"
O Ponto Médio
IA
A Visão da Adega
O silêncio na taberna era oco. As cadeiras empilhadas em cima das mesas pareciam pedras tumulares. Maria do Carmo esfregava o polegar nos outros dedos, como se desfiasse um rosário invisível. João Martins observava-a do outro lado do balcão, os olhos cinzentos toldados por um cansaço que lhe roía os ossos.
— Não durmas outra noite — disse ela, sem o encarar. — Os teus olhos já não têm cor.
João passou a mão esquerda pelo cabelo desgrenhado. O gesto repetia-se, ansioso.
— Dormir é luxo de quem não vê o que nós vemos.
Maria suspirou. Pousou a mão no tampo de madeira gasta. Aquele balcão já ouvira mais segredos do que a pia baptismal da igreja.
— Zulmira andou aqui hoje de manhã — murmurou. — Disse que eras um homem perdido e que a culpa era minha.
João rangeu os dentes, um ruído seco que ela já conhecia.
— Aquela bruxa quer afastar-nos. O Adriano sabe que juntos somos perigosos.
Maria ergueu-se e foi buscar uma caixa de madeira que guardava debaixo da caixa registadora. Abriu-a com dedos trémulos. Lá dentro, um lenço de seda manchado de terra e sangue seco.
— Pertenceu à última rapariga que desapareceu. A Marisa. Encontraram-no no montado, perto da cabana da Zulmira.
João aproximou-se, sentindo o cheiro a mofo que emanava do tecido.
— Vais tocar nisso?
Ela não respondeu. Fechou os olhos e envolveu o lenço na mão direita. O corpo dela retesou-se. As pálpebras tremeram. João agarrou-lhe o ombro, mas ela afastou-o com um gesto brusco.
— Não... não me toques... estou a ver...
A voz tornou-se num sussurro rouco. Os lábios moviam-se, mas as palavras eram engolidas por um vento que não existia.
— Uma adega... escura, húmida... cheira a morte. As paredes de pedra suam. Há corpos... três, talvez quatro... pendurados como animais. Um deles ainda sangra.
João sentiu a pulsação acelerar. Inclinou-se para a frente.
— Onde? Maria, onde é?
Ela abriu os olhos, as pupilas dilatadas como brechas num desfiladeiro.
— Nos arredores. Uma casa velha com um telhado de caniço e uma porta de ferro. Tem uma figueira seca à entrada.
— Conheço esse sítio — disse João, recuando. — É a adega do tio Amadeu. Ele disse-me que estava abandonada há anos.
Maria largou o lenço e levou as mãos à cabeça. Um tremor percorreu-lhe o corpo.
— Aquilo está a ser usado para esconder os corpos. O Adriano sabe. O sorriso dele está gravado naquelas paredes.
João caminhou até à janela. Lá fora, a noite alentejana era uma boca sem dentes. O luar desenhava sombras retorcidas nas paredes caiadas.
— Temos de ir lá agora. Antes que ele os mude.
— E se for uma armadilha? — Maria levantou-se, as mãos ainda trémulas. — A Zulmira pode ter deixado o lenço de propósito.
— Não podemos esperar. Cada minuto que perdemos é uma vida que se apaga.
Ela agarrou-lhe no braço com força, os nós dos dedos cravados na carne.
— João, se formos agora, vamos às cegas. O Adriano tem capangas. Dois ou três homens que lhe obedecem sem fazer perguntas.
— Então vamos preparados.
João abriu o casaco puído e mostrou a pistola enfiada no coldre.
— Trouxeste isso?
— Trouxe.
Maria respirou fundo. Foi buscar uma lanterna e um xaile grosso.
— Deus nos ajude. Vou contigo.
Saíram da taberna pelo lado de trás. O ar frio da madrugada cortava a pele. As ruas estavam desertas, mas João sentia olhos invisíveis colados às costas. Alpedreza sempre parecia vigiá-lo, como se as próprias pedras fossem cúmplices do mal.
Caminharam em silêncio, os passos abafados pela terra batida. A adega ficava a cerca de um quilómetro, no limite de um olival abandonado. João lembrava-se de a ter visto num dos seus primeiros passeios. Uma construção decrépita, quase engolida pelas silvas.
— Tens a certeza daquilo que viste? — perguntou ele, a voz baixa.
— Nunca vi nada tão claro. As imagens não mentem. A Marisa estava lá. E mais outros... um deles era o Tomás.
