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A Confissão de Maria do Carmo
IA
A Solidão do Inspector
A luz amarelada do candeeiro de petróleo tremia na taberna vazia, desenhando sombras nas paredes caiadas. João Martins empurrou a porta de madeira gasta, o som dos gonzos a ecoar como um gemido. Lá dentro, o cheiro a vinho velho e tabaco frio apertou-lhe o peito. Maria do Carmo estava atrás do balcão, de costas para ele, a esfregar as mãos num pano sujo. O xale de lã, caído nos ombros, dava-lhe um ar ainda mais pesado.
— Boa noite — disse João, com a voz mais suave do que pretendia.
Ela virou-se devagar, os olhos escuros a percorrê-lo como quem avalia uma ameaça. — Já fecho.
— Preciso de falar consigo — insistiu ele, avançando até ao balcão e pousando as mãos na madeira gasta.
Maria do Carmo franziu o sobrolho e continuou a esfregar o balcão, ignorando-o. — O senhor inspector não devia andar a estas horas na rua. Não é seguro.
— Não é seguro onde quer que eu esteja, Dona Maria. — João passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados, um gesto nervoso que repetiu duas vezes. — A senhora sabe disso.
Ela parou de esfregar e fitou-o com intensidade. — Sei que os forasteiros trazem azar. Mas o mal já estava aqui antes de si.
— Que mal? — João inclinou-se para a frente, baixando a voz. — Diga-me, por favor. A senhora esteve no poço. Viu o corpo. Disse aquelas palavras.
Maria do Carmo desviou o olhar e começou a arrumar copos com movimentos bruscos. O tilintar do vidro encheu o silêncio. — Disse o que qualquer um diria. Não sei de nada.
— Sabe. — João engoliu a irritação. — A Helena era sua freguesa. Vinha aqui todos os dias. E a senhora olhou para mim como se eu fosse o culpado.
Ela soltou uma risada seca. — O senhor vê coisas onde não há. Não me admira, com o sangue que tem.
As palavras atingiram-no como uma bofetada. João rangeu os dentes, um ruído subtil que parecia sair de dentro do crânio. — O que quer dizer com isso?
— Nada. — Maria do Carmo atirou o pano para cima do balcão e cruzou os braços. — Vá-se embora.
— A senhora conheceu o meu pai. — A voz de João saiu mais áspera do que ele esperava. — Conheceu?
Ela hesitou. Os dedos começaram a esfregar o polegar contra o indicador, como se desfiasse um rosário invisível. — Conheci.
— E sabia que ele teve... visões?
Maria do Carmo empalideceu, mas não respondeu. João sentiu o estômago revolver-se. — Sabia, não sabia? E sabe que eu também tenho. Desde que cheguei a esta terra, vejo coisas. Vejo a morte. Vejo o que aconteceu antes de acontecer.
— Isso é loucura — murmurou ela, mas a voz tremia.
— Talvez. — João endireitou o corpo, tentando conter o tremor nas mãos. — Mas a loucura ajudou-me a encontrar o corpo da Helena. Não foi sorte, Dona Maria. Foi uma visão. Eu vi-a ser arrastada para o poço. Vi o terror nos olhos dela. E ouvi uma voz. Uma voz que dizia: "É o eco do mal."
Maria do Carmo recuou um passo, como se ele lhe tivesse cuspido em cima. — Não diga isso.
— Porquê? — João aproximou-se, ignorando a barreira do balcão. — Porque é verdade? Porque a senhora também ouve coisas? Também vê?
— Cale-se! — Ela ergueu a mão, o rosto crispado. — Eu não tenho nada a ver com isso.
— Mas tem. — João baixou a voz, investindo num tom mais suave. — Eu vi a forma como olhou para mim naquele dia. Não era raiva. Era medo. Medo de quê? De que eu descobrisse o seu segredo?
Lágrimas começaram a brilhar nos olhos dela, mas Maria do Carmo piscou-as rapidamente. — O senhor não sabe o que está a pedir.
— Sei, sim. — João segurou-se ao balcão com força, os nós dos dedos a branquearem. — Estou a pedir ajuda. Estou sozinho nesta terra, e alguém está a matar pessoas. Alguém que conhece o meu passado, que conhecia o meu pai. E eu... eu estou a perder a cabeça.
A confissão pairou no ar, pesada como chumbo. João inspirou fundo, sentindo o cheiro a incenso que parecia emanar das paredes. — Não sou um homem de fé. Não acredito em milagres. Mas estas visões são reais. E se a senhora sabe alguma coisa, por favor...
Maria do Carmo levou as mãos ao rosto, escondendo-o por um momento. Quando as baixou, a expressão estava descomposta. — O meu pai dizia que o Alentejo é terra de silêncios. Que há coisas que não se contam, porque se contarmos, elas ganham força.
— Isso é uma condenação — retorquiu João. — Ficar calado é deixar o mal crescer.
— E falar é entregar a alma. — Ela olhou para a porta, como se esperasse que alguém entrasse. Depois, com um suspiro, desviou-se do balcão e foi até uma prateleira onde repousava uma chávena de porcelana branca com uma pequena racha. Segurou-a com as duas mãos. — Esta era a chávena da Helena. Ela deixou-a aqui na última noite.
João aproximou-se, o coração a bater com força. — Porque é que a guardou?
— Porque senti... — Maria do Carmo hesitou, os dedos a tremerem. — Senti qualquer coisa quando lhe toquei. Uma coisa má.
— O quê?
Ela abanou a cabeça. — Não posso.
— Pode. — João estendeu a mão, mas não lhe tocou. — Confie em mim. Eu não vou julgá-la.
Os olhos de Maria do Carmo encontraram os dele, e pela primeira vez, João viu não a desconfiança, mas uma solidão tão profunda como a sua. Ela respirou fundo e, com um gesto quase impercetível, pousou a chávena na palma da mão esquerda. Depois, fechou os olhos.
João conteve a respiração.
