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O Beijo na Taberna
IA
A Trovoada Aproxima-se
A taberna estava deserta há horas. Lá fora, a noite alentejana ganhava um fulgor ameaçador, o céu coalhado de nuvens pesadas que ocultavam a lua. Maria do Carmo deslizou o ferrolho da porta e o som metálico ecoou pelo salão vazio. As cadeiras emborcadas sobre as mesas pareciam sentinelas. Só a mesa do canto estava ocupada.
João Martins espalhara os mapas da região, um caderno de notas e as fotografias das desaparecidas. A chávena de café ao lado esfriava. O candeeiro de petróleo projectava sombras dançantes nas paredes caiadas.
Maria deixou cair o pano de limpeza no balcão e aproximou-se, enxugando as mãos no avental. Os passos eram pesados, denunciando o cansaço. Sentou-se à frente dele, os olhos castanhos a vasculharem-lhe o rosto.
— Já nem sei quantas horas são — murmurou ela, puxando o xale sobre os ombros. — Se continuas a esta velocidade, dás cabo de ti.
João não levantou os olhos. Passou a mão esquerda pelo cabelo desgrenhado, num gesto lento, quase mecânico.
— Dormir não resolve nada. Cada minuto que passa é um minuto que o ourives usa para apagar os rastos.
Um relâmpago rasgou a janela. A luz azulada iluminou-lhe as olheiras profundas, os fios prateados nas têmporas. Maria reparou. Conhecia aquele cansaço. Também ela já vivera noites em claro, a lutar contra demónios que ninguém mais via.
— O Adriano sabe que o temos na mira — disse ela. — A Zulmira deve ter-lhe contado que nós a apanhámos na mentira. Isso torna-o mais perigoso.
João rangeu os dentes, um ruído subtil que Maria já aprendera a reconhecer.
— E se eu estiver a perder a cabeça? — A pergunta saiu-lhe num sussurro. — O meu pai... tu ouviste o que o ourives disse. Ele via coisas. E matou-se.
Maria estendeu a mão, hesitou, e pousou-a na mesa, a poucos centímetros da dele.
— O que o teu pai viu ou não viu não interessa agora. Tu não és ele. E eu também vejo coisas. Achas que sou louca?
João levantou os olhos cinzentos e fitou-a. O rosto redondo dela, marcado por rugas de expressão, transmitia uma firmeza que o acalmava. Não era piedade. Era compreensão.
— Às vezes, Maria, sinto que estou a afogar-me. As visões... são cada vez mais fortes.
Ela ficou em silêncio um momento. Depois, pegou na chávena usada de Helena, que ainda guardara na prateleira traseira, e trouxe-a para a mesa.
— Isto ainda tem o eco — disse. — Quando lhe toco, vejo-a. Não a cara, mas o medo. O cheiro a terra molhada do poço.
João estremeceu. A cicatriz no lábio superior pareceu mais funda sob a luz trémula.
— Preciso que me digas o que vês — pediu ele. — Sem ti, estou sozinho nisto.
Ela fechou os olhos. Os dedos calejados apertaram a asa da chávena. O corpo oscilou ligeiramente, e quando falou, a voz era outra — mais rouca, mais distante.
— A cabana... o chão de terra batida... vejo uma mão... alguém escreveu na parede: 'O eco não dorme'.
Abriu os olhos, arquejante. João agarrou-lhe o pulso, sentindo o tremor nos seus dedos.
— Está tudo bem — sossegou-a. — Já passou.
Ela retirou a mão devagar, esfregando os dedos uns nos outros, como se desfiasse um rosário invisível.
— O that ourives está a brincar connosco — disse Maria. — Ele quer que desistamos. Quer que acredites que és um caso perdido, como o teu pai.
Um trovão ribombou, abafando a sua voz. A chuva começou a cair com violência, martelando o zinco do telhado.
João apoiou os cotovelos na mesa e deixou cair a cabeça sobre as mãos. O cansaço latejava-lhe nas têmporas. Maria observou-o, e uma ternura inesperada aflorou-lhe ao peito. Aquele homem era um estilhaço. E ela, que sempre desconfiara de forasteiros, ali estava, a abrir-lhe a alma.
