe ouvir, ao longe, um murmúrio, um eco de palavras que não entendia. Ou seria a sua mente a pregar-lhe partidas? Desviou o olhar do corpo e concentrou-se no que tinha de fazer. Precisava de sair. Precisava de alertar as autoridades.
Levantou-se, as pernas fraquejaram. Agarrou a lanterna e dirigiu-se à corda. Foi então que ouviu, bem nítido, um sussurro: 'Agora sabes...' A voz parecia vir das próprias pedras. João gelou. Sentiu um arrepio na nuca e virou-se bruscamente. Nada. O corpo continuava imóvel, a lanterna tremia-lhe na mão. O pânico subiu-lhe à garganta. Sem pensar duas vezes, agarrou a corda e começou a subir, com toda a força que tinha. Os músculos dos braços gritavam, mas ele não parou. Subiu, subiu, até ver a luz do dia a aumentar, até sentir o ar fresco da manhã no rosto.
Saiu para fora do poço, caindo de joelhos na terra, arquejante. A luz do sol, agora mais forte, feria-lhe os olhos. Apoiou-se no muro de pedra, tentando recuperar o fôlego. O coração batia descontrolado. Olhou para o céu já azul e para o campo em redor, ainda vazio. Depois, enchendo os pulmões de ar, gritou com toda a força: 'Está aqui! Encontrei uma morta! Alguém me ouça! Ajuda!' A sua voz ecoou pelos campos e foi-se perdendo ao longe. E então, entre os sobreiros, viu um vulto mover-se. Alguém o ouvira. A notícia ia espalhar-se. A vila estava prestes a acordar para o pesadelo.
O Corpo e a Vila
O grito ecoou pelos campos e quebrou o silêncio da madrugada. António, um lavrador que estava nas suas terras desde antes do sol nascer, ouviu. Conhecia os gritos de animal, os lamentos do vento, mas aquilo era diferente. Um grito humano, aflito. Vinha da direcção do Poço da Azinheira. António largou a enxada e pôs-se a correr, o coração aos saltos. Conhecia João de vista, vira-o sair da pensão ainda escuro. Desconfiara logo. Forasteiros traziam sempre problemas.
Quando chegou ao poço, encontrou João caído de joelhos, a respiração ofegante, o rosto pálido. 'O que aconteceu, homem?' perguntou, agarrando-lhe o braço. João apontou para o poço. 'Lá em baixo... uma rapariga... morta. É a Helena, a desaparecida.' António espreitou para a escuridão e sentiu um aperto no estômago. 'Tem a certeza? Como é que sabe que é ela?' João não respondeu; apenas repetiu: 'Precisamos de ajuda. Chame os outros.' António não hesitou. Correu de volta à aldeia, gritando por socorro.
Em poucos minutos, a notícia espalhou-se. Alpedreza acordou em sobressalto. Homens e mulheres saíram das casas, ainda a abotoar as camisas, a puxar os xailes pelos ombros. O agente Lopes foi dos primeiros a ser alertado. Calçou as botas e seguiu a multidão que se formava em direcção ao poço. No caminho, juntaram-se outros: o velho Amadeu Cruz, a senhora Adelaide, e, com passo mais lento e medido, Adriano Saraçoça. Maria do Carmo fechou a porta da taberna e, apertando o xale, seguiu atrás, o rosto fechado.
Quando chegaram, João já se levantara. Lopes aproximou-se, o rosto descomposto. 'Inspector, o que é que se passa? Disseram que encontrou...' João confirmou com um aceno de cabeça. 'Está lá em baixo. A Helena. Foi estrangulada.' Lopes empalideceu. 'Como pode saber? Talvez seja outro animal...' 'Não é animal,' cortou João, a voz mais firme. 'Eu vi.' A palavra ficou suspensa no ar. Adriano Saraçoça deu um passo em frente, o sobretudo escuro a ondular. 'O senhor inspector tem a certeza? Este poço é fundo. A luz engana.' A sua voz era calma, quase sedosa, mas os olhos cinzentos fixavam João com uma intensidade fria.