No silêncio da taberna, apenas o tiquetaque do relógio de parede se ouvia. Os lábios de Maria do Carmo moveram-se, mas nenhum som saiu. De repente, o corpo dela estremeceu como se uma corrente elétrica a percorresse. Os olhos abriram-se, mas não viam: estavam revirados, mostrando apenas a brancura.
— Dona Maria? — João deu um passo em frente, mas algo o deteve.
Ela começou a murmurar, a voz torna-se um sussurro rouco: — Vejo... um montado. Sobreiros retorcidos. O sol está a pôr-se, tudo vermelho... uma cabana de pedra, no meio das árvores...
João sentiu um arrepio na espinha. — O que vê lá dentro?
— Ela está lá. A rapariga. Deitada no chão... os olhos abertos, mas... morta. As mãos... estão atadas. E...
Maria do Carmo soltou um grito abafado e largou a chávena, que se despedaçou no chão. Ela caiu de joelhos, ofegante, as mãos a apertar o peito.
— O que foi? — João baixou-se e agarrou-lhe os ombros. — Conte-me!
— Havia... um homem. Sombrio. Ele... ele arrastou-a para dentro da cabana e... — As lágrimas corriam-lhe agora sem controlo. — Eu vi a cara dele. Vi a maldade.
— Quem era?
Ela abanou a cabeça, soluçando. — Não sei o nome. Mas conhecia-me. Os olhos... ele olhou para mim através da visão. Sabia que eu estava a ver.
João apertou-lhe os ombros com mais força, tentando ancorá-la no presente. — A senhora tem o dom. Tal como eu. Tal como o meu pai.
Maria do Carmo encarou-o, o terror a dar lugar a uma tristeza profunda. — A minha avó queimou por causa disto. Chamaram-lhe bruxa. E eu... eu jurei nunca contar a ninguém.
— Mas contou-me a mim. — João ajudou-a a levantar-se, sentindo o peso do corpo dela nos seus braços. — E eu acredito em si.
Ela limpou as lágrimas com as costas da mão, o gesto brusco de quem não quer mostrar fraqueza. — Isto é uma maldição, inspector.
— É uma dádiva maldita — corrigiu ele, com um sorriso amargo. — Mas ajudou-me a encontrar um corpo. E agora, pode ajudar-me a encontrar o assassino.
Maria do Carmo respirou fundo, recompondo-se. Pegou no xale que caíra e puxou-o sobre os ombros. — A cabana que vi... eu sei onde é. Fica no montado dos Azinheiros, para lá do ribeiro.
— Vamos lá — disse João, decidido.
— Agora? — Ela recuou, o medo a regressar. — Não. Amanhã. De manhã. Preciso de... de me preparar.
João assentiu. — Está bem. Amanhã.
Ficaram ali, no meio dos cacos da chávena e do silêncio, duas figuras assombradas por vozes que mais ninguém ouvia. E pela primeira vez em muito tempo, João Martins sentiu que não estava completamente sozinho.
O Toque da Chávena
O relógio de parede bateu as onze horas, o som metálico a reverberar no vazio da taberna. Maria do Carmo, ainda trémula, ajoelhou-se e começou a recolher os pedaços da chávena partida. João fez menção de a ajudar, mas ela deteve-o com um gesto.
— Não. Isto é meu. — A voz saiu-lhe embargada, mas firme. — O senhor... o senhor não devia ter visto.
— A senhora precisava de partilhar — respondeu João, recuando para lhe dar espaço, mas mantendo-se perto. — Guardar um segredo destes corrói a alma.
Ela soltou uma gargalhada triste. — E o senhor inspetor acha que contar resolve? Olhe para mim: uma velha com visões, a falar com um forasteiro. Se alguém descobre, chamam-me louca. Ou pior.
— Eu sei o que isso é. — João apoiou-se no balcão, os ombros pesados. — Todos os dias acordo com medo de que a minha sanidade se desfaça como esta chávena.
Maria do Carmo levantou-se, deixando os cacos num montinho sobre o balcão. As mãos tremiam-lhe, mas o olhar, agora, era mais límpido. — Conheci o seu pai, sabia? Ele veio a Alpedreza há muitos anos. Investigava um caso.
João estremeceu. — Que caso?
— Ninguém me contou. Mas lembro-me dele a andar pela vila, sempre a olhar para trás, como se o seguissem. — Ela esfregou o polegar contra os dedos, o gesto habitual. — Um dia, desapareceu. Disseram que voltou para Évora.
— Ele matou-se. — As palavras saíram secas da boca de João. — Pouco depois.
Maria do Carmo assentiu, os lábios apertados. — Eu sei. E sei que ele via coisas. Como o senhor. Como eu.
João encarou-a, uma urgência a crescer-lhe no peito. — O que mais sabe sobre o meu pai?
— Nada. — Ela desviou o olhar, mas havia uma sombra de mentira na voz. — Só que ele era um homem atormentado. Como todos nós.
— Dona Maria... — João deu um passo em frente. — O ourives, Adriano Saragoça, mencionou-o. Disse que o meu pai sofria de visões. Que eu tinha herdado a maldição.
Ela crispou o rosto. — Esse homem é veneno. Não confie nele.
— Não confio. Mas preciso de respostas. E a senhora parece ter mais umas quantas. — João inclinou a cabeça, tentando ler-lhe a expressão. — A chávena... o que viu exatamente?
Maria do Carmo suspirou e apoiou-se no balcão, como se as pernas lhe faltassem. — Foi como entrar num pesadelo acordada. Senti o frio da terra, o cheiro a mofo e a medo. A rapariga... a Helena... estava deitada de lado, com as mãos atadas atrás das costas. O cabelo escuro espalhado no chão de terra batida. E os olhos... abertos, mas vazios. Já não estava lá.
— E o homem?
— Uma sombra. Não lhe vi a cara, mas senti a maldade a escorrer dele. Ele virou-se para mim, e eu soube que me viu. — Estremeceu de novo. — Foi como se me tocasse. E depois...
— Depois?
— Ouvi a voz. A mesma que o senhor disse. "É o eco do mal." — Maria do Carmo segurou a cabeça com as mãos. — É uma maldição, inspetor. Esta terra está amaldiçoada.
