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Por O Contador de Histórias

Ecos do Maldito

Mistério/suspense mistério sobrenatural Capítulo 11 Assistido por IA
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O Ponto Médio

IA
A Visão da Adega

O silêncio na taberna era oco. As cadeiras empilhadas em cima das mesas pareciam pedras tumulares. Maria do Carmo esfregava o polegar nos outros dedos, como se desfiasse um rosário invisível. João Martins observava-a do outro lado do balcão, os olhos cinzentos toldados por um cansaço que lhe roía os ossos.

— Não durmas outra noite — disse ela, sem o encarar. — Os teus olhos já não têm cor.

João passou a mão esquerda pelo cabelo desgrenhado. O gesto repetia-se, ansioso.

— Dormir é luxo de quem não vê o que nós vemos.

Maria suspirou. Pousou a mão no tampo de madeira gasta. Aquele balcão já ouvira mais segredos do que a pia baptismal da igreja.

— Zulmira andou aqui hoje de manhã — murmurou. — Disse que eras um homem perdido e que a culpa era minha.

João rangeu os dentes, um ruído seco que ela já conhecia.

— Aquela bruxa quer afastar-nos. O Adriano sabe que juntos somos perigosos.

Maria ergueu-se e foi buscar uma caixa de madeira que guardava debaixo da caixa registadora. Abriu-a com dedos trémulos. Lá dentro, um lenço de seda manchado de terra e sangue seco.

— Pertenceu à última rapariga que desapareceu. A Marisa. Encontraram-no no montado, perto da cabana da Zulmira.

João aproximou-se, sentindo o cheiro a mofo que emanava do tecido.

— Vais tocar nisso?

Ela não respondeu. Fechou os olhos e envolveu o lenço na mão direita. O corpo dela retesou-se. As pálpebras tremeram. João agarrou-lhe o ombro, mas ela afastou-o com um gesto brusco.

— Não... não me toques... estou a ver...

A voz tornou-se num sussurro rouco. Os lábios moviam-se, mas as palavras eram engolidas por um vento que não existia.

— Uma adega... escura, húmida... cheira a morte. As paredes de pedra suam. Há corpos... três, talvez quatro... pendurados como animais. Um deles ainda sangra.

João sentiu a pulsação acelerar. Inclinou-se para a frente.

— Onde? Maria, onde é?

Ela abriu os olhos, as pupilas dilatadas como brechas num desfiladeiro.

— Nos arredores. Uma casa velha com um telhado de caniço e uma porta de ferro. Tem uma figueira seca à entrada.

— Conheço esse sítio — disse João, recuando. — É a adega do tio Amadeu. Ele disse-me que estava abandonada há anos.

Maria largou o lenço e levou as mãos à cabeça. Um tremor percorreu-lhe o corpo.

— Aquilo está a ser usado para esconder os corpos. O Adriano sabe. O sorriso dele está gravado naquelas paredes.

João caminhou até à janela. Lá fora, a noite alentejana era uma boca sem dentes. O luar desenhava sombras retorcidas nas paredes caiadas.

— Temos de ir lá agora. Antes que ele os mude.

— E se for uma armadilha? — Maria levantou-se, as mãos ainda trémulas. — A Zulmira pode ter deixado o lenço de propósito.

— Não podemos esperar. Cada minuto que perdemos é uma vida que se apaga.

Ela agarrou-lhe no braço com força, os nós dos dedos cravados na carne.

— João, se formos agora, vamos às cegas. O Adriano tem capangas. Dois ou três homens que lhe obedecem sem fazer perguntas.

— Então vamos preparados.

João abriu o casaco puído e mostrou a pistola enfiada no coldre.

— Trouxeste isso?

— Trouxe.

Maria respirou fundo. Foi buscar uma lanterna e um xaile grosso.

— Deus nos ajude. Vou contigo.

Saíram da taberna pelo lado de trás. O ar frio da madrugada cortava a pele. As ruas estavam desertas, mas João sentia olhos invisíveis colados às costas. Alpedreza sempre parecia vigiá-lo, como se as próprias pedras fossem cúmplices do mal.

Caminharam em silêncio, os passos abafados pela terra batida. A adega ficava a cerca de um quilómetro, no limite de um olival abandonado. João lembrava-se de a ter visto num dos seus primeiros passeios. Uma construção decrépita, quase engolida pelas silvas.

— Tens a certeza daquilo que viste? — perguntou ele, a voz baixa.

— Nunca vi nada tão claro. As imagens não mentem. A Marisa estava lá. E mais outros... um deles era o Tomás.

João estacou.

— O Tomás? Mas o corpo dele desapareceu do celeiro.

— Pois desapareceu. Mas estava na adega. Vi-lhe a cara. Os olhos abertos, cheios de terra.

Um calafrio percorreu a espinha de João. Aquilo confirmava que Adriano andava a mover os cadáveres, a brincar com eles e com a investigação.

— Ele quer que eu perca a cabeça — murmurou João. — O meu pai cedeu. Eu não vou ceder.

Maria olhou-o nos olhos. A luz da lanterna dançava no seu rosto enrugado.

— O teu pai estava sozinho. Tu não estás.

João quis responder, mas a voz embargou-se-lhe na garganta. Continuaram a andar, mais depressa agora.

A figueira seca surgiu ao longe, os ramos esqueléticos recortados contra o céu. A adega elevava-se atrás dela, um bloco de pedra escura com o telhado de caniço meio desmoronado. Não havia luzes, nem som de vida. Apenas o cheiro a terra molhada e a podridão.