João estacou.
— O Tomás? Mas o corpo dele desapareceu do celeiro.
— Pois desapareceu. Mas estava na adega. Vi-lhe a cara. Os olhos abertos, cheios de terra.
Um calafrio percorreu a espinha de João. Aquilo confirmava que Adriano andava a mover os cadáveres, a brincar com eles e com a investigação.
— Ele quer que eu perca a cabeça — murmurou João. — O meu pai cedeu. Eu não vou ceder.
Maria olhou-o nos olhos. A luz da lanterna dançava no seu rosto enrugado.
— O teu pai estava sozinho. Tu não estás.
João quis responder, mas a voz embargou-se-lhe na garganta. Continuaram a andar, mais depressa agora.
A figueira seca surgiu ao longe, os ramos esqueléticos recortados contra o céu. A adega elevava-se atrás dela, um bloco de pedra escura com o telhado de caniço meio desmoronado. Não havia luzes, nem som de vida. Apenas o cheiro a terra molhada e a podridão.
— É aqui — sussurrou Maria.
João puxou a pistola e destrancou o fecho. O ruído metálico ecoou na quietude.
— Fica atrás de mim.
Aproximaram-se da porta de ferro. Estava entreaberta, uma fresta de escuridão que parecia sugar a esperança.
João empurrou-a devagar. As dobradiças rangeram, um lamento agudo que se propagou pela noite.
Lá dentro, o fedor atingiu-os como um murro. Sangue, carne putrefacta, suor e medo. Tudo misturado num cocktail nauseabundo.
Maria levou a mão à boca, sufocando um grito.
— Virgem Santíssima.
João avançou, a lanterna acesa. O foco de luz dançou pelas paredes de pedra gotejantes. No chão de terra batida, marcas de arrastamento formavam um trilho escuro.
— Está a ver? — murmurou. — Ali.
Num canto, uma pilha de corpos amortalhados em panos sujos. Quatro vultos imóveis. O mais próximo tinha o rosto descoberto: um rapaz jovem, de cabelo loiro, com um golpe profundo no pescoço.
João ajoelhou-se e tocou-lhe na face. Estava fria, mas ainda maleável.
— Este corpo é recente. Menos de vinte e quatro horas.
Maria apontou a lanterna para os outros. Reconheceu a silhueta de Tomás, o corpo retorcido numa posição impossível. Ao lado, duas raparigas. Uma delas, Marisa, com o lenço que o assassino deixara no montado enrolado no pescoço.
— Meu Deus... — balbuciou ela. — Estão todos aqui.
João endireitou-se e recuou. Algo não batia certo. O silêncio era demasiado absoluto. Naquele lugar de horror, deveria haver moscas, ratos, qualquer sinal de vida decompositora. Mas nada. Apenas o cheiro e a escuridão.
— Maria, temos de sair daqui. Agora.
Ela virou-se, percebendo o alerta.
— O quê?
João agarrou-a pelo braço e puxou-a em direção à porta. Mas era tarde.
Uma gargalhada encheu a adega, ecoando pelas pedras. Não vinha de fora. Vinha das sombras.
— Sempre tão perspicaz, inspector.
Adriano Saragoça emergiu da escuridão como se a própria noite o parisse. Atrás dele, três homens fortemente armados, com expressões vazias. Capangas da pior espécie: almas vendidas por um punhado de prata.
O ourives segurava uma pequena pedra negra, que polia distraidamente entre os dedos. Os olhos cinzentos brilhavam com um regozijo sádico.
— Vieram brincar às casinhas? — troçou. — Que pena. O jogo acabou.
João ergueu a pistola, mas um dos capangas avançou com uma rapidez sobre-humana e torceu-lhe o braço. A arma caiu no chão com um ruído abafado. João soltou um gemido de dor.
Maria tentou lançar-se para cima do agressor, mas outro capanga imobilizou-a, agarrando-a pelos cabelos.
— Quieta, velha! — rosnou.
Adriano aproximou-se de João, que estava ajoelhado, o braço ainda torcido.
— Deixe-os ir, Adriano. Isto não vai ficar assim.
— Ah, inspector, mas eu não quero que fique assim. Quero que fique pior. Muito pior.
Com um gesto, ordenou aos homens que pegassem no corpo do rapaz loiro.
— Levem-no. Este aqui ainda serve.