João sentiu um nó no estômago. — A minha visão foi igual. A mesma frase.
— Então alguém quer que nós a ouçamos. — Ela ergueu os olhos, iluminados por uma súbita compreensão. — Alguém que conhece os nossos dons.
— Adriano?
— Talvez. Mas há mais. — Maria do Carmo endireitou as costas, recuperando um pouco da sua postura habitual. — A minha avó dizia que o mal de Alpedreza era antigo. Que vinha de um tempo em que as pessoas faziam pactos com sombras. E que certas famílias... herdavam a capacidade de ver.
— Como a sua e a minha.
Ela assentiu. — O meu dom é diferente do seu. Eu não vejo o futuro. Sinto o que aconteceu num objeto. A chávena guardava o último momento da Helena. O terror, a morte.
— Psiquometria — murmurou João, mais para si mesmo. — Já li sobre isso.
— Não sei de nomes. Só sei que é uma cruz. — Maria do Carmo levou a mão ao peito, onde trazia uma medalha de prata. — Mas se o senhor está disposto a ir atrás do assassino, eu vou consigo.
João sentiu uma onda de gratidão, misturada com apreensão. — Tem a certeza? Pode ser perigoso.
— Perigoso é continuar calada. — Ela forçou um sorriso triste. — A minha avó morreu porque ninguém lhe deu ouvidos. Eu não vou cometer o mesmo erro.
— Obrigado, Dona Maria. — João estendeu a mão, e ela, depois de uma hesitação, apertou-a. A palma calejada transmitiu-lhe uma solidez que há muito não sentia.
Ficaram assim por um instante, duas almas feridas a reconhecerem-se na escuridão. Depois, Maria do Carmo retirou a mão e foi até um armário atrás do balcão. Tirou de lá uma garrafa de aguardente e dois copos.
— Precisamos de coragem — disse, enchendo-os. — Beba.
João aceitou o copo e bebeu de um trago, o líquido a queimar-lhe a garganta. — Amanhã, ao amanhecer, vamos ao montado dos Azinheiros.
— Sim. — Ela também bebeu, os olhos fixos num ponto distante. — Mas temos de ir preparados. O homem que vi não é humano. Não completamente.
— O que quer dizer?
— Havia qualquer coisa nele... uma sombra à volta, como se a escuridão o abraçasse. — Ela pousou o copo com força. — Vai precisar de mais do que a sua pistola, inspetor.
João franziu o sobrolho. — Então de quê?
— De fé. — Maria do Carmo fitou-o com uma intensidade quase fervorosa. — Não na igreja, mas em si. Na sua força. E em mim.
Ele ia responder, mas a porta da taberna rangeu. Ambos se viraram, tensos. Era apenas o vento, que entrou lufadas de ar frio e fez dançar a chama do candeeiro. Maria do Carmo suspirou, aliviada, e foi fechar a porta com a tranca.
— Esta noite, ninguém mais entra — declarou. — Amanhã, quando o sol nascer, vamos.
João assentiu, o coração a martelar. Pela primeira vez desde que chegara a Alpedreza, sentia que tinha um rumo. E uma aliada.
Terminaram a aguardente em silêncio. Depois, Maria do Carmo levou os copos e os cacos da chávena para trás do balcão, enquanto João se encaminhava para a porta.
— Até amanhã, Dona Maria.
— Até amanhã, inspector. — Ela hesitou. — E... chame-me Maria.
João sorriu, um sorriso cansado mas genuíno. — Maria.
Saiu para a noite fria, o eco dos seus passos a perder-se na rua deserta. Lá dentro, Maria do Carmo apagou o candeeiro e ficou às escuras, a rezar em silêncio por coragem.
A Promessa no Montado
João não dormiu. Passou a noite sentado à beira da cama, na pensão, a repassar cada palavra trocada com Maria do Carmo. As sombras do quarto pareciam ganhar forma, mas ele forçava-se a ignorá-las.
Ao primeiro raio de luz, vestiu o casaco puído e saiu. A vila ainda dormia, envolta num silêncio denso que só o cantar distante de um galo quebrava. As ruas de calçada irregular estavam húmidas de orvalho, e o frio da manhã colava-se-lhe à pele.
Na taberna, Maria do Carmo já o esperava. Vestia um vestido escuro, o xale de lã bem preso nos ombros, e calçara botas robustas. Nos braços, segurava um cesto de verga coberto com um pano.
— Bom dia — cumprimentou ela, a voz baixa mas determinada.
— Bons dias, Maria — respondeu João, notando as olheiras profundas que ela também exibia. — Não dormiu?
— Quem dorme com visões na cabeça? — Ela forçou um sorriso. — Trouxe pão, queijo e uma garrafa de água. Não sabemos quanto tempo vamos andar.
— Bem pensado. — João ajustou o cinto da pistola, um gesto instintivo. — Conhece bem o caminho?
— Como a palma da minha mão. A cabana que vi é a velha casa do guarda-florestal. Abandonada há anos. Fica para lá do ribeiro, depois dos sobreiros grandes.
Saíram da taberna e começaram a caminhar pela rua principal, as fachadas caiadas a observá-los como testemunhas mudas. Ao passarem pela igreja, o sino tocou as seis horas, um som grave que pareceu envolvê-los.
— Já estamos em outubro — murmurou Maria do Carmo. — O mês em que a minha avó foi queimada.
João olhou-a de lado. — Acredita que o mal é o mesmo que a matou?
— Não duvido. O mal não morre. Transforma-se, esconde-se, mas está sempre à espera.
Deixaram a vila para trás e entraram num caminho de terra batida, ladeado por azinheiras e oliveiras retorcidas. O montado abria-se à sua frente, um mar de sombras e silêncios. O ar cheirava a terra molhada e a erva seca.
Andaram em silêncio durante uns bons minutos, apenas o som dos seus passos e o chilrear tímido dos pássaros a acompanhá-los. De repente, Maria estacou.
— É aqui — disse, apontando para um desvio quase impercetível entre as árvores. — Depois daquele sobreiro caído.