— O meu pai vinha a Alpedreza — murmurou João, a voz abafada. — O ourives conhecia-o. É como se a minha vida fosse um eco da dele.
— E a minha vida é um eco da minha avó — respondeu Maria. — Queimaram-na viva, sabes? Porque via o que os outros não queriam ver. Aprendi a esconder-me. Mas tu chegaste, e tudo voltou.
Ergueu-se, foi até à janela e espreitou pela frincha da persiana. A rua era um rio de água e escuridão. Os relâmpagos desenhavam contornos fantasmagóricos nas fachadas.
— O que é que nós somos? — perguntou ela, sem se virar. — Amaldiçoados? Abençoados?
João levantou-se, aproximou-se. Ficaram lado a lado, ombro com ombro. O calor do corpo dela era um contraste com o frio que emanava da janela.
— Somos os únicos que podem fazer alguma coisa — disse ele. — E isso chega.
Maria virou-se. Os olhos castanhos encontraram os cinzentos. O silêncio entre eles era denso, carregado de um entendimento que não precisava de palavras. Lá fora, o temporal rugia. Dentro da taberna, o tempo parecia suspenso.
— Obrigada — disse ela, a voz trémula. — Por teres acreditado em mim.
Tocou-lhe na mão. Foi um gesto simples, mas cheio de significado. João sentiu o toque calejado, os dedos que tantas horas haviam segurado chávenas, limpado mesas, esfregado o chão. E agora ali estavam, a oferecer-lhe um fio de humanidade.
Olhou para a mão dela sobre a sua. Depois ergueu os olhos. Maria sustentou o olhar, os lábios entreabertos, o xale descido sobre os ombros.
A trovoada rugia, mas dentro de ambos havia uma calma estranha. As sombras dançavam nas paredes, os mapas esquecidos na mesa, a chávena de Helena ainda sobre o balcão. O passado e o presente colidiram num instante.
Nenhum dos dois se moveu. O mundo lá fora podia desabar; eles estavam ancorados um ao outro.
João sentiu um aperto na garganta. Havia semanas que não dormia bem, que as visões o consumiam, que a dúvida o roía. E ali, naquele gesto mínimo, Maria do Carmo oferecia-lhe mais do que ajuda: oferecia-lhe um porto.
— Maria... — começou ele, mas a voz falhou-lhe.
Ela acenou com a cabeça, como se respondesse a uma pergunta que não fora feita. O som da chuva aumentou, ensurdecedor. E pela primeira vez em muito tempo, João não se sentiu sozinho.
O Beijo
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor, apesar da tempestade. A mão de Maria continuava sobre a de João, o toque áspero a contrastar com a ternura do gesto. Ele sentia o calor a irradiar daqueles dedos curtos e calejados, e percebeu que a respiração dela se acelerara ligeiramente.
— A tua mão está fria — murmurou Maria, sem desviar o olhar. — Sempre a pensar, sempre a remoer. Não se pode viver assim.
João soltou um suspiro. O cansaço pesava-lhe nos ombros, mas algo dentro dele cedeu. Talvez fosse a chuva, a noite, a cumplicidade que nascera entre eles. Talvez fosse apenas a necessidade de sentir que ainda era humano.
— E tu? — perguntou ele. — Também vives a fugir do que vês. A esconder-te.
Ela baixou os olhos. Os dedos dela apertaram-se ligeiramente sobre os dele.
— Toda a minha vida — confessou. — Desde que vi a minha avó a arder. Mas agora... agora já não quero fugir.
Levantou o rosto. Os olhos de Maria brilhavam à luz do candeeiro. João viu neles a mesma dor que conhecia tão bem: a solidão, o medo, a coragem atada a ferros. E uma ternura imensa misturada com uma fragilidade que ela nunca admitira.
Sem pensar, levou a mão livre ao rosto dela. Os dedos tocaram-lhe a face rugosa, a pele marcada pelo tempo. Maria estremeceu, mas não se afastou.
— O que estás a fazer? — sussurrou ela, a voz trémula.
— Nada — respondeu João. — Só precisava de sentir que isto é real.
Ela engoliu em seco. O polegar dele deslizou pela maçã do rosto, e o coração de Maria martelou-lhe no peito. Sentiu-se ridícula. Uma mulher da sua idade, dona de taberna, a tremer como uma rapariga. Mas o toque de João era suave, quase reverente.