'Desci e vi com os meus próprios olhos,' respondeu João, sem se deixar intimidar. 'Ela está ali, com marcas de estrangulamento. Precisamos de a trazer para cima.' Adriano arqueou uma sobrancelha. 'Desceu sozinho? Isso é muito corajoso... ou muito temerário.' O tom insinuava que João escondia algo. João ignorou a provocação e voltou-se para Lopes. 'Arranje cordas e homens. Vamos buscar o corpo.'
Enquanto Lopes organizava o resgate, João sentiu um olhar cravado em si. Voltou-se e viu Maria do Carmo, afastada do grupo, o xale preto a emoldurar o rosto. Os olhos castanhos escuros pareciam faiscar de medo e reprovação. Quando os seus olhares se cruzaram, ela murmurou algo. João aproximou-se o suficiente para ouvir: 'Forasteiros trazem azar.' A voz era baixa, mas carregada de convicção. João fitou-a, mas ela baixou a cabeça e afastou-se.
Os homens trabalharam em silêncio. Com cordas e uma maca improvisada, desceram dois voluntários ao poço. O tempo parecia arrastar-se. A multidão aguardava, os murmúrios crescendo e diminuindo como ondas. Finalmente, o corpo foi içado. Envolveram-no num cobertor e depositaram-no na terra, ao lado do poço. Um silêncio caiu sobre todos. Lopes afastou o cobertor do rosto e uma onda de consternação percorreu os presentes. Era Helena, sem dúvida. A pele pálida, os olhos arregalados, as marcas no pescoço. Maria do Carmo soltou um soluço e voltou o rosto, cobrindo a boca com o xale. Algumas mulheres choraram. Os homens tiraram os chapéus.
Adriano Saraçoça aproximou-se do corpo e persignou-se lentamente. Depois, ergueu a voz: 'Que Deus tenha a sua alma. Esta pobre criança...' Olhou para João. 'O senhor inspector fez uma descoberta terrível. Mas devemos agradecer-lhe. Trouxe-a à luz.' Havia uma falsa solenidade nas suas palavras. João não respondeu. Adriano prosseguiu, agora para a multidão: 'Isto é uma tragédia para Alpedreza. Mas não devemos deixar que o medo nos divida. Confiemos na justiça.' As suas palavras tinham o efeito de acalmar alguns, mas João via a manipulação. Aquele homem sabia mais do que aparentava.
Foi então que João viu Zulmira Valentim. A curandeira estava um pouco afastada, encostada ao tronco retorcido da azinheira. Não falava, não chorava. Limitava-se a observar, os olhos negros como carvão, fixos no corpo. Um sorriso imperceptível bailava-lhe nos lábios. João sentiu um calafrio. Aquela mulher trazia algo de maligno consigo. Quando os seus olhares se cruzaram, Zulmira não desviou o olhar. Apenas inclinou ligeiramente a cabeça, como quem saúda um velho conhecido. Depois, afastou-se silenciosamente, desaparecendo entre os sobreiros.
Lopes pediu silêncio. 'Vamos levar o corpo para a câmara fria de Beja. A Judiciária vai assumir o caso. Peço a todos que regressem às vossas casas e não perturbem a cena.' A multidão começou a dispersar, os comentários em voz baixa. Maria do Carmo foi das primeiras a afastar-se, os passos pesados, o olhar no chão. Antes de se ir, olhou para João e, de novo, murmurou: 'Forasteiros...' e nada mais.
Adriano Saraçoça despediu-se com um aperto de mão firme e gelado. 'Se precisar de alguma coisa, inspector, a minha porta está aberta.' João agradeceu com um aceno. Ficou a ver o ourives afastar-se, o sobretudo escuro a perder-se na paisagem. Algo naquele homem o punha de sobreaviso. Mas agora, o mais importante era o corpo de Helena. A verdade começava a emergir, e João sentia que a vila guardava muitos segredos.