João seguiu-a, atento a qualquer movimento. A vegetação tornava-se mais densa, os ramos a roçarem-lhes a roupa. O coração batia-lhe com força, não de medo, mas de uma expectativa quase insuportável.
Finalmente, a cabana surgiu. Era uma construção de pedra tosca, com o telhado meio derrubado e a porta de madeira podre entreaberta. Uma aura de abandono e desolação pairava sobre ela, mas havia algo mais, uma sensação opressiva que fez a pele de João se arrepiar.
— É a mesma da visão — sussurrou Maria, a voz a tremer.
— Vamos entrar? — João puxou a pistola, o metal frio a dar-lhe uma ilusão de segurança.
— Ainda não. — Ela pousou o cesto no chão e fechou os olhos, estendendo a mão para a parede de pedra. Os dedos tocaram na superfície rugosa, e ela estremeceu. — Ela esteve aqui. A Helena. Sinto o medo dela.
— Há quanto tempo?
— Dias. Talvez uma semana. — Maria abriu os olhos, banhados em lágrimas. — Ele trouxe-a para aqui e... fez coisas. Coisas más.
João sentiu a raiva crescer. — Vamos acabar com isto.
Empurrou a porta com o ombro, e ela cedeu com um rangido lúgubre. O interior da cabana estava mergulhado na penumbra, o cheiro a mofo e a algo mais, algo orgânico e doentio, invadiu-lhes as narinas. João acendeu uma lanterna que trazia no bolso e percorreu o espaço com o feixe de luz.
A cena era exatamente como Maria descrevera: um chão de terra batida, manchas escuras que podiam ser sangue, e num canto, um pedaço de corda manchada. Mas nenhum corpo.
— Não está aqui — disse João, frustrado.
— Ele levou-a — respondeu Maria, abraçando-se a si mesma. — Mas deixou um aviso.
— O quê?
Ela apontou para a parede oposta, onde alguém riscara com carvão uma frase: "O eco nunca morre." João sentiu um arrepio. As mesmas palavras da sua visão, distorcidas.
— Está a gozar connosco — rosnou.
— Ou a guiar-nos — retorquiu Maria, com uma calma inesperada. — Isto significa que não estamos errados. O assassino sabe que estamos atrás dele.
— E isso torna-o mais perigoso.
— E a nós, mais determinados.
Fitaram-se por um momento, e João viu nos olhos de Maria a mesma chama que sentia dentro de si. Uma chama de teimosia e de raiva contida.
— O que fazemos agora? — perguntou ele.
— Voltamos à vila. Precisamos de mais informações. E temos de descobrir quem mais sabe a verdade.
— Adriano.
— Esse é o centro da teia. Mas há outros fios. — Maria pegou no cesto e começou a caminhar para fora. — Temos de ter cuidado. Se ele descobre que nos aliámos, pode vir atrás de nós.
— Já veio atrás de si? — João seguiu-a, a lanterna ainda acesa.
— Não diretamente. Mas desde que o corpo da Helena apareceu, sinto-me observada. Como se uma sombra me seguisse.
— Vamos proteger-nos. Juntos. — João alcançou-a e tocou-lhe no ombro, um gesto que já não era de inspector para testemunha, mas de camarada para camarada.
Ela virou-se e encarou-o. — Obrigada, João.
— Eu é que agradeço, Maria. Não sei se conseguiria fazer isto sozinho.
Caminharam de volta para a vila em silêncio, mas era um silêncio cúmplice. O sol já ia alto, dissipando as sombras do montado, mas no coração de ambos, a escuridão daquela cabana permanecia.
Ao chegarem à rua principal, Maria parou em frente à taberna. — Preciso de falar com uma pessoa. Alguém que pode ajudar.
— Quem?
— Dona Adelaide, a herborista. Ela conhece as histórias antigas. Talvez saiba explicar a origem deste mal.
— E pode confiar nela?
— Confiei toda a minha vida. — Maria apertou o xale. — Mas até agora, nunca lhe perguntei sobre as sombras.
— Vá ter com ela. Eu vou à esquadra. Preciso de avisar o Lopes para manter os olhos abertos.
— Não diga nada sobre a cabana.
— Porquê?
— Porque se o mal sabe que fomos lá, pode apagar as provas. E nós precisamos de manter a vantagem.
João assentiu. — Encontramo-nos mais tarde, então.
— À noite, na taberna. Depois das dez.
— Está bem.
Separaram-se. João seguiu para a esquadra, mas a mente estava longe, presa naquela cabana e na mensagem na parede. Maria do Carmo, por seu lado, encaminhou-se para a casa de Dona Adelaide, nos arredores da vila, com o cesto ainda na mão e o coração apertado.
A verdade estava próxima, e ambos sabiam que ir atrás dela podia custar-lhes tudo. Mas pela primeira vez, não estavam sozinhos. E isso fazia toda a diferença.
Quando o sol se pôs, a taberna voltou a encher-se de sombras. Mas desta vez, quando João entrou, não sentiu o mesmo peso. Maria do Carmo esperava-o atrás do balcão, um sorriso cansado nos lábios.
— A Adelaide sabe coisas — disse ela, sem preâmbulos. — Coisas que me deixaram ainda mais assustada.
— Conte-me.
Ela hesitou, olhando para a porta. — Agora não. Amanhã. Precisamos de descansar.
— E o montado?
— O montado pode esperar mais um dia. — Maria suspirou. — Mas amanhã, temos de ir mais fundo. Há uma mina abandonada perto da cabana. A Adelaide acha que o mal pode estar concentrado lá.
— Uma mina?
— Sim. Dizem que foi lá que tudo começou, há muitos anos.
João sentiu um calafrio. — Então é lá que vamos.
— Amanhã. — Maria pousou as mãos no balcão, o olhar sério. — Mas antes, preciso que me prometa uma coisa.
— O quê?
— Que não vai fazer nenhuma loucura. Que não vai tentar enfrentar esse homem sozinho.
— Prometo — disse João, e pela primeira vez em muito tempo, acreditou na própria palavra.
Os dois combinaram ir ao montado no dia seguinte.