— Não! — gritou João, tentando levantar-se. — É prova suficiente para o deter. Não vai escapar!
Adriano riu-se, uma gargalhada aguda e desumana.
— Prova? O que é que tem, inspector? Visões? O testemunho de uma velha louca? Ninguém vai acreditar em si. Está a brincar com forças que não compreende.
Os capangas iam arrastando o corpo para fora. Maria, ainda presa, cuspiu para o chão.
— Monstro! Deus há-de castigar-te!
Adriano virou-se para ela, os olhos faiscando.
— Deus? Aqui, o único deus sou eu.
Depois, voltou a atenção para João.
— Sabes, inspector, o teu pai também era teimoso. Mas ele, pelo menos, teve a dignidade de se matar. Tu andas a arrastar-te, a implorar por migalhas de verdade. És patético.
João rangeu os dentes. A raiva queimava-lhe o peito, mas o braço continuava preso. Sentia o sabor a sangue na boca.
— Larga-o — ordenou Adriano ao capanga.
O homem obedeceu, empurrando João para o chão. O inspector caiu de costas, a cabeça batendo na terra dura. Maria também foi libertada, caindo a seu lado.
Adriano debruçou-se sobre eles, o sorriso gelado cravado no rosto.
— Fiquem com a adega. Divirtam-se com o cheiro. E lembrem-se: sempre que tentarem encontrar os corpos, eu estarei lá. Sempre.
Deu meia-volta e desapareceu pela porta, os capangas atrás de si, arrastando o cadáver.
O silêncio regressou, mais pesado do que antes. O cheiro a sangue e a podridão era insuportável. João ficou deitado, o corpo dorido, a mente em chamas.
Maria apoiou-se nos cotovelos, a respiração ofegante.
— João... tenta chamar a polícia.
Mas ele não ouvia. Os punhos cerravam-se e descerravam-se, impotentes. A humilhação queimava-lhe a pele como ferro em brasa.
— Ele está a ganhar. O cabrão está a ganhar.
— Não — disse Maria, a voz embargada. — Nós ainda estamos vivos.
João não respondeu. A fúria explodiu subitamente e, com um urro abafado, varreu o punho contra o chão de terra.
João, deitado no chão, murra o punho de raiva.
O silêncio na taberna era oco. As cadeiras empilhadas em cima das mesas pareciam pedras tumulares. Maria do Carmo esfregava o polegar nos outros dedos, como se desfiasse um rosário invisível. João Martins observava-a do outro lado do balcão, os olhos cinzentos toldados por um cansaço que lhe roía os ossos.
— Não durmas outra noite — disse ela, sem o encarar. — Os teus olhos já não têm cor.
João passou a mão esquerda pelo cabelo desgrenhado. O gesto repetia-se, ansioso.
— Dormir é luxo de quem não vê o que nós vemos.
Maria suspirou. Pousou a mão no tampo de madeira gasta. Aquele balcão já ouvira mais segredos do que a pia baptismal da igreja.
— Zulmira andou aqui hoje de manhã — murmurou. — Disse que eras um homem perdido e que a culpa era minha.
João rangeu os dentes, um ruído seco que ela já conhecia.
— Aquela bruxa quer afastar-nos. O Adriano sabe que juntos somos perigosos.
Maria ergueu-se e foi buscar uma caixa de madeira que guardava debaixo da caixa registadora. Abriu-a com dedos trémulos. Lá dentro, um lenço de seda manchado de terra e sangue seco.
— Pertenceu à última rapariga que desapareceu. A Marisa. Encontraram-no no montado, perto da cabana da Zulmira.
João aproximou-se, sentindo o cheiro a mofo que emanava do tecido.
— Vais tocar nisso?
Ela não respondeu. Fechou os olhos e envolveu o lenço na mão direita. O corpo dela retesou-se. As pálpebras tremeram. João agarrou-lhe o ombro, mas ela afastou-o com um gesto brusco.
— Não... não me toques... estou a ver...
A voz tornou-se num sussurro rouco. Os lábios moviam-se, mas as palavras eram engolidas por um vento que não existia.
— Uma adega... escura, húmida... cheira a morte. As paredes de pedra suam. Há corpos... três, talvez quatro... pendurados como animais. Um deles ainda sangra.
João sentiu a pulsação acelerar. Inclinou-se para a frente.
— Onde? Maria, onde é?