— É aqui — sussurrou Maria.

João puxou a pistola e destrancou o fecho. O ruído metálico ecoou na quietude.

— Fica atrás de mim.

Aproximaram-se da porta de ferro. Estava entreaberta, uma fresta de escuridão que parecia sugar a esperança.

João empurrou-a devagar. As dobradiças rangeram, um lamento agudo que se propagou pela noite.

Lá dentro, o fedor atingiu-os como um murro. Sangue, carne putrefacta, suor e medo. Tudo misturado num cocktail nauseabundo.

Maria levou a mão à boca, sufocando um grito.

— Virgem Santíssima.

João avançou, a lanterna acesa. O foco de luz dançou pelas paredes de pedra gotejantes. No chão de terra batida, marcas de arrastamento formavam um trilho escuro.

— Está a ver? — murmurou. — Ali.

Num canto, uma pilha de corpos amortalhados em panos sujos. Quatro vultos imóveis. O mais próximo tinha o rosto descoberto: um rapaz jovem, de cabelo loiro, com um golpe profundo no pescoço.

João ajoelhou-se e tocou-lhe na face. Estava fria, mas ainda maleável.

— Este corpo é recente. Menos de vinte e quatro horas.

Maria apontou a lanterna para os outros. Reconheceu a silhueta de Tomás, o corpo retorcido numa posição impossível. Ao lado, duas raparigas. Uma delas, Marisa, com o lenço que o assassino deixara no montado enrolado no pescoço.

— Meu Deus... — balbuciou ela. — Estão todos aqui.

João endireitou-se e recuou. Algo não batia certo. O silêncio era demasiado absoluto. Naquele lugar de horror, deveria haver moscas, ratos, qualquer sinal de vida decompositora. Mas nada. Apenas o cheiro e a escuridão.

— Maria, temos de sair daqui. Agora.

Ela virou-se, percebendo o alerta.

— O quê?

João agarrou-a pelo braço e puxou-a em direção à porta. Mas era tarde.

Uma gargalhada encheu a adega, ecoando pelas pedras. Não vinha de fora. Vinha das sombras.

— Sempre tão perspicaz, inspector.

Adriano Saragoça emergiu da escuridão como se a própria noite o parisse. Atrás dele, três homens fortemente armados, com expressões vazias. Capangas da pior espécie: almas vendidas por um punhado de prata.

O ourives segurava uma pequena pedra negra, que polia distraidamente entre os dedos. Os olhos cinzentos brilhavam com um regozijo sádico.

— Vieram brincar às casinhas? — troçou. — Que pena. O jogo acabou.

João ergueu a pistola, mas um dos capangas avançou com uma rapidez sobre-humana e torceu-lhe o braço. A arma caiu no chão com um ruído abafado. João soltou um gemido de dor.

Maria tentou lançar-se para cima do agressor, mas outro capanga imobilizou-a, agarrando-a pelos cabelos.

— Quieta, velha! — rosnou.

Adriano aproximou-se de João, que estava ajoelhado, o braço ainda torcido.

— Deixe-os ir, Adriano. Isto não vai ficar assim.

— Ah, inspector, mas eu não quero que fique assim. Quero que fique pior. Muito pior.

Com um gesto, ordenou aos homens que pegassem no corpo do rapaz loiro.

— Levem-no. Este aqui ainda serve.

— Não! — gritou João, tentando levantar-se. — É prova suficiente para o deter. Não vai escapar!

Adriano riu-se, uma gargalhada aguda e desumana.

— Prova? O que é que tem, inspector? Visões? O testemunho de uma velha louca? Ninguém vai acreditar em si. Está a brincar com forças que não compreende.

Os capangas iam arrastando o corpo para fora. Maria, ainda presa, cuspiu para o chão.

— Monstro! Deus há-de castigar-te!

Adriano virou-se para ela, os olhos faiscando.

— Deus? Aqui, o único deus sou eu.

Depois, voltou a atenção para João.

— Sabes, inspector, o teu pai também era teimoso. Mas ele, pelo menos, teve a dignidade de se matar. Tu andas a arrastar-te, a implorar por migalhas de verdade. És patético.

João rangeu os dentes. A raiva queimava-lhe o peito, mas o braço continuava preso. Sentia o sabor a sangue na boca.

— Larga-o — ordenou Adriano ao capanga.

O homem obedeceu, empurrando João para o chão. O inspector caiu de costas, a cabeça batendo na terra dura. Maria também foi libertada, caindo a seu lado.

Adriano debruçou-se sobre eles, o sorriso gelado cravado no rosto.

— Fiquem com a adega. Divirtam-se com o cheiro. E lembrem-se: sempre que tentarem encontrar os corpos, eu estarei lá. Sempre.

Deu meia-volta e desapareceu pela porta, os capangas atrás de si, arrastando o cadáver.

O silêncio regressou, mais pesado do que antes. O cheiro a sangue e a podridão era insuportável. João ficou deitado, o corpo dorido, a mente em chamas.

Maria apoiou-se nos cotovelos, a respiração ofegante.

— João... tenta chamar a polícia.

Mas ele não ouvia. Os punhos cerravam-se e descerravam-se, impotentes. A humilhação queimava-lhe a pele como ferro em brasa.

— Ele está a ganhar. O cabrão está a ganhar.

— Não — disse Maria, a voz embargada. — Nós ainda estamos vivos.

João não respondeu. A fúria explodiu subitamente e, com um urro abafado, varreu o punho contra o chão de terra.

João, deitado no chão, murra o punho de raiva.
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