A luz amarelada do candeeiro de petróleo tremia na taberna vazia, desenhando sombras nas paredes caiadas. João Martins empurrou a porta de madeira gasta, o som dos gonzos a ecoar como um gemido. Lá dentro, o cheiro a vinho velho e tabaco frio apertou-lhe o peito. Maria do Carmo estava atrás do balcão, de costas para ele, a esfregar as mãos num pano sujo. O xale de lã, caído nos ombros, dava-lhe um ar ainda mais pesado.
— Boa noite — disse João, com a voz mais suave do que pretendia.
Ela virou-se devagar, os olhos escuros a percorrê-lo como quem avalia uma ameaça. — Já fecho.
— Preciso de falar consigo — insistiu ele, avançando até ao balcão e pousando as mãos na madeira gasta.
Maria do Carmo franziu o sobrolho e continuou a esfregar o balcão, ignorando-o. — O senhor inspector não devia andar a estas horas na rua. Não é seguro.
— Não é seguro onde quer que eu esteja, Dona Maria. — João passou a mão esquerda pelos cabelos desgrenhados, um gesto nervoso que repetiu duas vezes. — A senhora sabe disso.
Ela parou de esfregar e fitou-o com intensidade. — Sei que os forasteiros trazem azar. Mas o mal já estava aqui antes de si.
— Que mal? — João inclinou-se para a frente, baixando a voz. — Diga-me, por favor. A senhora esteve no poço. Viu o corpo. Disse aquelas palavras.
Maria do Carmo desviou o olhar e começou a arrumar copos com movimentos bruscos. O tilintar do vidro encheu o silêncio. — Disse o que qualquer um diria. Não sei de nada.
— Sabe. — João engoliu a irritação. — A Helena era sua freguesa. Vinha aqui todos os dias. E a senhora olhou para mim como se eu fosse o culpado.
Ela soltou uma risada seca. — O senhor vê coisas onde não há. Não me admira, com o sangue que tem.
As palavras atingiram-no como uma bofetada. João rangeu os dentes, um ruído subtil que parecia sair de dentro do crânio. — O que quer dizer com isso?
— Nada. — Maria do Carmo atirou o pano para cima do balcão e cruzou os braços. — Vá-se embora.
— A senhora conheceu o meu pai. — A voz de João saiu mais áspera do que ele esperava. — Conheceu?
Ela hesitou. Os dedos começaram a esfregar o polegar contra o indicador, como se desfiasse um rosário invisível. — Conheci.
— E sabia que ele teve... visões?
Maria do Carmo empalideceu, mas não respondeu. João sentiu o estômago revolver-se. — Sabia, não sabia? E sabe que eu também tenho. Desde que cheguei a esta terra, vejo coisas. Vejo a morte. Vejo o que aconteceu antes de acontecer.
— Isso é loucura — murmurou ela, mas a voz tremia.
— Talvez. — João endireitou o corpo, tentando conter o tremor nas mãos. — Mas a loucura ajudou-me a encontrar o corpo da Helena. Não foi sorte, Dona Maria. Foi uma visão. Eu vi-a ser arrastada para o poço. Vi o terror nos olhos dela. E ouvi uma voz. Uma voz que dizia: "É o eco do mal."
Maria do Carmo recuou um passo, como se ele lhe tivesse cuspido em cima. — Não diga isso.
— Porquê? — João aproximou-se, ignorando a barreira do balcão. — Porque é verdade? Porque a senhora também ouve coisas? Também vê?
— Cale-se! — Ela ergueu a mão, o rosto crispado. — Eu não tenho nada a ver com isso.
— Mas tem. — João baixou a voz, investindo num tom mais suave. — Eu vi a forma como olhou para mim naquele dia. Não era raiva. Era medo. Medo de quê? De que eu descobrisse o seu segredo?
Lágrimas começaram a brilhar nos olhos dela, mas Maria do Carmo piscou-as rapidamente. — O senhor não sabe o que está a pedir.
— Sei, sim. — João segurou-se ao balcão com força, os nós dos dedos a branquearem. — Estou a pedir ajuda. Estou sozinho nesta terra, e alguém está a matar pessoas. Alguém que conhece o meu passado, que conhecia o meu pai. E eu... eu estou a perder a cabeça.
A confissão pairou no ar, pesada como chumbo. João inspirou fundo, sentindo o cheiro a incenso que parecia emanar das paredes. — Não sou um homem de fé. Não acredito em milagres. Mas estas visões são reais. E se a senhora sabe alguma coisa, por favor...
Maria do Carmo levou as mãos ao rosto, escondendo-o por um momento. Quando as baixou, a expressão estava descomposta. — O meu pai dizia que o Alentejo é terra de silêncios. Que há coisas que não se contam, porque se contarmos, elas ganham força.
— Isso é uma condenação — retorquiu João. — Ficar calado é deixar o mal crescer.
— E falar é entregar a alma. — Ela olhou para a porta, como se esperasse que alguém entrasse. Depois, com um suspiro, desviou-se do balcão e foi até uma prateleira onde repousava uma chávena de porcelana branca com uma pequena racha. Segurou-a com as duas mãos. — Esta era a chávena da Helena. Ela deixou-a aqui na última noite.
João aproximou-se, o coração a bater com força. — Porque é que a guardou?
— Porque senti... — Maria do Carmo hesitou, os dedos a tremerem. — Senti qualquer coisa quando lhe toquei. Uma coisa má.
— O quê?
Ela abanou a cabeça. — Não posso.
— Pode. — João estendeu a mão, mas não lhe tocou. — Confie em mim. Eu não vou julgá-la.
Os olhos de Maria do Carmo encontraram os dele, e pela primeira vez, João viu não a desconfiança, mas uma solidão tão profunda como a sua. Ela respirou fundo e, com um gesto quase impercetível, pousou a chávena na palma da mão esquerda. Depois, fechou os olhos.
João conteve a respiração.