Ela abriu os olhos, as pupilas dilatadas como brechas num desfiladeiro.
— Nos arredores. Uma casa velha com um telhado de caniço e uma porta de ferro. Tem uma figueira seca à entrada.
— Conheço esse sítio — disse João, recuando. — É a adega do tio Amadeu. Ele disse-me que estava abandonada há anos.
Maria largou o lenço e levou as mãos à cabeça. Um tremor percorreu-lhe o corpo.
— Aquilo está a ser usado para esconder os corpos. O Adriano sabe. O sorriso dele está gravado naquelas paredes.
João caminhou até à janela. Lá fora, a noite alentejana era uma boca sem dentes. O luar desenhava sombras retorcidas nas paredes caiadas.
— Temos de ir lá agora. Antes que ele os mude.
— E se for uma armadilha? — Maria levantou-se, as mãos ainda trémulas. — A Zulmira pode ter deixado o lenço de propósito.
— Não podemos esperar. Cada minuto que perdemos é uma vida que se apaga.
Ela agarrou-lhe no braço com força, os nós dos dedos cravados na carne.
— João, se formos agora, vamos às cegas. O Adriano tem capangas. Dois ou três homens que lhe obedecem sem fazer perguntas.
— Então vamos preparados.
João abriu o casaco puído e mostrou a pistola enfiada no coldre.
— Trouxeste isso?
— Trouxe.
Maria respirou fundo. Foi buscar uma lanterna e um xaile grosso.
— Deus nos ajude. Vou contigo.
Saíram da taberna pelo lado de trás. O ar frio da madrugada cortava a pele. As ruas estavam desertas, mas João sentia olhos invisíveis colados às costas. Alpedreza sempre parecia vigiá-lo, como se as próprias pedras fossem cúmplices do mal.
Caminharam em silêncio, os passos abafados pela terra batida. A adega ficava a cerca de um quilómetro, no limite de um olival abandonado. João lembrava-se de a ter visto num dos seus primeiros passeios. Uma construção decrépita, quase engolida pelas silvas.
— Tens a certeza daquilo que viste? — perguntou ele, a voz baixa.
— Nunca vi nada tão claro. As imagens não mentem. A Marisa estava lá. E mais outros... um deles era o Tomás.
João estacou.
— O Tomás? Mas o corpo dele desapareceu do celeiro.
— Pois desapareceu. Mas estava na adega. Vi-lhe a cara. Os olhos abertos, cheios de terra.
Um calafrio percorreu a espinha de João. Aquilo confirmava que Adriano andava a mover os cadáveres, a brincar com eles e com a investigação.
— Ele quer que eu perca a cabeça — murmurou João. — O meu pai cedeu. Eu não vou ceder.
Maria olhou-o nos olhos. A luz da lanterna dançava no seu rosto enrugado.
— O teu pai estava sozinho. Tu não estás.
João quis responder, mas a voz embargou-se-lhe na garganta. Continuaram a andar, mais depressa agora.
A figueira seca surgiu ao longe, os ramos esqueléticos recortados contra o céu. A adega elevava-se atrás dela, um bloco de pedra escura com o telhado de caniço meio desmoronado. Não havia luzes, nem som de vida. Apenas o cheiro a terra molhada e a podridão.
— É aqui — sussurrou Maria.
João puxou a pistola e destrancou o fecho. O ruído metálico ecoou na quietude.
— Fica atrás de mim.
Aproximaram-se da porta de ferro. Estava entreaberta, uma fresta de escuridão que parecia sugar a esperança.
João empurrou-a devagar. As dobradiças rangeram, um lamento agudo que se propagou pela noite.
Lá dentro, o fedor atingiu-os como um murro. Sangue, carne putrefacta, suor e medo. Tudo misturado num cocktail nauseabundo.
Maria levou a mão à boca, sufocando um grito.
— Virgem Santíssima.
João avançou, a lanterna acesa. O foco de luz dançou pelas paredes de pedra gotejantes. No chão de terra batida, marcas de arrastamento formavam um trilho escuro.
— Está a ver? — murmurou. — Ali.
Num canto, uma pilha de corpos amortalhados em panos sujos. Quatro vultos imóveis. O mais próximo tinha o rosto descoberto: um rapaz jovem, de cabelo loiro, com um golpe profundo no pescoço.
João ajoelhou-se e tocou-lhe na face. Estava fria, mas ainda maleável.