— Eu não sou... — começou ela.
— O quê?
— Uma dessas mulheres. Não tenho vaidades. As minhas mãos são ásperas, o meu corpo está gasto.
João inclinou-se ligeiramente. O cheiro a café e a lenha impregnava-a. Os olhos cinzentos dele fitavam-na com uma intensidade que a desarmava.
— As tuas mãos são as que me seguram quando caio — disse ele. — O teu corpo aguentou o peso de uma vida inteira. Isso não é defeito. É força.
Ela sentiu os olhos a arderem. Há anos que ninguém lhe dizia uma palavra terna. Há anos que se fechara na sua fortaleza de desconfiança e trabalho. E agora aquele forasteiro, com as suas visões e os seus demónios, abria uma brecha.
Um relâmpago iluminou a taberna, seguido de um trovão que fez estremecer as vidraças. Nenhum dos dois se mexeu. O mundo exterior era um caos de água e fúria. Ali dentro, havia apenas dois corações acelerados.
Maria levou a mão ao peito, apertando o xale.
— Não posso — murmurou. — Não sou... não tenho idade para estas coisas.
— A idade não interessa — disse João. — O que interessa é que estamos juntos nisto.
As palavras pairaram no ar. Ele aproximou o rosto. Ela sentiu a respiração dele, quente e cansada. Os lábios dele estavam entreabertos, os olhos semicerrados.
Maria fechou os olhos. Não resistiu. Não queria resistir.
O beijo foi breve. Apenas o roçar dos lábios, o toque suave de duas almas magoadas. João sentiu o sabor a café e a ervas. Maria sentiu o calor e a barba áspera. Um segundo, talvez dois.
Depois, ela recuou. As faces tingiram-se de rubor. Levou a mão à boca, como se quisesse esconder o que acontecera.
— Perdoa-me — balbuciou, envergonhada. — Isto não é próprio de uma mulher da minha idade.
João sorriu. Foi um sorriso cansado, mas genuíno, que lhe iluminou o rosto anguloso e desfez por instantes as sombras das olheiras.
— Não tens de pedir perdão. Foi... foi bom.
Ela sacudiu a cabeça, as mãos a apertarem o xale contra o peito.
— Não me olhes assim. Já não sei o que faço.
— Olho como sempre olhei — disse João. — Com respeito.
O vento uivou lá fora, e um trovão rolou sobre a vila. A chuva fustigava as janelas com violência. Durante um momento, ficaram em silêncio, cada um a saborear o instante quebrado.
Maria respirou fundo. A vergonha começava a dissipar-se, substituída por uma estranha serenidade. Pela primeira vez em anos, sentira-se desejada. Não como mulher bonita, mas como pessoa.
— Obrigada — disse ela, a voz mais firme. — Por tudo. Por me veres como sou.
— É isso que somos — respondeu João. — Dois cacos a tentarem colar-se.
Ele estendeu a mão. Ela hesitou, depois tocou-lhe nos dedos. O gesto era agora mais doce, menos tenso. Nenhum dos dois sabia o que viria a seguir. Mas já não estavam sós.
Foi então que o som rasgou a noite.
Um grito. Abafado, distante, mas inconfundível. Veio da rua, mesmo em frente à taberna. João enrijeceu. Maria arregalou os olhos.
— Ouviste? — sussurrou ela.
João já se precipitava para a porta. Maria seguiu-o, os dedos a tremerem enquanto puxava o ferrolho. Antes que pudesse abrir, o grito repetiu-se, mais perto, desesperado. Depois, cessou.
O silêncio que se seguiu foi pior do que o grito. A chuva parecia ter engolido todos os outros sons. João e Maria entreolharam-se. Os rostos estavam pálidos.
— Era uma voz de mulher — disse João, a mão na maçaneta.
— Sim — confirmou Maria, o coração aos saltos. — Alguém precisa de ajuda.
Abriram a porta ao mesmo tempo. A escuridão engoliu-os. A chuva fria bateu-lhes no rosto. Lá fora, não se via nada. Apenas a rua deserta, as fachadas caiadas, e um vazio que gritava mais alto do que qualquer som.
O grito cessara abruptamente. João e Maria correram para a rua, sem hesitar.