No silêncio da taberna, apenas o tiquetaque do relógio de parede se ouvia. Os lábios de Maria do Carmo moveram-se, mas nenhum som saiu. De repente, o corpo dela estremeceu como se uma corrente elétrica a percorresse. Os olhos abriram-se, mas não viam: estavam revirados, mostrando apenas a brancura.
— Dona Maria? — João deu um passo em frente, mas algo o deteve.
Ela começou a murmurar, a voz torna-se um sussurro rouco: — Vejo... um montado. Sobreiros retorcidos. O sol está a pôr-se, tudo vermelho... uma cabana de pedra, no meio das árvores...
João sentiu um arrepio na espinha. — O que vê lá dentro?
— Ela está lá. A rapariga. Deitada no chão... os olhos abertos, mas... morta. As mãos... estão atadas. E...
Maria do Carmo soltou um grito abafado e largou a chávena, que se despedaçou no chão. Ela caiu de joelhos, ofegante, as mãos a apertar o peito.
— O que foi? — João baixou-se e agarrou-lhe os ombros. — Conte-me!
— Havia... um homem. Sombrio. Ele... ele arrastou-a para dentro da cabana e... — As lágrimas corriam-lhe agora sem controlo. — Eu vi a cara dele. Vi a maldade.
— Quem era?
Ela abanou a cabeça, soluçando. — Não sei o nome. Mas conhecia-me. Os olhos... ele olhou para mim através da visão. Sabia que eu estava a ver.
João apertou-lhe os ombros com mais força, tentando ancorá-la no presente. — A senhora tem o dom. Tal como eu. Tal como o meu pai.
Maria do Carmo encarou-o, o terror a dar lugar a uma tristeza profunda. — A minha avó queimou por causa disto. Chamaram-lhe bruxa. E eu... eu jurei nunca contar a ninguém.
— Mas contou-me a mim. — João ajudou-a a levantar-se, sentindo o peso do corpo dela nos seus braços. — E eu acredito em si.
Ela limpou as lágrimas com as costas da mão, o gesto brusco de quem não quer mostrar fraqueza. — Isto é uma maldição, inspector.
— É uma dádiva maldita — corrigiu ele, com um sorriso amargo. — Mas ajudou-me a encontrar um corpo. E agora, pode ajudar-me a encontrar o assassino.
Maria do Carmo respirou fundo, recompondo-se. Pegou no xale que caíra e puxou-o sobre os ombros. — A cabana que vi... eu sei onde é. Fica no montado dos Azinheiros, para lá do ribeiro.
— Vamos lá — disse João, decidido.
— Agora? — Ela recuou, o medo a regressar. — Não. Amanhã. De manhã. Preciso de... de me preparar.
João assentiu. — Está bem. Amanhã.
Ficaram ali, no meio dos cacos da chávena e do silêncio, duas figuras assombradas por vozes que mais ninguém ouvia. E pela primeira vez em muito tempo, João Martins sentiu que não estava completamente sozinho.
O Toque da Chávena
O relógio de parede bateu as onze horas, o som metálico a reverberar no vazio da taberna. Maria do Carmo, ainda trémula, ajoelhou-se e começou a recolher os pedaços da chávena partida. João fez menção de a ajudar, mas ela deteve-o com um gesto.
— Não. Isto é meu. — A voz saiu-lhe embargada, mas firme. — O senhor... o senhor não devia ter visto.
— A senhora precisava de partilhar — respondeu João, recuando para lhe dar espaço, mas mantendo-se perto. — Guardar um segredo destes corrói a alma.
Ela soltou uma gargalhada triste. — E o senhor inspetor acha que contar resolve? Olhe para mim: uma velha com visões, a falar com um forasteiro. Se alguém descobre, chamam-me louca. Ou pior.
— Eu sei o que isso é. — João apoiou-se no balcão, os ombros pesados. — Todos os dias acordo com medo de que a minha sanidade se desfaça como esta chávena.
Maria do Carmo levantou-se, deixando os cacos num montinho sobre o balcão. As mãos tremiam-lhe, mas o olhar, agora, era mais límpido. — Conheci o seu pai, sabia? Ele veio a Alpedreza há muitos anos. Investigava um caso.
João estremeceu. — Que caso?
— Ninguém me contou. Mas lembro-me dele a andar pela vila, sempre a olhar para trás, como se o seguissem. — Ela esfregou o polegar contra os dedos, o gesto habitual. — Um dia, desapareceu. Disseram que voltou para Évora.
— Ele matou-se. — As palavras saíram secas da boca de João. — Pouco depois.
Maria do Carmo assentiu, os lábios apertados. — Eu sei. E sei que ele via coisas. Como o senhor. Como eu.
João encarou-a, uma urgência a crescer-lhe no peito. — O que mais sabe sobre o meu pai?
— Nada. — Ela desviou o olhar, mas havia uma sombra de mentira na voz. — Só que ele era um homem atormentado. Como todos nós.
— Dona Maria... — João deu um passo em frente. — O ourives, Adriano Saragoça, mencionou-o. Disse que o meu pai sofria de visões. Que eu tinha herdado a maldição.
Ela crispou o rosto. — Esse homem é veneno. Não confie nele.
— Não confio. Mas preciso de respostas. E a senhora parece ter mais umas quantas. — João inclinou a cabeça, tentando ler-lhe a expressão. — A chávena... o que viu exatamente?
Maria do Carmo suspirou e apoiou-se no balcão, como se as pernas lhe faltassem. — Foi como entrar num pesadelo acordada. Senti o frio da terra, o cheiro a mofo e a medo. A rapariga... a Helena... estava deitada de lado, com as mãos atadas atrás das costas. O cabelo escuro espalhado no chão de terra batida. E os olhos... abertos, mas vazios. Já não estava lá.
— E o homem?
— Uma sombra. Não lhe vi a cara, mas senti a maldade a escorrer dele. Ele virou-se para mim, e eu soube que me viu. — Estremeceu de novo. — Foi como se me tocasse. E depois...
— Depois?
— Ouvi a voz. A mesma que o senhor disse. "É o eco do mal." — Maria do Carmo segurou a cabeça com as mãos. — É uma maldição, inspetor. Esta terra está amaldiçoada.