O Olhar Esquivo
Horas mais tarde, quando o sol já ia alto e o calor alentejano se fazia sentir, João entrou na taberna de Maria do Carmo. O corpo de Helena já seguia para a morgue, e ele precisava de comer qualquer coisa. O estabelecimento era modesto: mesas de madeira gasta, um balcão com garrafas e um odor a café e pão fresco. A esta hora, estava quase vazio. Apenas dois velhos jogavam dominó a um canto, as vozes um murmúrio.
João sentou-se perto da janela. A luz coava-se pelas vidraças empoeiradas, desenhando sombras no soalho. Tirou o casaco e passou a mão pelos cabelos. Estava exausto, mas a mente não parava. As imagens do corpo de Helena, o olhar frio de Adriano, o sorriso de Zulmira, as palavras de Maria do Carmo – tudo dançava num rodopio.
Maria do Carmo saiu da traseira, o avental manchado de farinha. Ao ver João, os seus olhos desviaram-se imediatamente. Aproximou-se, o rosto fechado. 'Deseja alguma coisa?' perguntou, o tom mais brusco do que o habitual. 'Um café, por favor. E qualquer coisa para comer, se houver.' Ela assentiu e virou costas sem mais palavras.
João observou-a enquanto preparava o café. Os seus movimentos eram apressados, as mãos trémulas. Ele notou que ela evitava olhar na sua direcção. Algo mudara desde a manhã. Quando ela trouxe a chávena e um prato com pão e queijo, pousou-os na mesa sem erguer os olhos. 'Obrigado,' disse João. Ela apenas resmungou e afastou-se.
Comeu devagar, o estômago apertado. O silêncio na taberna era quase tangível. Os velhos terminaram o jogo e saíram, deixando João e Maria a sós. O relógio de parede tiquetaqueava. Quando acabou, João levantou-se e dirigiu-se ao balcão. 'Senhora Maria do Carmo, posso perguntar-lhe uma coisa?'
Ela estava a limpar um copo com um pano, as costas para ele. 'Pergunte, mas não sei se lhe posso responder.' A voz saía tensa.
'Esta manhã, no poço, a senhora disse que forasteiros trazem azar. Porquê? Houve outros forasteiros que trouxeram azar a esta terra?' Ela parou de limpar e pousou o copo com força. 'Não se lembra? É apenas um dizer do povo. Não há mal nenhum.' Ainda de costas, continuou: 'Já tivemos gente de fora que veio fazer perguntas. E depois... coisas más aconteceram.'
'Coisas más como estas desaparecimentos?' João aproximou-se. 'A senhora sabe de alguma coisa que eu deva saber?' Ela girou o corpo, o olhar faiscando. 'Não sei nada! O senhor inspector está a imaginar coisas.' Mas a sua voz tremeu. 'Aqui toda a gente se conhece. Guardamos os nossos segredos. E os forasteiros só trazem o mal à tona.'
João fitou-a. 'Eu não quero trazer mal. Quero ajudar. Alguém matou a Helena. E se a senhora souber algo...' Ela interrompeu-o: 'Não sei quem a matou. Nem quero saber.' Cobriu o rosto com as mãos por um instante. 'Ela era nova... tão nova.' A voz embargou-se.
Houve um momento de silêncio. João arriscou: 'A senhora tem medo, não tem?' Ela descobriu o rosto, os olhos húmidos. 'Tenho. E o senhor devia ter também. Esta terra não é o que parece. Há coisas que é melhor não mexer.' Voltou-lhe as costas e começou a arrumar garrafas na prateleira. 'Agora, se me dá licença, tenho que fechar. Já é tarde.'
João percebeu que não ia tirar mais nada dela. Meteu a mão ao bolso e pousou as moedas no balcão. 'Obrigado pelo café. E pela companhia.' Ela não respondeu. Ele vestiu o casaco e caminhou para a porta.
Antes de sair, olhou para trás. Maria do Carmo apertava o pano de limpeza com força, os ombros tensos, o olhar fixo no chão. Evitava olhar para ele. João sentiu que ela sabia mais do que dizia. Talvez muito mais.
Na taberna, Maria do Carmo evita o olhar de João. Ele sente que ela sabe mais do que diz.