A taberna estava deserta há horas. Lá fora, a noite alentejana ganhava um fulgor ameaçador, o céu coalhado de nuvens pesadas que ocultavam a lua. Maria do Carmo deslizou o ferrolho da porta e o som metálico ecoou pelo salão vazio. As cadeiras emborcadas sobre as mesas pareciam sentinelas. Só a mesa do canto estava ocupada.
João Martins espalhara os mapas da região, um caderno de notas e as fotografias das desaparecidas. A chávena de café ao lado esfriava. O candeeiro de petróleo projectava sombras dançantes nas paredes caiadas.
Maria deixou cair o pano de limpeza no balcão e aproximou-se, enxugando as mãos no avental. Os passos eram pesados, denunciando o cansaço. Sentou-se à frente dele, os olhos castanhos a vasculharem-lhe o rosto.
— Já nem sei quantas horas são — murmurou ela, puxando o xale sobre os ombros. — Se continuas a esta velocidade, dás cabo de ti.
João não levantou os olhos. Passou a mão esquerda pelo cabelo desgrenhado, num gesto lento, quase mecânico.
— Dormir não resolve nada. Cada minuto que passa é um minuto que o ourives usa para apagar os rastos.
Um relâmpago rasgou a janela. A luz azulada iluminou-lhe as olheiras profundas, os fios prateados nas têmporas. Maria reparou. Conhecia aquele cansaço. Também ela já vivera noites em claro, a lutar contra demónios que ninguém mais via.
— O Adriano sabe que o temos na mira — disse ela. — A Zulmira deve ter-lhe contado que nós a apanhámos na mentira. Isso torna-o mais perigoso.
João rangeu os dentes, um ruído subtil que Maria já aprendera a reconhecer.
— E se eu estiver a perder a cabeça? — A pergunta saiu-lhe num sussurro. — O meu pai... tu ouviste o que o ourives disse. Ele via coisas. E matou-se.
Maria estendeu a mão, hesitou, e pousou-a na mesa, a poucos centímetros da dele.
— O que o teu pai viu ou não viu não interessa agora. Tu não és ele. E eu também vejo coisas. Achas que sou louca?
João levantou os olhos cinzentos e fitou-a. O rosto redondo dela, marcado por rugas de expressão, transmitia uma firmeza que o acalmava. Não era piedade. Era compreensão.
— Às vezes, Maria, sinto que estou a afogar-me. As visões... são cada vez mais fortes.
Ela ficou em silêncio um momento. Depois, pegou na chávena usada de Helena, que ainda guardara na prateleira traseira, e trouxe-a para a mesa.
— Isto ainda tem o eco — disse. — Quando lhe toco, vejo-a. Não a cara, mas o medo. O cheiro a terra molhada do poço.
João estremeceu. A cicatriz no lábio superior pareceu mais funda sob a luz trémula.
— Preciso que me digas o que vês — pediu ele. — Sem ti, estou sozinho nisto.
Ela fechou os olhos. Os dedos calejados apertaram a asa da chávena. O corpo oscilou ligeiramente, e quando falou, a voz era outra — mais rouca, mais distante.
— A cabana... o chão de terra batida... vejo uma mão... alguém escreveu na parede: 'O eco não dorme'.
Abriu os olhos, arquejante. João agarrou-lhe o pulso, sentindo o tremor nos seus dedos.
— Está tudo bem — sossegou-a. — Já passou.
Ela retirou a mão devagar, esfregando os dedos uns nos outros, como se desfiasse um rosário invisível.
— O that ourives está a brincar connosco — disse Maria. — Ele quer que desistamos. Quer que acredites que és um caso perdido, como o teu pai.
Um trovão ribombou, abafando a sua voz. A chuva começou a cair com violência, martelando o zinco do telhado.
João apoiou os cotovelos na mesa e deixou cair a cabeça sobre as mãos. O cansaço latejava-lhe nas têmporas. Maria observou-o, e uma ternura inesperada aflorou-lhe ao peito. Aquele homem era um estilhaço. E ela, que sempre desconfiara de forasteiros, ali estava, a abrir-lhe a alma.
— O meu pai vinha a Alpedreza — murmurou João, a voz abafada. — O ourives conhecia-o. É como se a minha vida fosse um eco da dele.