João sentiu um nó no estômago. — A minha visão foi igual. A mesma frase.
— Então alguém quer que nós a ouçamos. — Ela ergueu os olhos, iluminados por uma súbita compreensão. — Alguém que conhece os nossos dons.
— Adriano?
— Talvez. Mas há mais. — Maria do Carmo endireitou as costas, recuperando um pouco da sua postura habitual. — A minha avó dizia que o mal de Alpedreza era antigo. Que vinha de um tempo em que as pessoas faziam pactos com sombras. E que certas famílias... herdavam a capacidade de ver.
— Como a sua e a minha.
Ela assentiu. — O meu dom é diferente do seu. Eu não vejo o futuro. Sinto o que aconteceu num objeto. A chávena guardava o último momento da Helena. O terror, a morte.
— Psiquometria — murmurou João, mais para si mesmo. — Já li sobre isso.
— Não sei de nomes. Só sei que é uma cruz. — Maria do Carmo levou a mão ao peito, onde trazia uma medalha de prata. — Mas se o senhor está disposto a ir atrás do assassino, eu vou consigo.
João sentiu uma onda de gratidão, misturada com apreensão. — Tem a certeza? Pode ser perigoso.
— Perigoso é continuar calada. — Ela forçou um sorriso triste. — A minha avó morreu porque ninguém lhe deu ouvidos. Eu não vou cometer o mesmo erro.
— Obrigado, Dona Maria. — João estendeu a mão, e ela, depois de uma hesitação, apertou-a. A palma calejada transmitiu-lhe uma solidez que há muito não sentia.
Ficaram assim por um instante, duas almas feridas a reconhecerem-se na escuridão. Depois, Maria do Carmo retirou a mão e foi até um armário atrás do balcão. Tirou de lá uma garrafa de aguardente e dois copos.
— Precisamos de coragem — disse, enchendo-os. — Beba.
João aceitou o copo e bebeu de um trago, o líquido a queimar-lhe a garganta. — Amanhã, ao amanhecer, vamos ao montado dos Azinheiros.
— Sim. — Ela também bebeu, os olhos fixos num ponto distante. — Mas temos de ir preparados. O homem que vi não é humano. Não completamente.
— O que quer dizer?
— Havia qualquer coisa nele... uma sombra à volta, como se a escuridão o abraçasse. — Ela pousou o copo com força. — Vai precisar de mais do que a sua pistola, inspetor.
João franziu o sobrolho. — Então de quê?
— De fé. — Maria do Carmo fitou-o com uma intensidade quase fervorosa. — Não na igreja, mas em si. Na sua força. E em mim.
Ele ia responder, mas a porta da taberna rangeu. Ambos se viraram, tensos. Era apenas o vento, que entrou lufadas de ar frio e fez dançar a chama do candeeiro. Maria do Carmo suspirou, aliviada, e foi fechar a porta com a tranca.
— Esta noite, ninguém mais entra — declarou. — Amanhã, quando o sol nascer, vamos.
João assentiu, o coração a martelar. Pela primeira vez desde que chegara a Alpedreza, sentia que tinha um rumo. E uma aliada.
Terminaram a aguardente em silêncio. Depois, Maria do Carmo levou os copos e os cacos da chávena para trás do balcão, enquanto João se encaminhava para a porta.
— Até amanhã, Dona Maria.
— Até amanhã, inspector. — Ela hesitou. — E... chame-me Maria.
João sorriu, um sorriso cansado mas genuíno. — Maria.
Saiu para a noite fria, o eco dos seus passos a perder-se na rua deserta. Lá dentro, Maria do Carmo apagou o candeeiro e ficou às escuras, a rezar em silêncio por coragem.
A Promessa no Montado
João não dormiu. Passou a noite sentado à beira da cama, na pensão, a repassar cada palavra trocada com Maria do Carmo. As sombras do quarto pareciam ganhar forma, mas ele forçava-se a ignorá-las.
Ao primeiro raio de luz, vestiu o casaco puído e saiu. A vila ainda dormia, envolta num silêncio denso que só o cantar distante de um galo quebrava. As ruas de calçada irregular estavam húmidas de orvalho, e o frio da manhã colava-se-lhe à pele.
Na taberna, Maria do Carmo já o esperava. Vestia um vestido escuro, o xale de lã bem preso nos ombros, e calçara botas robustas. Nos braços, segurava um cesto de verga coberto com um pano.
— Bom dia — cumprimentou ela, a voz baixa mas determinada.
— Bons dias, Maria — respondeu João, notando as olheiras profundas que ela também exibia. — Não dormiu?
— Quem dorme com visões na cabeça? — Ela forçou um sorriso. — Trouxe pão, queijo e uma garrafa de água. Não sabemos quanto tempo vamos andar.
— Bem pensado. — João ajustou o cinto da pistola, um gesto instintivo. — Conhece bem o caminho?
— Como a palma da minha mão. A cabana que vi é a velha casa do guarda-florestal. Abandonada há anos. Fica para lá do ribeiro, depois dos sobreiros grandes.
Saíram da taberna e começaram a caminhar pela rua principal, as fachadas caiadas a observá-los como testemunhas mudas. Ao passarem pela igreja, o sino tocou as seis horas, um som grave que pareceu envolvê-los.
— Já estamos em outubro — murmurou Maria do Carmo. — O mês em que a minha avó foi queimada.
João olhou-a de lado. — Acredita que o mal é o mesmo que a matou?
— Não duvido. O mal não morre. Transforma-se, esconde-se, mas está sempre à espera.
Deixaram a vila para trás e entraram num caminho de terra batida, ladeado por azinheiras e oliveiras retorcidas. O montado abria-se à sua frente, um mar de sombras e silêncios. O ar cheirava a terra molhada e a erva seca.
Andaram em silêncio durante uns bons minutos, apenas o som dos seus passos e o chilrear tímido dos pássaros a acompanhá-los. De repente, Maria estacou.
— É aqui — disse, apontando para um desvio quase impercetível entre as árvores. — Depois daquele sobreiro caído.