— Este corpo é recente. Menos de vinte e quatro horas.
Maria apontou a lanterna para os outros. Reconheceu a silhueta de Tomás, o corpo retorcido numa posição impossível. Ao lado, duas raparigas. Uma delas, Marisa, com o lenço que o assassino deixara no montado enrolado no pescoço.
— Meu Deus... — balbuciou ela. — Estão todos aqui.
João endireitou-se e recuou. Algo não batia certo. O silêncio era demasiado absoluto. Naquele lugar de horror, deveria haver moscas, ratos, qualquer sinal de vida decompositora. Mas nada. Apenas o cheiro e a escuridão.
— Maria, temos de sair daqui. Agora.
Ela virou-se, percebendo o alerta.
— O quê?
João agarrou-a pelo braço e puxou-a em direção à porta. Mas era tarde.
Uma gargalhada encheu a adega, ecoando pelas pedras. Não vinha de fora. Vinha das sombras.
— Sempre tão perspicaz, inspector.
Adriano Saragoça emergiu da escuridão como se a própria noite o parisse. Atrás dele, três homens fortemente armados, com expressões vazias. Capangas da pior espécie: almas vendidas por um punhado de prata.
O ourives segurava uma pequena pedra negra, que polia distraidamente entre os dedos. Os olhos cinzentos brilhavam com um regozijo sádico.
— Vieram brincar às casinhas? — troçou. — Que pena. O jogo acabou.
João ergueu a pistola, mas um dos capangas avançou com uma rapidez sobre-humana e torceu-lhe o braço. A arma caiu no chão com um ruído abafado. João soltou um gemido de dor.
Maria tentou lançar-se para cima do agressor, mas outro capanga imobilizou-a, agarrando-a pelos cabelos.
— Quieta, velha! — rosnou.
Adriano aproximou-se de João, que estava ajoelhado, o braço ainda torcido.
— Deixe-os ir, Adriano. Isto não vai ficar assim.
— Ah, inspector, mas eu não quero que fique assim. Quero que fique pior. Muito pior.
Com um gesto, ordenou aos homens que pegassem no corpo do rapaz loiro.
— Levem-no. Este aqui ainda serve.
— Não! — gritou João, tentando levantar-se. — É prova suficiente para o deter. Não vai escapar!
Adriano riu-se, uma gargalhada aguda e desumana.
— Prova? O que é que tem, inspector? Visões? O testemunho de uma velha louca? Ninguém vai acreditar em si. Está a brincar com forças que não compreende.
Os capangas iam arrastando o corpo para fora. Maria, ainda presa, cuspiu para o chão.
— Monstro! Deus há-de castigar-te!
Adriano virou-se para ela, os olhos faiscando.
— Deus? Aqui, o único deus sou eu.
Depois, voltou a atenção para João.
— Sabes, inspector, o teu pai também era teimoso. Mas ele, pelo menos, teve a dignidade de se matar. Tu andas a arrastar-te, a implorar por migalhas de verdade. És patético.
João rangeu os dentes. A raiva queimava-lhe o peito, mas o braço continuava preso. Sentia o sabor a sangue na boca.
— Larga-o — ordenou Adriano ao capanga.
O homem obedeceu, empurrando João para o chão. O inspector caiu de costas, a cabeça batendo na terra dura. Maria também foi libertada, caindo a seu lado.
Adriano debruçou-se sobre eles, o sorriso gelado cravado no rosto.
— Fiquem com a adega. Divirtam-se com o cheiro. E lembrem-se: sempre que tentarem encontrar os corpos, eu estarei lá. Sempre.
Deu meia-volta e desapareceu pela porta, os capangas atrás de si, arrastando o cadáver.
O silêncio regressou, mais pesado do que antes. O cheiro a sangue e a podridão era insuportável. João ficou deitado, o corpo dorido, a mente em chamas.
Maria apoiou-se nos cotovelos, a respiração ofegante.
— João... tenta chamar a polícia.
Mas ele não ouvia. Os punhos cerravam-se e descerravam-se, impotentes. A humilhação queimava-lhe a pele como ferro em brasa.
— Ele está a ganhar. O cabrão está a ganhar.
— Não — disse Maria, a voz embargada. — Nós ainda estamos vivos.
João não respondeu. A fúria explodiu subitamente e, com um urro abafado, varreu o punho contra o chão de terra.
João, deitado no chão, murra o punho de raiva.