— E a minha vida é um eco da minha avó — respondeu Maria. — Queimaram-na viva, sabes? Porque via o que os outros não queriam ver. Aprendi a esconder-me. Mas tu chegaste, e tudo voltou.
Ergueu-se, foi até à janela e espreitou pela frincha da persiana. A rua era um rio de água e escuridão. Os relâmpagos desenhavam contornos fantasmagóricos nas fachadas.
— O que é que nós somos? — perguntou ela, sem se virar. — Amaldiçoados? Abençoados?
João levantou-se, aproximou-se. Ficaram lado a lado, ombro com ombro. O calor do corpo dela era um contraste com o frio que emanava da janela.
— Somos os únicos que podem fazer alguma coisa — disse ele. — E isso chega.
Maria virou-se. Os olhos castanhos encontraram os cinzentos. O silêncio entre eles era denso, carregado de um entendimento que não precisava de palavras. Lá fora, o temporal rugia. Dentro da taberna, o tempo parecia suspenso.
— Obrigada — disse ela, a voz trémula. — Por teres acreditado em mim.
Tocou-lhe na mão. Foi um gesto simples, mas cheio de significado. João sentiu o toque calejado, os dedos que tantas horas haviam segurado chávenas, limpado mesas, esfregado o chão. E agora ali estavam, a oferecer-lhe um fio de humanidade.
Olhou para a mão dela sobre a sua. Depois ergueu os olhos. Maria sustentou o olhar, os lábios entreabertos, o xale descido sobre os ombros.
A trovoada rugia, mas dentro de ambos havia uma calma estranha. As sombras dançavam nas paredes, os mapas esquecidos na mesa, a chávena de Helena ainda sobre o balcão. O passado e o presente colidiram num instante.
Nenhum dos dois se moveu. O mundo lá fora podia desabar; eles estavam ancorados um ao outro.
João sentiu um aperto na garganta. Havia semanas que não dormia bem, que as visões o consumiam, que a dúvida o roía. E ali, naquele gesto mínimo, Maria do Carmo oferecia-lhe mais do que ajuda: oferecia-lhe um porto.
— Maria... — começou ele, mas a voz falhou-lhe.
Ela acenou com a cabeça, como se respondesse a uma pergunta que não fora feita. O som da chuva aumentou, ensurdecedor. E pela primeira vez em muito tempo, João não se sentiu sozinho.
O Beijo
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor, apesar da tempestade. A mão de Maria continuava sobre a de João, o toque áspero a contrastar com a ternura do gesto. Ele sentia o calor a irradiar daqueles dedos curtos e calejados, e percebeu que a respiração dela se acelerara ligeiramente.
— A tua mão está fria — murmurou Maria, sem desviar o olhar. — Sempre a pensar, sempre a remoer. Não se pode viver assim.
João soltou um suspiro. O cansaço pesava-lhe nos ombros, mas algo dentro dele cedeu. Talvez fosse a chuva, a noite, a cumplicidade que nascera entre eles. Talvez fosse apenas a necessidade de sentir que ainda era humano.
— E tu? — perguntou ele. — Também vives a fugir do que vês. A esconder-te.
Ela baixou os olhos. Os dedos dela apertaram-se ligeiramente sobre os dele.
— Toda a minha vida — confessou. — Desde que vi a minha avó a arder. Mas agora... agora já não quero fugir.
Levantou o rosto. Os olhos de Maria brilhavam à luz do candeeiro. João viu neles a mesma dor que conhecia tão bem: a solidão, o medo, a coragem atada a ferros. E uma ternura imensa misturada com uma fragilidade que ela nunca admitira.
Sem pensar, levou a mão livre ao rosto dela. Os dedos tocaram-lhe a face rugosa, a pele marcada pelo tempo. Maria estremeceu, mas não se afastou.
— O que estás a fazer? — sussurrou ela, a voz trémula.
— Nada — respondeu João. — Só precisava de sentir que isto é real.
Ela engoliu em seco. O polegar dele deslizou pela maçã do rosto, e o coração de Maria martelou-lhe no peito. Sentiu-se ridícula. Uma mulher da sua idade, dona de taberna, a tremer como uma rapariga. Mas o toque de João era suave, quase reverente.