João seguiu-a, atento a qualquer movimento. A vegetação tornava-se mais densa, os ramos a roçarem-lhes a roupa. O coração batia-lhe com força, não de medo, mas de uma expectativa quase insuportável.
Finalmente, a cabana surgiu. Era uma construção de pedra tosca, com o telhado meio derrubado e a porta de madeira podre entreaberta. Uma aura de abandono e desolação pairava sobre ela, mas havia algo mais, uma sensação opressiva que fez a pele de João se arrepiar.
— É a mesma da visão — sussurrou Maria, a voz a tremer.
— Vamos entrar? — João puxou a pistola, o metal frio a dar-lhe uma ilusão de segurança.
— Ainda não. — Ela pousou o cesto no chão e fechou os olhos, estendendo a mão para a parede de pedra. Os dedos tocaram na superfície rugosa, e ela estremeceu. — Ela esteve aqui. A Helena. Sinto o medo dela.
— Há quanto tempo?
— Dias. Talvez uma semana. — Maria abriu os olhos, banhados em lágrimas. — Ele trouxe-a para aqui e... fez coisas. Coisas más.
João sentiu a raiva crescer. — Vamos acabar com isto.
Empurrou a porta com o ombro, e ela cedeu com um rangido lúgubre. O interior da cabana estava mergulhado na penumbra, o cheiro a mofo e a algo mais, algo orgânico e doentio, invadiu-lhes as narinas. João acendeu uma lanterna que trazia no bolso e percorreu o espaço com o feixe de luz.
A cena era exatamente como Maria descrevera: um chão de terra batida, manchas escuras que podiam ser sangue, e num canto, um pedaço de corda manchada. Mas nenhum corpo.
— Não está aqui — disse João, frustrado.
— Ele levou-a — respondeu Maria, abraçando-se a si mesma. — Mas deixou um aviso.
— O quê?
Ela apontou para a parede oposta, onde alguém riscara com carvão uma frase: "O eco nunca morre." João sentiu um arrepio. As mesmas palavras da sua visão, distorcidas.
— Está a gozar connosco — rosnou.
— Ou a guiar-nos — retorquiu Maria, com uma calma inesperada. — Isto significa que não estamos errados. O assassino sabe que estamos atrás dele.
— E isso torna-o mais perigoso.
— E a nós, mais determinados.
Fitaram-se por um momento, e João viu nos olhos de Maria a mesma chama que sentia dentro de si. Uma chama de teimosia e de raiva contida.
— O que fazemos agora? — perguntou ele.
— Voltamos à vila. Precisamos de mais informações. E temos de descobrir quem mais sabe a verdade.
— Adriano.
— Esse é o centro da teia. Mas há outros fios. — Maria pegou no cesto e começou a caminhar para fora. — Temos de ter cuidado. Se ele descobre que nos aliámos, pode vir atrás de nós.
— Já veio atrás de si? — João seguiu-a, a lanterna ainda acesa.
— Não diretamente. Mas desde que o corpo da Helena apareceu, sinto-me observada. Como se uma sombra me seguisse.
— Vamos proteger-nos. Juntos. — João alcançou-a e tocou-lhe no ombro, um gesto que já não era de inspector para testemunha, mas de camarada para camarada.
Ela virou-se e encarou-o. — Obrigada, João.
— Eu é que agradeço, Maria. Não sei se conseguiria fazer isto sozinho.
Caminharam de volta para a vila em silêncio, mas era um silêncio cúmplice. O sol já ia alto, dissipando as sombras do montado, mas no coração de ambos, a escuridão daquela cabana permanecia.
Ao chegarem à rua principal, Maria parou em frente à taberna. — Preciso de falar com uma pessoa. Alguém que pode ajudar.
— Quem?
— Dona Adelaide, a herborista. Ela conhece as histórias antigas. Talvez saiba explicar a origem deste mal.
— E pode confiar nela?
— Confiei toda a minha vida. — Maria apertou o xale. — Mas até agora, nunca lhe perguntei sobre as sombras.
— Vá ter com ela. Eu vou à esquadra. Preciso de avisar o Lopes para manter os olhos abertos.
— Não diga nada sobre a cabana.
— Porquê?
— Porque se o mal sabe que fomos lá, pode apagar as provas. E nós precisamos de manter a vantagem.
João assentiu. — Encontramo-nos mais tarde, então.
— À noite, na taberna. Depois das dez.
— Está bem.
Separaram-se. João seguiu para a esquadra, mas a mente estava longe, presa naquela cabana e na mensagem na parede. Maria do Carmo, por seu lado, encaminhou-se para a casa de Dona Adelaide, nos arredores da vila, com o cesto ainda na mão e o coração apertado.
A verdade estava próxima, e ambos sabiam que ir atrás dela podia custar-lhes tudo. Mas pela primeira vez, não estavam sozinhos. E isso fazia toda a diferença.
Quando o sol se pôs, a taberna voltou a encher-se de sombras. Mas desta vez, quando João entrou, não sentiu o mesmo peso. Maria do Carmo esperava-o atrás do balcão, um sorriso cansado nos lábios.
— A Adelaide sabe coisas — disse ela, sem preâmbulos. — Coisas que me deixaram ainda mais assustada.
— Conte-me.
Ela hesitou, olhando para a porta. — Agora não. Amanhã. Precisamos de descansar.
— E o montado?
— O montado pode esperar mais um dia. — Maria suspirou. — Mas amanhã, temos de ir mais fundo. Há uma mina abandonada perto da cabana. A Adelaide acha que o mal pode estar concentrado lá.
— Uma mina?
— Sim. Dizem que foi lá que tudo começou, há muitos anos.
João sentiu um calafrio. — Então é lá que vamos.
— Amanhã. — Maria pousou as mãos no balcão, o olhar sério. — Mas antes, preciso que me prometa uma coisa.
— O quê?
— Que não vai fazer nenhuma loucura. Que não vai tentar enfrentar esse homem sozinho.
— Prometo — disse João, e pela primeira vez em muito tempo, acreditou na própria palavra.
Os dois combinaram ir ao montado no dia seguinte.