— Eu não sou... — começou ela.
— O quê?
— Uma dessas mulheres. Não tenho vaidades. As minhas mãos são ásperas, o meu corpo está gasto.
João inclinou-se ligeiramente. O cheiro a café e a lenha impregnava-a. Os olhos cinzentos dele fitavam-na com uma intensidade que a desarmava.
— As tuas mãos são as que me seguram quando caio — disse ele. — O teu corpo aguentou o peso de uma vida inteira. Isso não é defeito. É força.
Ela sentiu os olhos a arderem. Há anos que ninguém lhe dizia uma palavra terna. Há anos que se fechara na sua fortaleza de desconfiança e trabalho. E agora aquele forasteiro, com as suas visões e os seus demónios, abria uma brecha.
Um relâmpago iluminou a taberna, seguido de um trovão que fez estremecer as vidraças. Nenhum dos dois se mexeu. O mundo exterior era um caos de água e fúria. Ali dentro, havia apenas dois corações acelerados.
Maria levou a mão ao peito, apertando o xale.
— Não posso — murmurou. — Não sou... não tenho idade para estas coisas.
— A idade não interessa — disse João. — O que interessa é que estamos juntos nisto.
As palavras pairaram no ar. Ele aproximou o rosto. Ela sentiu a respiração dele, quente e cansada. Os lábios dele estavam entreabertos, os olhos semicerrados.
Maria fechou os olhos. Não resistiu. Não queria resistir.
O beijo foi breve. Apenas o roçar dos lábios, o toque suave de duas almas magoadas. João sentiu o sabor a café e a ervas. Maria sentiu o calor e a barba áspera. Um segundo, talvez dois.
Depois, ela recuou. As faces tingiram-se de rubor. Levou a mão à boca, como se quisesse esconder o que acontecera.
— Perdoa-me — balbuciou, envergonhada. — Isto não é próprio de uma mulher da minha idade.
João sorriu. Foi um sorriso cansado, mas genuíno, que lhe iluminou o rosto anguloso e desfez por instantes as sombras das olheiras.
— Não tens de pedir perdão. Foi... foi bom.
Ela sacudiu a cabeça, as mãos a apertarem o xale contra o peito.
— Não me olhes assim. Já não sei o que faço.
— Olho como sempre olhei — disse João. — Com respeito.
O vento uivou lá fora, e um trovão rolou sobre a vila. A chuva fustigava as janelas com violência. Durante um momento, ficaram em silêncio, cada um a saborear o instante quebrado.
Maria respirou fundo. A vergonha começava a dissipar-se, substituída por uma estranha serenidade. Pela primeira vez em anos, sentira-se desejada. Não como mulher bonita, mas como pessoa.
— Obrigada — disse ela, a voz mais firme. — Por tudo. Por me veres como sou.
— É isso que somos — respondeu João. — Dois cacos a tentarem colar-se.
Ele estendeu a mão. Ela hesitou, depois tocou-lhe nos dedos. O gesto era agora mais doce, menos tenso. Nenhum dos dois sabia o que viria a seguir. Mas já não estavam sós.
Foi então que o som rasgou a noite.
Um grito. Abafado, distante, mas inconfundível. Veio da rua, mesmo em frente à taberna. João enrijeceu. Maria arregalou os olhos.
— Ouviste? — sussurrou ela.
João já se precipitava para a porta. Maria seguiu-o, os dedos a tremerem enquanto puxava o ferrolho. Antes que pudesse abrir, o grito repetiu-se, mais perto, desesperado. Depois, cessou.
O silêncio que se seguiu foi pior do que o grito. A chuva parecia ter engolido todos os outros sons. João e Maria entreolharam-se. Os rostos estavam pálidos.
— Era uma voz de mulher — disse João, a mão na maçaneta.
— Sim — confirmou Maria, o coração aos saltos. — Alguém precisa de ajuda.
Abriram a porta ao mesmo tempo. A escuridão engoliu-os. A chuva fria bateu-lhes no rosto. Lá fora, não se via nada. Apenas a rua deserta, as fachadas caiadas, e um vazio que gritava mais alto do que qualquer som.
O grito cessara abruptamente. João e Maria correram para a rua, sem hesitar.